Um amor improvável
43 A bola
À noite, Silvério voltou para casa e ajudou a cuidar de Fabinho. Conversaram bastante, e Silvério contou que Giane havia namorado o Caio, cinegrafista e fotógrafo, filho do Franklin Cardoso, dono da rede de joalherias Quatre Mondes. Giane e Caio haviam acabado de terminar o namoro, e foi Caio que transformou Giane em modelo. Caio havia até aberto uma agência de modelos, e Giane estava trabalhando nessa agência. Fabinho bem podia imaginar por que Giane terminou o namoro com Caio. Mesmo namorando outro cara, Giane não conseguia esquecer o otário do Bento.
— Pai, já liguei várias vezes pro Bento. Só dá caixa postal. — disse Giane, assim que entrou em seu quarto.
Silvério estava sentado no sofá, ao lado da cama, onde Fabinho continuava deitado. Silvério deixou o jornal que estava lendo de lado.
— Que tanto você tem que falar com o Bento, hein? É sobre a Amora? — perguntou Silvério.
— Ô pai, se ela fez o que ela fez, ela é uma bandida! Ele tem que tomar cuidado! — disse Giane, preocupada.
Fabinho achou que Giane não mudou tanto assim. Ela podia ter mudado o visual, mas continuava cuidando da vida do Bento. Era natural que ela se preocupasse com ele. Mas Fabinho sempre achou que Giane passava um pouco do ponto. Bento não era nenhuma criança. Ele sempre soube se defender muito bem. E cedo ou tarde Bento acabaria descobrindo por si só que Amora não valia nada. Ninguém precisaria mexer uma palha para isso. Até porque Amora não conseguiria encobrir suas falcatruas por muito tempo. Havia acontecido a mesma coisa com ele, Fabinho. Ele foi desmascarado, todas as suas armações foram descobertas. Não há mal que dure para sempre. De qualquer maneira, ele não queria mais ouvir falar de Bento e Amora. Ele pretendia cuidar da vida dele e deixar aqueles dois para lá, e ele achava que Giane devia fazer a mesma coisa.
— Gente, vem cá. Parou, né? — disse Fabinho. — Por favor. Não quero mais ficar ouvindo falar Bento e Amora, não. Deixa, acabou de picuinha, por favor.
Giane surpreendeu-se. Fabinho não podia culpá-la por ficar surpresa. Até pouco tempo atrás, ele vivia se metendo no relacionamento de Bento e Amora, fazia de tudo para separá-los. Armou intriga. Ameaçou e chantageou Amora para que se casasse com ele. Até tirou fotos dos dois e postou na internet, dizendo que estavam tendo um caso e que Amora estava traindo Maurício. Mas Amora não o interessava mais. Ele não ficaria mais disputando com Bento pelo amor de Amora. Ela podia ser a maior it girl do país, mas isso não tinha mais importância para ele. Ele não precisava mais casar com uma celebridade para provar seu valor. Não sentia mais a menor necessidade de provar para o mundo que era melhor que o Bento. Ele não iria armar mais para conseguir aprovação alheia.
— Você tá fazendo o bom moço só pra me mostrar que você mudou, né? — disse Giane.
Ele não estava fazendo o bom moço. Só não queria mais confusão. Achava que já havia se ferrado o bastante. Havia levado porrada de todo lado. E ele não seria idiota o bastante para se meter com Amora de novo. Ele aprendeu a lição. Cada vez que aprontava alguma coisa para cima da Amora, ele acabava se dando mal. Além do mais, ele decidiu mudar. Fabinho decidiu que não faria mais nada contra Amora, deixaria ela se ferrar sozinha. Amora podia ser inteligente e esperta, mas não conseguiria esconder suas falcatruas para sempre. Ninguém conseguia enganar todo mundo, ou quase todo mundo, por tanto tempo. Podia demorar, mas um dia ela iria ser desmascarada e ele iria assistir de camarote.
— Eu mudei? Não, quem mudou foi você. — disse Fabinho. — Teu pai me disse que estava até namorando.
Fabinho nunca havia visto Giane com um namorado. Até porque ela era a sombra do Bento. Só enxergava o Bento. Até pouco tempo atrás, ela andava com o Bento para cima e para baixo. Vivia em função do Zé Florzinha, que a via como irmã. Giane se iludia, achando que um dia Bento iria vê-la com outros olhos e nem pensava em sair com outros rapazes. Além do mais, antes de entrar no mundo da moda e passar a andar bem arrumada, Giane era vista pelos garotos da rua como se fosse mais um deles. Os rapazes não a enxergavam como mulher, e sim como um companheiro que jogava futebol com eles. Ela se vestia e se comportava como um moleque. Os rapazes da rua viviam zombando dela por causa disso. Agora, até namorado ela arrumou. Para Fabinho, não era nenhuma surpresa que um homem tenha reparado na beleza de Giane. Ele mesmo reparou, quando a reencontrou na festa de noivado da Amora. O que o surpreendeu era ela ter topado namorar com o tal do Caio. Afinal, ela só pensava em maneiras de fazer o Bento enxergá-la. Pelo visto, ela desistiu de tentar conquistar o Bento. Mas também não conseguiu esquecê-lo.
— Um cara bacana. Foi o Caio quem mudou a Giane. — disse Silvério, e levantou-se do sofá. — Pena que tenham desmanchado, né? Eu fazia gosto nesse namoro. Olha, não esquece de tomar o remédio, não, tá?
Fabinho levantou o polegar.
— Boa noite. — disse Silvério.
— Boa noite. — disse Fabinho.
— Boa noite, filha. — disse Silvério.
— Boa noite, pai. — disse Giane.
Silvério saiu do quarto. Foi se deitar. Fabinho perguntou:
— Por quê que você brigou com o Caio, hein?
Ele suspeitava que ela só havia namorado o Caio para tentar esquecer o Bento, e como não havia dado certo, terminou tudo com Caio.
— A gente não brigou, a gente... A gente virou amigo. — disse Giane. — É isso que a gente faz quando a gente gosta de alguém. A gente se afasta pra não magoar. Agora, vai dormir e não me enche o saco!
Giane saiu do quarto. Fabinho sorriu. Então Giane não estava livre, leve e solta. Ele se perguntava se teria alguma chance com ela. Duvidava. Giane jamais se interessaria por ele. Nem ela, nem mulher nenhuma iria se interessar por um homem com o histórico dele. Ele estava na pior, não tinha nada a oferecer, nem emprego tinha. Ele nem tentaria conquistar Giane, pois não queria correr o risco de ser rejeitado. Ele tinha medo de não ser bom o suficiente para ela. Para Fabinho, já era o bastante estarem se entendendo, ainda mais levando-se em consideração que até pouco tempo atrás, ela o detestava. No ponto de vista de Fabinho, ter a amizade de Giane era melhor do que não ter nada. E já era muita coisa. Ele não iria querer estragar tudo, cortejando-a.
Mas uma garota como ela não ficaria muito tempo sozinha. Devia estar cheio de rapazes correndo atrás dela. Se bem que ele não achava que Giane fosse dar bola para ninguém. Ela continuava gostando do Bento. Prova disso era que ela foi ao casamento do Bento e fez o maior escândalo para que ele não casasse com Amora. Fabinho sabia porque Silvério contou. Ela se preocupava porque Bento estava sendo enganado pela Amora. Mas no ponto de vista de Fabinho, não era apenas preocupação, do contrário, ela não teria terminado com Caio. Giane ainda não esqueceu a paixão pelo florista. Certamente, era por isso que ela terminou com o Caio. Caio devia ter se dado conta de que ela não conseguira esquecer o florista e resolveu tirar o time de campo. Até porque Giane jamais olharia para o Caio, nem para qualquer outro homem, enquanto estivesse apaixonada pelo Bento.
No dia seguinte, Fabinho acordou cedo. Sentou-se na cama, esticou os braços, as pernas. A perna machucada ainda doía. Margot chegou.
— Oi, filho! — disse Margot, alegre, entrando no quarto, sendo seguida por Silvério.
— Mãe! — disse Fabinho, sorrindo.
— Pela carinha, dá pra ver... — disse Margot, dando um beijo no rosto do filho. — Que você tá bem melhor. — sentou-se na cama. — Eu trouxe um monte de comida que você gosta.
— Que bom. Obrigado. Que bom que você veio. — disse Fabinho. Dirigiu-se a Silvério. — E a minha enfermeira, general, cadê?
— Tô aqui! — disse Giane, entrando no quarto. — Mas já tô indo embora. — entregou um envelope para ele. — Olha, pra você completar seu book.
Fabinho olhou para a mãe e abanou a cabeça. Tirou as fotos do envelope. Surpreendeu-se ao ver que eram fotos de Amora. Não entendeu nada.
— Mas não sou eu aqui não, maloqueira. — disse Fabinho.
— Ué, pra você matar a saudade da sua cocotinha. Palhaço! — disse Giane, saindo do quarto. A garota adorava provocá-lo.
Mas Fabinho não tinha saudade nenhuma de Amora. Ela não o interessava mais. Depois ele deu mais uma olhada nas fotos, e viu que Giane havia fotografado o acidente de Amora. Por que ela tirou fotos do acidente? Será que Amora havia forjado aquele acidente? Teria fingido ser atropelada? Possivelmente sim. Amora não se machucou muito e nem precisou ficar internada. Nas fotos, o carro não parecia estar em alta velocidade. Parecia estar parado. Na opinião de Fabinho, era tudo muito suspeito. Porém, as fotos não eram suficientes para provar nada. Seria preciso falar com o motorista do táxi. O homem não lhe era estranho, mas não se lembrava de onde o conhecia. Se era verdade que Amora havia forjado o acidente, por que ela fez isso? Se bem que na época, Bento estava namorando a Malu. Será que Amora forjado o acidente para comover o Bento, fazê-lo se sentir mal por estar com a Malu? De qualquer maneira, não era problema dele, Fabinho. Não estava interessado em ficar fuçando a vida de Amora, o que ela fazia ou deixava de fazer. Não tinha tempo a perder, para ficar querendo desmascarar a Amora. Ele estava na pior, e precisava pensar no que faria de sua vida dali para a frente.
Giane foi para a agência de Caio trabalhar. Silvério foi para a Acácia Amarela. Fabinho ficou sozinho em casa. Mais tarde, Irene veio visitá-lo. Irene havia trazido torta de limão.
— Torta de limão. — disse Fabinho, surpreso, e olhou para Irene. — Como é que você sabe que eu gosto?
Começou a devorar a torta.
— Foi a sobremesa que você pediu aquele dia no restaurante a primeira vez que a gente se encontrou. — disse Irene.
— Você se lembrou, né? — disse Fabinho.
Fabinho gostava de Irene. Não tinha como não gostar. Ela era tão doce. Ele tinha um carinho imenso por ela. Mas achou incrível Irene se lembrar da torta de que ele gostava. Não conseguia entender ainda todo aquele carinho que Irene demonstrava ter por ele. Afinal, ela sabia que o filho dela era o Bento. Por que tanto carinho comum marginal feito ele? Para Fabinho era difícil de compreender. Como é que ela não tinha raiva dele? Ele tinha aprontado tanto com o Bento. Irene devia ter raiva dele, não devia?
— Por que tanta preocupação comigo? Tanta gentileza? — perguntou Fabinho.
Irene não sabia bem o que responder, como explicar o que sentia. Nem ela mesma entendia. Gostava do Bento. Era maravilhoso ter um filho como Bento. Bento era uma ótima pessoa, cheio de qualidades. Era alto astral, bondoso, generoso, trabalhador. Que mãe não amaria, não se orgulharia em ter um filho como Bento? Mas, ainda assim, ela não deixou de enxergar Fabinho como filho. Em seu coração, Fabinho era como se fosse seu filho.
Passou vários anos enxergando-o desta maneira, e era difícil mudar. Ela podia ter um filho de sangue e outro de coração, por que não?
— Bem, você era meu filho até muito pouco tempo atrás. — disse Irene. — Os vínculos maternos não se rompem assim, tão fácil.
— Oi, Irene. — disse Margot, entrando no quarto.
— Oi, Margot. — disse Irene.
— Filho... — disse Margot, sentando-se na cama. — Consegui alugar a casinha que era da Charlene. Eu vou ligar já pro seu João, pra ele pegar nossas coisas em Ribeirão e já trazer pra cá.
Fabinho concordou em ficar na Casa Verde. Afinal de contas, precisava superar seus traumas, deixar toda a mágoa e rancor para trás. Não seria nada fácil, mas ele tinha de tentar, para conseguir seguir em frente.
Margot surpreendeu-se ao ver o filho comer torta de limão.
— Torta de limão? Você que trouxe? — perguntou Margot para Irene.
— Foi. — disse Irene.
— É a favorita dele. — disse Margot.
— Não é tão boa quanto a tua, mas tá ótima. — disse Fabinho. Para ele, ninguém fazia tortas melhor que Margot.
Margot estava feliz. O filho voltou a ser carinhoso com ela. Até elogiou a torta que ela costumava fazer.
— Ah, eu sabia que, um dia, você ia mostrar o seu lado bom.
— É? E quem é que disse que eu tenho lado bom? — brincou Fabinho. Ele não conseguia ver nada de bom nele. Só a mãe via. Se ela o amava e conseguia ver alguma coisa boa nele, talvez ele não fosse tão ruim assim.
— Eu, tua mãe, que te ama, que nunca desistiu de você.
Fabinho ficou sem jeito. Lá vinha Margot com pieguice. A mãe era bem chegada num dramalhão.
— Essa aí pensa que a vida é que nem novela. — disse Fabinho.
— Às vezes, ela é mesmo. — disse Irene. — Fabinho, você lembra que eu te disse que nos últimos 20 anos, não teve uma noite que eu tenha dormido... — pegou a medalha. — Sem antes dar um beijo na sua foto que a Odila me deu?
— Lembro. — disse Fabinho.
— Você sabe que agora, mesmo eu não sendo a sua mãe, eu ainda faço isso toda noite. — disse Irene, emocionada. — Só assim eu consigo dormir em paz.
O rapaz ficou sem palavras. Não sabia o que dizer depois disso. Terminou de comer a torta. Irene e Margot passaram horas com ele.
— Você precisa de mais alguma coisa, Fabinho? — perguntou Margot. — Eu posso trazer um...
— Não, não, tá tudo ótimo, de verdade. — disse Fabinho. — Eu... Eu agradeço muito. Eu só queria pedir pra ficar um pouco sozinho, agora. Quero pensar nas coisas. Pensar como vai ser minha vida daqui pra frente. Tá? Vocês entendem?
— Você vai ter muito tempo pra isso. — disse Margot. — Mas tudo bem. Se você quiser, a gente sai. Mas saiba que a gente vai estar sempre aqui por perto.
— É, quando você quiser é só estalar os dedos que a gente aparece assim, como se fosse mágica. — disse Irene.
— Tá bom. Pode deixar. Se tem uma coisa que eu aprendi é que eu não sou super-herói. — disse Fabinho.
Ele achava que não precisava de ninguém, que ele se bastava. Até porque não conseguia confiar em ninguém. Ele havia aprendido cedo demais que precisar das pessoas não era seguro. Estava enganado. Ele precisava das pessoas. Se não fosse pela ajuda de Giane e de Silvério, ele estaria morto. Sozinho, ele não teria sobrevivido. Desde quando Malu o acolheu na Toca do Saci, ele pensou muito e aos poucos estava voltando a acreditar no ser humano. Sobretudo depois que Giane salvou a vida dele. Qualquer pessoa iria repensar sobre a vida depois de quase morrer.
Margot riu.
— Ô meu filho, já é um começo. — disse Margot, levantando-se da cama e dando um beijo nele. Irene também lhe deu um beijo no rosto.
— Eu vou voltar, viu? Mesmo que você não queira. — disse Irene.
— Eu quero. Tchau. — disse Fabinho.
Irene e Margot saíram, e Fabinho ficou um tempo sozinho, refletindo sobre sua vida, sobre tudo o que fez e o que faria dali para a frente. Por muito tempo, se revoltou por ter sido abandonado. Sempre guardou mágoa, rancor. Quando foi adotado por uma família rica, achou que seria feliz, que teria a vida que sempre mereceu e fez de tudo para esquecer o passado e quem fazia parte dele. Contudo, mesmo em meio ao luxo, ele não conseguiu ser feliz de verdade. Quando a família adotiva ficou pobre, ele se revoltou mais ainda. Quis ter de volta tudo o que havia perdido. O dinheiro para ele era uma compensação pela infância difícil que teve. Ele descontou sua raiva nas pessoas, sobretudo na mãe. Não apenas por conta de pobreza, mas principalmente por ter sofrido tudo o que sofreu no lar. Por ter ficado traumatizado. Ele até tentou, mas simplesmente não conseguiu esquecer os traumas. Apenas reprimiu a revolta. Ele foi embora do lar adotivo com ódio do mundo, e acabou sobrando para a pobre da Margot. Ele ficou bravo por ter ficado pobre, sim. Não gostava de pobreza. Mas não era só isso. Ele passou a descontar na mãe não apenas a frustração de ter ficado pobre, como também toda a raiva que sentia do pessoal do lar e da vizinhança, do mundo inteiro, que para ele era um lugar hostil. Ele fez muita gente sofrer. Agora se dava conta de que foi injusto com muitas pessoas. Especialmente com a mãe adotiva. Nem sempre a tratou do jeito como ela merecia. Ela merecia amor, carinho e ele só a tratou mal.
O problema não era apenas a falta de dinheiro. É que teve dificuldade em enxergar os pais adotivos como seus pais. Ele foi adotado já grandinho. Para ele, pais eram os de sangue. Mas já que não podia ter os de sangue, aceitou ter pais de criação, embora para ele não fosse a mesma coisa. Mas na época não havia alternativa. Ele havia perdido as esperanças de encontrar os pais biológicos. Se não fosse adotado, ficaria no lar de adoção até completar a maioridade, e isso ele não queria. Queria dar o fora de lá, para não ter mais de conviver com aquele pessoal. Não queria ficar em um lugar onde não se sentia querido, do qual tinha horror. Quando foi adotado, fez de tudo para esquecer sua infância no lar de adoção, e procurou se dar bem com os pais adotivos. Fez de tudo para conquistá-los, para ser aceito por eles. Queria que os pais adotivos o amassem. Afinal, alguém no mundo tinha de amá-lo. Não queria voltar para o lar de adoção, não queria nem lembrar que aquele lugar existia. Queria esquecer que conheceu aquelas pessoas. Gilson, Salma, todo mundo. Apagou o passado, ou se esforçou para deletar. Fazia de conta que não foi abandonado naquele lugar, que a vida dele começou quando foi morar com a família adotiva. Teve bons momentos com os pais adotivos, nos primeiros anos.
Porém, Fabinho sempre teve dúvidas se os pais adotivos gostavam dele de verdade. No fundo, ele sempre achava que seria abandonado novamente, a qualquer momento. Além disso, a princípio, os pais adotivos queriam adotar o Bento. Só não adotaram o Bento porque ele não quis. Fabinho sentia-se sempre como uma segunda opção, como o “plano B”, um prêmio de consolação. Afinal, o casal não havia conseguido adotar o Bento, então teve de se contentar com ele. Ele precisou fazer charminho e se fazer de coitado para o casal resolver adotá-lo, enquanto Bento não precisou fazer nada. Mas apesar de fazer de tudo para esquecer o passado, inclusive para não lembrar que não foi a primeira escolha e fazer de conta que não ligava para isso, no fundo ele não aceitava ser a segunda opção. Para Fabinho, ter sido a segunda opção era uma prova de inferioridade, de que não foi tão valorizado e desejado pelos pais quanto o Bento. Levou um bom tempo, vários anos até ele ver as coisas de outra forma.
Fabinho não se achava digno de amor. Ninguém no lar gostava dele. Tinha uma sensação persistente de nunca ser bom o suficiente para as pessoas próximas a ele, de não conseguir agradar ninguém, de não ser capaz de corresponder às expectativas das pessoas, nem de fazer nada que prestasse. As pessoas no lar de adoção não o achavam tão especial e tão incrível quanto o Bento, muito pelo contrário. Não viam nenhuma qualidade nele. Viviam dizendo que ele não valia nada. Ouviu isso a vida inteira, e acreditou nisso. Só o Bento prestava para aquele pessoal. Todo mundo botava Bento num pedestal. Elogiavam tanto o Bento que ele pegou ranço. Bento tinha qualidades, ele não. Ele não era gente. Até a garota que brincava com ele não o valorizava. Por isso, Fabinho tinha sempre a sensação de que não era importante para ninguém, nem tinha valor algum. E achava que os pais adotivos, mais dia menos dia, iriam perceber que ele não valia nada e abandoná-lo. Ele estava cansado de ser chutado.
Mas quando foi adotado, procurou se dar bem com os pais, apesar de tudo, até porque tentava esquecer o passado e tudo o que fazia parte dele, inclusive os sentimentos negativos. Tentou esquecer a mágoa, o rancor, a inveja e se esforçou para se adaptar à vida nova com a família adotiva. O que não queria dizer que a vida em família tivesse sido exatamente um mar de rosas. Afinal, Fabinho reconhecia que dava trabalho para os pais. Vivia aprontando, até mesmo na escola. Anjo ele nunca foi, nem era a criança mais bem-comportada do mundo. No fundo, ele queria chamar atenção, ver até onde ia o amor dos pais. Até que o pai adotivo morreu, deixando a ele e a mãe adotiva na pobreza. E ele passou a descontar todas as frustrações na mãe. Não suportou viver na pobreza. Além de estar doente. Era também um folgado, não gostava de trabalhar. Queria dinheiro fácil. Agora ele estava se dando conta de que havia sido estúpido. Ele e a mãe eram pobres, precisavam de dinheiro.
Ele levou muito tempo para entender que a mãe adotiva gostava dele de verdade. Demorou a reconhecer todos os sacrifícios que ela fez e ainda fazia. E agora achava que havia sido muito injusto com Irene. Ela sempre o tratou com carinho. Por incrível que pareça, Irene parecia gostar dele de verdade. Ela não pensava como o Plínio, que ainda tinha um pé atrás com ele. Agora Fabinho se arrependia de ter mandado Sueli Pedrosa atrás de Irene. Ele foi muito egoísta e só pensou em seus próprios interesses, sem se preocupar com os sentimentos dela. Lamentava ter magoado Irene. Ele se arrependia de ter ido atrás de Plínio e de Irene por interesse.
Fabinho pensou que talvez tenha sido injusto com Gilson e Salma, e com a vizinhança. Gilson e Salma fizeram tudo o que podiam por ele na infância e até tentaram ajudá-lo quando ele estava na pior. Eles quiseram hospedá-lo quando ele estava na rua da amargura, Odila que não deixou. Gilson tentou ajudá-lo, ofereceu emprego, mas ele não aceitou por achar que merecia coisa melhor que trabalhar de garçom no Cantaí. Salma até deu dinheiro para ele se virar, se hospedar em algum hotel. Além do mais, ele vivia aprontando, como podia não querer que o criticassem?
Mas o problema era que só sabiam criticá-lo, nunca o elogiavam, só sabiam ver os erros dele. Sempre achavam que ele não fazia nada de bom. Nunca o incentivavam a melhorar. E nunca esconderam que preferiam o Bento a ele. Gilson e Salma não eram más pessoas, mas era evidente que nunca tiveram um afeto profundo por ele. Cuidaram e trataram bem dele por pura tolerância e dever, mais nada. Sempre o tratavam como caso difícil. O olhar deles para ele era de preocupação, frustração, reprovação, cansaço e vigilância, enquanto o olhar deles para Bento era de orgulho e brilho nos olhos. Fabinho não queria que ninguém cuidasse dele por obrigação cristã ou humanitária, ele queria ser amado de verdade, ser o orgulho de alguém. Ele queria sentir que pertencia a algum lugar, que ele era especial para alguém. Ele cresceu sentindo que o afeto era algo que nunca chegava para ele. Ele sentia que para ser amado teria que ser como Bento, e isso ele não conseguia. Ele acreditava que para ser amado e aceito tinha de fingir ser quem não era, ou destruir Bento. Ele nunca se sentiu filho de Salma e Gilson. Para ele a casa de Gilson não era um lar de verdade, era um depósito de crianças rejeitadas pelas famílias, crianças descartadas pela sociedade. Ele queria uma família de verdade, não viver num lar, numa instituição, por melhor que fosse.
Gilson e Salma também não contaram de onde ele veio, quem era a pessoa que o trouxe ao lar. Ainda assim, agora ele se dava conta de que não precisava fazer tudo o que fez. Gilson e Salma falharam, mas não eram más pessoas, talvez não tivessem tido a intenção de magoá-lo nem desejavam o mal dele. Se gostavam mais do Bento, paciência. Problema deles. No ponto de vista de Fabinho, Gilson e Salma não agiram por maldade, apenas não conseguiram ver nada de bom nele, amavam demais o Bento e o protegiam. Além disso, ele os afastou com sua agressividade, sua desconfiança do mundo e eles tinham mais afinidades com Bento. Ele foi injusto com Bento também. Bento era um chato, mas nunca lhe fez nenhum mal. Bento não tinha culpa por as pessoas jogarem confete nele o tempo todo. Para Fabinho, o problema não era nem o Bento, e sim os fãs dele. O problema era que as pessoas ficavam usando Bento como regra para julgá-lo e condená-lo, só porque ele não reagiu à orfandade da mesma forma que o Bento. O pessoal parecia cobrar dele uma maturidade e resiliência que ele não conseguia alcançar. As pessoas falharam com ele, Fabinho, sim. Mas ele também errou em querer se vingar, querer destruir, prejudicar todo mundo. Não precisava ter sido cruel. Agora entendia que dor nenhuma dava o direito de prejudicar os outros.
Agora se dava conta que as pessoas, ao esconderem coisas importantes do seu passado, ou trocarem os bebês, não tiveram intenção de magoá-lo nem tinham noção do mal que causaram. Até Odila não teve intenção de lhe causar dano. Ela não contou nada certamente porque Irene pediu para não contar, além disso, ela apenas quis poupar Irene, achou que ele iria dar trabalho e desgosto, fazer Irene ficar ainda mais doente. Embora fosse errado, pois querer proteger Irene era rotulá-la de fraca. As pessoas ali na rua erraram, mas se tinha uma coisa que Fabinho aprendeu, era que guardar raiva, rancor, mágoa e se vingar não levava a nada. Só trazia mais dor, mais sofrimento. Ele estava cansado de sofrer, de ferir os outros e a si próprio. Teria que se esforçar para perdoar o pessoal ali da rua. Para perdoar as crianças que zombavam dele, chamavam de Fraldinha, o excluíam. Mas seria difícil. Perdoar nunca foi algo fácil para ele. Mas se não perdoasse, se não deixasse a mágoa e o rancor para trás, continuaria sofrendo. Precisava perdoar. Não por Gilson e Salma, nem por ninguém ali da rua, pois Fabinho ainda achava que não mereciam. Afinal, as pessoas ali da rua não se importavam com o que fizeram de errado. Achavam que só ele errava, que ele não prestava. O pessoal ali da rua só sabia cobrar gratidão e consideração por tudo o que fez. Era mais por ele mesmo que precisava perdoar, não pelos outros.
Fabinho não ficou muito tempo sozinho. Nem bem Margot e Irene saíram, Giane chegou. Ficaram conversando enquanto ele tomava sopa. Falaram sobre as fotos da Amora. Giane disse que mostrou as fotos da Amora para que ele entendesse que não foi do nada que ela chegou à conclusão de que Amora podia ter ateado fogo na Toca.
— E aí? Gostou das fotos da Amora? — perguntou Giane.
— Eu dei uma olhada rápida. — disse Fabinho. — Aliás, eu acho que eu conheço o motorista de algum lugar. Mas eu não tô interessado em ficar fuçando vida da Amora, não. Eu acho que você tinha que fazer o mesmo.
— Eu até faria, se ela não tivesse casado com o meu amigo. — disse Giane.
— Amigo só? Tem certeza? — disse Fabinho, e tomou uma colherada da sopa. — Você não arrastava um caminhão por ele?
— Ainda arrasto, mas como amigo. — disse Giane.
— Hum. — disse Fabinho, sem levar fé no que ela dizia.
— Ah. — disse Giane, dando a ele uma sacola. — Pra você.
— Que isso? — perguntou Fabinho, deixando o prato sobre a mesa de cabeceira. Não esperava ganhar presente.
— Abre, ué. — disse Giane.
O rapaz tirou uma bola de dentro da sacola.
— Uma bola? — perguntou Fabinho, surpreso.
— É. — disse Giane.
— Por que uma bola? — perguntou Fabinho. Não estava entendendo nada. Por que ela resolveu dar uma bola para ele? Ele se questionou se ela havia se lembrado do dia em que chutou a bola dele e o carro passou por cima.
— Você não lembra? Pô! Eu rodei uma pá de loja, pra achar a mesma bola que você tinha. — disse Giane.
— A bola que você chutou e o carro passou por cima?
— Uhum. — disse a Giane, balançando a cabeça positivamente.
Ele nunca esqueceu do episódio da bola, até porque foi algo que o marcou. Mas já fazia tanto tempo que ele achava que Giane nem devia se lembrar disso. Afinal, ela nunca deu importância ao ocorrido. Não era algo que a tivesse afetado. Ele nem entendia por que isso lhe doía tanto. Talvez porque a bola era seu único presente de natal. Não era apenas o fato de ela ter destruído a bola, era o que isso significava. Lembrava-se bem do que sentiu quando sua bola foi destruída e ela o chamou de fresco: ele sentiu dor, humilhação, além de um sentimento de rejeição e de inferioridade. Esses sentimentos estavam sempre com ele. Na época ele achava que Giane tinha destruído a bola de propósito, por pura maldade, para mostrar o desprezo que ela tinha por ele. Ele passou vários anos acreditando que Giane não gostava dele, que só brincava com ele para mostrar para todos na rua o quanto era boazinha. Ele acreditava que Giane, no fundo, não era muito diferente das outras crianças do lar e da vizinhança. Ele nunca conseguiu falar sobre isso nem com ela, nem com ninguém, porque falar seria reabrir a ferida, tornar a dor mais real.
Agora ele achava que havia se enganado. Ela não havia destruído sua bola de propósito, para mostrar desprezo algum. Na época, ela não gostava dele tanto quanto gostava do Bento. Pelo menos, ela não tinha por ele o mesmo amor e a mesma admiração que tinha pelo Bento. Ela parecia gostar dele de um jeito diferente. Ou, para ser mais preciso, o que ela gostava era de desafiá-lo. Mas Giane não havia tido a intenção de magoá-lo, nem de feri-lo ou humilhá-lo. Ela não o excluía como as outras crianças faziam. Ela era uma das poucas pessoas que brincavam com ele, nem que fosse para provocá-lo e desafiá-lo o tempo todo. Ela não o ignorava completamente, e o aceitava. Do jeito dela, mas aceitava, nem que fosse como rival no futebol. Pelo menos, de alguma forma, ela o fazia se sentir aceito, importante. No jogo, ela o enfrentava de igual para igual, o que era muito diferente da caridade que Bento tentava oferecer, procurando incluí-lo nas brincadeiras com outras crianças, que o toleravam por causa do líder. As outras crianças não brincavam com ele por vontade, mas por dever. Ele sentia que Bento e outras crianças, as pessoas em geral, tinham de se esforçar para gostar dele, e isso o humilhava. Giane era a única coisa verdadeira, não forçada, que ele tinha no lar de adoção, a única referência de afeto, porque ela competia com ele no futebol por vontade própria, ao contrário do que acontecia com as outras crianças do lar de adoção. Isso, por si só, já ia além da mera tolerância que ele recebia dos demais. Agora ela mostrou que se importava com ele o suficiente para ter andado por várias lojas até encontrar uma bola idêntica à que ele tinha.
Mas ele se perguntava por que ela foi lembrar da bola agora.
— Por quê que você lembrou disso?
— Ué, você que delirou aí, falando dessa bola. Lembra não? Estava com febre, falando...
— Eu fiz isso? — perguntou Fabinho, perplexo.
— Ahã.
Fabinho ficou emocionado com o gesto da garota. Foi legal da parte dela, dar a bola de presente. Entendeu que era a maneira que ela havia encontrado de se desculpar, de dizer que não tivera a intenção de magoá-lo, humilhá-lo, que ela não destruíra a bola de propósito. Ela reconhecia que havia sido insensível ao chamá-lo de fresco, que a tristeza dele era legítima e que seus sentimentos importavam. Ela se importava com ele. Pela primeira vez na vida, sua dor estava sendo validada. Alguém o enxergava. Finalmente.
— Eu fiquei furioso com você, na época. Foi o único presente legal que eu ganhei, quando morava na casa do tio Gilson. — disse Fabinho.
Furioso era pouco. Aquilo acabou com ele, o destruiu. Para qualquer outra pessoa podia até parecer bobagem, ele ficar tão magoado e ressentido por Giane ter destruído a bola dele, há quinze anos atrás. Mas para ele não era bobagem. Não era pouca coisa. Na época, ele era uma criança. Ele ficou doente por causa disso. A bola era o único brinquedo que ele tinha, e foi destruído justamente pela única garota que brincava com ele, que dava alguma atenção para ele. E não era só isso. A mágoa não era só por causa da bola, mas por tudo o que ele sofreu na infância. Primeiro ele cresceu longe dos pais, e foi impedido de encontrá-los, porque as pessoas que cuidaram dele esconderam informações importantes de seu passado. Segundo, ele era muito rejeitado pelas outras crianças. Era o eterno excluí-do, chutado por todo mundo. Ele era o garoto problemático, o encrenqueiro que a maioria das crianças evitava. Além do mais, mesmo brincando com ele, Giane o provocava o tempo todo, o chamava de Fraldinha. Se bem que ele nem ligava que ela o chamasse de Fraldinha. Só não gostava que outras crianças o chamassem assim. Com Giane era diferente. Mas agora ele queria deixar toda a mágoa e raiva para trás. Além disso, ele também a provocava, a chamava de maloqueira.
— É... — disse Giane, sem jeito.
— Bom, dívida paga. — levantou-se da cama. — Agora, não enche mais o meu saco!
Giane saiu do quarto, deixando Fabinho sozinho, com a bola. Ele agora se arrependia por tê-la tratado mal, por ter sido tão cruel com ela. Ela era a garota mais incrível que ele já havia conhecido.
Fale com o autor