Um amor improvável
44 Forte feito um bezerrão
Giane saiu do quarto. Fabinho continuou no quarto, brincando com a bola que ganhou. Ouviu uma música alta vindo da vizinhança, e imaginou que alguém estava dando uma festa. Giane entrou no quarto e perguntou:
— E aí? Não quer nem saber o que está rolando lá no tio Gilson?
— Tá louca. Se a Odila ficar sabendo que eu tô aqui, chama a polícia na hora. — disse Fabinho.
Neste momento, ouviram as batidas na porta. Giane levantou o dedo indicador.
— Será que é ela? Que medo! — brincou Giane, rindo.
Fabinho jogou a bola nela.
— Vai, pivete, vai embora.
Giane saiu correndo. Foi até a sala ver quem estava batendo na porta. Ela ficou conversando com as visitas lá fora. Depois ela avisou Fabinho que iria sair com Malu e Madá. Fabinho ficou um tempo sozinho. Algum tempo depois, Giane voltou. Contou ao rapaz que ela, Malu e Madá haviam ido à casa do Bento devolver os sapatos da Amora. O bazar beneficente era falso. Amora não vendeu sapato nenhum. Amora pagou atrizes de teatro desconhecidas do grande público para posarem ao lado dela nas fotos, como se estivessem levando os sapatos, para depois devolverem em outro lugar. Amora alugou um flat para guardar os sapatos, e deu o endereço a cada uma das atrizes, para levarem os sapatos lá. Só que Amora não contava que o flat iria ter uma infiltração. Telefonaram para a casa da Malu, avisando da infiltração, e foi assim que Malu descobriu tudo. E foi Amora quem mandou pichar a Toca do Saci, para ameaçar Madá.
Madá havia descoberto que o bazar era uma farsa, e estava disposta a contar para todo mundo. A pichação da Toca foi uma maneira de Amora dar o recado para Madá, para que ela não desse com a língua nos dentes, do contrário, Malu sofreria as consequências. Amora já havia ameaçado a Malu antes, mas a pichação foi para reforçar. Amora não achou suficiente ameaçar uma vez. Até porque, mesmo com a ameaça, Madá dissera não ter medo dela e que iria contar tudo a Bento, para livrá-lo da roubada de se casar com ela. Amora quis mostrar que não estava brincando. No racio-cínio de Amora, se ela ameaçasse e não fizesse nada, Madá poderia abrir o bico, por achar que ela não faria nada com Malu.
Fabinho achou genial a ideia de levar os sapatos da Amora para a casa do Bento. E achou que Amora não brincava em serviço. Fazer um bazar fake só para bancar a boazinha. Amora era mesmo uma maluca. Em vez de vender os sapatos, ou dizer que não abriria mão da coleção de sapatos repetidos, ela montou um bazar falso para enganar todo mundo, posar de santa para o Bento e ficar bem com a mídia. Ela era mesmo especialista em fazer as pessoas de trouxas. E ainda deu um jeito de esconder os sapatos. Para Fabinho, não era normal a Amora querer manter vários pares idênticos de sapatos. Isso era doença, caso para terapia. Fabinho e Giane até riram, imaginando a cara que Amora faria quando chegasse com Bento da lua de mel e se deparasse com todos aqueles sapatos espalhados pela sala.
Resolveram mudar de assunto e falaram a respeito da bola que Fabinho ganhara de presente. Giane disse que não chutou a bola de propósito e que não teve a intenção de magoá-lo.
— É verdade que eu sonhei com a bola que você furou mesmo? — perguntou Fabinho.
— É. Você tava com febre e não parava de falar: “Ai, minha bola! Eu quero a minha bola”! — disse Giane, rindo.
Fabinho riu também. Tinha de admitir que Giane tinha um ótimo senso de humor. Era realmente uma pessoa divertida.
— Doideira, né? O subconsciente da pessoa é uma coisa muito engraçada, né?
— Subconsciente... Não! — disse Giane, sem acreditar.
Fabinho riu. Giane levantou-se da cama.
— Não! Você não tá falando subconsciente! Meu Deus! — disse Giane, aproximando-se e colocando a mão sobre a testa dele. — Não, você está com febre. Deve estar delirando!
O rapaz tirou a mão dela da testa dele. Ainda não suportava que ela tocasse nele. Disfarçou.
— Palhacinha! Palhacinha! — disse Fabinho, brincando.
— Não, eu tô curtindo dar uma lição em quem merece. — disse Giane. — Agora, bora! Levanta! Você precisa andar um pouquinho.
— Não. Não dá. Minha perna tá doendo muito ainda. — disse Fabinho.
Estava apenas dando uma desculpa. Ele ainda sentia dor na perna, mas dava para suportar. Mas ainda era difícil para ele estar perto de Giane.
— O médico pediu. — disse Giane, estendendo a mão para ele. — Dá a mão. Anda! — o rapaz hesitou. — Não faz o Fraldinha, não! — pegou na mão dele.
Fabinho resolveu levantar, para não fazer o Fraldinha.
— Você me ajuda? — perguntou Fabinho.
— Vambora. — disse Giane.
— Ai, ai, ai, ai, ai! — gemeu Fabinho, tentando se levantar da cama.
— Deixa de frescura! — disse Giane, ajudando-o a se levantar.
— Não é frescura, não. Tá doendo. Você não sabe o quê que é isso.
— Mas é um bunda-mole mesmo. — disse Giane.
— Você aguenta comigo? — perguntou Fabinho, pulando de uma perna só.
— É melhor do que ficar ouvindo você gemendo. Ai... No meu ouvido.
— Força! — disse Fabinho.
— Peraí! Peraí! — disse Giane, ficando de frente para ele e segurando nos braços dele. — Vai, tenta encostar o pé no chão.
Fabinho encostou o pé no chão, apesar da dor. A ferida ardia.
— Tô encostando. Não tá vendo? — disse Fabinho, e Giane riu. — Tô com o pé fincado no chão. Ai...
— Consegue? — perguntou Giane.
— Consigo.
— Consegue se soltar? — perguntou Giane.
O rapaz se soltou. Mas mal conseguia manter-se de pé. Era difícil encostar o pé no chão. A perna doía. Giane riu e pegou nos braços dele, ao ver a dificuldade que ele tinha em andar com a perna machucada.
— Tá indo? — perguntou Giane.
— Tá. — disse Fabinho.
Fabinho sorriu. Os dois olharam-se longa e intensamente. Ele achava Giane linda. Muito mais bonita do que a Amora. Ele havia perdido muito tempo correndo atrás da Amora, apenas porque ela era rica e famosa, e mais para disputar com Bento do que por qualquer outra razão. Mas também não dava para investir em Giane. Ela jamais se interessaria por ele.
Mais tarde, à noite, Fabinho estava sentado no chão da sala, olhando uma revista. Giane veio mostrar um álbum de figurinhas. Sentou-se no chão ao lado dele.
— Lembra? — perguntou Giane, entregando o álbum a ele.
— Mentira! Copa de 98! Está completo? — perguntou Fabinho, folheando o álbum.
Ele e Giane costumavam trocar figurinhas quando crianças. Ela havia guardado o álbum como lembrança. O álbum estava bastante velho, pois tinha quinze anos. Mas estava ainda em bom estado.
— Ah, e eu sou lá de fazer as coisas pela metade? — disse Giane.
— Que bandida! Olha, eu fiquei sem o Taffarel e Rivaldo.
Giane riu, e continuou folheando o álbum.
— Esse Taffarel não era meu, não? — perguntou Fabinho.
— Ah, vai te catar, né? — disse Giane.
— Eu tinha um Taffarel e... — disse Fabinho.
— Oi! Oi! Oi! Oi! — disse Silvério, entrando. — Eu vi a Socorro passando com uma escada. Eu tô achando que ela foi fuçar na casa do Bento.
Giane levantou-se do chão. Silvério disse:
— Vamos lá. Vamos dar uma incerta. Vem comigo, vem.
Pelo visto, Socorro estava querendo descobrir o que Giane, Malu e Madá haviam deixado na casa do Bento. Fabinho achava incrível como Socorro não tinha vida própria, vivia em função da Amora.
— Vamos. — disse Giane. Dirigiu-se a Fabinho. — E você, ó, não me aparece pela janela, não, hein? Pelo amor de Deus!
Silvério e Giane saíram. Giane levou as chaves da casa do Bento. Fabinho ficou sozinho em casa. Não tinha muito o que fazer. Ele resolveu procurar mais alguma outra revista para olhar. Acabou encontrando o book de Giane e resolveu dar uma olhada. Começou a olhar as fotos, uma por uma. Realmente, a garota era linda, e muito fotogênica. Não tinha um ângulo ruim. Ela levava jeito para a coisa. Ele estava olhando as fotos, quando alguém entrou sem bater. Fabinho olhou para trás e viu que era Caio.
— E aí? — cumprimentou, e continuou olhando as fotos.
— Bonitas, né? — disse Caio.
— Lindas. Eu nunca pensei que ela ficasse tão bem assim, não. — disse Fabinho, enquanto Caio se sentava no sofá.
— Mas eu soube que a Giane era uma garota incrível assim que eu bati os olhos nela. — disse Caio.
Fabinho sorriu. Para ele era evidente que Caio não entendeu nada. Ele sempre achou Giane linda, mesmo naquele visual de moleque. Só que ela ficava diferente toda produzida, e ele não pensou que ela fosse se sair assim tão bem como modelo. Ele não imaginava Giane desfilando, até porque ela não ligava para o que chamada de frescuras.
— E é por isso que eu queria te pedir, Fabinho, pra você sumir da vida dela. — disse Caio.
Fabinho não gostou. Caio deixou bem claro que queria vê-lo longe da Giane, que se afastasse, sumisse. Certamente, estava disposto a entregá-lo à polícia. Quem Caio pensava que era?
— Deixa eu entender. — disse Fabinho, levantando-se do chão e sentando-se no sofá. — Você está me ameaçando, é isso?
Era só o que faltava, o mala vir ali para ameaçá-lo. O tal do Caio ainda queria marcar território, pelo visto. Com certeza, Caio não gostou do fato da Giane estar abrigando um bandido e se achou no direito de proteger a donzela em apuros. Só que ele, Fabinho, não tinha medo do Caio. Além do mais, se Caio resolvesse denunciá-lo à polícia, Giane não olharia mais para a cara dele. E deu para ver que Caio continuava apaixonado por Giane. Não iria querer brigar com ela. De qualquer maneira, Caio não teria por que se preocupar. Giane sempre soube se defender muito bem. Além do mais, ele, Fabinho, decidiu levar a vida de um jeito legal. Não aprontaria mais. Procuraria se manter longe de problemas. Ele não faria mal algum à Giane. Não a prejudicaria. Afinal, ela salvou a vida dele.
— Só não quero ela envolvida com a polícia agora que ela está deslanchando na carreira. E isso vai acontecer se descobrirem que você está aqui. — disse Caio.
Silvério e Giane entraram neste momento, e Giane ouviu parte da conversa.
— Ei, o quê que é isso, Caio? — disse Giane, furiosa. — Você está ameaçando o Fabinho? Você está maluco? — dirigiu-se a Fabinho. — E você, quem mandou abrir a porta pro Caio?
— Ele foi entrando. — disse Fabinho.
— Não, não se preocupa não, Fabinho. O Caio é de casa. — disse Silvério.
— É, é de casa, mas não tem nada que ficar se metendo na minha vida! — disse Giane.
Caio levantou-se do sofá.
— Bom, então, você se prepara que eu vou me meter toda vez que eu achar que você está em perigo, Giane.
— Olha só, cara, só pra você ficar sabendo, eu não vou ficar aqui muito tempo, não. — disse Fabinho. — Eu estou só esperando a minha mãe fazer a mudança.
— E você vai ficar de bicho fechado, hein! — disse Giane, furiosa, para Caio. — Senão acabou a nossa amizade! Tô por aqui!
— Eu não sabia que esse cara era tão importante pra você. — disse Caio, chateado. — Com licença.
Fabinho viu que Caio ficou magoado. Ele achou bem feito para o mané. Giane fez bem em colocar o Caio no lugar dele. Caio não tinha nada que se meter na vida da Giane, nas escolhas e nas decisões dela.
— Não, não esquenta não. — disse Silvério para Caio, procurando tranquilizá-lo. — Deixa que eu cuido dela, tá?
Silvério saiu com Caio. Fabinho e Giane ficaram a sós na sala.
— Tão bonitinho, né, o cavalheiro defendendo a donzela. — Fabinho zombou, abraçando a almofada.
Giane sentou-se no sofá, ao lado de Fabinho.
— Vai te catar, Fabinho! — disse Giane.
— Eu acho que você tinha que aproveitar. O cara tá apaixonadão por você, não tá? E ele que transformou em modelo, né? — disse Fabinho. — Eu vi aqui, você leva jeito, sabia? — folheou o book, que estava sobre a mesa de centro.
— Não vai tirar uma com a minha cara agora, né? — disse Giane.
— Não, tô falando sério. Ficou bonita mesmo. — disse Fabinho.
Viu que Giane havia ficado envergonhada.
— Também, com tanta maquiagem. — disse Giane, sem jeito.
Na opinião de Fabinho, não era preciso nenhuma maquiagem para embelezá-la. Giane era linda de qualquer jeito. Será que ela não se dava conta disso? Já era linda naquele visual masculinizado, ainda mais agora. Giane era do tipo que ficava bem até vestindo trapos. Antes ele tinha horror do jeito que ela se vestia, porque era simples, mas sobretudo porque o fazia se lembrar de sua infância traumática. Mas ele sempre a achou linda. Mesmo usando aquelas roupas, ela não ficava feia. Giane podia ter o homem que quisesse. No ponto de vista de Fabinho, ele não podia culpar o Caio por ainda estar sofrendo pela Giane. O término do relacionamento era algo recente e, além do mais, Caio sabia muito bem o que perdeu. Por isso tentou espantar o que ele julgava ser uma possível concorrência. Só que Giane gostava era do Bento e jamais olharia para ele, Fabinho.
— Ah, pra cima de mim? — disse Fabinho, virando-se. — Modesta agora? — riu. — Pega o cara, Giane. — folheou o book, e largou. — Vem cá, ele não é herdeiro lá da... Da Quatre Mondes?
— É, mas ele não tá nem aí pra grana do pai. — disse Giane.
— É, mas daqui apouco o velho morre. Aí, você une o útil ao agradável. — brincou Fabinho, mordendo a ponta da almofada.
— Você é um... Caramba! — disse Giane, levantando-se. — Você é um interesseiro, né? Eu achei que você tinha mudado, continua a mesma coisa!
Mas Fabinho não estava pensando em seus próprios interesses desta vez. Só estava achando que Giane iria se dar bem ficando com alguém como Caio. Ela iria levar uma vida de rainha e teria um homem apaixonado ao lado dela, comendo na mão dela. De qualquer forma, ele só estava brincando. Só que, pelo visto, Giane não queria saber do Caio, mesmo ele tendo boa aparência e sendo herdeiro de uma fortuna.
— Não, tô pensando no seu interesse. — disse Fabinho. — Porque tá achando que vai ficar assim, bonita, jovem pra sempre? Não, daqui a pouco você tá velha, pobre, azeda, feia... — contou as características nos dedos. — Ninguém quer não!
— Sai daqui! — disse Giane, se fazendo de zangada, pegando uma almofada e batendo nele. — Sai daqui, palhaço! Babaca!
— Pode bater, que vai continuar feia. — provocou Fabinho, levantando-se do sofá. — Vai continuar ficando velha. — largou a almofada no sofá.
Giane sentou-se no sofá.
— Idiota! — xingou, enquanto Fabinho saía da sala.
No dia seguinte, Fabinho acordou cedo. Foi até a cozinha e ouviu Giane dizer:
— Poxa, pai, justo hoje? Eu tenho reunião lá na Crash Mídia. E é folga do Wesley. Quem vai ficar na Acácia Amarela?
— Não sei. — disse Silvério.
— Ué, eu posso ficar lá por você. — disse Fabinho, entrando na cozinha.
Ele achou que seria uma boa maneira de retribuir tudo o que Giane e Silvério estavam fazendo por ele. Além do mais, sabia que não podia se esconder para sempre. Um dia teria de sair. A mãe estava até alugando a casa que era da Charlene. Em breve ele se mudaria com a mãe para lá. Sabia que não seria nada fácil sair lá fora. Afinal, a vizinhança continuava revoltada com ele, por tudo o que aprontou. Ainda mais depois do incêndio da Toca do Saci. Todos achavam que ele tinha tentado matar o Bento. Além disso, ainda não se sentia bem olhando para aquela gente. Mas não havia saída. Mais cedo ou mais tarde, ele teria de enfrentar o pessoal. Já estava na hora. Com certeza chamariam a polícia. Mas Fabinho não se importava mais em ser preso. Se bem que quem mais teria interesse em denunciar era a Malu, e ela nem prestou queixa. Plínio até quis denunciá-lo, mas Malu e Irene não deixaram. Só se o Bento quisesse denunciá-lo, mas Bento ainda não voltou da lua-de-mel. De qualquer maneira, podiam chamar a polícia, que ele não se importaria mais. Lutaria até o fim para provar sua inocência, e Amora não poderia esconder suas armações a vida toda. Um dia todo mundo saberia a bandida que ela era.
Por enquanto, ninguém da vizinhança sabia que ele estava ali. Silvério e Giane não haviam comentado com ninguém. Giane havia contado apenas para Malu. Somente Malu, Irene e Plínio sabiam, mais ninguém. Giane encontrou Fabinho desmaiado na praça, no dia do casamento da Charlene, antiga vizinha deles, com Wilson Rabelo. O casamento do Bento com a Amora também aconteceu no mesmo dia. Quase todos os vizinhos haviam ido ao casamento da Charlene e do Wilson, e acabaram não indo no do Bento, com exceção de Salma e Gilson. Ninguém viu quando Giane e Silvério socorreram Fabinho e o trouxeram para casa. Mas Fabinho bem podia imaginar a cara dos vizinhos quando o vissem. Não seria nada fácil. Ele precisava criar coragem.
Giane sentou-se na cadeira. Pareceu surpresa.
— Hã? Você tá se oferecendo pra ficar na Acácia? — disse Giane.
— É. — disse Fabinho, sentando-se ao lado de Silvério.
— Tá bom. Agora só falta ele se oferecer pra pegar as flores também. — disse Giane, ainda sem acreditar.
— Ué, qual o problema? Eu fico lá. — disse Fabinho. — Vocês não tão gastando um dinheirão comigo, com remédio, com médico? É o mínimo que eu posso fazer.
Para Giane ainda estava sendo difícil de acreditar. E ele não podia cul-pá-la, afinal, todo mundo sabia que ele nunca gostou de pegar no pesado. E nunca havia demonstrado gratidão por ninguém.
— Gente, será que a gente deu remédio errado pra ele, pai? — disse Giane, rindo. — O que aconteceu? Vem cá, qual é? Qual é dessa bondade aí, Fabinho?
— Não é bondade, não. — disse Fabinho. — É isso. Eu acho que vocês tão gastando um dinheirão comigo. Tudo bem, eu vou pagar com trabalho.
— É, nesse Fabinho aí, até que eu tô acreditando. — disse Giane, tomando um gole do café.
Silvério e Giane acabaram concordando em contratá-lo.
— Olha... — disse Silvério, dando uns tapinhas no ombro de Fabinho. — Eu acho justo. Mas é melhor você ficar na loja e cuidar das vendas, viu? É. Não acho bom você sair carregando caixa debaixo do sol, não.
— Que isso, pai? Isso aí tá forte feito um touro. — disse Giane.
Fabinho balançou a cabeça, concordando.
— Quer dizer, touro não, que isso aí ele nunca foi, né? — Giane riu. — Feito um bezerro.
Silvério também achou graça e deu uma cotovelada em Fabinho.
— Bora, bezerrão. Bora pra gente pegar no trampo. — disse Giane.
— Mas cuidado que o pessoal da rua ainda tá bravo com ele, hein? — disse Silvério.
Fabinho levantou-se da mesa, e Giane também.
— Não tem problema não, que eu encaro. — disse Fabinho. — Se quiser chamar a polícia não tem problema não, porque eu não vou mais fugir de ninguém. — deu uns tapinhas amigáveis nas costas de seu Silvério. — Vamos, que o bezerrão vai trabalhar!
— Uh lá, lá! — disse Giane, rindo, andando ao lado de Fabinho.
— Como é que faz bezerro? — perguntou Fabinho.
Silvério riu, balançando a cabeça. Giane e Fabinho saíram.
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