Um amor Silencioso!
3 Antes do amanhecer!
Notas iniciais
Acordar cedo, estando meio dopado, não é tão simples quanto parece. Levantei e me enfiei em baixo do chuveiro, para ver se a água me despertava. Saio do banho, me visto e desço para o café. Minha mãe se assusta com minha entrada na cozinha.
— Bom dia! Olha só quem caiu da cama. Dormiu bem?
— Como uma pedra.
— É só por um tempo. Paramos com os remédios assim que você estiver adaptado.
— Já estou me sentindo melhor. — Digo para ela com um sorriso.
— Não vai parar até ver o médico.
— Que médico? — Começo a respirar mais rápido
— Marquei uma consulta para você, hoje. Tenho os três primeiros tempos livres, então posso preparar minhas aulas depois.
— Não vou. — Eu estava suando frio. Eu tinha escrito um bilhete, e o mesmo precisava ser entregue o mais rápido possível.
— Não estou te dando escolha. — De novo essa história de não ter hipótese de poder decidir por mim.
— Mãe, já tenho quase 17 por favor...
— Isso mesmo. Até fazer 18 anos vai fazer o que eu quero.
Fim de discussão. Ela me obrigou a tomar o comprimido, antes de comer alguma coisa. Acabei tomando um copo de suco de manhã com meia torrada, depois saímos ás pressas para a consulta. O resumo do meu dia foi aturar mais uma psiquiatra, com muita conversa, perguntas e respostas.
Fui levado de volta para casa ainda dopado. Minha mãe saiu para trabalhar. Já eu estava frustrado demais para ficar bravo e quase completamente apagado para fazer qualquer coisa.
Acordei apenas porque fui obrigado a comer e tomar mais um comprimido. Enquanto comia, ouvi vagamente a conversa que ocorria na mesa do jantar. No fim, quando supostamente deveria estar na cama, fiquei na escada a ouvir a conversa de meus pais na sala.
— O que a medica disse?
— Que está em stress, por causa da mudança de colégio, cidade, por ter deixado os amigos...
— Isso é normal querida.
— Sim, mas ela me alertou sobre outro fator.
Fez-se um silêncio momentâneo.
— Qual fator? — Papai perguntou, depois de respirar fundo.
— Ela acha que ele pode estar entrando em depressão devido à sua sexualidade.
— Poderia me explicar isso?
Agora eu também queria uma explicação. De repente, sentado ali no escuro, meu coração começou a acelerar.
— Ela acha que ele pode não estar se aceitando fisicamente, ou que está com medo da aceitação externa. Isso e mais as mudanças atuais podem levá-lo à depressão.
— Entendo. — Silêncio novamente — Ele tem que entender que nós já aceitamos essa opção dele. Foi difícil no começo, confesso, mas ele não precisa se preocupar. Nós estamos aqui e vamos proteger ele.
— Sei que vamos querido, mas tenho medo de outra coisa.
— Que outra coisa?
O tom de voz dela era de preocupação e o dele não era melhor.
— Tenho medo de ele estar sofrendo, por ter se apegado de mais a alguém antes da mudança.
— Alguém como um possível namorado? Porque ele não nos contou?
Namorado... quem dera! Deixei apenas amigos e boas lembranças. Levei incontáveis foras de alguns garotos, que conheci através de alguns sites de relacionamento, depois do primeiro encontro. Os que me conheciam do antigo colégio, achavam que eu era louco, por isso que tomava remédios.
Eu nem sequer tinha me apaixonado na vida, era virgem ainda, só tinha dado uns beijos em um ou outro garoto, muito de vez em quando. Volto a prestar atenção na conversa.
— Sim — mamãe respondeu depois de uma leve pausa
— Não acho que esse seja o caso. Ele teria nos contado se tivesse namorando.
— Espero que sim.
Não quis ouvir o resto, apenas voltei para meu quarto em silêncio e amassei meu bilhete jogando fora.
Na manhã seguinte, fiquei na cama, na outra também. Na sexta levantei cedo e saí para caminhar. O sol ainda não tinha clareado e saí sem tomar meus remédios. Provavelmente à noite estaria mais desperto. Depois de dar algumas voltas nos quarteirões da vizinhança, descobri que o cara do jornal passava cedo demais e que meu vizinho malhava pela manhã, sem camisa e com a janela aberta.
Na quadra ao lado, dois cachorros corriam felizes em uma grama bem cortada. Na seguinte, vi dois gatos pretos em cima do muro de uma casa bem bonita, um gramado verde, flores em todos os cantos e um bebedouro para aves, o que me pareceu estranho em uma casa com gatos.
A cor era de um azul claro, havia uma grande árvore do lado esquerdo, a cerca era de madeira, pintada de branco. Havia um carro na garagem e uma bicicleta encostada na parede do lado de fora.
Fiquei alguns minutos ali, observando e tentando entender o que me chamava a atenção. Depois notei que as luzes de alguns cômodos já estavam acesas e me apressei em sair dali. O que iriam dizer as pessoas de um estranho parado na frente da sua porta?
Enquanto caminhava escutei o canto dos pássaros, via o céu ser tingido de outra cor e pensava que estava me tornando um fardo para meus pais. Eles achavam que eu estava em conflito com meu eu interior, ou que estava escondendo algo deles. De certa maneira estava, um garoto que eu nem conheço havia me beijado, sem motivo algum, e eu ainda o tratei de maneira rude. Mal sabia que ele não falava ou ouvia, isso me deixou pior, me sentia um grande imbecil. Perdi a noção de quantas ruas eu havia percorrido. Dei a volta no quarteirão e voltei para o que eu achei que era o caminho certo.
Quando reconheci as casas, sabia que estava no meu quarteirão e estava do lado contrário à minha quadra, que era na outra rua. Então, vi algo que me chamou a atenção: um playground infantil, como o do colégio, na esquina. Os mesmos brinquedos infantis, um dos balanços estava ocupado e meu coração bateu acelerado. Victor estava de costas para a rua, então não podia me ver.
Estava pronto para sair dali correndo e voltar para a minha casa, quando um cachorro correu de entre as pernas dele e veio em minha direção abanando a cauda. Ele se virou nesse momento, para ver onde o animal tinha ido e ficou olhando fixamente para onde eu estava. O cachorro me cheirava e corria em volta de minhas pernas. Ele me olhava à distância, sorrindo com aquele jeito torto e debochado que eu estava odiando e amando ao mesmo tempo. Acabei dando um passo para trás na calçada. O que ele estava fazendo aqui tão próximo da minha casa?
Ele fez um sinal para que eu me aproximasse, eu continuei estacado no mesmo lugar. Ele chamou novamente e eu criei coragem e caminhei até o balanço e me sentei. Ficamos nos balançando suavemente em descompasso, quando o balanço dele ia para frente o meu ia para trás e vise e versa. Por um momento, fiquei apenas sentindo o vento frio da manhã, o céu estava com um tom de azul claro e o sol estava quase exposto, os pássaros cantavam e as correntes do balanço rangiam de maneira engraçada.
Ele parou de súbito o balanço dele e fiz o mesmo. Tirou de dentro de um bolso um pedaço de papel e me entregou sorrindo. Pegou a guia do cão, que logo veio até ele sabendo que era hora de voltar para a casa. Depois de prender a guia, ele tornou a sorrir e se foi, em uma corrida compassada com o cachorro à sua frente.
Foi ali que meu pai me encontrou duas horas depois, ainda sentado a ver o trânsito que começava a fluir, pessoas que saíam para trabalhar ou estudar. Eu tinha o bilhete firme em minha mão, meu pai me passava um sermão dentro do carro e eu não dava atenção. Ele dizia o quanto eu fui irresponsável em sair sem avisar e me perguntava o porquê de eu sair tão cedo. Ele acabou por me deixar no meu quarto, tendo marcado outra consulta com a psiquiatra antes de ir trabalhar. O bilhete continuava lá, em minha mão. Ganhando coragem decidi abrir de uma vez. Não aguentava mais. O mesmo continha poucas palavras.
"Sinto muito, mesmo, por aquele dia, não queria mesmo causar problemas. Porque não tem vindo a aula? Me escreva. Meu número é 9525-**** Podemos ser amigos?
PS: Caso esteja se perguntando o porquê de eu ter te beijado, saiba que te achei muito bonito. Caso você não curta me perdoe por tomar uma decisão precipitada, sou meio impulsivo às vezes."
Fiquei com um sorriso bobo no rosto. Acabo por me deitar na cama e ficar a olhar para cima. Hoje, o dia prometia.
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