Um amor improvável

41 Reconciliação


Fabinho acordou sentindo uma fortíssima dor na perna. Na verdade, parecia que todo o seu corpo era uma torrente de dores. Continuava com febre, zonzo. Ele não imaginava onde poderia estar. Com certa dificuldade e ainda sem entender direito, abriu os olhos. Sentiu que alguém mexia na sua ferida.

— Ai! Ai! Ai! Ai! Ai! — Fabinho gemeu.

— Ué, acordou? — perguntou Giane.

Fabinho não entendeu o que fazia ali. Pelo visto, estava na casa de Giane. Precisava dar o fora. Ele não queria ficar ali. Não suportava olhar para aquela garota, não queria que ela tocasse nele. Além disso, toda a Casa Verde devia estar muito revoltada com ele, depois de tudo o que aprontou. Ainda mais agora, que estava sendo acusado de ter incendiado a Toca e tentado matar o Bento. As pessoas iriam entregá-lo para a polícia.

— O que eu tô fazendo aqui? Me tira daqui! — disse Fabinho, tentando levantar, porém, sentiu dor na perna. — Ai! — gemeu.

— Ué, você quer ir, vai. — disse Giane. — Mas se você ficar, você vai ficar quieto, vai me obedecer e vai me deixar cuidar de você. Shiu, quietinho!

Ele resolveu ficar. Até porque não tinha condições de ir longe. Ele não conseguiria nem andar direito, com a perna machucada. Continuava sentindo-se mal. Giane continuou limpando seu machucado e em seguida fez um curativo. Fabinho acabou adormecendo. Nem quis falar com ela. Não suportava olhar para ela, muito menos ouvir a voz dela. Acordou no dia seguinte, sentindo dor na perna. Gemeu, levando a mão ao machucado. Porém, percebeu que Giane estava deitada na cama, ao seu lado. Não podia acreditar. Então a garota passou a noite do lado dele?

Ela acordou sobressaltada com o movimento do rapaz.

— O quê que você está fazendo aqui, maluca? — perguntou Fabinho, sentando-se na cama.

Ficou perturbado com a proximidade da garota. Ele queria que ela saísse de perto dele, desaparecesse. Mas ela estava na casa dela, ele que era o hóspede. Não tinha como ela simplesmente desaparecer.

— Ué, eu tô no meu quarto. — disse Giane, irritada. — Onde eu passei a noite cuidando de um palhaço que baixou aqui fedido, imundo e pelando de febre!

Para Fabinho continuava sendo difícil ouvir a voz dela. Não suportava.

— Ai, tá bom, fala baixo, que eu não sou surdo. Ai, ai, ai, ai! — gemeu.

— E aí, a febre baixou? — perguntou Silvério, entrando no quarto.

— É. Baixou, né, pai? Tanto que já acordou reclamando de tudo. — disse Giane, enquanto o rapaz cutucava na ferida.

— Ainda bem que você melhorou, né? — disse Silvério. — Senão, ia ter que internar. Bom, eu vou comprar mais antibiótico. Já volto.

Silvério saiu do quarto. Fabinho não se lembrava de como tinha ido parar ali, mas começava a entender que por algum motivo, que ele nem imaginava qual, Giane o havia ajudado. Ela o havia levado para o quarto dela e passado a noite cuidando dele. Não conseguia entender por que ela estava fazendo isso. O que Giane queria com ele? Ela nunca gostou dele. Ainda mais agora, que ele estava sendo acusado de matar o queridinho dela, ela devia odiá-lo. Não devia estar cuidando dele, devia querer vê-lo atrás das grades. Por que ela não chamava logo a polícia e acabava de vez com essa palhaçada? Giane perguntou:

— Por quê que você ficou assim, hein, cara?

O rapaz abaixou a cabeça. Uma angústia tomou conta dele. Não conse-guia olhar para ela. Não suportava. Era doloroso demais. Ela o fazia se lembrar de sua infância, e ele não queria lembrar.

— O quê que houve com você? — perguntou Giane.

Ele não respondeu. Não sabia o que dizer, como explicar, como descre-ver tudo o que havia passado nos últimos meses, desde a noite do incêndio da Toca. Fabinho continuou com a cabeça abaixada, e as lágrimas come-çaram a brotar de seus olhos. Evitou olhar para ela. Não queria que ela o visse chorar. Tinha vergonha. Achava a vulnerabilidade uma fraqueza. Na última vez em que ele chorou na frente dela, foi chamado de fresco. Além do mais, ele não queria olhar para ela, de jeito nenhum.

— Ei! Qual é, mané? — disse Giane, irritada.

Fabinho continuava de cabeça baixa.

— O quê que é isso? — disse Giane, levantando a cabeça dele. — Olha pra mim, quando eu falo com você!

Quando viu as lágrimas nos olhos do rapaz, Giane disse:

— Desculpa.

Fabinho começou a enxugar os olhos com a mão.

— Eu não tô entendendo como eu vim parar aqui. — disse o rapaz, com a voz embargada. — Você que me encontrou?

Ele não sabia se foi Giane ou Silvério quem o havia encontrado.

— É. Você estava desmaiado ali na praça. — disse Giane.

— E aí, você me trouxe pra cá por quê? — perguntou Fabinho.

Fabinho não conseguia entender por que ela estava cuidando dele. Ele e Giane não se davam bem, não eram amigos. Giane nunca gostou dele, sempre implicou com ele, e ele estava sendo acusado de ter incendiado a Toca do Saci com Bento dentro. Ele estava sendo acusado de tentativa de homicídio. Por que diabos ela estava ali, cuidando dele? Ela devia odiá-lo, ainda mais depois do que ele aprontou com o pessoal da rua. Nunca na vida ele iria imaginar que Giane o ajudaria. Logo ela, que o detestava, que sempre gostou tanto do Bento, que costumava jogar verdades na cara dele, humilhá-lo, provocá-lo, pisar nele, pegar pesado com ele para defender aquele otário. Para Fabinho era mesmo muito difícil de compreender.

— Porque eu costumo ser legal quando alguém precisa de alguma coisa. — disse Giane, enquanto ele continuava enxugando as lágrimas. — Mesmo sendo um metido, safado, sem-vergonha, que não vai ter um pingo de gratidão depois.

Fabinho irritou-se. Então ela o ajudou para se fazer de boazinha, para sentir-se melhor do que ele e jogar na cara dele que ele não prestava. Com certeza, ela passaria o resto da vida jogando na cara dele tudo o que fez por ele, o quanto havia sido caridosa com o mau-caráter.

— Assim, me dá muita vontade de agradecer. — disse Fabinho. — A pessoa ajuda e depois, fica jogando na cara, né? Dá vontade de ficar na rua.

— Mas você não tem jeito mermo, né? Não muda, cara! — disse Giane, irritada, levantando-se da cama. Ela ouviu batidas na porta e foi ver quem era.

Fabinho observou-a sair do quarto. Sabia que havia sido grosseiro, mas e daí? Por acaso ele havia pedido ajuda a ela? Ela não o ajudou porque quis? Pensando bem, por que Giane quis ajudá-lo? Qual era a dela? Por que ela resolveu ajudá-lo, logo quando todos haviam virado as costas para ele? Ela não era apaixonada pelo Bento? Por que ela iria ajudá-lo, se todos achavam que ele tinha tentado matar o Bento? Será que ela acreditava na sua inocência? Será que logo a Giane, ao contrário de todo mundo ali no bairro, acreditava nele? Pensando melhor, ele não devia ter sido grosseiro com ela. Devia ser grato. Ela o socorreu, passou a noite cuidando dele, e não tinha obrigação nenhuma de fazer isso. Ela também não tinha interesse algum, porque ele estava na pior, sem dinheiro, sem nada para oferecer como recompensa. Olhou para o ferimento em sua perna. Não queria nem pensar no que poderia ter acontecido se ela não o tivesse resgatado das ruas. Aquela menina havia salvado sua vida. O mínimo que ela merecia era agradecimento. Para ele ainda era muito difícil agradecer. Mas precisava falar com ela, pedir que chamasse a mãe. Além do mais, a perna continuava doendo muito. Não estava mais aguentando de dor.

— Ai, ai, ai! — gemeu. Começou a chamar por Giane: — Giane!

Porém, a garota estava demorando. Pelo visto, estava falando com alguém na sala. Fabinho chamou novamente:

— Giane!

Silvério entrou no quarto, trazendo um comprimido e um copo d’água.

— Toma isso aqui, ó. — disse Silvério, e Fabinho pegou o comprimido da mão dele. Em seguida, pegou o copo d’água.

— Ô cara, fala baixo, pô! — disse Giane, entrando no quarto e fechando a porta. — Ou você quer se ferrar? Se o Bento descobre que você tá aqui, ele chama a polícia, sabia?

Então era o Bento que estava na sala. Fabinho bebeu um gole d'água do copo. Pelo visto, a garota acreditava na inocência dele. Estava fazendo de tudo para protegê-lo, para impedir que fosse para a cadeia. Para Fabinho, ainda era difícil de acreditar. Até meses atrás, ele achava que ela era sua maior inimiga, que queria vê-lo atrás das grades. Não estava entendendo as atitudes dela. Desta vez, ela o surpreendeu.

— Ainda mais com a raiva que ele e a Amora estão de você. Hum. — disse Silvério, enquanto o rapaz tomava outro gole d'água.

— Fabinho, olha só, ninguém pode saber que você tá aqui, entendeu? — disse Giane.

— Nem minha mãe? — perguntou Fabinho.

Nos últimos meses, enquanto esteve vivendo na rua, pensou bastante na Margot. Nos bons momentos que viveu com ela e com o pai adotivo. Sentiu falta da mãe. Era a única pessoa que gostava dele no mundo. Finalmente, ele resolveu acreditar na sinceridade do amor dela. Ele precisava acreditar que era amado por alguém, para continuar vivendo. Além do mais, finalmente ele se deu conta de que se ela não o amasse de verdade, já teria desistido dele, o abandonado, virado as costas para ele. Se ela não desistiu dele, não se esqueceu dele, era porque ele era importante para ela. Para ela, ele tinha valor imenso. Ela era tudo o que ele tinha. Ninguém mais no mundo se importava com ele, a não ser ela. Agora se arrependia de tê-la tratado tão mal, de não ter dado verdadeiro valor a ela. Margot podia não ser sua mãe biológica, mas ela o amava de verdade, sempre esteve ao seu lado a vida inteira, e sempre fez tudo por ele. Permaneceu ao lado dele, mesmo depois de tudo o que ele fez. Mesmo depois de tê-la feito sofrer tanto. Ele lamentava por isso.

Ela sim era sua mãe de verdade. Era mais mãe dele do que sua genitora. Agora se dava conta de que jamais devia ter descontado suas frustrações nela. Não devia ter sido fácil para Margot ficar pobre, perder tudo o que tinha, mudar de vida. E ele só sabia culpar a coitada, dar patadas nela. Jamais devia tê-la deixado pagar por um crime que ele cometeu, nem tê-la largado sozinha em Ribeirão Bonito. Jamais devia ter passado por cima dela para ir atrás de Plínio. Ele perdeu tempo demais brigando com ela e correndo atrás de um pai, ou melhor dizendo, do homem que achava que era seu pai, que só o tratou como lixo. Fabinho sabia que havia mentido, armado horrores. Se aproximou de Plínio já de olho na grana. Sabia que não era nenhum santo. Mas ainda assim, foi duro demais ser tão rejeitado, tratado como escória pelo homem que achava que era seu pai. Ninguém jamais o havia tratado da maneira como Plínio o tratou. Nem mesmo Gilson, Salma e companhia, que sempre deixaram claro que não iam com a cara dele, o trataram tão mal.

Ele não acreditava que seria recebido de braços abertos caso resol-vesse procurar seus pais verdadeiros. Aliás, foi por isso que mentiu, armou. Porque ele acreditava que se dissesse a verdade, não seria aceito como era. Mas não mentiria mais. Fabinho estava cansado de armações. Não aprontaria mais. Ele não queria mais problemas. Estava decidido a nunca mais ir atrás de seus pais biológicos, fossem eles ricos ou pobres. Não importava mais. Até porque havia outras maneiras de ficar rico. Ele não queria mais saber desta história. Não queria correr novamente o risco de ser rejeitado. Com certeza, seus pais de sangue o abandonaram porque eram dois pés-rapados que não tinham onde cair mortos, e se quisessem saber dele, já o teriam procurado. Ele não iria mais atrás.

Fabinho acreditava que estava muito bem servido, porque Margot o amava e aceitava do jeito que era, mesmo com todo o seu histórico, depois de tudo o que ele aprontou. Ela o escolheu. Ela quis ser mãe dele. A primeira opção dela foi o Bento. Mas, pensando bem, o lar era cheio de crianças. Havia outras crianças além dele, Fabinho, e do Bento. Margot podia ter desistido de adotar, ou querido adotar qualquer outra criança que não ele. Mas ela quis adotá-lo. Ela podia tê-lo devolvido, e não o fez. Finalmente, se Fabinho deu conta de que a mãe o amava de verdade. Ele duvidava que seus pais biológicos fossem querer conhecê-lo, se aproximar dele. Duvidava que seus pais de sangue fossem amá-lo como Margot o amava. Não iriam querer um filho bandido. Ele nunca mais procuraria a família biológica. No ponto de vista de Fabinho, o passado estava morto e enterrado. Ele queria esquecer, de uma vez por todas.

Fabinho deu o número dos telefones da mãe, celular e fixo, e Giane ligou para Margot, informando que ela e o pai haviam encontrado Fabinho. Contou sobre o estado do rapaz, onde o encontrou e informou onde ela e o pai moravam. Agora, Fabinho, Giane e Silvério estavam esperando Margot. Silvério havia preparado uma sopa. Giane trouxe a sopa para o quarto.

— Você pode me ajudar? Eu tô meio zonzo ainda. — disse Fabinho.

— Hum. — disse Giane, sentando-se na poltrona. — Neném quer papar na boquinha? Então, pede com jeitinho, vai. Vai.

— Você pode me ajudar, por favor? — pediu Fabinho.

— Ah, não. Assim, não. Você vai falar alto, né? Você esqueceu que eu sou surda? — disse Giane.

Margot bateu na porta, que estava aberta e entrou no quarto. Silvério entrou atrás dela.

— Meu filho! Ô, meu Deus! — disse Margot, desesperada ao ver o estado em que o filho se encontrava. — Meu filho! — sentou-se na beira-da da cama e passou a mão no rosto do garoto.

Ela estava muito preocupada. Há meses não tinha notícias do filho. Não sabia onde ele estava, com quem, nem o que estava fazendo. Ela estava com o coração apertado, sentindo que o filho estava precisando dela. Ela imaginou um monte de coisas horríveis. Assim que soube que seu inquérito havia sido arquivado, Margot foi para São Paulo atrás de notícias de Fabinho, porém, ninguém sabia nada dele. Estava desaparecido. Margot ficou aliviada quando soube que haviam encontrado o filho.

— O antibiótico já tá fazendo efeito, dona Margot. — disse Silvério, procurando tranquilizá-la. — Ele já melhorou bem, né?

— Por quê que você não me procurou? — perguntou Margot ao filho. — Eu tava tão aflita, pensei tanta coisa ruim! Ô meu filho, eu tenho uma notícia boa. O meu inquérito foi arquivado. Eu não devo mais nada pra justiça. Eu posso mudar pra cá para cuidar de você.

Fabinho olhava para a mãe com carinho. Tinha vontade de pedir perdão a ela, mas morria de vergonha.

— Quer dizer, se você quiser, é claro. — disse Margot. — Olha só, a gente não precisa morar junto. Eu posso arrumar um cantinho pra mim...

— Não, mãe, eu quero morar com você, sim. — disse Fabinho.

A mãe não tinha dinheiro, mas não importava. Não que ele tivesse deixado de gostar da boa vida. Do dinheiro, do conforto. Mas não queria mais viver frustrado por causa do que não tinha, ou do que perdeu. De nada adiantou se revoltar, brigar com o mundo. Agora dava valor ao que tinha. Tinha Margot. Teria onde morar, com quem ficar. Melhor do que viver na rua. Na opinião dele, nada podia ser pior do que viver na rua. Antes ele acreditava que não podia viver sem dinheiro, mas agora teria de encontrar outra estratégia de sobrevivência e lidar de outra maneira com as memórias de sua infância. Não podia mais usar dinheiro como escudo, nem continuar armando para apagar o passado e criar outra identidade. Agora se dava conta que de nada adiantou querer apagar o passado. Isso não fez com que se sentisse melhor, só feriu os outros e a si próprio. Agora ele entendia que se não aceitasse e fizesse as pazes com o passado, não conseguiria seguir em frente com sua vida e se autodestruiria.

Margot ficou surpresa. Antes, o filho não queria viver com ela, por não suportar viver na pobreza. Agora, o rapaz disse que queria morar com ela. Mesmo sabendo que ela nada tinha a oferecer, além de seu amor.

— É isso mesmo que você quer, Fabinho? Viver comigo?

— Cuida de mim? — pediu Fabinho.

Margot emocionou-se.

— Cuido, meu filho. Eu vou cuidar sempre de você. Eu nunca vou deixar nada te acontecer de mal. — disse Margot, abraçando-o. — Nada, nada, nada, nada. — deu um beijo no rosto do filho.