Um amor improvável
2 Filho do Plínio Campana
— Minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, me socorre. — Margot rezava diante de uma imagem de Nossa Senhora. — Socorre meu filho. Meu Deus e meu Senhor, em tuas divinas mãos eu entrego o meu filho. Porque não sei mais o que fazer.
Enquanto Margot rezava, Fabinho participava de um racha com um amigo. Na garupa das motocicletas, os dois saíram em disparada, em alta velocidade. Porém, no meio do caminho, se depararam com a polícia, que passou a persegui-los em sua viatura. Os dois fizeram de tudo para escaparem. Cortaram caminhos para não serem seguidos. Fabinho acabou se deparando com um caminhão, e ao tentar desviar, acabou caindo da moto. Os policiais, que logo o alcançaram, saíram das viaturas. Um dos policiais apontou a arma para ele e disse:
— Parado aí, playboy!
Os policiais o levaram imediatamente para a delegacia. Não houve escapatória. O carcereiro o levou até a cela, puxando-o pelo braço.
— Não me empurra, não me empurra, não me encosta que eu não vou ficar aqui, meu amigo. — gritava Fabinho, enquanto o homem abria a cela. — Amanhã, quando eu sair, vou mandar botar você na rua, tá me entendendo?
— Aí, o playboyzinho é marrento, aí — disse um dos prisioneiros, enquanto Fabinho entrava na cela.
— Garotinho como você faz bastante amizade por aqui. — disse outro prisioneiro.
— Você tá maluco! Tá louco! — disse Fabinho, enquanto os prisioneiros riam. Ele lá ia querer esse tipo de "amizade"?
— É bonitinho! — disse um dos prisioneiros.
A essa altura, Margot já estava sentada diante da mesa do delegado.
— Isso aqui é tudo o que eu tenho pra pagar a fiança do meu menino, doutor. — disse Margot, mostrando as joias ao delegado.
— Dona Margot, seu menino deu foi sorte. — disse o delegado. — O outro motoqueiro fugiu, aí a gente não pode configurar crime de racha. Mas ele não escapa da apreensão da carteira, nem da multa por excesso de velocidade. Agora, dona Margot, ele podia ter morrido. Ou então ter matado alguém.
— Eu vou falar com ele. Mas, por favor, não deixe ele passar a noite aqui. — implorou Margot.
— Quantas vezes a senhora só esse ano esteve aqui, dona Margot?
— Essa vai ser a última. Mas, por favor, deixe ele dormir em casa.
— Vai ser bom pra ele aprender. — disse o delegado. — Além do mais, eu não posso aceitar as suas joias como pagamento de fiança. Eu sinto muito, dona.
— Então... Então eu volto amanhã. Eu volto amanhã bem cedo. — disse Margot, levantando-se e saindo da sala.
O delegado olhou para o escrivão e comentou:
— Coitada, uma senhora tão boa com um filho desses.
No dia seguinte, Margot voltou à delegacia. Ela conseguiu empenhar as joias e pôde pagar a fiança. Fabinho foi solto. Mas como se não bastasse passar a noite naquela cela imunda, o rapaz ainda teve de ouvir sermão do delegado:
— Olha aqui, a coitada da tua mãe empenhou as últimas joias dela só pra pagar a tua fiança. Mas eu só quero te dizer uma coisa. Que seja a última vez que você põe os pés aqui nessa delegacia, porque se você aprontar mais uma vez, eu vou fazer a tua vida bem amarga. Você entendeu, moleque?
Fabinho fez que sim com a cabeça.
— Ele tá arrependido, doutor. Ele aprendeu a lição. — disse Margot. Como sempre, a mãe estava tentando apaziguar.
— É bom mesmo. — disse o delegado. — Pode ir. Vai, pode sumir da minha frente.
Enquanto Fabinho saía da sala, Margot agradeceu:
— Doutor, muito obrigada!
— Dona Margot, a senhora não pense que vai poder salvar o seu filho sempre, porque não vai. — disse o delegado. — Ou ele toma juízo por si só, ou é melhor a senhora desistir.
— Mãe não desiste nunca, doutor — disse Margot, abanando a cabeça.
Na sala de espera, Fabinho acabou esbarrando em algumas pessoas. Eram dois carcereiros, arrastando duas mulheres. Uma das mulheres deixou cair uma revista no chão. Ele pegou a revista e olhou. Na capa havia uma bela fotografia da famosa Amora Campana, uma menina que morou por um ano no mesmo lar de adoção que ele. Fazia quase quinze anos que não se viam. Ela havia virado modelo, e estava mais linda do que nunca.
— Amorinha, você que se deu bem, hein, malandra!
Amora foi adotada por uma família muito rica, e continuava vivendo no luxo, com todo o conforto. Era uma celebridade admirada no país inteiro. Já ele, vivia na pobreza, porque a família perdeu a fortuna há tempos. Na opinião de Fabinho, Amora teve mais sorte do que ele. Ele agora morria de inveja da vida de Amora.
Assim que chegaram em casa, Fabinho logo tomou banho e trocou de roupa. Margot, como sempre, estava ocupada em seus afazeres, sentada à mesa.
— Impressionante! Usei o sabonete inteiro e o cheiro daquela cadeia continua impregnado em mim. — o rapaz reclamou, com nojo, ao passar pela cozinha e pegar uma maçã da mesa.
Margot falou:
— O importante é que você está em casa e aprendeu sua lição.
— Que lição? Tá louca? Alguém aprende alguma coisa na cadeia? — perguntou Fabinho, sentando-se no sofá.
— Aprende a não voltar para lá, meu filho. É isso que você aprende.
— “Meu filho, meu filho, meu filho”. Me chama de filho, mas não tá nem aí pra mim. — reclamou o garoto.
Fabinho pensou que se ela realmente se importasse com ele, teria feito algo para tirar ambos daquela situação de pobreza.
Margot se perguntou como o filho podia ser tão ingrato, e onde que ela tinha errado. Ela sempre fez de tudo por ele. Ponderou que talvez esse tivesse sido o seu erro. Fabinho sempre teve tudo o que quis, tudo na mão, sem precisar lutar por nada. Ele sempre teve todas as suas vontades satisfeitas. Margot refletiu que talvez ela o tivesse mimado demais. Ela se sacrificava pelo filho, estava sempre protegendo-o, livrando-o de encrenca, dava duro todo santo dia e ele não dava a mínima.
Mas ela não tinha coragem de brigar de verdade com ele. Faltava-lhe coragem para confrontá-lo de maneira mais dura, para ser mais enérgica. O garoto já estava sofrendo tanto! Já estava tão revoltado com a queda do padrão de vida. Estava sendo muito difícil para ele se adaptar à nova realidade, às dificuldades, à dureza da vida. E ela acreditava que era a maior culpada por ele ser assim. Ela o criou com todo o mimo, não deu limites claros, não teve pulso firme. Ela criou um adulto com dificuldade de lidar com frustrações e o mundo real. Fabinho estava muito acostumado com luxo para aceitar viver na pobreza. Ainda por cima, ele se envolveu com más companhias. Por mais que ela falasse, para que ele não andasse com marginais feito o parceiro de racha, ele não a escutava. Vivia se metendo em confusão, vivia perigosamente. Ela não sabia mais o que fazer com o filho. Se sentia culpada por tê-lo mimado tanto. Ao ver a frustração do filho com a condição social, ela sentia ainda mais culpa e também se sentia impotente por não poder mais oferecer a Fabinho o mesmo estilo de vida a que ele estava acostumado. Se arrependia de não ter dado mais limites e o educado para a realidade. Contudo, nunca imaginou que a família perderia tudo com a morte do marido. Além do mais, ela não fez por mal. Como Fabinho havia passado a infância em um lar de acolhimento, ela sentia que precisava compensar todo o sofrimento que o filho passou no lar. Fabinho era uma criança frágil e carente, e ela havia procurado compensá-lo com afeto e com tudo o que o dinheiro podia proporcionar. Mas de nada adiantou. Ela fez o melhor que podia, porém, acreditava que havia fracassado, pois não conseguiu fazê-lo feliz de verdade.
No entanto, ela não deixava de reclamar da maneira como Fabinho a tratava, pois achava que merecia respeito e consideração. Até porque mesmo que ela tivesse falhado, e ela reconhecia isso, ela não merecia tamanho desrespeito e ingratidão. Ainda mais vindo de um filho que ela tanto amava. Fazia tudo para o bem dele. Porém, para Fabinho, nada do que ela fazia parecia ser o suficiente, nem todo o amor e dedicação que deu a ele. Tudo parecia pouco para Fabinho.
— Como é que você pode falar um negócio desse? — protestou Margot. — Empenhei minhas últimas joias para pagar a tua fiança.
— Se você vai me jogar isso na cara o tempo inteiro, eu prefiro ficar na cadeia. — disse Fabinho, o típico menino mimado, mordendo sua maçã.
Para Margot era impressionante como Fabinho não levava em conta nada de bom do que ela havia feito e ainda fazia por ele. Ela o criou com amor e carinho, e havia acabado de livrá-lo da prisão. Mas Fabinho só levava em consideração o que ela fazia de errado, ou o que ela deixava de fazer. Para o garoto, parecia não importar os anos em que ela se dedicou a ele, lhe deu amor, e sim o momento em que perderam a fortuna. E isso a deixava frustrada, pois ela sabia que havia feito o possível.
— É muita ingratidão ouvir isso, viu? — disse Margot, interrompendo seu trabalho e levantando-se da cadeira. — Depois de todo o amor que eu te dei.
— Deu porque quis. Não te pedi nada. — disse Fabinho, malcriado. — Minha vida não era pra ter virado essa porcaria, não.
Fabinho sentia que era para ele estar em um lugar melhor, em uma situação melhor. Ele merecia coisa muito melhor que aquela pobreza toda. Merecia muito mais do que Margot podia dar.
— Quando teu pai era vivo, não era ruim, não. — disse Margot.
— Ele não é meu pai e você também não é minha mãe. — ele disse. Ele se perguntava quando ela iria entender que era só mãe de criação, que a mãe dele era a de sangue. — Pega a lasanha que você prometeu? Eu tô com fome.
Margot suspirou e foi para a cozinha. Doía-lhe ouvir do filho que ela não era mãe dele. Na opinião dela, mãe não era apenas a biológica. Fabinho pegou a revista que havia trazido consigo e começou a folheá-la.
— Amora, Amora, Amorinha! Você sim, deu o tiro certo, né? Adotada por um cineasta podre de rico e uma atriz de TV. Queria eu ter essa sorte.
Fabinho continuou olhando a revista. Mas o que chamou mesmo sua atenção foi uma foto antiga de Plínio Campana, ex-marido de Bárbara Ellen, ao lado da atriz Irene Fiori. A reportagem contava que o diretor estava prestes a se casar com a atriz.
— Irene Fiori? Nunca ouvi falar!
Ele não sabia nada sobre os famosos. Nem sabia o nome da maioria deles. Nunca assistiu novela, nem costumava frequentar teatro. Não assistia a programas de celebridades, não lia sites ou blogs sobre famosos, revistas de fofoca, nada. Estava totalmente por fora das fofocas e escândalos da vida dos famosos. Nada disso o interessava. Só pegou a revista por causa da Amora, porque a Amora ele conhecia. Se não tivesse a fotografia da Amora na capa, ele nem teria levado a revista, não teria se quer olhado.
Olhou para o anel no dedo da mulher, da tal Irene Fiori, e reconheceu. O anel lhe era familiar.
— Que estranho!
Foi até seu quarto, retirou o anel da mesa de cabeceira e ficou observando. Lembrou-se de quando era criança, e os pais adotivos foram ao lar. Ele havia escutado uma conversa dos pais adotivos com Gilson, o dono do lar, a respeito do anel. Seu pai adotivo estava vivo nesta época, e estava ao lado de Margot.
— Que beleza! Parece brilhante, esmeralda! — comentou Margot.
— E é. Eu levei a um ourives pra avaliar. — disse Gilson. — Estava junto com um bilhete da mãe dizendo que era pro sustento do filho, mas eu acho que devia ser entregue ao Fabinho quando ele chegar à maioridade.
— Esse anel vai ser do Fabinho quando ele completar 18 anos. — ela disse.
Despertando-se das lembranças de infância, Fabinho pegou o notebook e começou a pesquisar um pouco mais na internet a respeito de Irene Fiori. Acabou lendo a matéria:
— Após se separar de Plínio Campana, em 1987, a promissora atriz desistiu da carreira e desde então, ninguém mais soube do paradeiro de Irene Fiori. — calculou mentalmente a data de seu nascimento. — Nasci no ano seguinte. Será que eu sou filho do Plínio Campana?
Fabinho concluiu que era possível, uma vez que Irene estava usando o mesmíssimo anel que ele tinha guardado. E ele nascera no ano seguinte ao rompimento do noivado. Ele se perguntou se seria coincidência demais, se finalmente havia encontrado sua mãe.
Desde pequeno, sempre quis saber sua origem. Encontrar sua mãe, que o abandonou na porta do lar do Gilson. Sempre quis entender por que foi abandonado. Nunca se conformou em crescer órfão, sem saber de onde vinha, quem eram seus pais. Nunca gostou nada de ser um rejeitado. Jamais se conformou em ser privado de uma infância normal. Sempre quis ter uma família como a de todo mundo. Embora tivesse crescido no lar, sido acolhido, cuidado por Gilson e Salma, para ele não era a mesma coisa. Fabinho não se identificava com eles. Para Fabinho, eles não eram seus pais, e os demais órfãos não eram seus irmãos. Gilson e Salma criavam os órfãos como se fossem filhos, como se todos fizessem parte de uma grande família. Era o que sempre diziam. Mas não era assim que Fabinho enxergava as coisas. Para ele, Gilson e Salma só diziam que eram uma família para os órfãos se sentirem melhor. Quando vivia no lar, Fabinho sempre sentia um grande desconforto. Sentia que não se encaixava lá. Viver em um lar de adoção, para ele, não era a mesma coisa que morar com a família. Não era a casa dele. Quanta inveja ele tinha de crianças que viviam com seus pais de verdade! Ele se sentia tão diferente das outras crianças, tão inferior! Na escola, todas as crianças tinham família com pai, mãe, irmãos, tios, primos. Somente ele não tinha. Ele não tinha nada, nem ninguém. Gilson e Salma não contavam, pois não eram nada dele. No ponto de vista de Fabinho, eram apenas cuidadores, mais nada.
Nem mesmo com sua família adotiva se identificava. Nunca sentiu como se pertencesse à família adotiva de maneira plena. Ele até quis ser adotado, mas porque viu vantagem em ser adotado por uma família rica. Além do mais, para ele, ter uma família adotiva era melhor do que não ter família nenhuma. Era melhor do que viver no lar até completar a maioridade. Ele não suportaria viver naquele lugar até os dezoito anos. Ele não via a hora de sair daquele lugar. Mas sempre quis conhecer sua mãe biológica, quem sabe até seu pai. Durante anos, esperou sua mãe voltar para buscá-lo, para livrá-lo do tormento que era, para ele, estar no lar de adoção. Quando morava no lar, sonhava em ter uma família de verdade, e também com uma vida de luxo, como num conto de fadas. Acreditava que a mãe só podia ser rica, para ter deixado com ele um anel tão caro.
Ele tinha esperanças de que a mãe tivesse se arrependido de tê-lo abandonado e fosse buscá-lo, para reparar o erro. Só que o tempo foi passando e nada de a mãe vir buscá-lo. Fabinho guardou mágoa da mãe durante anos. Pelo pai não sabia nem o que sentir, porque não sabia se o pai tinha conhecimento da existência dele. A mãe podia ter engravidado e não ter falado nada para o pai. Ele não sabia o que havia acontecido, só sabia que a mãe o havia deixado no lar. Então ele ficou no lar de adoção, até que ele não suportou mais e agarrou a primeira oportunidade de dar o fora do lar, e levar a vida que achava que merecia.
Havia perdido a esperança de encontrar os pais biológicos, então havia decidido esquecer, não mexer nesta história. Por isso nunca falou para os pais adotivos que alguma vez teve vontade de procurar os pais biológicos. Claro que continuou tendo curiosidade em saber quem eram seus pais de sangue, mesmo depois de ser adotado. Mas achava que os pais adotivos não iriam entender, que ficariam chateados. Não queria ser chamado de ingrato, ser acusado de não dar valor aos pais adotivos. Além do mais, era complicado para ele tratar desse tema e havia decidido esquecer esta história. Tratava-se de um assunto muito delicado para ele. Não tinha como ir atrás de seus pais biológicos. Mesmo porque não sabia muita coisa. Nem o nome da mãe ele sabia. Não tinha uma foto. A única pista era o anel. Não dava para sair perguntando na rua de quem era o anel. Seria como procurar agulha em um palheiro. Agora ele sabia quem eram seus pais. Melhor ainda: o pai era mesmo rico. Era a chance que ele tinha de sair daquela vida de pobreza, de corrigir a injustiça da infância e reaver tudo o que era dele por direito. Mas precisava descobrir mais a respeito dos pais. E ele sabia exatamente quem lhe daria mais informações.
Decidiu conversar com Santa, uma amiga de sua mãe, que apareceu para ajudá-la nas tarefas domésticas, como às vezes fazia. Santa era chegada em uma fofoca, e sabia tudo sobre a vida dos famosos.
Santa estava passando a roupa quando ele se aproximou.
— Oi, mãe! Oi, Santa! — cumprimentou.
— Oi! — disse Santa, contrariada.
Ela não simpatizava com o garoto, pois era um ingrato, vivia tratando mal a Margot, descontando as frustrações nela. Vivia aprontando também, se metendo em encrenca. No ponto de vista de Santa, Fabinho fazia da vida de Margot um inferno e, por isso, não valia o que o gato enterrava.
— Estava vendo na TV aquele ator que morreu, o Jonathan James. Ele tinha minha idade quase, né? — comentou Fabinho, sentando-se na cadeira.
— E a mesma falta de juízo. — disse Santa.
Fabinho resolveu agradar a Santa, assim ela daria as informações de que precisava. E para agradá-la, nada melhor do que ser um bom menino e pedir desculpas à sua mãe. Era tudo o que Santa queria.
— É, eu sei. Eu tenho feito muita besteira mesmo. Eu queria até falar com você, mãe. Queria te pedir desculpa, mãe, e agradecer por não ter desistido de mim. — disse Fabinho, aproximando-se da mãe.
— Ô, meu filho! — disse Margot, feliz, abraçando-o. — Desistir de você é a mesma coisa que desistir de mim. Vou botar a mesa.
— Era assim que você devia tratar sempre a sua mãe. — murmurou Santa, assim que Margot se afastou.
— É, eu sei. — disse Fabinho. — Santa, então esse Jonathan James não valia grande coisa.
— Um mentiroso, aproveitador. Casou com a louca da Bárbara Ellen, que tinha idade pra ser mãe dele e ainda diz que foi por amor.
Jonathan James era um frentista que conseguira espaço na mídia por ter se casado com Bárbara. Ele virara ator, um galã de novelas, e ganhara bastante dinheiro. Tudo isso graças à influência de Bárbara. Ele morreu ao cair do cavalo e quebrar o pescoço. Na opinião de Santa, Jonathan era um interesseiro, um oportunista. Bárbara não se casava por amor, e havia sempre muitos homens querendo se aproveitar da fama dela.
— Mas essa Bárbara teve outros maridos, não teve? — perguntou Fabinho. — Até aquele diretor de cinema, o Plínio Campana.
— Ah, esse foi o primeiro marido! — disse Santa. Bárbara trocava de marido como se trocava de roupa. Havia se casado várias vezes.
— Mas ele... Ele é pai da Amora? — perguntou Fabinho, pegando um pote de bolachas. Pegou uma bolacha e mordiscou.
— Não. Ela foi a primeira criança que ela adotou. Mas aí logo o Campana caiu fora porque a Bárbara posa de mãe extremada. Não passa de uma chave de cadeia, tá? — disse Santa, sentando-se à mesa.
— Meu Deus, não exagera, Santa! — riu Margot, colocando os pratos na mesa. Para Margot, não era possível que uma pessoa como Bárbara Ellen, que adotou tantas crianças, fosse uma pessoa má.
— Ô, você não lembra? Ela pegou e jogou a noiva do Campana para escanteio, pra logo dar o bote. Lembro muito bem. — disse Santa.
— Essa história tem tanto tempo, nem lembro mais. — disse Margot.
— Ah, mas eu lembro. Eu morava em São Paulo, eu lembro. Saiu em todas as revistas: “Bárbara Ellen rouba o noivo da amiga”. E olha que a Irene era muito mais bonita do que ela. — disse Santa.
— Eu cheguei a vê-la no teatro. Era boa atriz, viu? — comentou Margot.
— O quê que levou essa Irene? — perguntou Fabinho.
Santa respondeu:
— Sumiu. Aí, a Bárbara casou com o Plínio, que era diretor da novela, e pegou o papel que era da Irene. Pra mim, essa moça sumiu foi de desgosto.
Fabinho chegou à conclusão de que Bárbara Ellen era uma pessoa invejosa, pois tomou tudo que era para ter sido da Irene Fiori.
Assim que acabou de comer, Fabinho voltou para seu quarto. Ficou olhando pensativo o anel, que tinha enfiado em seu dedo.
— Plínio Campana e Irene Fiori. Claro que eu não podia ser filho de indigente. Claro que minha mãe, pra me deixar um anel desses, tinha de ser especial. Mas por quê que eu fui parar naquele lar? O que aconteceu?
Sempre suspeitou que a família biológica fosse rica, por causa do anel. Ao ver na revista a foto de Irene, usando o anel, ao lado de Plínio, teve a confirmação de sua suspeita. Mas se a família era rica, tinha condições de sustentá-lo. Ele não conseguia entender por que foi abandonado. Uma coisa era ser abandonado por a família não ter onde cair morta. Se fosse esse o motivo, dava até para entender. Mas a família dele era rica. Ou, pelo menos o pai era rico. Não sabia se a Irene vinha de família abastada. Ele se perguntava por que foi parar no lar.
O fato de a família biológica ser rica sempre tornou o abandono ainda mais inexplicável, injustificável e doloroso para ele. A mãe biológica havia deixado o anel para que fosse usado para pagar seus estudos. Mas ele nunca entendeu por que a mãe o deixara no lar e por que não voltara para buscá-lo. Para ele, o fato de a mãe ter deixado o anel não compensaria a dor da rejeição e do abandono, nem anulava a sensação de ser indesejado. Fabinho sempre se sentiu rejeitado pela família biológica. Para ele, só podia haver uma razão para ter sido abandonado pela família rica: ele era indesejado. Fabinho pensava que só podia ter alguma coisa errada com ele para a mãe ter escolhido abandoná-lo em vez de criá-lo. Ele imaginou várias hipóteses. Até imaginava ter sido fruto de uma traição, e que havia sido abandonado para evitar escândalo. Um bastardo seria uma vergonha para uma família rica. Para Fabinho, a família não o havia abandonado em um ato de desespero, e sim de desprezo. Ao mesmo tempo, ele tinha esperanças de que a mãe se arrependesse e viesse buscá-lo, e lhe desse o amor que ela negou desde que ele nasceu. O fato de ela nunca ter voltado para buscá-lo era para ele a confirmação de que ela não o queria.
Ele constantemente se sentia como se um Deus perverso, no qual ele se recusava a acreditar e confiar, tivesse tirado tudo dele: a família, a herança, a vida que era para ser dele sem nem ao menos explicar o porquê. Como que Deus, ou o universo, o fazia nascer numa família rica para tirá-lo desta família e largá-lo em um lar de adoção? Ele se perguntava o que havia feito de errado para merecer a orfandade.
Agora, tudo mudou e ele acreditava ter encontrado uma explicação plausível para o abandono. Sua história era completamente diferente de tudo o que ele havia imaginado. Chegou à conclusão de que talvez a mãe biológica não o tivesse abandonado por não o amar, mas por conta da armação da Bárbara. Talvez Irene não tivesse muitos recursos, não tivesse como sustentá-lo e havia resolvido deixá-lo no lar por não ter parentes. Talvez Plínio nem soubesse que tinha um filho com Irene. Se Plínio soubesse, não iria deixar um filho dele num lar de adoção. Mas Fabinho não conseguia entender por que Irene sumiu sem falar nada para Plínio.
Lembrou-se de tudo o que Santa havia contado. Ele se perguntou se Plinio havia mesmo traído Irene, por que ela sumira, se fora somente por causa da suposta traição ou havia alguma coisa mais aí. Fabinho acreditava que ninguém sumia apenas por ser traído. Ou sumia? No ponto de vista de Fabinho, uma traição não era justificativa para sumir no mundo e abandonar o filho. Ele se perguntava o que havia acontecido com Irene Fiori, se Bárbara teria algo a ver com isso, se era verdade mesmo o que as revistas diziam na época ou era apenas boato. Bárbara negava ter separado Plínio de Irene. Mas ela podia estar mentindo.
Fabinho olhou a revista, para a foto de Bárbara Ellen, com ódio. Se ela realmente armara para separar seus pais, então ela era a principal responsável por ele ter crescido órfão. Fabinho jurou para si mesmo que a víbora iria pagar por isso, nem que fosse a última coisa que ele faria na vida.
— Se você tem alguma coisa a ver com isso, se foi você quem separou meu pai da minha mãe, se prepara, sua perua. Eu vou acabar com a sua vida.
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