No dia seguinte, Fabinho continuava se informando, procurando saber das últimas notícias sobre Amora. Sempre acessava o site o mexerico.com. E estava lá, na página do site: “Amora Campana dá a volta por cima”. A matéria informava que Amora iria estrelar um comercial. Mas Fabinho não estava disposto a deixar Amora se dar bem. Ela iria pagar caro por tê-lo rejeitado. Ela já havia perdido todos os trabalhos por conta dos escândalos, mas no que dependesse dele, ela continuaria na lama. Ela não conseguiria reconstruir a carreira. Amora tinha que se dar mal.

— Não vai dar, não, porque eu não vou deixar.

A primeira coisa que fez foi ligar para Mel. Precisava saber que comercial Amora iria estrelar, para qual cliente. O site não informou nada a respeito. Mel continuava sendo estagiária da Class Mídia, devia estar sabendo de alguma coisa.

— Oi, Melzinha! Coisa mais linda do Brasil! Tudo bem? Vem cá, você sabia que a sua querida Amora vai fazer uma campanha?

— Fica tranquilo que isso não vai acontecer. — disse Mel.

— Como não? A mídia tá dando isso como certo, já. — disse Fabinho.

— Estaria certo se o cliente não fosse o meu pai. Tá bom pra você? — disse Mel, rindo. — Aquela lacraia não vai estrelar nenhum comercial do Kim Park.

Fabinho adorou a notícia. Amora andava muito azarada. E desta vez ele não precisaria mover uma palha.

— Melzinha, eu não sabia disso. — disse Fabinho. — A Amora vai quebrar a cara mais uma vez, graças a você?

— Espera pra ver. Depois eu te conto tudo, tá? Beijinho, gatinho.

Horas depois, Fabinho ainda olhava para a notícia sobre Amora em seu notebook. Estava disposto a acabar com ela.

— Eu não vou deixar você se dar bem. Eu não vou deixar você...

O celular tocou e ele atendeu. Era o número do Plínio.

— Oi, pai.

— Não, filho. Sou eu. — disse Irene.

— Mãe? — disse Fabinho, surpreso. — Mãe, é você?

Será que Irene voltou? Fabinho pensou que se ela ligou do celular do Plínio, com certeza estava no apartamento dele.

— É. — disse Irene. — Sou eu, filho. Como é que você está?

Irene estava no Rio de Janeiro, mas resolveu voltar para São Paulo depois de assistir ao programa da Sueli Pedrosa. Sueli dissera que Bárbara Ellen estava desaparecida, que estava fugindo da mídia depois que foi revelada a armação que culminou no sumiço de Irene e no fim de seu noivado com Plínio. Sueli disse também que outra vítima da armação era Fabinho. Irene resolveu que já era hora de acertar as contas com seu passado. Precisava falar com Plínio. Não podia mais fugir. À essa altura, Plínio já estava sabendo de tudo. Irene também quis procurar o Fabinho. Sueli dissera que o paradeiro de Fabinho era desconhecido.

— Eu tô bem. Eu tô bem. Eu tô no interior. Eu vim visitar a minha mãe adotiva. — disse Fabinho. — E você está com o meu pai, pelo visto, né?

— É. Ele tá aqui na minha frente. — disse Irene.

— Por que quê você foi embora sem avisar, mãe? — perguntou Fabinho. — Eu te procurei tanto. A gente tem muita coisa pra conversar.

Fabinho se questionou se ela realmente desconfiava de que tinha sido ele que havia mandado a Sueli Pedrosa atrás dela.

— Agora já voltei, filho. Olha, quando você chegar, avisa, tá? — disse Irene. — Eu e seu pai temos muito o que conversar com você. Um beijo.

Fabinho ficou feliz. Pelo visto, seu pai e sua mãe estavam juntos. Com certeza, estavam conversando naquele exato momento. Ele finalmente teria a sua família toda reunida, e ficaria rico. Levaria uma vida boa. E teria poder para se vingar de todos os seus inimigos. A começar por Amora.

— Minha mãe e meu pai juntos. — disse Fabinho, olhando para a fotografia de Amora no notebook. — Tô feito, Amora. — aproximou-se no notebook. — Feito, rico e pronto pra te destruir.

No dia seguinte, de manhã, Fabinho foi ao shopping fazer compras. Usaria o cartão de crédito. Depois pagaria a fatura. Afinal, ficaria rico. Dinheiro não seria problema. Precisava de roupas novas. Fabinho passou em várias lojas, gastou bastante em roupas e calçados. Cantarolou pelos corredores do shopping:

— Papai rico, vai me dar dinheiro e eu vou usar pra me arrumar inteiro!

Fabinho passou horas no shopping. Foi a uma relojoaria. Olhou na vitrine os relógios expostos. Entrou. O vendedor mostrou vários relógios. Fabinho pegou um dos relógios e largou sobre o balcão. Ele pretendia comprar o mais caro que tivesse.

— O peso... Tô achando tudo muito fuleiro, cara! — disse Fabinho. — Tô querendo alguma coisa mais vistosa. Você não tem nada, não?

— É claro! — disse o vendedor, mostrando outro relógio. — Este modelo aqui é de uma série limitada, mas aí já é outra faixa de preço.

— Não tem problema, não, querido, deixa eu ver. — disse Fabinho. Pegou o relógio e olhou. — Este aqui é mais legal, né? — colocou o relógio no pulso. — Este aqui dá até pra... — fechou o fecho e olhou o relógio. — Este aqui é o top de linha? Não tem mais caro que esse, não, né? Vrum-vrum-vrum! Vrum-vrum! — riu. — Este é legal, rapaz!

Fabinho resolveu ir embora. Foi até a garagem e pediu um táxi ao encarregado:

— Fala, meu querido! Táxi especial, por favor! Rapidinho! Isso aí, amigo!

Voltou para o hotel e bateu na campainha sobre o balcão. Queria fechar a conta. Não precisaria mais ficar naquele muquifo. Depois de conversar com os pais, com certeza ficaria no apartamento de Plínio.

— Pode fechar a minha conta, que esta é a última noite que eu passo nesse pulgueiro nojento. — disse Fabinho ao recepcionista. Bateu na campainha. — Querido.

Foi para o corredor, resmungando consigo mesmo:

— Não sei o que eu fiz aqui tanto tempo, rapaz. Tá louco.

Fabinho subiu para o quarto. Largou as sacolas no chão.

— Vamos ver o eu tá acontecendo aqui. — disse o rapaz, aproximando-se do notebook e digitou o nome de Bárbara Ellen no campo de pesquisa.

Pesquisou e viu que apareceram várias notícias sobre Bárbara Ellen.

— Ih, Bárbara Ellen! A vadia já tá aprontando, rapaz.

Fabinho ouviu batidas na porta. Quem poderia ser? Ninguém sabia que ele estava hospedado ali.

— Quem é? — perguntou.

A pessoa não respondeu. Continuou batendo na porta. Fabinho atendeu. Surpreendeu-se ao ver que era Plínio.

— Pai?

Abriu mais a porta e Plínio entrou.

— Entra. — disse Fabinho.

Plínio encontrou Fabinho por acaso. Ele daria uma palestra sobre história do cinema na livraria do shopping. Porém, acabou não dando a palestra, teve que cancelar, pois encontrou Fabinho no estacionamento do shopping e o seguiu até ali. Então era ali que o garoto se escondia. Plínio sabia que Fabinho não havia ido para o interior, como dissera. Maurício garantiu que Fabinho estava em São Paulo, havia cruzado com Fabinho duas vezes. Plínio falou com o dono do hotel, que disse que Fabinho estava hospedado ali há semanas. E para o rapaz se esconder, só podia haver um motivo: era ele que estava por trás dos boatos envolvendo Amora e Bárbara. Do contrário, Fabinho não teria por que se esconder, mentir que havia ido para o interior. E se a família adotiva era rica, por que Fabinho estava hospedado ali? Os pais adotivos não mandavam dinheiro? Plínio não estava entendendo nada.

Também ficou sabendo que Fabinho mandou a Sueli Pedrosa atrás de Irene. Foi a própria Irene quem lhe contou, quando veio procurá-lo em seu apartamento. Por isso ela desapareceu, fugiu para o Rio de Janeiro e só resolveu voltar agora, por conta do escândalo. Plínio até foi procurar Irene no Rio de Janeiro, depois de um conhecido de Bento, Filipinho, ter dito que havia visto Irene lá. Mas acabou não encontrando-a, e quando voltou para São Paulo, Irene o esperava no apartamento.

Para Plínio foi emocionante encontrar Irene, depois de tantos anos de desencontros, pistas falsas, trotes, golpes. Ao longo dos anos, um monte de gente tentou aplicar um golpe nele, se aproveitando de seu sofrimento. Sofreu demais com o sumiço de Irene. Durante anos, tentou encontrá-la. Contratou detetives, chamou até a Interpol, e nada. Havia até perdido as esperanças. Pensou até que Irene pudesse estar morta. Irene foi a única mulher que ele realmente amou. Depois de tanto tempo, Plínio finalmente pôde estar frente a frente com Irene, olhá-la nos olhos, falar com ela.

Ele e Irene passaram a noite inteira conversando, porém não conseguiram se entender. Plínio continuava magoado com Irene. Até entendia que ela estava doente. Mas não justificava o que ela havia feito. Ele sempre a amou e era fiel a ela. Ficou sabendo que ela também estava apavorada com a ideia de trabalhar na novela. Era mais um motivo para ela ter sumido. Irene nem dormia pensando em como seria a vida deles depois que a novela estreasse. Afinal, a vida deles iria mudar muito. Ela seria a protagonista, iria ficar famosa no país inteiro. Na televisão e no cinema, o reconhecimento do público era muito maior. Era diferente do teatro, onde somente quem assistia aos espetáculos conheciam os atores. Se ela fizesse a novela, ficaria conhecida por um número muito maior de pessoas. Porém, a mídia iria querer explorar a vida íntima deles e ela não estava preparada para ser exposta o tempo todo. Ela não queria que sua vida pessoal fosse devassada. Irene nunca quis fama e era feliz trabalhando no teatro. Por ela, ficaria no teatro, não migraria para a televisão. Irene não dissera nada para ele porque não queria jogar um balde de água fria no entusiasmo dele, e também tinha medo que ele desistisse dela, a achasse uma covarde. Plínio achava que Irene devia ter falado com ele sobre o que sentia. Dirigir a novela seria um desafio para ele, mas ele teria desistido se Irene tivesse falado com ele sobre o que sentia. Além do mais, ela não podia ter duvidado de seu amor, caído tão facilmente na armação da Bárbara, muito menos escondido que havia tido um filho dele. E o que mais lhe doía era achar que tudo poderia ter sido diferente se tivesse criado o filho. Talvez Fabinho não fosse esse rapaz sem escrúpulos. Era realmente impressionante como o rapaz mentia. Fabinho mentiu ao dizer que não sabia por que Irene desapareceu, e agora estava mentindo novamente.

Plínio observou o quarto.

— Então, era aqui que você estava esse tempo todo? — perguntou Plínio. Olhou para o notebook. — E pelo visto, muito bem informado.

— Você não acha natural que eu fique curioso? — disse Fabinho. — Você não viu a quantidade de matéria que saiu sobre a gente depois do escândalo lá, sobre a Bárbara Ellen?

— Por que você mentiu, dizendo que estava indo pro interior?

— Eu não menti. Eu cheguei ontem de viagem. — disse Fabinho.

— O dono do hotel me garantiu que você está aqui há semanas.

— É porque eu estou indo e voltando. — disse Fabinho. — Eu não estava só visitando a minha mãe adotiva. Eu estava também procurando a Irene.

— E por que não contou pra ela? — perguntou Plínio. — Ou será que você preferiu se esconder, pra poder difamar as pessoas mais à vontade?

— Bom, eu estou vendo que a Bárbara e a Amora fizeram a tua cabeça, né?

— Você deve me achar um idiota, que se deixa levar pela opinião de duas pessoas que não representam nada pra mim. — disse Plínio.

— Não, pai. Eu só acho que você é uma pessoa muito boa, que não consegue ver o que...

— Não, eu não sou uma pessoa muito boa. Eu enxergo muito bem. — interrompeu Plínio. — Eu gostaria de falar com sua mãe adotiva agora.

Fabinho não podia deixar Plínio falar com a mãe adotiva, de jeito nenhum.

— Ela não tem celular. — mentiu Fabinho.

Na verdade, a mãe tinha telefone celular e fixo.

— Mas deve ter um telefone fixo. — disse Plínio. — Então, ligue pra ela. Já!

Para Plínio era muito estranho Fabinho não falar absolutamente nada da família adotiva. E agora, estava dando desculpas para não ligar para a mãe. Parecia que Fabinho não queria deixá-lo falar com a mãe adotiva. Por que? Plínio tinha a sensação de que Fabinho estava escondendo algo.

Fabinho procurou o número da mãe no celular e mostrou a Plínio. Não havia saída, tinha de dar o número da mãe adotiva para o pai. Nem que fosse do telefone fixo. Mas no íntimo, torcia para a mãe não atender.

— Está aqui, o número da minha mãe, para você não falar que estou inventando.

Plínio digitou o número de Margot em seu celular e esperou. Porém, ela não atendeu. Fabinho ficou aliviado, mas disfarçou. Então Plínio deixou recado:

— Boa tarde. Meu nome é Plínio Campana. Eu estou aqui com o Fabinho e gostaria de falar com a mãe dele, com urgência. Por favor, retorne essa ligação, assim que possível. Muito obrigado.

Desligou o celular e olhou para Fabinho.

— Não é estranho? A sua mãe está tão doente e não tem ninguém em casa pra ajudá-la?

— Talvez, ela tenha ido ao médico. — disse Fabinho. — Não sei, Plínio. Você pode pensar o que você quiser. Tudo o que eu falo, você usa contra mim.

O celular de Plínio tocou e ele atendeu. Era Malu.

— Alô, filha. Você ligou na hora certa. Não. Eu tive que cancelar a palestra. Depois, eu te explico o porquê. A Irene tá aí, por perto? — esperou Irene atender. — Irene, eu estou aqui com uma pessoa que vai falar com você.

Plínio entregou o celular para Fabinho, que atendeu.

— Oi, mãe!

— Fabinho! Onde você está, meu filho? — perguntou Irene. Ela chegou à conclusão de que se Plínio estava com Fabinho, então o garoto não podia estar em Ribeirão Bonito. Ou estava? Será que Fabinho havia voltado para São Paulo? Como Plínio encontrou Fabinho?

— Estou em São Paulo. — disse Fabinho. — Vamos, vamos. A gente vai se ver, sim. Tá bom, mãe. Beijo. Tá, vou passar pro meu pai. Tchau.

Fabinho passou o celular para Plínio.

— Irene, você pode jantar lá em casa, hoje? Tá bom. Fico esperando. — disse Plínio, e desligou. Olhou para Fabinho. — Junte suas coisas e venha comigo.

— Pra onde? Sua casa? — perguntou Fabinho, abanando a cabeça. — Negativo. Depois, você vai falar que eu estou atrás da tua grana.

Para Plínio era óbvio que Fabinho estava atrás do seu dinheiro. Sempre desconfiou do rapaz, desde o início. Sempre se perguntou qual o interesse de Fabinho em se aproximar dele, se era por ele ser o pai ou por ele ser famoso, ou rico. Quanto mais descobria sobre o rapaz, mais certeza ele tinha de que o filho se aproximou dele por interesse.

— Não seja por isso. — disse Plínio. — Se você não está atrás da minha grana, você não vai ter.

Fabinho sorriu, sem graça.

— Combinado? — disse Plínio. — Então, faça a sua mala, que eu te espero lá embaixo.

Fabinho fez as malas e Plínio o levou para o apartamento. Ficaram horas esperando por Irene, que estava na Toca do Saci com Malu. Fabinho estava sentado no sofá da sala. Plínio andava para lá e para cá e olhava feio para ele. Não era possível que aquele rapaz mentiroso, cínico, dissimulado, sem escrúpulos fosse seu filho. A quem será que ele puxou?

— Por quê que você tá me olhando assim? Parece que você é da polícia. — disse Fabinho, nervoso.

— E por que isso te incomoda tanto? — perguntou Plínio. — Você tem alguma coisa a temer? Eu não te conheço, Fabinho. Por que você não se revela e me diz o que pensa, o que deseja, o que sente? É só isso que eu quero: sinceridade, honestidade, transparência.

Plínio se perguntava como ele podia amar um filho que não conhecia. Ele não podia aceitar que o filho fosse mau-caráter. Ele não merecia.

Fabinho achava que se fosse sincero, honesto e transparente, Plínio não iria querer vê-lo nem pintado de ouro. Plínio iria julgá-lo um interesseiro, e um monstro, por deixar a mãe adotiva pagar por um roubo em seu lugar. Plínio jamais o aceitaria como ele realmente era, com todo o seu histórico.

Irene e Malu chegaram neste momento. Fabinho levantou-se do sofá.

— Mãe!

— Filho! — disse Irene.

— Por quê que você fugiu daquele jeito? — perguntou Fabinho.

— Você mandou a Sueli Pedrosa atrás de mim, meu filho. — disse Irene.

— Por quê que eu faria isso? — perguntou Fabinho, dissimulado.

— Pra Irene procurar o meu pai o mais rápido possível, como você queria. — disse Malu.

Fabinho resolveu ser sincero desta vez, pelo menos em parte, e confessar que foi ele mesmo. Ele queria reunir a família, e claro que também queria usufruir do dinheiro do pai. Mas jamais diria isso.

— Eu só queria reunir a minha família logo. — disse Fabinho, aproximando-se de Irene e Plínio. — Eu queria poder olhar pra vocês e dizer... — colocou as mãos nos ombros dos pais. — Mãe, pai. Nós três juntos, finalmente.

Fabinho estava muito feliz de estar com seus pais. Ele ainda tinha esperanças de ser amado e aceito pela família, como tanto queria.

— O porteiro avisou que o Maurício tá subindo. — disse Celinha.

— O Maurício?! — espantou-se Fabinho.

O que Maurício veio fazer ali? Com certeza iria contar que o viu em São Paulo. E Plínio teria certeza de que ele estava por trás dos boatos envolvendo Amora, Bárbara e Malu, porque todos pensavam que ela era namorada do Bento e que foi traída. Fabinho ficou nervoso.

A campainha tocou e Celinha abriu a porta. Maurício entrou.

— Licença. — disse Maurício.

Amora entrou atrás de Maurício. Maurício disse:

— Boa noite. Desculpa ter chegado sem avisar, mas é que...

— Mas a gente não vai desculpar, não. — interrompeu Fabinho. — Isso aqui é um jantar de família. Por favor, vai embora.

— Se é um jantar de família, mais uma razão pra dona Margot estar presente. — disse Amora. — Por favor, entra, querida.

Margot entrou. Havia recebido o recado de Plínio, e resolveu ir para São Paulo. Já que Plínio queria falar com ela com urgência, então achou melhor vir pessoalmente. Chegando em São Paulo, foi ao apartamento de Verônica, e Santa acabou contando para Maurício que ela estava respondendo a um processo por um furto de Fabinho. Maurício contou para Amora, e ambos resolveram levar Margot ao apartamento de Plínio. Margot estava com medo de que Fabinho ficasse com raiva dela. Afinal, ele havia pedido tanto para ela não aparecer, não se meter, nem falar nada. Ela não tinha nenhuma intenção de prejudicar Fabinho.

No ponto de vista do Maurício, Plínio precisava saber quem era o filho dele de verdade. Fabinho não valia nada, fez mal à muita gente, até para a mulher que o criou, e tinha mais era que se ferrar. Para ele, acabar com Fabinho havia virado uma questão pessoal. Fabinho difamou ele e Amora. Amora foi injustiçada, perdeu trabalhos porque Fabinho instruiu a Mel a acabar com a imagem dela. Amora ficou com imagem de vagabunda e ele, Maurício, ficou com imagem de corno. Maurício queria fazer justiça. Ficou magoado com Amora quando ela mentiu para ele, o enganou, e rompeu com ele para correr para os braços do Bento. Mas ainda gostava dela, e não quis abandoná-la no momento em que ela mais precisava de apoio. Para Maurício, não era uma questão de paixão, mas de caráter, de justiça. Amora podia não ter agido corretamente com ele, mas não era justo ela perder todos os trabalhos por conta de calúnias.

Amora também veio ali para desmascarar Fabinho, acabar com ele, e Margot ajudaria nisso, mesmo a contragosto. Fabinho iria pagar por tudo o que fez a ela, Amora, e a um monte de gente. Era grata a Maurício por estar ajudando-a. Maurício tem sido maravilhoso com ela. Estava sendo a única a pessoa a apoiá-la no pior momento da vida dela. Infelizmente, ela não pôde contar com Bento. Bento não a entendia. Bento dissera que ela devia aproveitar a rasteira que levou e tomar um novo rumo na vida, e assumir o amor que sentia por ele. E escolheu o pior momento para pedi-la em casamento. Ela não aceitou. Bento era egoísta, não era capaz de apoiá-la, nem fazia esforço para entender que ela foi injustiçada, que perdeu tudo o que havia conquistado por conta de calúnias. Já Maurício a entendia, falava a língua dela. Estava fazendo de tudo para ajudar a limpar a imagem dela. Até arrumou trabalho para ela. Maurício estava trabalhando na Crash Mídia. Era uma pena não ter dado certo. Wilson não a quis como garota-propaganda, por ela ter dado uma surra na Mel. Mas foi melhor assim. Wilson nunca prestou, era um grosseirão. Foi melhor não ter feito campanha para o Kim Park. Ela ainda daria a volta por cima.

Ao ver a mãe adotiva ali, Fabinho ficou em choque, mas disfarçou, para não despertar suspeitas. Não estava gostando nada de ver Margot ali. Havia pedido tanto para a mãe não vir para São Paulo. Isso complicaria tudo, tornaria as coisas mais difíceis do que já estavam. E se ela veio com Maurício e Amora, com certeza já contou tudo para eles. Certamente, a Santa abriu o bico também. Como a mãe podia ser capaz de traí-lo dessa maneira? Se alguma vez pensou que podia contar com ela, estava enganado. Pelo visto, ele só podia contar consigo mesmo, mais ninguém. Para ele, o fato de Margot estar ali era uma confirmação de um de seus piores medos: ela não o amava de verdade. Se o amasse, não o prejudicaria.

— Desculpem a intromissão. — disse Margot.

Aproximou-se de Plínio e estendeu-lhe a mão:

— Margot Queiroz, eu sou a mãe do Fabinho, seu Plínio.

— Muito prazer! — disse Plínio, apertando-lhe a mão.

Margot pegou na mão de Irene.

— A senhora, eu vi no teatro há muitos anos: “Romeu e Julieta” foi uma das coisas mais lindas que eu já assisti. — disse Margot.

— Muito obrigada. E muito prazer. — disse Irene.

Fabinho estava nervoso. Tinha de dar um jeito de tirar a mãe adotiva dali. Fingiu preocupação com a saúde da mãe.

— Mãe, o quê que você tá fazendo aqui? Você tá doida, mãe? Seu coração. Você pode ter um infarto a qualquer momento. Mãe, vai embora, vambora.

— Infarto por quê? Nós estamos apenas conversando. — disse Plínio.

— Nossa! Tá na cara que o Fabinho ficou morrendo de medo da dona Margot abrir a boca, né? — disse Amora.

— Dona Margot, senta um pouquinho. — disse Irene. — Eu vou pedir pra fazerem um chá de camomila pra senhora.

— Não, não, não. Não precisa. Eu tô bem. — disse Margot.

Plínio percebeu que Fabinho mentiu ao dizer que a mãe adotiva estava doente. Margot não apresentava nenhum sinal de doença. Isso só confirmava sua suspeita de que o rapaz mentiu ao dizer que foi para o interior.

— Por que você disse que tinha ido pro interior cuidar da sua mãe adotiva que estava doente, se ela goza de boa saúde? — perguntou Plínio. — Quando é que você vai parar de mentir, garoto?

— E ele também disse que a família adotiva nadava em dinheiro. — disse Maurício. — Só que a dona Margot perdeu o marido e a fortuna há muito tempo.

Plínio já suspeitava que a família adotiva do garoto não fosse mais rica. Do contrário, Fabinho não teria se hospedado naquele hotel.

— O quê que a senhora faz pra se manter, dona Margot? — perguntou Irene.

— Eu faço bolos, docinhos pra festa. — disse Margot.

Margot olhou para o filho. Percebeu a aflição do rapaz. Ele também devia estar furioso com ela. Ela não queria prejudicá-lo, nem colocá-lo em situação constrangedora, mas também não podia mentir. Acreditava que a honestidade era o melhor caminho. Mas também sempre o defenderia.

— Filho, juro, eu não queria ter te colocado nessa situação. Eu sei que no fundo, você é um bom menino. — disse Margot. Dirigiu-se às demais pessoas na sala. — E é mesmo! Ele ficou assim depois que o meu marido morreu.

— Não, ele ficou assim porque a senhora ficou pobre. — disse Amora.

— E quem gosta de ficar pobre? Depois de um trauma desse, é natural que ele tivesse ficado um pouco revoltado. — disse Margot.

Para Plínio estava claro que Fabinho foi procurá-lo de olho na herança. A maior prova de que o rapaz era um interesseiro estava no fato de ter se revoltado com a queda do padrão de vida.

Fabinho ficou furioso. A mãe não estava ajudando em nada, pelo contrário, só piorou as coisas ao dizer que ele ficou revoltado pela falência financeira da família. Plínio e Irene ficariam com a impressão de que ele era um interesseiro, que só se aproximava das pessoas por dinheiro.

— Natural, dona Margot, seria ele ter mostrado gratidão por tudo que recebeu de vocês. — disse Maurício. — E não ter abandonado a senhora, ter deixado a senhora trabalhar feito uma louca pra sobreviver.

Fabinho ficou com mais raiva ainda. Era muito fácil para Maurício lhe dar lições de moral, criticá-lo por ter deixado a mãe adotiva sozinha em Ribeirão Bonito. Mas ele tinha de ir atrás da sua família biológica e lutar pelo o que era dele por direito. O que o mauricinho achava que ele deveria fazer, abrir mão da família biológica, da grana para permanecer em Ribeirão Bonito, na pobreza, ao lado da Margot, que nem era sua mãe de verdade? Não tinha cabimento. Isso não significava que ele pretendia apagar Margot da memória, esquecer dela, abandoná-la. Até gostava dela. O problema era que infelizmente ela se tornou uma pedra em seu sapato, e ele achou que precisava escondê-la. Mas ele pretendia bancá-la. Isso até ela resolver prejudicá-lo. Agora ele decidiu que ela não merecia. Além do mais, qual a dificuldade de as pessoas entenderem que Margot não era a mãe dele, que ele não se sentia filho dela? O fato de ela tê-lo adotado não fazia a menor diferença. Fabinho detestava o fato de as pessoas, o tempo todo, quererem obrigá-lo a enxergá-la como mãe.

Na opinião de Fabinho, Maurício não tinha a mínima ideia de tudo o que ele passou. Não sabia o que era ser pobre. Não sabia o que era ver a família perder tudo. Maurício sempre foi criado no luxo e nunca perdeu nada. Não sabia o que era passar por dificuldades. E sempre teve os pais por perto. Ele não sabia o que era crescer órfão, passar a infância toda em um lar e ser chutado que nem cachorro a vida toda. Além do mais, Maurício não tinha nada que se meter no que não era da conta dele. Era um problema entre ele, Fabinho, e sua mãe adotiva. E não adiantava o Maurício bancar o bonzinho, o justo, porque estava na cara que ele estava ali para se vingar, por ter ficado com imagem de corno. Maurício não foi ali para defender Margot. Maurício estava era usando Margot para fazer a caveira dele, Fabinho, para os pais.

— Quem é você pra me julgar? — esbravejou Fabinho. — Você sabe o que eu passei? — apontou para si e depois para Maurício. — Você cala a tua boca, mauricinho!

Para Maurício, nada justificava Fabinho ter abandonado Margot, muito menos ter botado a mãe na cadeia. Ele morria de pena dela. Na opinião de Maurício, Margot era uma coitada, e Fabinho não valia nada.

— Ah, e foi por isso que você deixou a sua mãe pagar por um crime que foi você que cometeu, ô bandido? — disse Maurício, furioso.

— O quê?! — espantou-se Irene.

Irene ficou chocada. Sabia que o filho tinha caráter duvidoso, mas até onde ia a crueldade dele? Como o filho podia ter sido capaz de deixar a mãe adotiva, que o criou com amor e carinho, pagar por um crime que ele cometeu? Que tipo de pessoa ela pôs no mundo? Ter um filho assim era uma tristeza para ela.

Será que Fabinho não tinha afeto por ninguém? Primeiro ele mandou Sueli Pedrosa atrás dela. Agora ela ficou sabendo que o rapaz deixou a mãe adotiva pagar por um crime que ele cometeu. Irene estava decepcionada. Fabinho era ainda pior do que ela pensava.

Para Plínio, era óbvio que Fabinho não tinha gratidão, nem um pingo de afeto pela mãe adotiva. Senão, não teria feito o que fez.

— Eu posso explicar. — disse Margot.

— Explicar o quê? — disse Maurício. Dirigiu-se a Fabinho. — E você não trate de negar, não, porque esse processo é público, Fabinho. Tá na internet. A gente pode conferir agora mesmo.

Para Irene, ainda estava sendo difícil de acreditar, de aceitar.

— Filho, isso é verdade? Você deixou essa pobre mulher que lutou tanto pra te criar assumir a culpa de uma coisa... — disse Irene.

— Não, não. Não foi bem assim. — disse Margot.

— Foi assim sim, dona Margot! Para de defender esse bandidinho! — disse Maurício, revoltado. — A gente sabe que a senhora tá pagando por um crime que foi ele que cometeu!

— De quê vocês vão me acusar mais? Vocês me chamaram de psicopata, de bandido. O que mais vocês querem? — disse Fabinho. — Vocês vão falar também que eu vim atrás do dinheiro do meu pai, por exemplo?

— Mas é muito cara de pau! — disse Amora. — Quando você me pediu em casamento, você disse “agora eu vou montar na grana”, “agora eu vou ficar rico”. — apontou para Fabinho. — Esse cara, que diz o seu filho, Plínio, ele já veio pra São Paulo pensando no seu dinheiro.

— Isso é mentira, pai. A Amora tá querendo me derrubar. — disse Fabinho.

— Meu filho, todas essas acusações são horríveis, mas o pior de tudo é essa história do crime. Do processo que a dona Margot... — disse Irene.

Nervoso, Fabinho resolveu inverter o jogo. Precisava limpar sua barra com Plínio e Irene, então inventaria uma história. Afinal, eles não conheciam Margot, e talvez acreditassem nele. Depois se entenderia com sua mãe adotiva. Ela não tinha nada que ter aparecido ali. Cansou de falar para ela não se meter. Ficou com raiva da mãe. Amora e Maurício agora estavam na mira dele. Não perdiam por esperar. Mexeram com a pessoa errada.

— Você quer saber a verdade? — interrompeu Fabinho. — Essa pobre senhora que tá aqui, ela... Ela roubou uma cliente e pra se safar, botou a culpa em mim.

— Fabinho! — disse Margot, chocada.

Ela tentou defendê-lo, e o que ela recebeu em troca? A acusação de ser uma criminosa. Quanta ingratidão! Em vez de confessar tudo o que fez e pedir perdão, Fabinho a acusava. Ele não estava arrependido, só lamentava ter sido descoberto. E era capaz de qualquer coisa para se safar.

— Não vai se fazer de coitada aqui também, não! — esbravejou Fabinho, apontando para ela. — Eu não aguento mais tudo que eu sofri com você! Pobreza, humilhação. Vocês ficam me julgando, mas vocês não sabem quem é essa mulher! Essa mulher é um demônio! Ela fez! Ela tanto fez, que ela conseguiu me transformar nessa pessoa que só consegue sobreviver na base da mentira, da dissimulação! Não é isso que vocês tão me acusando? De mentiroso? Pois é! — viu que Malu estava olhando para ele, claramente o condenando. — E não me olha com essa cara não, Malu! Não vem me olhar com essa cara de honestidade porque eu não tive paizinho rico pra me bancar! A minha mãe de verdade foi embora, a minha mãe adotiva quer me ferrar o tempo inteiro. Na hora de pagar por um crime que ela cometeu, ela joga pra cima de mim! Pro inferno vocês! Eu tenho ódio de vocês!

Malu estava chocada. Fabinho era um monstro. Como ele tinha coragem de acusar a mãe adotiva, que o criou com amor? Dava para ver que Margot era um doce de pessoa, e que amava o filho, mesmo ele não valendo nada. Impossível não gostar dela. Malu simpatizou com Margot logo de cara. Fabinho não tinha coração, pois tratou a mãe adotiva com desprezo. Como Fabinho podia ser assim, sendo criado por alguém como Margot?

Amora estava satisfeita. Derrotou um inimigo. Era um a menos para derrubá-la.

Fabinho caminhou até a porta, abriu-a e saiu. Maurício foi atrás dele:

— Peraí, Fabinho! Onde você vai? Volta aqui!

Fabinho não deu ouvidos. Desceu, pegou a moto e foi embora.