Um amor em A'Madiz
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Arábia, 1820 – Reino de A’Madiz
Maxine já deveria estar acostumada às pedras pequeninas que cismavam em perfurar seus pés descalços — ela não poderia sair no meio da noite de casa com os sapatos fazendo barulho a cada passo. A garota bem que gostaria que existisse outro modo de chegar até o muro que dividia todo o deserto do reino de A'Madiz, mas se fosse pela areia suas pegadas seriam percebidas pelos guardas reais e por cima das pedras ninguém poderia sequer tentar ver alguma pista de sua passagem por ali.
A jovem enfermeira, filha do médico real, estava ansiosa fazia quatro anos. Quatro anos, pensou com euforia, tanto tempo longe dele agora não era nada em comparação ao que sentia com sua chegada.
Há cinco dias o rei recebera uma mensagem de que o Príncipe Jaspar havia chegado em segurança ao porto. A passagem pelo deserto demoraria três dias mais dois dias de descanso após as semanas de viagem. Ela não podia acreditar que ele havia chegado.
Naquela noite uma festa ocorrera, com muita música e comida em abundância, Maxine o vira. Ele estava tão mudado, agora com os cabelos negros um pouco maiores, quase na altura do ombro, os olhos castanhos com respingos dourados ao redor das íris, tão mais brilhantes e amáveis, e seu corpo também havia mudado. Não era mais o menino franzino por quem se apaixonara, agora era um homem mais forte com traços ríspidos e um sorriso maroto nos lábios.
Contudo, quando seus olhos a miraram não fora o sorriso maroto que denotava ali em sua face, fora um sorriso amplo de felicidade que testou o frágil coração da garota. Ele bateu como não batia há anos. Jaspar ainda a amava, sem sombra de dúvidas.
A jovem olhou ao redor antes de virar a última curva que a levaria direto para o muro, o ponto de encontro que ela e Jaspar usavam desde a adolescência.
Ao fazer a última curva do trajeto, se sobressaltou ao ver dois guardas reais olhando diretamente em sua direção. Eles não deveriam estar ali, a menos que alguém houvesse mandado vigiar aquele ponto recentemente. Será que o alvoroço sobre os guardas seria porque a Princesa Jarisa se encontrava no reino? É claro que sim, a Princesa do reino de Emir era futura esposa de Jaspar. O coração dele poderia pertencer a Maxine, mas não ele. A jovem terminou soltando um suspiro de tristeza o que chamou a atenção dos guardas e se não fosse pela escuridão eles já teriam vindo em sua direção.
Sem reação, a menina permaneceu onde estava pedindo a divindade do deserto que a retirasse dali e, por alguns segundos, ela acreditou que isso houvesse acontecido. Após ter sentido um puxão na cintura, a fazendo cair sobre a areia fofa, sentiu um grande peso se espalhar por cima de seu corpo.
Maxine se recusara a gritar. Ela não iria trair Jaspar desse modo. Se fosse pega, ela seria forçada a contar o que fazia fora de sua cama àquela hora da noite, e como sabia chegar até o muro, já que era estritamente proibida a passagem de civis por lá. Ela permaneceu calada, com os olhos bem fechados, com medo do que poderia lhe acontecer. Ela sabia que não havia violência naquele reino, mas Maxine também sabia que por ser filha de uma mulher inglesa não era uma das pessoas mais amadas pelo povo.
— Ao invés de ficar imóvel poderia simplesmente abrir seus olhos e verificar quem a segura. — A voz, rouca e com o leve toque de deboche, ressoou em seus ouvidos.
Então Maxine se deu conta do perfume ao seu redor, amadeirado e com o leve frescor de Arak*, uma das bebidas mais fortes do deserto e que ele tomava com naturalidade. Abrindo os olhos lentamente conseguiu ver aqueles olhos que pareciam lhe mandar um feitiço a cada piscada que davam, o feitiço do amor que só o próprio deserto, tão confuso com suas tempestades de areia, entenderia a confusão entre o certo e o errado que sempre se enfrentavam no coração dela. Ele estava tão diferente após esses quatro anos inteiros distante da Arábia, estudando em outras áreas do mundo apenas para ser o melhor governante que o deserto já viu. Sua barba agora mais exposta e seus olhos carregavam muito mais do que ironias, estavam fadados de experiência e tranquilidade, algo que nunca Maxine havia reparado. Normalmente eram repletos de impulsividade e diversão, mas, mesmo assim, a jovem não deixou de sentir toda a atração que a guiava em direção a ele.
— Agora, gostaria de saber o porquê da senhorita não ter gritado assim que foi atacada, sabe que deve gritar por mim não importando as circunstâncias. — Ele sussurrou com rispidez.
— E é assim que você me trata após tanto tempo longe? — falou, ultrajada. A primeira coisa que ouvira dele fora um sermão e ela não gostou em nada disso — Como se atreve a me atacar de tal forma, seu diabinho!
— Ora, e se fosse um dos imprestáveis que te perseguem? — Ele parou com uma mão os punhos da amada que lhe atacavam no peito.
Ele sabia que ela odiava ser desafiada, confrontada e muito menos receber um sermão, mas não podia deixar de notar que ela não havia se preocupado com a própria vida. Durante os quatro anos distantes dali não houve sequer uma noite que Jaspar não houvesse pensado em largar tudo e correr de volta para seu reino e ter a certeza de que sua amada Maxine estaria sã e salva. Ainda mais com aqueles homens que viviam a perturbando desde a infância.
— E se fosse, qual o problema? — Ela o desafiou mais ainda — Me cuidei muito bem durante o tempo que esteve distante.
Maxine acertou em cheio, ferindo o orgulho do príncipe, mas ela não parou por aí, continuou a encara-lo. O desafiando a ser melhor, a ir a diante.
— Ora, sua garota rabugenta!
Foi então que ele finalmente colou seus lábios nos dela, um toque sensual e exótico como nada que já tivesse provado. Então ela lembrou-se da temporada inteira que passara em para saber se lá era seu lar ao invés da Arábia, Maxine achou que experimentaria algo que a fizesse permanecer na Inglaterra, mas nada a fez parar, muito menos algum homem. Nenhum tinha as características que a faziam abanar aquele leque ridículo ou usar sais que para nada serviam. E usar aquele espartilho apertado atrapalhava sua respiração, e quando disse isso as senhoras da Ton quase fora morta acusada de ser uma cortesã em meio a sociedade Londrina.
Jaspar moveu os lábios e persistiu no beijo, o intensificando e mostrando para ela toda a saudade que havia sentido. O gosto era único, apenas dele, só dele, e ela amava demais aquilo!
Ele separou seus lábios abruptamente dos dela, se levantando e, ainda a abraçando, carregando-a junto de si e tendo o cuidado de apagar suas pegadas na areia ao arrastar-se para longe. Jaspar a segurou pela cintura e encostou-se à parede de uma casa ali perto, dentro da escuridão – ainda se escondendo dos guardas —, e abraçou o corpo pequeno e esguio da mulher em seus braços. Beijando o topo de sua cabeça percebeu que ela estava coberto pelo tradicional véu que o impedia de ver os cachos loiros de Maxine. Com um puxão o arrancou e o jogou na areia a seus pés.
— Jaspar, meu véu — Reclamou, mesmo assim soltou uma risada e o abraçou pela cintura, afundando seu rosto no peito musculoso dele.
— Ah, estava com tanta saudade de ouvir meu nome em seus lábios. — Jaspar confessou abraçando com força o corpo minúsculo.
Foi então que Maxine conseguiu deixar a euforia de lado e se concentrar no que tanto havia treinado para fazer. Chegara a hora. Ela tinha que ser forte e conseguir se vencer, quem deveria terminar com aquilo tudo era ela.
O príncipe se assustou ao sentir as mãos pequenas de sua amada empurrar seu peito para conseguir se afastar. Ele então, com a ajuda da luz do luar, reparou no caftan*¹ verde água que ela usava, suas mangas e bainha eram enfeitadas com tranças de passementerie*² e por último um sarwal*³, uma calça larga com abertura lateral que lhe permitia admirar as longas pernas de mulher a sua frente. Ele sorriu por vê-la usando os trajes tradicionais de seu país. Se lembrou então de quando fora até a Inglaterra, escondido do pai, surpreende-la em um baile. Ela estivera tão linda com os trajes das mulheres londrinas, mas também completamente diferente da mulher que ele amava.
— Precisamos conversar. — Ela anunciou retorcendo as mãos uma contra a outra.
— Sim, é claro que precisamos. — Jaspar exclamou entusiasmado quase se esquecendo de que eles deveriam se manter reservados por causa da ronda que logo passaria por lá — Eu vi tantas coisas, Maxine, gostaria que estivesse comigo, você iria amar os lugares pelos quais passei e tudo qu...
Foi então que o Príncipe se interrompeu ao ver sua bela amada o encarando com os olhos marejados. Envolvendo seu rosto com as duas mãos, ficando cada vez mais preocupado com o comportamento de Maxine. Mas antes de falar ela retirou com extremo carinho suas mãos do rosto dela.
— Você disse uma vez — Ela começou levantando um pouco a manga de seu braço direto expondo um bracelete simples com apenas uma esmeralda o resplandecendo — que essa joia pertenceria a próxima esposa do rei de A'Madiz. – Maxine retirou o bracelete que teve cuidado, desde seus quinze anos, de esconder dos olhos curiosos até de seus pais — Então acho que deveria entregar a Princesa Jarisa.
— Está errada — Jaspar desencostou as costas da parede e recusou em segurar o bracelete —, isso pertence a você, assim como meu coração.
— Não, pare de falar essas coisas, sabe que não poderá evitar que se casem daqui a um mês. — Maxine balançou a cabeça com força deixando as lágrimas se espalharem por seu rosto — Vocês serão o futuro, poderão ajudar tantas pessoas nesse deserto e com a mente aberta conseguir a paz por todo seu domínio, entre todos os clãs aqui espalhados.
Ela tentava ser racional como tinha sido ao treinar por tanto tempo. Maxine era inteligente o suficiente para saber que o relacionamento com o príncipe de A’Madiz nunca daria certo. Ele fora prometido desde seu nascimento a Princesa de Emir, uma mulher pela qual Maxine nunca conseguira odiar, Jarisa mesmo com seu título de princesa ela era gentil, simpática e muito bondosa. Jaspar tinha suas obrigações com seu povo e se ele não fosse desistir de tudo aquilo, ela teria que fazer.
— Então se case comigo. — Jaspar a segurou pelos ombros, ele estava desesperado, não podia perder a única coisa que sempre esteve certo em sua vida — Escute-me! Se aceitar minha proposta de casamento largarei tudo e me casarei com você!
— Como pode me fazer uma proposta assim? — Ela perguntou deixando o bracelete cair de suas mãos para usa-las ao sufocar seus soluços.
— Porque eu a amo e não suportaria viver sem você ao meu lado. — Confessou levando suas mãos para o rosto dela e deixando a testa cair sobre a dela.
— Mas e a Princesa Jarisa? — Ela estaria pensando em fugir com o príncipe? Talvez fosse uma alternativa, eles sabiam sobreviver no deserto, poderiam sobreviver, mas...
— Compreenderá minha decisão, garanto! — Jaspar fechou os olhos aliviado, acreditando que sua amada estivesse desistindo da louca ideia de deixá-lo.
— E sua irmã? — Perguntou com a voz rouca após o choro.
— Droga, Maxine, o que minha irmã tem a ver conosco? — O Príncipe, confuso com tudo, perguntou.
— Tudo, você não entende? — Maxine estava inconformada, como ele podia pensar apenas neles nesse momento crucial? Os dois se amavam sim, mas ele tinha deveres a cumprir e não podia deixa-los de lado por puro capricho — Ela será forçada a se casar com alguém para união de povos.
— Sim, é isso que acontece por aqui! — Ele a informou, mas não era necessário, os dois sabiam muito bem como as coisas funcionavam.
— E não acha isso injusto? — Maxine teve que se controlar para não gritar — Você será livre e deixará o fardo nas costas de Linha, como pode?
— Maxine, por favor. — Ele tentou lhe explicar o que se passava em seu coração. Amava sua irmã, mas como sobreviveria sem Maxine?
— Não — Negou com veemência e, engolindo em seco, determinou quase caindo novamente em prantos —, seja feliz com Jarisa.
— Você está me destruindo. — O príncipe disse rancoroso, não com ela, mas com tudo que estava acontecendo o impedindo de ama-la.
— Isso tudo me destrói, Jaspar! — A mulher abriu os braços já não controlando suas emoções, oras, já não as controlava fazia muito tempo.
— Estou tentando apenas ser feliz. — Ele tentou se aproximar dela novamente, mas ela deu um passo para trás, recolheu o véu do chão e se virou, dizendo sobre o ombro:
— Então seja, mas bem longe de mim!
Notas finais
Vou deixar aqui embaixo algumas palavrinhas que talvez tenham deixado vocês curiosas para saber o que eram exatamente. Um beijo GRANDÃO e espero vocês no próximo capítulo.
*¹caftan é um casaco ou sobretudo abotoado pela frente que chega aos joelhos, com mangas longas. Pode ser feito com lã, seda ou algodão.
*² passementerie é um trançado elaborado, feito com fios de ouro e prata.
*³sarwal um tipo de calça mais larga, normalmente feita do mesmo tecido que o caftan, formando uma combinação (até onde sei!).
* Arak é um destilado árabe de uvas ou tâmaras com infusão em anis.
Espero que estejam gostando!!
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