Um amor Silencioso!
1 Um novo mundo
Notas iniciais
O ano letivo já estava na metade quando meu pai decidiu aceitar um cargo melhor em outra cidade, então não tive outra escolha senão largar tudo e mudar de vida com eles. Mudamos para uma cidadezinha pequena e aconchegante, uma casa maior e uma vida nova. Mamãe conseguirá uma transferência para o colégio, onde ela seria professora de matemática, e é claro isso garantiu minha matrícula.
Deixei para trás meus amigos e tudo que conheci a vida toda. Tenho 16 anos e não sou muito de sair. Meus amigos e eu costumávamos passar os fins de semana jogando ou vendo filmes. Agora eles estavam a um dia de viagem de ônibus se eu quisesse ir visitá-los, com um pouco de sorte, 2 terços desse tempo de carro se meus pais quisessem me levar.
O Colégio novo era bem grande. Dois andares, com um ginásio separado, também haviam duas quadras externas e o pátio, o prédio da cantina também era separado. Uma das quadras era para vôlei, a outra para esportes em campo de grama, no fundo ficava a piscina para a equipe de natação. O colégio era bem focado nos esportes e logo na entrada tinha uma grande galeria de troféus e prêmios.
Eu havia chegado atrasado junto com minha mãe. Enquanto ela levava o carro para o estacionamento pediu para aguardar na entrada. Ali ficavam painéis de recados, em uma das paredes era repleta de troféus e prêmios. Eu estava olhando os troféus quando um cara mais velho que eu, talvez um ou dois anos, parou ao meu lado!
Ele não disse nada, apenas ficou olhando as medalhas de algumas competições. Fiquei um pouco desconfortável e não olhei para o lado, mas podia ver o reflexo dele pelo vidro. Ele era mais alto que eu, cabelos castanhos e bagunçados, estava com uma calça um pouco larga e uma camiseta surrada com uma estampa que dizia “No Stress”, o tênis estava sujo de lama, podia ver os dele quando abaixei os olhos, e notei que ele tinha um sorriso de deboche nos lábios quando voltei a olhar para cima.
— Anderson? — Minha mãe chamou quando entrou. — Vamos?
Fiz que sim com a cabeça e, depois de dar uma última olhada na vitrine de troféus, me virei para ir de encontro a ela. Como último recurso, dei uma última olhada para trás e vi o garoto olhando, ainda com aquele sorriso, depois se virou e foi embora pela saída.
Ficamos alguns minutos na sala do diretor para as apresentações e uma simpática secretária me levaria para minha turma. A turma, para a qual minha mãe daria sua aula, fora dispensada para não sobrecarregá-la logo, ela entraria em ação apenas no segundo turno.
Caminhamos pelos corredores e subimos até o segundo andar.
— Essa é sua sala. Aqui estão os horários das próximas matérias. Como explicamos as turmas são fixas: o professor vem até vocês aqui e não vocês até ele. Tente não sair da sala na troca dos professores, ok?
— Sim, Sra. — respondi com a voz baixa e ela me deu um sorriso.
Ela bateu na porta e a abriu, se colocando para dentro quando o professor disse “entre”.
— Olá, Sr. Raul. Temos um aluno novo, o diretor pediu para trazê-lo até aqui.
— Sim, claro. Prazer, sou o Professor Raul de Química, e você é?
— Anderson! Sr.
— Seja bem-vindo Anderson, sente-se. Há lugares vagos aqui e ali. Prefiro que fique mais a frente, já que o fundo costuma estar tumultuado.
Ouvia risadinhas e não me virei para ver de onde vinham. Olhei rapidamente as opções e tinha dois lugares vazios bem ao canto, próximo ao professor. Decidi deixar o primeiro livre e me sentei no segundo.
O professor não fez mais perguntas como o habitual de onde veio, porque se mudara, como era o outro colégio. Apenas disse para copiar de onde estavam, que era conteúdo novo e precisaria dele. Próximo ao fim do período, ele pediu meu caderno para dar uma olhada no conteúdo que já havia visto na outra cidade e ficou impressionado com o avanço.
Devolveu-me o caderno dizendo que acompanhasse a matéria que até ali já tinha dado no outro colégio, mas ele não me dispensaria das aulas nem da prova. Um sinal estridente soou e o professor recolheu seu material saindo da sala. Os alunos do fundo fizeram desse período um pequeno inferno na sala, algumas alunas riam e falavam alto e eu fiquei olhando para a carteira da frente.
Uma professora entrou, fazendo barulho com o salto alto e eu fui até ela apresentar minha ficha. Ela logo pediu meu material e deu uma olhada, depois me mandou sentar e seguir com eles. O conteúdo não era o mesmo, não tive sorte. Porém, a aula era artes, algo que me agradava.
Ela iniciou a chamada e todos foram respondendo. Eu ainda não estava na lista, então apenas fiquei prestando atenção nos nomes, em quem estava ali e quem não estava.
— Victor? — a professora chamou, pela segunda vez, e agora esquadrinhava a sala. Então, algo na porta chamou sua atenção, um barulho simples, como algo vindo do fundo da garganta. Na soleira da porta, o mesmo garoto que eu encontrara estava parado e sorrindo com o mesmo olhar brincalhão de quando o vi saindo.
— Sente-se e não se atrase mais! — Ele sorriu e assentiu com a cabeça e veio em minha direção. Eu ainda estava olhando fixo para ele, e ele o mesmo para mim. Vendo ele de frente, e não por um reflexo, podia notar o quanto ele era bonito, apesar de os traços mais fortes e um sorriso debochado. Seus olhos eram de um castanho esverdeado e seus lábios eram bem bonitos. Ele sorriu uma última vez e se sentou na minha frente. Agora eu notara uma mochila com materiais ao lado da parede.
Ok, não presto muita atenção nas coisas! Agora, estava sentado na minha frente, não que me incomodasse, mas eu ainda estava vermelho por ele ter me encarado. Porque ele fizera isso? Me olhar por tanto tempo? Isso me incomodou, nem ao menos sabia o nome dele.
O resto do dia passou depressa. No intervalo, fui até à cantina, comi um sanduíche de atum com suco e saí para tomar um pouco de sol. Aproveitei para dar uma olhada nos garotos do colégio, havia alguns bem bonitinhos, alguns mais nerd’s e outros que não faziam meu estilo. Eu nunca havia namorado outro cara, já havia beijado uma garota mas depois decidi que realmente gostava de meninos.
Dei uma volta pela dependência do colégio, como era de período integral ficaríamos aqui o dia todo. Fui até um canto onde havia brinquedos de um parque de crianças, gangorras, balanços e outras coisas. Sentado na parte mais alta do trapézio (se você não sabe o que é um desses, ele é uma estrutura de metal com várias barras como se fosse um castelinho ou uma torre, mas apenas as barras de metal sem paredes) estava Victor olhando as nuvens.
— É....Uhm... oi
Não sei porque estava gaguejando ou porque a garganta estava seca, também não sabia o que estava tentando fazer, porque estava querendo conversar com ele.
Ele não me deu bola, continuou olhando para cima. Recuei um passo, decidido a voltar para dentro do colégio e me esconder de tanta vergonha. Meu coração estava batendo rápido e não sabia o porquê. Ok, ele era realmente muito bonito. Apesar de magro e alto, ele me chamou muito a atenção.
Nesse momento, ele se virou e ficou me encarando. No canto dos lábios vi um cigarro aceso, algo que achei que deveria ser proibido dentro do colégio, mas, como estávamos em uma área sem alunos, achei que ninguém notaria. Ele saltou do brinquedo com facilidade, visto que o brinquedo era baixo já que era pra criancinhas.
Ele veio em minha direção, estendeu a mão e ficou me encarando de cima para baixo, ainda com o cigarro. Apertei sua mão, então fez a coisa mais estranha do mundo. Quando soltei sua mão, ele tirou o cigarro dos lábios e soltou a fumaça em minha direção, e não sei como havia tanta fumaça. Eu me engasguei e comecei a tossir.
— Por... porque fez cof uma coisa dessas cof cof...
Ele apenas me puxou para mais próximo dele e fez algo ainda mais estranho: ele soltou o cigarro,me envolveu em um abraço e me beijou. Eu esperneei, me soltei de seu abraço e comecei a limpar o gosto do cigarro dos meus lábios.
— Você está louco? Porque fez uma coisa dessa?
Ele estava sorrindo então, o sinal tocou estridente novamente e me deixou sem uma resposta. Saiu em disparada para o prédio e eu fiquei ali, sozinho, porém me apressei a voltar para a sala. Quando cheguei lá, já ele estava sentado em seu lugar, escrevendo em seu caderno. Eu marchei pesadamente até meu lugar e esperei o mundo desabar em cima de mim.
Meu primeiro dia de aula tinha sido um pesadelo.
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