Um amor improvável

47 Faz um pedido à lua


O caminhão de mudança já havia chegado. Quando Fabinho chegou, Margot e Santa já estavam junto ao caminhão, e Silvério também estava ajudando.

— Então, vamos descarregar antes que escureça. — disse Fabinho, pegando uma cadeira de cima da caçamba do caminhão.

— O que foi? A Giane te deu folga? — perguntou Margot.

— Não. O Bento me expulsou da loja. — disse Fabinho.

— Ah! — lamentou Margot.

— Mas não faz essa cara não que eu vou trabalhar na agência do Érico.

— É. Então trata de trabalhar direitinho, porque emprego bom tá difícil. — disse Santa.

— É. O Érico vai me explorar e ficar rico. Isso sim. — disse Fabinho.

— Não desdenha da sua sorte, não, Fabinho. — disse Silvério, indo até o caminhão e pegando uma cadeira.

— Não é sorte, não. — resmungou Fabinho. — Sorte seria viver de herança, não ficar carregando isso aqui.

— Ê Fabinho, o mundo gira e você continua o mesmo, hein? — disse Santa.

— Continua nada. Isso é só marra dele. — disse Giane, que tinha acabado de chegar.

— Pode ficar tranquila que eu vou ganhar meu salário e vou pagar tudo que eu devo pra você e pro seu pai. — disse Fabinho para Giane.

— Continua turrão, mal-humorado e tinhoso. — disse Silvério, sorrindo e pegando uma bolsa. — Mas tem jeito.

— Se o Fabinho não se endireitar, pode deixar que eu endireito ele. — disse Giane.

Giane até deu uma mãozinha, mas acabou voltando para a loja. De qualquer maneira, Margot, Silvério e Fabinho estavam terminando de descarregar os móveis. Não faltava muito. Foi quando apareceram Jonas e Gilson. Jonas estava abraçado a duas crianças, um menino e uma menina.

— E aí, dona Margot? Tá precisando de alguma ajuda? — perguntou Jonas.

— Vai se acostumando, que aqui é tudo na base da cooperação. — disse Gilson.

— Tá tudo certo. Obrigado. — disse Fabinho.

Olhou para a menina. A semelhança dela com Amora era impressionante.

— Nossa, essa menina é a cara da Amora quando era pequena, né?

— Ela é sobrinha da Amora. Idêntica, né? — disse Jonas.

— Como assim sobrinha? Aquela irmã que sumiu? — perguntou Fabinho.

Amora foi abandonada na rua pela irmã aos nove anos de idade.

— E surgiu agora, de repente. — disse Gilson. — Tá lá, conversando com a Amora.

— Rapaz, que doideira, assim, depois de anos, né? — disse Fabinho, e deu mais uma olhada nas crianças, que não usavam roupas caras. — Pelo visto, vocês são pobres, né?

— Somos. Por quê? — perguntou o garotinho, André.

Fabinho riu.

— Ih! Titia não vai querer saber de você, não, hein, rapaz?

— Fabinho, não fala assim com o menino. — disse Margot.

— Ué, mas é verdade. — disse Fabinho.

— O pior é que ele tá certo. — disse Jonas.

— E eu não sei onde é que essa história vai dar. — disse Gilson.

Depois de ajudar a mãe na mudança, Fabinho voltou à Crash Mídia. À noite, aconteceu a maior confusão na rua. Brunettý, a Mulher Mangaba, flagrou Lucindo com outra mulher, uma tal de Gládis, e correu atrás dela. Acabou encontrando Tina em uma barraca de jornal.

— Cadê a safada que estava com o meu Lulu? — perguntou Brunettý.

— Seu Lulu? Amorzinho, o silicone subiu pra cabeça, não? — disse Tina. — O Lulu não é teu, não é meu, não é de ninguém. Aliás, o Lulu é patrimônio da humanidade. Sabia que eu tô superenvolvida nessa causa, agora?

— Ai, cala essa boca e me fala pra onde ela foi! — disse Brunettý, impa-ciente.

— Mandou eu calar a boca, calei! Tô tão evoluída, menina, você nem sabe! — disse Tina, e retirou-se, deixando Brunettý a sós, chorando.

Nestor e Odila subiam a rua neste momento. Viram tudo.

— Mas Bru, minha filha, você tem que se dar ao respeito, menina! — disse Odila, pegando na mão de Brunettý. — Você tem que entender uma coisa, você é a mulher mais desejada do Brasil! Você tem que parar de fazer barraco no meio da rua!

— Eu sei, mãe Odila. Mas eu amo o Lulu! — choramingou Brunettý.

— Que ama o Lulu o quê! — disse Odila. — Você tem que arrumar um cara rico. Larga esse cafajeste! Vem.

Nestor e Odila abraçaram Brunettý, um de cada lado, e saíram andando.

— Mas olha, olha o conselho que a Odila dá pra essa menina. — disse Nestor. — Isso é imoral, sabia?

— Ah, quem é você pra falar de imoralidade, vai, seu indecente? — replicou Odila.

— Eu sou um fofo, né? — disse Nestor.

Fabinho, Margot e Santa assistiram a tudo. Acharam graça.

— Aqui é sempre assim? — perguntou Margot.

— É, sempre. — disse Fabinho, abraçando a mãe. — Confusão e barraco é o que mais tem por aqui. Se prepara, dona Margot, bem-vinda à Casa Verde.

O rapaz nunca pensou que acharia divertido morar na Casa Verde. Sua aversão pelo bairro estava diminuindo gradualmente. Ele estava se esforçando para superar completamente seus traumas, embora não fosse nada fácil. Ele precisou ressignificar muitas coisas para aceitar morar ali. Antes, a Casa Verde representava para ele um local de abandono, de rejeição e pobreza. Um ambiente onde ele não se sentia bem, pois não era querido. Agora, a Casa Verde passou a ser o ambiente onde viviam pessoas como Giane, que o salvou, cuidou dele, o acolheu. Ainda assim, não era nem jamais seria seu bairro preferido, e Fabinho não pretendia viver ali para sempre. Ele passou a respeitar os moradores do bairro e a vida simples e honesta que levavam, mas jamais teria pela Casa Verde o mesmo amor que Giane e Bento tinham. Para ele, isso seria impossível, por mais que ele reconhecesse que ali estavam suas raízes e que ele havia sido bem cuidado por aquelas pessoas. Por mais que ele reconhecesse que aquele lugar era parte do que ele era, ele sempre carregaria cicatrizes. Ele passou a respeitar os vizinhos, mas para ele, sua família era Margot e mais ninguém. Para ele, Gilson e Salma eram vizinhos e antigos cuidadores, não seus pais de coração. Fabinho jamais conseguiu enxergá-los como família.

Ele demorou a aceitar seu passado. Para ele foi muito difícil aceitar sua condição de órfão, aceitar que foi abandonado, que cresceu naquele lugar, sem mágoa, rancor, vergonha e sem se sentir inferior. Não foi nada fácil aceitar sua história, quem ele foi. Ele rejeitava aquele lugar e buscava dinheiro e status porque não aceitava quem foi. Não queria pertencer à periferia, acreditava que não era seu lugar, que foi parar no lugar errado por um equívoco do destino. Mas aos poucos, estava aceitando numa boa, pois não havia outro remédio. De nada adiantou ele se revoltar contra a realidade, brigar com o mundo, querer apagar seu passado e tudo o que fazia parte dele. Ele havia cansado de dar murro em ponta de faca.

— Depois do que a sua mãe passou, estava na hora de ela se divertir um pouco, né? — disse Santa. — E você, juízo, viu? Continue assim, porque ó... — apontou para os próprios olhos e depois para Fabinho. — Eu estou de olho em você!

— Você e o Brasil inteiro. — replicou Fabinho.

— Continua malcriado, hein! Ah! — disse Santa, e deu um beijo em Margot. — Tchau, querida! Boa sorte!

— Volte sempre, volte sempre, Santa! — disse Margot.

— Ó! — disse Santa, fazendo um sinal de que estava de olho em Fabinho.

— Tá bom. — disse Fabinho.

Santa foi embora. Fabinho comentou:

— E essa história dessa irmã da Amora, hein? Será que vai dar no que isso?

Fabinho pensava que Amora não iria querer ver a irmã nem pintada de ouro. Amora devia ter muita mágoa, muita raiva da irmã por tê-la abandonado. Além do mais, a irmã e os sobrinhos de Amora eram pobres. Ele podia apostar que Amora não iria querer contato com eles. Era capaz de Amora pensar que a irmã estava de olho na grana do marido dela. De qualquer maneira, isso não era problema dele.

No dia seguinte, Fabinho saiu da agência para o almoço e se deparou com Giane regando as flores. Ela estava linda, como sempre. Não resistiu e resolveu mexer com ela. Começou a brincar de jogar pedrinhas na garota.

— O que é, ô praga? — perguntou Giane.

— E aí, maloqueiro? Tá com essa cara de fome? — disse Fabinho, jogando mais uma pedrinha em direção a ela. — Quer almoçar lá em casa?

— Eu, hein! Não sabe fazer nem pipoca de micro-ondas. — disse Giane.

— Não sei mesmo. Mas minha mãe chegou, a comida é muito boa. Vamos?

— Eu tenho aula de inglês. Mas convite pra jantar, eu aceito. — disse Giane.

— Então, tá bom. Combinado. Mas, olha, você leva a sobremesa porque chegar na casa dos outros de mão abanando é feio, tá? — disse Fabinho, e jogou mais uma pedrinha nela. — Tá?

— Você vai ver o que é feio... — disse Giane, divertida, correndo em direção a ele. — Se não parar de jogar essa porcaria dessas pedrinhas!

Fabinho saiu correndo, porém, Giane o alcançou, pegando no braço dele e segurando-o. Fabinho segurou-a pela cintura. Podia sentir todo o calor e a delicadeza do corpo da menina. Era bom estar assim tão perto dela, tocá-la. Aos poucos, ele estava se acalmando. Não tinha mais vontade de sair correndo quando ela chegava perto. Agora se sentia diferente perto dela. E como ela cheirava bem! Tinha uma pele macia e um cheiro agradável. Ele tinha uma vontade louca de agarrá-la e não soltá-la nunca mais. A atração que sentia por ela era muito forte.

— E aí? Te peguei! Tem medo de mulher? — disse Giane, brincalhona.

— Não, de mulher, não. Tenho medo de maloqueiro. — brincou Fabinho.

Giane deu um tapa no ombro dele.

— Pede desculpas! — disse a garota.

— Senão o quê? Vai me bater? — disse Fabinho.

Ele iria adorar tomar mais um tapa dela, desde que viesse acompanhado de um beijo. Ela não respondeu. Olharam-se intensamente. E, de repente, era como se nada mais existisse no mundo além deles. Fabinho olhava fixamente para a menina à sua frente. Ela era linda demais. O coração estava disparado. Ele prendeu a respiração. Percebeu que a garota queria beijá-lo. Ela olhava fixamente para sua boca, e estava inclinando o rosto. Ele também queria beijá-la, tomar aqueles lábios até perder a razão. Inclinou-se. Porém, quando ele estava a um passo de beijá-la, Giane decidiu soltá-lo. Ela afastou-se.

— Vai, vai trabalhar! O Érico não te paga pra ficar tacando pedrinha, não. Palhaço! — disse Giane, pegando o regador que havia deixado no chão.

Fabinho sorriu. Não podia acreditar no que acabou de acontecer. A garota quase o beijou. Talvez ela sentisse algo por ele. Será que Giane já havia esquecido o Bento? Mas não teve muito tempo para pensar nisso. Logo teve de voltar para a agência. À noite, Silvério e Giane vieram jantar. Margot preparou uma lasanha. Silvério elogiou:

— Nossa, Margot, tua lasanha é uma delícia!

— É. Tá páreo pra da tia Salma. — disse Giane.

— Muito boa mesmo. Parabéns. — disse Fabinho.

— Fabinho, eu queria te agradecer por estar aqui, comigo. — disse Margot.

— Ih, mas já começou. — disse Fabinho, envergonhado.

— Por ter tomado um rumo na vida. — disse Margot. — Por estar perto de pessoas tão bacanas.

Margot mal podia acreditar que o filho estivesse realmente criando juízo. Ele havia começado a trabalhar, e não andava mais em más companhias, como antes. Torcia para que o filho continuasse assim. Parecia um sonho. Não parecia ser real. Tanto que ela tinha até medo de que o sonho acabasse e Fabinho voltasse a ser aquele garoto revoltado de antes. Ela não queria jamais reviver aquele inferno novamente.

— Novela mexicana, adora. A vida inteira essa novela. — disse Fabinho.

Fabinho tomou um gole do suco. Silvério perguntou:

— E aí, Fabinho? Tá feliz lá na agência do Érico?

— Não pagam lá essas coisas, não. Mas tá bom, né? — disse Fabinho. — Mil vezes o que a Giane me pagava na loja lá. — apontou para Giane.

— Pagava o que você merecia! — disse Giane, de boca cheia.

— Vai falar de boca cheia? Ô jumenta, cadê a educação? — disse Fabinho.

— Jumento é você! Quem é você pra falar de mim? Ah, palhaçada! — disse Giane.

Discutiram. Fabinho zoou a camiseta dela de pica-pau. Margot e Silvério acharam graça ao verem os filhos se implicando. Mais tarde, Fabinho foi à praça. Sentou-se no chão, apoiou a cabeça no banco e ficou olhando para o céu. Não conseguia tirar da cabeça o que havia quase acontecido entre ele e Giane. Custava a acreditar que aquilo tenha acontecido. Não parecia real. Será que ele não havia sonhado?

Fabinho não sabia bem o que sentia. Mas sentia alguma coisa por ela. Sempre a achou muito bonita e atraente, mesmo quando ela se vestia como um menino. Estava se sentindo cada vez mais atraído por ela. Ele a desejava, como nunca havia desejado nenhuma mulher. Ela sempre mexeu com ele de um jeito que nenhuma outra conseguia. Ele gostava de estar perto de Giane, de conversar com ela. Não conseguia tirá-la da cabeça. O que estava havendo com ele? Será que ele estava gostando dela? Será que estava apaixonado? Ele não sabia o que era gostar de verdade de alguém. Nunca gostou de Amora, havia apenas cismado com ela, colocado na cabeça que iria conquistá-la a qualquer preço. Era mais para disputar com Bento. Além do mais, Amora era rica, famosa, bonita.

Mas com Giane era diferente, desde o início. Ele não forçou uma aproximação com Giane, nem se aproximou dela por interesse. A aproximação aconteceu de maneira natural, e ele nunca imaginou que algum dia ele e Giane ficariam amigos. Ela era completamente diferente da Amora e da Mel. Giane podia não ser sofisticada, mas também não era superficial como as outras duas. Quanto mais a conhecia, mais ele a admirava. Giane era uma garota incrível: era esquentada, marrenta, sem papas na língua, mas também inteligente, engraçada, gentil, sensível. Será que ele teria alguma chance com Giane? Será que ela estava gostando dele?

De repente, o rosto de Giane apareceu diante dos seus olhos.

— Hum! Quem olha assim pro céu é porque tá pensando em alguém.

— Não tô pensando em nada, só tô olhando. — disse Fabinho.

É claro que ele não contaria para Giane o que estava passando por sua cabeça. Morreria de vergonha se ela soubesse. Nunca teve o costume de falar de seus sentimentos. Para ele, nunca foi fácil lidar com sentimentos.

— Ah, fala sério. Você nunca se apaixonou por ninguém? Frio. — disse Giane, sentando-se ao lado dele.

— Eu, não. Nunca. — disse Fabinho. — Quer dizer, uma vez, eu achei que estava apaixonado, mas era cisma.

— Ah, não. Me diz que não é quem eu tô pensando. — disse Giane. — Mas o quê que alguém vê naquela Amora?

Fabinho ficou feliz. Giane parecia estar com ciúmes. Ele sabia muito bem o ponto fraco da Giane. Giane tinha raiva da Amora, porque o Bento gostava da Amora. Além disso, Amora era bonita, vaidosa, feminina, anda-va sempre bem-arrumada e Giane se sentia em desvantagem. Ela não se achava páreo para Amora. E não gostava quando alguém elogiava Amora. Agora ela parecia estar com ciúmes dele, Fabinho.

Na verdade, Fabinho não disse que foi apaixonado por Amora, mas deixou Giane tirar a conclusão que quisesse, pois queria fazer ciúmes nela. Agora ele estava pensando que talvez, de certa forma, ele fosse a fim da Giane. Ele começou a desejá-la desde quando a reencontrou no noivado de Amora e viu que ela havia se transformado em uma mulher linda. Aos olhos dele, ela era uma gata selvagem, perigosa, sensual. A raiva que ele tinha dela não era apenas rancor, era também um disfarce para uma atração que ele mesmo não queria admitir e não conseguia processar, e lutava contra o que sentia, pois ela era parte de um passado doloroso que ele queria esquecer. Ele tentava não pensar nela, mas não conseguia. Quanto mais se esforçava para esquecê-la, ela invadia seus pensamentos.

Ele não queria desejá-la, mas seu corpo reagia à presença dela. Ele ficava o tempo todo em negação, mentindo para si mesmo, dizendo a si mesmo que não a queria, que ela não era seu tipo. A cabeça dele não a queria, mas o corpo dele a desejava. Se ele guardou rancor dela por tanto tempo, era porque ela era importante para ele. Ficar trocando farpas com ela, ao mesmo tempo em que o irritava, o fazia se sentir vivo. O fato de Giane não querer nada com ele funcionava como um combustível, um desafio aos olhos dele, só o fazia desejá-la ainda mais. Ela o atraía por ser uma mulher difícil. Ela não era fácil como a Mel, não se impressionava com a pose dele de herdeiro rico, não caía na conversa dele e o peitava, o enfrentava e o desafiava. Agora, ela parecia estar interessada nele. Contu-do, ele não confessaria nada a ela, enquanto não tivesse certeza, não soubesse exatamente o que Giane sentia por ele. Ele não tomaria nenhuma iniciativa, pois tinha medo de rejeição.

— A Amora é muito inteligente. A Amora é muito bonita. Tudo que você não é, né? — disse Fabinho, em tom de brincadeira. Ele e Giane riram. Mais uma vez, ele desdenhava de Giane para mascarar o que sentia por ela. Até porque admitir o que sentia o tornaria vulnerável.

— Ai, como você é ridículo. Vai te catar, garoto. — disse Giane, rindo.

— Cara, eu acho que eu nunca parei pra olhar pro céu, sabia?

— Ui, ui, ui! Como estamos sensíveis. — disse Giane, rindo e olhando para o céu, para a lua. — Aproveita e faz um pedido pra lua. Um amor pra ver se amolece esse coração de pedra aí.

Fabinho olhou para Giane e sorriu.

— Eu pedindo amor, é? É, pode ser. — disse Fabinho, rindo, olhando novamente para ela e em seguida para o céu. Fez o pedido. Quem diria que algum dia ele iria pedir amor? Logo ele, que detestava se mostrar vulnerável, carente, que fazia o durão o tempo todo.

Os dois ficaram por algum tempo perdidos em seus pensamentos.

Um amor... Então ela estava sugerindo que ele precisava de um amor. Fabinho nunca pensou que alguma vez ouviria Giane dizendo isso. Até pouco tempo atrás, ela o detestava. Mas pelo visto, ela não o odiava mais. E ele não tinha mais raiva dela. Não havia como ter raiva da garota que o salvou da morte. Era incrível como os sentimentos de ambos mudaram em um espaço de tempo tão curto.

Fabinho ficou pensando em um monte de coisas. Em tudo o que andava acontecendo em sua vida. Até alguns meses atrás, ele se deixara dominar por sentimentos ruins. Tudo o que sentia era um imenso vazio e raiva. Raiva de tudo e de todos. O que o mantinha de pé era o rancor. Só pensava em ficar rico e se vingar de todos que julgava serem seus inimigos.

Agora ele percebia o quanto estava perdido, ao se deixar dominar pela mágoa, pelo rancor e pela inveja, e que não sabia dar nem receber afeto. Não que não tivesse sentimento. Ele até gostava de algumas pessoas, mas não sabia demonstrar afeto, nem pedir. Pelo contrário, ele tentava conquistar o afeto das pessoas da maneira errada, acreditava que demonstrar sentimento era uma fraqueza e atacava até as pessoas de que gostava. Agora estava se dando conta de que não sabia amar direito. Além do mais, até pouco tempo atrás, ele não acreditava realmente no amor. Não acreditava em nada. Para ele, não existia amor, tampouco amizade. Não para alguém como ele. Por isso, era até estranho para ele falar em amor. Amor para ele era algo muito distante, inalcançável, uma abstração. Muitas vezes pensava que o amor era apenas uma ideia, uma invenção dos românticos. Ele fazia de tudo para ser amado e aceito, mas não conseguia. Então tentava ao menos conseguir respeito, medo e inveja dos outros.

Ele acreditava que vivia em um mundo onde uns derrubavam os outros. Não conseguia confiar nas pessoas. Estava convicto de que as pessoas próximas a ele só queriam ferrar com a vida dele, ou tirar algum proveito dele, por isso era difícil até aceitar ajuda. Era difícil confiar em alguém. Ele também não se sentia amado por ninguém. Pelo contrário, sentia-se eternamente rejeitado. Porém, agora, tudo mudou. Aos poucos, estava voltando a acreditar nas pessoas. Estava deixando para trás a mágoa, o ressentimento, o sentimento de vingança e a inveja. Hoje via as coisas de outra forma. A vida havia lhe trazido muito sofrimento, mas também muitas coisas boas. Uma mãe maravilhosa como Margot. A amizade de Giane. Pela primeira vez na vida, ele estava se sentindo amado e aceito.

Será que Giane queria somente sua amizade? Ou algo mais? Por que ela sugeriu que ele pedisse um amor? Será que a Lua atenderia ao seu pedido? Será que Deus existia? Ele atenderia seu pedido? Fabinho continuou olhando para o céu. Sentia-se em paz, como nunca se sentiu antes. E mais feliz como jamais havia sido. Por incrível que pareça, agora ele se sentia feliz, ali, na Casa Verde, lugar que por tanto tempo desprezou, por lhe trazer lembranças horríveis. Olhando para o céu estrelado, para a lua, dava para quase ter certeza de que Deus existia.