Um alguém de verdade
1 Capítulo 1
Notas iniciais
— moça venha, desce daí – disse esticando as mãos para a garota que morava no mesmo andar do que eu, no apartamento o lado em um prédio bem simples em um bairro pobre.eu tinha acabado de chegar do trabalho e visto ela assim. Estava sentada sobre a mureta da sua janela do quarto, pronta pra pular.
Eu saia cedo de casa, próximo das seis da manha e ia para faculdade no centro, onde cursava Letras, nesse horário ela estava chegando, e sempre nos cumprimentávamos. Ela era claramente transexual, uma mulher alta, pele negra e cabelos cacheados naturais. Eu sentia que gostava dela
Depois da aula, ia para a pequena livraria onde trabalhava, que ficava próxima a Paulista. As vezes, lá perto das seis, próximo do horário de fechar, ela aparecia lá onde eu trabalhava, com uma roupa bem simples e de chinelo nos dedos era claro o interesse dela pelos livros, mas ela não ficava muito, dava uma olhada e saía, antes que eu pudesse ir conversar com ela.
Certa vez, quando nos encontramos de manha, dei a ela um dos livros que ela olhou na noite passada na livraria
“eu vi que noite passada você havia ficado bem interessada por esse ai”
“Ah! Muito obrigada, de verdade. Quanto custou?” disse ela sorrindo
“Nada, um presente, para não se esquecer de mim” disse. Ela sorriu tímida, agradecendo novamente
Quando eu chegava em casa, ela não estava lá, trabalhava a noite, provavelmente como prostituta, pela falta de oportunidade a uma mulher trans.
— Sai daqui, me deixa em paz – disse ela sem olhar pra mim
-Calma – disse dando passos para traz – posso saber seu nome? Somos vizinhos a um bom tempo e nem sabemos nossos nomes
— Julie – disse ela depois de uma pausa
— O meu e Lucas
— pois bem Lucas, deixe eu me matar em paz
— não posso permitir isso
— não se intromete – disse Julie chorando – ninguém se importaria se eu pulasse mesmo – ela virou pra mim e deu pra ver claramente que ela havia apanhado
— eu me importaria pra caralho Julie – me aproximei aos poucos – vem aqui que eu cuido desses machucados pra você
Ela ficou calada por um tempo e apenas se ouvia o barulho do seu choro
— Eu estou cansada de apanhar, de ser humilhada, de viver com medo, de me prostituir. Eu só queria era tratada como mulher e respeitada, fazer uma faculdade, trabalhar e ser feliz. A única pessoa que me apoiou na vida foi minha mãe que infelizmente o desgraçado do namorado dela matou e eu acabei sozinha aqui. Quando eu estava com ela era o único momento que me sentia feliz e protegida, depois que Eloá se foi minha vida se tornou um inferno total. Estou cansada disso tudo, o mundo não quer que eu exista e que assim seja
Chorando eu estiquei a mão para ela e disse:
-sei como se sente
-como pode saber?
Eu levantei a camiseta que estava usando mostrando as cicatrizes da minha mastectomia* para ela:
— porque eu também sou trans – ela me olhou surpresa com um fundo de esperança no olhar enquanto eu também chorava – sofri horrores também, meu pai me estuprou pelo menos umas três vezes quando eu tinha entre quinze e dezessete anos para que eu “aprendesse a gostar de homem” sem falar das vezes que me batia.
-Aos 18 anos sai de casa, pois a minha mãe o apoiava e não estava nem ai pra mim. Fui morar com a minha avó que apesar de ter 78 anos era totalmente desconstruída, — sorri lembrando dela — que alias tem uma namorada de 75 anos que moram juntas desde que meu vô falecera, minha mãe havia contado que ela tinha morrido junto com ele, mas eu descobrir através de umas cartas escondidas que ela não falava com minha vó desde o inicio do namoro dela. Ela então pagou minha faculdade de letras e me deu esse apartamento que era do meu avô, sem falar que ela me ajudou durante toda minha transição – fiz uma pausa chegando um pouco mais perto de Julie – e claro que minha vida teve seus pontos maravilhosos e tive muita sorte que muitas pessoas trans não tem, porem tive meus momentos de vergonha, de medo, de angustia, de apanhar na faculdade.
Segurei em sua mão e ela me olhou no fundo dos olhos
-eu sei como a sua vida esta sendo difícil, mas não dê a eles o que eles querem, viva suba na vida e faça sucesso, de sua cara a tapa e mostre como você pode ser corajosa. Não vai ser fácil, eu tive que ser forte demais pra combater o pessoal da faculdade, mas consegui – ela desceu da janela e ficou de frente pra mim, olhando nos meus olhos — eu irei te ajudar, serei seu apoio. Eu irei falar com a minha chefa, ela é lesbica feminista e ativista LGBT, com certeza ela vai te dar um emprego ou uma indicação, ainda mais se souber que você ama ler. Você não vai mais precisar se prostituir
Ela me abraçou e limpou as lagrimas os seus olhos
— Muito obrigada mesmo Lucas, você me fez sentir como um alguém de verdade.
Eu dei a mão a ela e disse
— vamos cuidar desses machucados e depois vamos em uma cafeteria aqui perto, o café e por minha conta
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