Um amor improvável
45 A cicatriz
Na rua, toda a vizinhança estava colhendo as flores, como sempre.
— A gente vai pegar as flores e levar lá pra Acácia Amarela. — disse Giane.
Fabinho ficou nervoso, tenso. Não seria nada fácil olhar na cara daquelas pessoas, ainda mais depois de tudo o que ele aprontou. Giane cumprimentou a todos:
— Bom dia, gente!
Todos os vizinhos surpreenderam-se ao ver Giane com Fabinho. O rapaz percebeu que todos olhavam torto para ele.
— Ô Giane, o quê que você tá fazendo aí com o Fabinho? — perguntou Lili, carregando uma caixa com flores.
— Bom dia pra você também, tio Lili. — disse Giane, e olhou para Fabinho. — O Fabinho vai me ajudar lá na Acácia Amarela. Ele vai ficar lá hoje.
— Hã? O que esse marginal tá fazendo aqui? — perguntou Socorro.
— Ele vai me ajudar hoje, Socorro. — disse Giane. — Por quê? Vai dedar ele também? Se quiser, aproveita e diz que ele tá lá em casa.
Giane e Fabinho dirigiram-se à van. Socorro disse:
— Olha aqui, você ainda vai se arrepender de hospedar marginal, hein?
— Vai te catar! Vai trabalhar, Socorro! — disse Giane, pegando a caixa com flores que Jonas trouxe.
— Giane, você tem certeza que vai deixar a loja com o Fabinho? — perguntou Jonas. Ele achava que Giane era uma maluca de deixar Fabinho na loja. E se ele tacasse fogo na Acácia Amarela, como fez na Toca?
Fabinho pegava as caixas que os vizinhos traziam e colocava na van.
— Jonas, você também? Vou, por quê? — disse Giane.
Fabinho já estava perdendo a paciência. Era natural que todos estivessem de pé atrás com ele, mas agora iriam ficar enchendo o saco? Logo ele e Giane estavam cercados pela vizinhança da rua.
— Eu também acho que você vai se arrepender, Giane. — disse Odila.
— Bom, só tirar todas as caixas de fósforo lá de dentro, né? — disse Jonas.
— Aí, mano, se tacar fogo na Acácia Amarela que nem você fez na Toca... — disse Lucindo para Fabinho.
Só que a paciência de Fabinho, que já era pouca, se esgotou. Ele não era culpado desta vez. Não incendiou a Toca do Saci.
— Eu não taquei fogo lá. Você acha que eu ia matar o Bento? — disse Fabinho.
Estava se segurando para não mandar todos ali para o inferno. Ele estava cansado de saber que havia feito coisas horríveis. Mas o que aquele pessoal pensava que era? Eles pensavam o que, que todo mundo ali era muito bonzinho, santinho? Nunca cometeram erros na vida? Nunca magoaram nem ofenderam ninguém? Quem pensavam que eram, para julgá-lo? E muitas das burradas, das loucuras que ele, Fabinho, fez, em parte era porque não se sentia bem. Porque ficou com ódio de todo mundo e quis se vingar, dar o troco. E se ele queria se vingar, se tinha tanto rancor, foi porque as pessoas deram motivos. Nada do que ele fez foi de graça. Ele assumia seus erros. Ele vacilou feio, mas não fez maldades por esporte. Tudo de ruim que ele havia feito foi reação ao que tinham feito com ele.
Não era apenas porque iria ficar rico. O dinheiro na verdade só facilitaria as coisas, lhe daria poder para destruir todos os que ele julgava serem responsáveis por seu sofrimento. Ele achava que todos ali eram culpados pelas desgraças de sua vida: por ele ter crescido longe dos pais, por ter adoecido. Aquela gente não tinha noção do que era sofrer de traumas. Mas não iria ficar se explicando. Até porque sabia que não havia justificativa para o que fez. Além do mais, ele não sentia necessidade de se explicar.
Ele não pretendia mais se vingar, não queria mais destruir as pessoas. Não iria mais usar o seu passado como desculpa para ser cruel. Ele tinha sim boa parte da culpa pela sua situação atual. Mas aquele pessoal devia era botar a mão na consciência, para variar, em vez de transferir toda a culpa para ele. Ele não era o único culpado. Todos ali tinham culpa. Ele errou sim, mas as pessoas ali também erraram feio com ele. Tudo o que ele sofreu na infância, foi por conta das falhas, da omissão daquela gente. Se ele se tornou um monstro como diziam, aquele pessoal tinha parte da responsabilidade. Gilson, Salma, Odila, todo mundo. Foram aquelas pessoas que o criaram. Para Fabinho, elas podiam não ser responsáveis por seus crimes, mas eram responsáveis por todas as suas mágoas, por seu rancor. Tudo o que ele fez foi por conta do rancor e do sentimento de vingança. Podiam ter dado mais atenção para ele, conversado de verdade com ele, demonstrado mais afeto por ele, elogiado ele de vez em quando, levado ele a um psicólogo, qualquer coisa, mas não fizeram absolutamente nada. Só sabiam dar bronca, criticar, menosprezar, colocá-lo para baixo. Agora, as pessoas ali não queriam ver seus erros e nem se quer pediam desculpas por terem mentido, por terem escondido dele a verdade sobre sua origem. Paciência. Podiam pensar o que quisessem. Ele não estava nem aí. Era muito cômodo para aquela gente se fazer de santinha, de correta. No ponto de vista de Fabinho, eram todos uns hipócritas. Ele ainda iria provar para todo mundo que não foi ele quem tacou fogo na Toca do Saci. Todos iriam se arrepender de acusá-lo. Aliás, pensando melhor, ele não iria provar nada para ninguém, até porque seria difícil de provar. Mas ele acreditava que cedo ou tarde, de algum modo, a verdade iria aparecer. Amora não conseguiria esconder suas tramoias para sempre.
Odila tinha certeza de que Fabinho ia matar o Bento.
— Mas por que não? Você tentou me matar, esqueceu? — disse Odila.
— Só que foi diferente. — disse Fabinho.
No ponto de vista de Fabinho, tinha sido diferente mesmo. Ele nem pretendia matá-la, para começo de conversa. Só a ameaçou para arrancar informações dela, forçá-la a contar sobre sua origem. E uma coisa nada tinha a ver com a outra, no raciocínio dele. Eram contextos diferentes, situações distintas. Só porque ameaçou a Odila, não queria dizer necessariamente que tentaria matar o Bento. De qualquer forma, ele não faria de novo. Não ameaçaria Odila de morte nem tentaria incendiar a ONG. Mas ninguém acreditaria nele. Então, ele desejava que se lascassem.
— Ah, tá... — disse Odila.
— Olha, eu sei que vacilei com todos vocês, mas eu queria pedir pra vocês me deixarem em paz, por favor. — disse Fabinho. — Eu tô quieto na minha. Só tô pagando a dívida que eu tenho com a Giane.
— Ah, mas é engraçado isso, né? — disse Lili. — Ele transformou a vida de todos nós num inferno e agora ele quer um pouquinho de paz.
Fabinho sorriu, irônico. Sim, a vida do Lili e de todos ali era um inferno. Todos levavam a mesma vida de sempre, continuavam vivendo em suas casas, trabalhando, colhendo florezinhas, e Lili fazia o maior drama. Dava para ver que todos estavam numa boa. Quem estava na pior era ele, Fabinho. Ele que viveu meses na rua, passou fome, passou frio, apanhou, se machucou. Quase morreu. Ainda restavam resquícios dos traumas, logo, continuava não se sentindo muito bem emocionalmente. Se não fosse a Giane e o Silvério, ele estaria morto. Ele que iria responder um monte de processo, e Lili vinha com esse papo? Para cima dele? Ele aprontou com aquele pessoal, brigou, ofendeu todo mundo, ameaçou, mas o que aquela gente sofreu não era nada perto do que ele mesmo sofreu. Ele ameaçou botar todo mundo na rua, mas não chegou a fazer nada. Tudo bem, ele não fez nada porque não deu tempo. Reconhecia que havia ido longe demais. Ainda assim, a vida daquele pessoal estava longe de ser um inferno. De todos ali da vizinhança, talvez quem mais tenha sofrido foi Odila, afinal, foi ameaçada de morte. Mas até ela estava bem. Muito bem. Ela estava vivinha da silva, vendendo saúde, trabalhando como sempre, tinha a família dela, os amigos dela, estava cercada de pessoas que gostavam dela. O mais prejudicado foi ele, Fabinho.
— A sua vida virou um inferno? — disse Fabinho, furioso, impaciente. — Eu tô vendo o inferno que virou a sua vida. Inferno virou a minha vida! Quem se ferrou aqui, fui eu! O que vocês querem mais? Tripudiar?
Ele podia até entender que todos estivessem com raiva dele. Afinal, por mais razões que ele tivesse para ter feito tudo o que fez, ninguém tinha obrigação de aceitar que ele mentisse, manipulasse, ofendesse, faltasse com o respeito a todos ali. Ninguém tinha de aceitar ou concordar com suas tramoias, isso ele até entendia. Mas também era muito fácil, muito cômodo para aquela gente posar de santa e apontar o dedo para ele, chamá-lo de marginal, assim aquele povo se sentia muito melhor que ele.
— Bom, pra começar, você podia fazer um pedido de desculpas pra nós todos, não é? — disse Lili, girando o dedo indicador, apontando para todos.
— Mas tem de ser de coração. Lá do fundo, hein? Senão não vale. —disse Odila.
Todos ficaram esperando Fabinho pedir desculpas, inclusive Giane. Porém, Fabinho não pediria desculpas. Tinha vergonha. Além do mais, para ele era difícil engolir o orgulho. Não sabia pedir desculpas. De jeito nenhum iria se humilhar na frente de toda aquela gente. Não daria esse gostinho a eles. Mesmo se implorasse perdão de joelhos, ninguém acreditaria nele mesmo. Não acreditariam que estava sendo sincero, que havia se arrependido de verdade. Com certeza iriam pensar que ele estava fazendo o bom moço, fingindo, representando. Não estava nem aí para aquele povo. Que se danassem, pensassem o que quisessem.
— Tô te esperando na van, Giane. — disse o rapaz, afastando-se.
— Não precisa, não. Já tô indo. — disse Giane. — Gente, tchau, tchau. Dá licença. — fechou as portas traseiras da van. — Bom dia.
— Tchau, vai... — disse Lili.
— Bom dia. — disse Giane.
— Tchau, Giane. Vai com Deus. — disse Odila.
— Vai, demônia! Vai se lascar! — disse Lucindo.
— Não acredito que a Giane caiu na conversinha desse cara, viu? — disse Jonas. Giane entrou na van, onde Fabinho a esperava.
Partiram para a Acácia Amarela. Mais tarde, na loja, Giane procurou mostrar a Fabinho como se fazia o arranjo de um vaso de flor.
— Olha, Fabinho, aí, você pega e coloca ele aqui no cantinho. — disse Giane, mostrando a ele como se fazia. — Tá prestando atenção?
— Tô. — disse Fabinho.
— E aí, você vai dando o acabamento, entendeu? Em volta. — disse Giane, colocando a vegetação em volta da planta. — Ok? Vamos lá! Então faz aí, você agora, vai! — tirou todo o material que havia acabado de colocar no vaso.
Colocou um vaso diante dele. Fabinho hesitou.
— Você sabe que eu não vou conseguir fazer igual, né? — disse o rapaz.
— Só tenta, Fabinho. — disse Giane.
Fabinho tirou a planta do vaso menor e colocou-a no vaso maior, onde estava a orquídea. Porém, Giane notou a má vontade do garoto. Estava com a cara amarrada. Fabinho realmente não estava de bom humor. Fazer arranjos de flor não era bem sua praia. Não gostava de trabalho braçal. Além disso, não tinha como ficar bem-humorado, se sentir bem com todo mundo olhando torto para ele. Às vezes dava vontade de desistir de tudo. Estava se esforçando ao máximo para mudar, mas continuava sendo tratado feito lixo pelas pessoas. Não estava sendo nada fácil. Se não fosse pela mãe, e por Giane, já teria desistido de tudo. Além do mais, não era fácil estar ali na Acácia Amarela. Aquele lugar lhe trazia lembranças ruins. Ainda se lembrava de que quase quebrou a loja inteira, aquela vez em que foi oferecer dinheiro a Bento para comprá-la. Ele quebrou vasos.
— Fabinho, se é pra fazer desse jeito, com essa cara de bunda, vai pra casa, né, cara? — reclamou a garota.
Era só o que faltava, depois de tudo o que ele passou, ainda ter que sorrir. Além do mais, ele nunca foi uma pessoa alto-astral, animada, sorridente. Seu jeito era outro. Ele era diferente. Não era igual ao Bento.
— Giane, eu prometi trabalho. Eu não prometi nem sorriso, nem simpatia. — Fabinho replicou. — Se você acha que eu vou ficar aqui conversando com flor, você tá enganada. Esse é o Bento e eu não sou o Bento.
— Hum! Nem tinha reparado. — disse Giane, saindo de trás do balcão. — Olha só, Fabinho, você faz do jeito que você quiser. Mas faz esse negócio direito. Se esforça um pouquinho, cara! — deu uns tapinhas nas costas dele.
— Tá bom, tá bom, tá bom. — disse Fabinho, e foi fazer o arranjo.
Ele ficou pensando se ainda queria viver ali na Casa Verde. Quando a mãe veio falar com ele sobre morar na casa que era da Charlene, ele concordou. Achou que seria uma chance de enfrentar os fantasmas e tentar reparar tudo o que fez de mal para as pessoas dali. Agora tinha dúvidas. Não seria nada fácil lidar com a desconfiança e a hostilidade do pessoal. Além disso, a rua ainda o fazia se lembrar de sua infância traumática. Mas não havia alternativa. Ele a mãe não tinham outro lugar para ir. Levaria tempo até a mãe encontrar outra casa para alugar, comum preço razoável, em outro bairro. Era melhor ficar na Casa Verde mesmo.
Fabinho e Giane continuaram trabalhando na loja. Giane começou a podar as plantas, e Fabinho começou a borrifar água nas plantas e flores.
Ao ver o garoto molhar as flores, Giane ficou admirada. Ele estava fazendo tudo direitinho.
— Hum. — disse Giane, descendo do banco. — Tá virando um belo de um florista.
— Hum. — disse Fabinho, sem jeito.
— Ih, o quê que é? Tá brincando de vaca amarela? Vai ficar sem falar comigo? — brincou Giane.
— E sobra espaço? Você fala pra caramba. Fala pelos dois. — brincou Fabinho. Giane não era muito faladeira também, logo, não podia criticá-lo.
Giane riu.
— Garoto, tu é muito mala, hein? Tudo bem, eu não falo. É melhor, que aí não fala besteira. — disse Giane, pegando umas flores.
— Exatamente. Vamos curtir o silêncio. — disse Fabinho, e foi mexer em outras flores, porém, acabou esbarrando com a perna machucada em um móvel. — Ai! Ai! — sentou-se no banco.
— O quê que foi? Se machucou? — perguntou Giane, deixando as flores sobre o balcão.
— Minha perna machucada. Ai, minha perna. — gemeu Fabinho.
— Ah, mas além de chato é desastrado, hein? — disse Giane, aproximando-se e abaixando-se para dar uma olhada na perna dele. — Deixa eu ver isso.
— Não, tá calmo aí. — disse Fabinho.
Ouviram batidas na vitrine. Olharam e viram que era o Caio.
— Ih, caramba! Seu namoradinho. Vai lá. Tá tranquilo aqui. — disse Fabinho.
— Giane. — disse Caio, nervoso, entrando na loja.
— O que é isso, Caio? — perguntou Giane.
— Eu não quero mais você perto desse cara! — disse Caio.
Fabinho achou que o cara só podia estar maluco. Ele não tinha querer, não tinha o direito de exigir nada. Primeiro que Giane não era mais namorada dele. Segundo, não estava rolando nada entre ele, Fabinho, e Giane. E mesmo se estivesse acontecendo alguma coisa, não era da conta de ninguém. Para Fabinho estava na cara que Caio tinha vindo ali bancar o herói, defender a mocinha do marginal. Que babaca!
— Caio, eu já falei que você não pode falar comigo desse jeito. — disse Giane. — Ei, eu não sou mais sua namorada!
— Quem disse que não? — disse Caio, antes de agarrá-la e beijá-la. Giane empurrou-o, mas ele não a largou. — A partir de agora, a gente tá junto de novo, Giane. E não adianta você espernear, que eu não vou te largar mais.
Deu para ver que Giane ficou furiosa. Fabinho pensava que não dava para culpá-la, afinal, o sujeito era muito abusado. Agarrou-a sem o consentimento dela.
— Caio! — disse Giane, irritada, fazendo com que ele a soltasse. — Por que você fez isso, cara? Você tá maluco? Sai daqui!
— Giane! Oi! — disse Lucindo, entrando na loja, batendo as mãos. — Coração, eu quero duas dúzias de rosa bem vermelha, tá? Porque, hoje, eu quero a minha Mangaba bem docinha.
Lucindo estava saindo com a mulher Mangaba.
— Ô, Lucindo, fala ali com o Fabinho, que ele vai te ajudar. Tô meio ocupada aqui. — disse Giane, olhando com raiva para Caio.
Porém, Lucindo não queria ser atendido por Fabinho.
— Com esse zóião aí, não tem conversa, não. Falou, Giane. — disse Lucindo, antes de ir embora.
Fabinho não estava nem aí para Lucindo. Lucindo podia pensar o que quisesse, olhar torto para ele, que ele não ligava.
— Ô Giane, você tá vendo, por quê que você não manda esse Fabinho embora daqui? — disse Caio.
Fabinho pensou que Caio era um idiota mesmo. Desde quando ele mandava na loja? Ele, Fabinho, não iria embora. Ficaria ali. Estava em dívida com a Giane e estava disposto a pagar. O Caio que se danasse. Se não gostou, problema dele.
— Caio, sai daqui! — disse Giane, irritada.
— Não! — disse Caio. — Chega! Eu cansei dessa enrolação! Eu gosto de você, Giane. Por quê que a gente não fica juntos?
— Porque eu não quero, cara! Eu não tô a fim! — disse Giane.
Caio ficou chateado por ter levado o fora. Fabinho achou bem feito.
— É dele que você gosta? — perguntou Caio, referindo-se a Fabinho.
Giane estava sem paciência. Pelo visto, ela não suportava os ciúmes do cara. Fabinho agora entendia por que ela deu o fora nele. Não era apenas porque continuava apaixonada pelo Bento.
— Claro que não, Caio. O Fabinho é o último cara que eu me interessaria.
— Então, de quem que você gosta? — insistiu Caio.
— Olha só, Caio... — disse Giane, com pena, colocando a mão sobre o ombro dele. Caio afastou o ombro.
— Você já sabe o que eu sinto, tá? Agora, tá na tua mão. — disse Caio. Olhou para Fabinho. — Fica esperta com esse cara aí.
Caio foi embora. Para Fabinho, ele já ia tarde.
— Abraço, querido. — disse Fabinho, e espirrou água atrás de Caio.
Que sujeitinho mala! Fabinho não entendia como Giane podia ter aguentado por meses aquele cara. Se bem que Giane devia estar carente, e certamente aceitou namorar o Caio para esquecer o Bento. E agora ela não queria voltar com o Caio por não suportar a chatice dele, e com certeza, ainda alimentava ilusões com Bento.
Fabinho aproximou-se de Giane, que estava no balcão.
— Giane, eu vou te falar uma coisa, na boa. — disse Fabinho. — Eu acho que esse cara tá certo, sabia? O cara é rico, bonito, você quer mais o quê?
— Quero alguém que não me dê ordens. — disse Giane.
— Vem cá, me fala uma coisa. Você mandou o cara embora por minha causa? Não, né? — disse Fabinho.
— Ah... — resmungou Giane.
— Você fez isso porque, no fundo, você ainda tem esperança de se entender com o Bento. — disse Fabinho.
— Claro que não. Tá legal? Já disse que não. — disse Giane.
Fabinho não acreditou no que ela dizia. Nem sempre as pessoas conseguem ser sinceras umas com as outras. Então disse que achava que ela continuava a fim do Bento.
— O que você tá dizendo aí, garoto? — disse Giane.
— Eu acho que você tem que esquecer o Bento.
— Ai... — resmungou Giane, enquanto cuidava do arranjo de uma flor.
— O cara tá casado, Giane. Não pega nem bem. — disse Fabinho.
Na opinião de Fabinho, Giane precisava esquecer o Bento de uma vez por todas, ainda mais agora, que ele estava casado com Amora.
— Meu Deus! Mas eu não tô mais a fim do Bento! Que coisa! Para de falar besteira! — disse Giane, impaciente.
— Então você trata de aproveitar, porque tá cheio de príncipe encantado por aí. — brincou Fabinho, e riu.
— O quê que você tem a ver com isso, hein? — disse Giane, atirando o material nele, brincalhona.
— Tá vendo só? Isso é coisa de gente que não sabe conversar. — brincou Fabinho.
— Vou enfiar isso aqui no meio do seu olho! — disse Giane, pegando a tesoura de poda.
— Eee! — disse Fabinho, pegando os borrifadores e ameaçando espirrar água nela.
— Ei! Com licença! — disse Pulquéria, que acabou de entrar na loja. — Eu queria um vaso bem bonito pra colocar na garagem. Assim, do lado da samambaia de metro.
— Claro. Eu vou te mostrar uma aqui. — disse Giane, indo buscar o vaso.
Giane atendeu a cliente. Fabinho continuou molhando as flores. Assim que a cliente foi embora, Giane disse, enquanto colocava flores nos vasos:
— Fabinho. Pega aquele vaso ali e bota no lugar daquele que a cliente levou. Só por causa dos absurdos que você me disse, hoje vai carregar pedra.
— Entendi. Agora que virou modelo, tem medo de quebrar a unha, né? — Fabinho zombou, enquanto espirrava água nas flores.
Ele viu que Giane fechou a cara e estava indo pegar o vaso.
— Não, não. Pode deixar. Eu pego. — disse Fabinho.
Pegou o vaso do chão e colocou-o na prateleira. O vaso era pesado.
— Caramba! — disse o rapaz.
A garota olhou para a cicatriz em sua mão.
— Fabinho... — disse Giane, pegando na mão dele e olhando bem para cicatriz. — Essa cicatriz aqui...
O rapaz puxou a mão. Ainda não queria que ela o tocasse. O trauma não seria superado de um dia para o outro, teria de ser aos poucos.
— O que tem? — perguntou Fabinho.
— Foi você mesmo aquele dia, né? Fala, Fabinho!
Fabinho lembrou-se do dia em que havia invadido a estufa, e Giane o enfrentou, cravou o ancinho na mão dele. Mas por que ela tinha de tocar nesse assunto desagradável? Pelo visto, seu passado estaria sempre assombrando-o.
— Giane, você vai voltar com toda aquela história, agora?
— Fabinho, eu não vou voltar com nada. Eu só quero entender. Fala! Foi você, né?
Irene entrou na loja neste momento.
— Fabinho! — disse Irene.
Ao ouvir a voz de Irene, ele virou-se. Irene disse:
— Que bom! Então é verdade. Você já tá de pé e trabalhando?
— Que bom que você chegou que eu vou vazar. — disse Giane, e deu um tapa nas costas de Fabinho. — Cuida de tudo aí, hein?
Giane afastou-se, andando em direção à saída. Tinha de ir a uma reunião na Crash Mídia.
— Posso ajudar? — perguntou Irene.
— Pode carregar vaso, você aguenta? — perguntou Fabinho.
— Como eu disse, não mudou nada. — disse Giane, antes de sair.
— Mudou, sim. — disse Irene, passando a mão no rosto dele. — Não é?
Fabinho ainda não conseguia entender o carinho que Irene tinha por ele. Ele perseguiu o Bento, fez tudo para prejudicá-lo. Como Irene podia não ter raiva dele, depois de tudo o que ele fez com o filho dela? Será que ela ainda não conseguiu botar na cabeça que era mãe do Bento, não dele?
— Irene, o quê que você quer? Que eu te abrace, que eu te chame de mamãe?
— Você pode me chamar do que você quiser. Porque, pra mim, você continua aqui, olha. — disse Irene, e mostrou a foto dele no colar que trazia no pescoço. — Pertinho do meu coração. — abraçou-o.
Irene ficou ajudando-o na loja. Jonas até ligou para a loja, avisando que Giane iria demorar um pouquinho. Também disse que Nelson queria mandar flores amarelas para Verônica na Para Sempre. Horas depois, Fabinho foi até a Crash Mídia entregar flores para Sílvia. Ao entrar, ouviu a voz dela:
— Verdade. Vamos ter que trabalhar nisso, viu?
Somente Jonas, Maurício e Sílvia estavam na empresa. Fabinho ficou sabendo que Érico sofreu um acidente de carro e continuava no hospital. Sofreu traumatismo craniano, foi operado e ainda não recebeu alta.
— Oi. — disse Fabinho, aproximando-se. — Flores pra Sílvia.
— Não são pra mim, querido. São pra Verônica. — disse Sílvia.
— Não, não. As da Verônica o Nelson pediu pra entregar lá na Para Sempre. — disse Jonas.
— Jura? Então são minhas? Lindas! Obrigada, Fabinho. Adorei. — disse Sílvia. Fabinho entregou as flores para ela.
Maurício estava desconfortável com a presença de Fabinho. Não suportava ficar no mesmo ambiente que ele. Continuava não simpatizando com o rapaz. Na opinião de Maurício, Fabinho não deixaria de ser um canalha de um dia para o outro, só por ter levado uma rasteira da vida. Ele não se esqueceu das atrocidades que Fabinho fez. Levantou-se da mesa.
— Ai que lindas! Maravilhosas! — disse Sílvia.
— Legal aqui, né? — disse Fabinho a Jonas. — Você faz o que aqui? É web designer?
— É. — disse Jonas.
Fabinho deu uma olhada no panfleto da campanha.
— Ficou boa essa foto, né? — disse Fabinho, e leu o slogan. — “De avó pra...”. É ruim esse slogan, hein, gente?
— O quê que você entende disso, Fabinho? — perguntou Maurício.
— Já trabalhei pro teu pai, esqueceu? — disse Fabinho.
— Nossa! — disse Maurício, irônico.
Fabinho continuava olhando o panfleto. Estava pensando em um slogan melhor para a campanha. Não queria nada, apenas ajudar. Ainda se sentia mal por ter feito Érico ser demitido. Era uma forma de compensá-lo. Uma maneira que encontrou de pedir desculpas.
— Massas Lancaster... “O sabor do amor na sua mesa”. — disse Fabinho, dando umas batidas na mesa. — Fica a dica, hein? De graça. Valeu, galera.
Voltou para a loja. Trabalhou até a hora de fechar, e Irene o ajudou. Assim que fechou a loja, Irene disse:
— Muito obrigada pelo dia que você me deu, Fabinho!
Irene adorou passar o dia ao lado de Fabinho. Agora não se sentia mal ao olhar para ele. Ela percebeu que Fabinho estava diferente. Não tinha mais aquela revolta, aquele brilho de raiva no olhar. Não tinha mais aquela energia estranha, pesada. E ele estava levando a sério o trabalho na loja.
Fabinho não sabia direito o que responder. Ficou sem jeito.
— O quê que você quer, que eu agradeça também?
Giane chegou neste momento.
— Pra você, é muito difícil ser grato, né, meu filho? — disse Irene.
— Não, filho não. Filho é o Bento. — disse Fabinho.
— Hum. Delicadeza em forma de menino, né? — disse Giane, apontando para ele. Só que Fabinho achava que Giane também não era exatamente a delicadeza em pessoa.
— Porque você passou na fila da delicadeza umas três vezes, né? — disse Fabinho.
— Bom, eu vou indo. Mas olha, foi um dia realmente delicioso! Tchau pra vocês! — disse Irene, indo embora.
— Tchau. — disse Fabinho.
Ele e Giane ficaram a sós. Fabinho perguntou:
— Demorou tanto por quê, hein? Onde é que estava?
— Resolveu tirar satisfação, agora? — perguntou Giane.
— Não, Giane. Eu não tô nem aí pra sua vida. É que antes de sair, você me fez uma pergunta e a resposta é sim. Fui eu sim!
— Foi você o quê, Fabinho? — perguntou Giane.
Pelo visto, Giane não se lembrava de que havia perguntado se ele foi o responsável pela destruição da estufa.
— Eu entrei na estufa do Bento e quebrei tudo. — disse Fabinho.
— Fabinho, por que você fez isso, hein? Por quê? Por que detonar a estufa do Bento? — perguntou Giane, chateada.
— Porque a gente brigou, a gente caiu na porrada, eu tava nervoso e queria descontar. Não sei, não sei, é isso. — disse Fabinho. — Você queria saber. Essa é a resposta. Está satisfeita?
— Só quero entender. Você ainda sente essa raiva das pessoas?
— Eu não sei mais o que eu sinto. — disse Fabinho.
Por muito tempo, ele guardou muita raiva dentro de si, muita mágoa, muito rancor das pessoas à sua volta. Sentia como se o mundo lhe devesse alguma coisa, sempre. Na verdade, ele não entendia bem o que havia acontecido com ele. Ele tinha mágoa, rancor. Mas não imaginava que seria capaz deter tanta raiva assim, a ponto de ter horror das pessoas, de querer apagar o passado e quem fazia parte dele, de se vingar, querer destruir as pessoas. Não imaginava que as coisas iriam tomar essas proporções. Agora não sabia mais o que sentia. Não sabia se continuava com raiva. Só sabia que não queria mais se meter em problemas. De nada adiantava brigar com todo mundo. Apenas queria reconstruir sua vida sem ser movido pelo rancor. Estava tentando deixar toda aquela revolta para trás. Mas não era nada fácil. Às vezes tinha vontade de mandar todo mundo para o inferno.
— Fabinho, você pelo menos se arrepende, cara? — perguntou Giane.
Fabinho virou a cara. Evitou olhar para ela. O que ela queria dizer com isso? O que ela entendia por se arrepender? Ele se sentia mal por tudo o que fez. Se pudesse voltar atrás, teria feito tudo diferente. Não teria destruído a estufa do Bento. Mas não era possível voltar atrás. Não era possível também consertar todo o mal, todo o estrago que causou. Ele não podia mudar o passado. Acabou nem respondendo à pergunta que Giane fez.
— Responde! — insistiu Giane.
— Não sei, não sei o quê que você quer saber! Se eu faria de novo? Não, eu não faria de novo! — Fabinho descontrolou-se. Estava melhorando aos poucos, mas ainda era difícil olhar para ela, falar com ela. E ele se sen-tia mal pelo o que fez.
— Fabinho! Você é muito... — disse Giane.
— Você vai me dar sermão? Você vai me dar sermão?
— Fabinho, abaixa o tom. Você tem que aprender a pedir desculpas, cara. — disse Giane. — Fabinho, pede desculpas. Anda!
Fabinho não queria pedir desculpas. Era humilhante demais. Afastou-se, saiu andando, furioso. Ela não podia forçá-lo a pedir desculpas. Além do mais, ele até poderia se desculpar, mas do jeito dele. Não como ela queria que fosse. Que mania que as pessoas tinham de achar que ele devia se comportar como elas esperavam.
— Fabinho? Fabinho! — chamou Giane, porém, Fabinho nem deu ouvidos.
Saiu andando pelas ruas, de cara amarrada. Até que avistou a van da Acácia Amarela, com Giane ao volante. Giane estacionou a van na frente dele.
— Ei, entra aí! — disse a garota. Fabinho entrou na van. Partiram.
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