Um Verão em Boulder City
18 Volta para Casa
Notas iniciais
Acordar naquela quarta feira foi difícil. A única coisa que me motivava era saber que eu e Abigail voltaríamos para casa. Meu corpo doía da noite mal dormida no sofá e também doía ao lembrar da minha conversa com Luke no estacionamento da padaria. Joguei uma água no rosto e estiquei as costas.
— Bom dia — eu disse para Abigail que acordava lentamente enquanto eu saía do banheiro.
— Bom dia — respondeu com um bocejo.
— Melhor? — pergunto.
— Sim. Só com fome de alguma coisa sólida — resmungou com um suspiro.
Eu sorri e corri os meus dedos por seus cabelos. Nessa hora a doutora Maria entrou no quarto com uma pasta. Ela olhava os papéis com atenção, tanto que topou com violência na beirada da cama.
— Ai — ela disse, passando a mão nos quadris. — Muito bom dia, senhoritas. Parece tudo em ordem, dona Abigail — ela sorriu.
Vovó se empertigou na cama e segurou a minha mão com força
— Vou sair hoje então, doutora? — perguntou.
— Vai sim — confirmou. — Sua alta está assinada — estendeu o papel na minha direção e eu o peguei respirando aliviada. — Daqui a pouco uma enfermeira vai vir retirar os acessos e a senhora está liberada. As recomendações são: sem esforço, sem escadas e sem estresse. Alimentação líquida, leve e sem pimenta até a próxima quarta. Depois, pode voltar a ingerir os sólidos, mas sempre leves e sem pimenta. Entendido?
— Ai, doutora, assim a senhora me mata — disse vovó de forma dramática pousando a mão no peito.
— É para o seu bem, dona Abigail. O retorno está marcado para sexta feira da semana que vem — estendeu outro papel na minha direção. — Qualquer imprevisto, corra para cá na mesma hora.
— Tá certo, doutora — confirmei. — Vou cuidar dela.
A doutora Maria sorriu e desejou uma boa recuperação antes de sair do quarto. Abracei minha avó, com uma felicidade que me transbordava em saber que tudo estava bem de novo.
— Desculpa mesmo, vózinha. Nunca mais vou deixar de ficar de olho na senhora.
— Tolice, menina. A culpa não é sua — rebateu, passando a mão nas minhas costas. — Agora me ajuda a sentar, sim? E pega uma roupa na mala, quero tomar um banho antes de sair.
Com algum esforço, eu a ajudei a se sentar. Suas costas estralaram e ela sorriu. Deixei ela na cama e liguei para Joyce, me virando para a janela. Contemplei o playground do hospital enquanto o telefone chamava. Duas menininhas se balançavam entusiasticamente e uma delas tinha uma bolsa de soro no colo.
— Oi, Nessa — Joy atendeu.
— Oi, Joy. Só liguei para avisar que estamos prontas para voltar pra casa— informei.
— Menina, isso é ótimo! Vou passar lá mais tarde para ver vocês ok?
— Passa sim!
— De resto tudo em paz?
— Naquelas — fiz uma careta.
— Naquelas é igual a estou triste?
— Não estou triste.
— Arrependida?
— Também não exatamente. Só um pouco chateada — dei de ombros mesmo sabendo que ela não me via. — Ainda acho que foi o melhor.
— Garota, precisamos conversar sobre os seus conceitos de bom e ruim
Eu ri. Joyce sempre tornava tudo menos pesado.
— Vou desligar agora. Depois a gente se fala.
— Um beijo, Nessa. Até mais tarde.
— Até.
Uma enfermeira entrou na sala sorrindo e nos cumprimentou. Começou a desconectar Abigail dos fios que ligavam seus braços à bolsas de soro, alimentação e medicamentos. Depois, ajudou Abby a entrar no banheiro e tomar um banho. Enquanto isso eu fui recolhendo roupas e outros pertences pessoais de minha avó para guardá-los na mala. Deixei em cima da cama o vestido azul florido que eu sabia ser o favorito dela. Havia sido meu presente para ela no último natal.
Enquanto eu aguardava-a sair do banho, fiquei sentada mexendo no celular de forma distraída e acabei por encontrar uma foto que eu havia tirado de Luke enquanto ele trabalha na padaria, sovando uma massa. Estava tão compenetrado, com as sobrancelhas franzidas e o rosto sujo de farinha. Sorri um sorriso triste e desanimado, passando a foto para o lado só para me deparar com nós dois, mais tarde no mesmo dia da foto anterior, comendo rosquinhas no sofá do estacionamento. Bloqueei o celular o joguei no sofá.
Pouco depois, Abigail saiu do banheiro enrolada em uma toalha branca. Agradeceu a enfermeira, que deixou o quarto fechando a porta, e se trocou.
— Vamos? — perguntei quando ela terminou.
— Por favor — confirmou.
Eu peguei a mala de mão e dei uma última checada no quarto antes de partirmos efetivamente. Na recepção, eu entreguei os papéis de alta e do retorno. Enquanto isso, fui chamando um táxi pelo aplicativo.
— Como você tem ido e voltado esses últimos dias? — ela perguntou.
— De táxi — respondi.
— E como você tem pagado o táxi, mocinha?
— Eu não tenho pagado nada. Você tem — viro-me para ela sorrindo. — Obrigada! Tenha um bom dia — falo para a moça da recepção que sorri.
Abigail estreita os olhos para mim em reprovação enquanto andamos para fora do hospital, onde o carro já nos aguardava.
***
Chegar em casa foi o melhor acontecimento da semana. Irrompemos pela porta, eu esbaforida carregando a pesada mala e Abigail três níveis acima de plena. Animou-se ao andar até o quintal dos fundos para ver suas plantas.
Eu joguei a mala a um canto da sala e fechei a porta da frente. Lar doce lar.
Desabei no sofá me sentindo exausta e olhei para o teto. O que eu faria com o resto do meu verão além de cuidar de Abigail? Suspiro, sentindo o peso da minha sina esmagar o meu corpo. Abigail fazia barulho ao retirar seus instrumentos de jardinagem do lugar para voltar a tratar do jardim.
Içei meu corpo deprimido para fora do sofá no intuito de lembrá-la que ela não deveria subir em escadas nem fazer esforços excessivos.
— Nem comece a me encher os pacovás, Vanessa — alertou, já ajoelhada na terra.
— Você ouviu o que a médica disse — suspirei, encostando o ombro na porta entre a cozinha e o quintal.
— Estava tudo muito bem antes, por que não podemos manter daquele jeito?
— Porque agora eu sei que você tem um câncer — falo.
Vovó larga os instrumentos na terra e me olha como se eu houvesse atirado uma pedra na sua cabeça.
— Eu não sou uma velha inválida, Vanessa — informou. — Se eu ficar deitada igual uma boneca de porcelana o dia todo, vou acabar deprimida e piorando. Basta não colocar pimenta na comida.
Apertei os lábios em desaprovação ao comportamento cético de Abigail. Resolvi não discutir, apenas voltei para a sala e peguei meu celular, avisando Joyce que já estávamos em casa.
Joy: Que bom, Nessa!
Joy: Posso jantar aí?
Vanessa: Teremos sopa.
Joy: Eu levo pão.
Vanessa: Estaremos esperando.
Soltei um suspiro pesado. Eventualmente Abigail iria querer tomar café da manhã com pão fresco, então era bom eu já ir procurando outra padaria que não seja a do Don. Eu tinha uma missão simples nesse verão: cuidar da minha avó e eu tive a capacidade de estragar tudo ao quadrado. Mandou bem, Vanessa! É exatamente isso que sua mãe vai adorar ouvir.
Me ergui do sofá contra a minha vontade, imaginando o que eu faria para o almoço. Abigail deveria ingerir apenas líquidos por enquanto, segundo as recomendações da média. Bem, eu não sei fazer sopa.
— Vovó? — chamo, tornando a colocar a cabeça no quintal dos fundos. — Eu vou pedir comida. Prefere caldo de galinha ou de feijão?
Abigail soltou um guincho indignada. Não queria sopa de jeito nenhum.
— Permita-me lembrá-la, cara senhora, que a sua médica recomendou uma dieta líquida até a próxima quarta-feira.
— Já disse que esse exagero todo é desnecessário, Vanessa! — exclamou.
— Galinha então — encerrei a conversa e voltei para dentro, puxando o celular e pedindo os caldos por um aplicativo.
Coloquei os talheres à mesa e me sentei. Enquanto eu aguardava, deslizei pela lista de panificadoras da região, infeliz em descobrir que a padaria mais próxima que não a do Don ficava a quase trinta minutos de caminhada. Já estava pronta para aprender a fazer pão com as minhas próprias mãos quando ouço a moto do entregador parar à frente de casa com uma buzinada.
Abri a porta e entreguei o dinheiro para o motoboy, me despedindo com um “muito obrigada” e um aceno. Assim que a porta bateu às minhas costas, eu me adiantei para a cozinha, chamando por Abigail. Nos sentamos à mesa e comemos em silêncio nossos caldos de galinha. De vez em quando vovó soltava algumas exclamações indignadas, mas pareceu apreciar a refeição e, quando terminamos, ela já estava em um humor muito melhor. Os pratos foram depositados na pia e Abigail retornou ao seu trabalho. Parecia aborrecida com os acontecimentos do final de semana e eu não podia culpá-la.
Carreguei a pesada mala escada acima e a joguei no meu quarto, retirando as roupas de vovó e as jogando na sua cama. Deixei minhas roupas por lá mesmo e me joguei de barriga para cima na cama, totalmente desanimada como eu estava no meu primeiro dia aqui.
Era cruel a forma com que as coisas se desenrolaram: cheguei aqui deprimida e sem perspectiva de um bom verão. Tudo ao meu redor me empurrou na direção de expectativas que se criaram sozinhas e me abraçaram com força. O verão estava ótimo, provavelmente melhor do que estaria se eu tivesse em casa pois aqui eu não tinha os meus pais. E então, tudo foi brutalmente retirado de mim, me restando apenas a ânsia pelas visitas de Joyce. Eu não podia (e nem queria) me dar ao luxo de ficar passeando por Boulder City. Eu já começava a odiar a cidade novamente agora que me encontrava presa em sua opressiva monotonia, tendo como carcereira a minha responsabilidade de cuidar da minha avó.
Claro que eu me disponho de bom grado a cuidar dela, afinal eu a amo e faria tudo por Abigail. Meu problema agora residia em me torturar com imagens de como meu verão poderia ter sido caso eu não tivesse enfiado pimenta naquele maldito molho de tomate. As imagens de longas tardes com Luke dançavam à minha frente uma dança maléfica que me fazia querer gritar de tanta frustração.
Quis morrer durante longos minutos, esparramada na minha cama só querendo que o verão acabasse logo e eu pudesse ir embora de Boulder City. Sou arrancada dos meus devaneios depressivos pelo som da campainha. Pulo da cama na mesma hora pois tenho certeza que é Joyce.
Ao abrir a porta e me deparar com seu sorriso radiante e o rebelde black power adornado com um lenço vermelho não consigo conter a minha própria empolgação. Dei passagem para ela que passou com uma travessa em mãos.
— A tia Georgia mandou, com seus desejos de melhoras para a vó Abby — falou me entregando a travessa. Um delicioso cheiro de morangos se desprendia da travessa e eu sorri.
Coloquei a travessa na geladeira e vó Abby invadiu o cômodo, espremendo Joyce em um abraço.
— Obrigada, minha linda — falou. — Pela sua presença no hospital e apoio, mas acima de tudo obrigada pela sobremesa!
— Que nós só vamos comer na semana que vem — frisei. Abigail soltou Joyce indignada.
— Ela está me fazendo passar fome! — exclamou para Joy. Eu revirei os olhos.
— Estou seguindo as recomendações da dra. Maria. Só líquidos por essa semana — repeti.
— Joyce, não deixa ela me matar de fome! — implorou Abigail em uma pose exagerada.
— Desculpa, vó Abby, mas vou ficar com a Vanessa nessa. A senhora precisa se cuidar mais — Joyce respondeu.
— Obrigada pela sua sensatez — agradeci.
— Ah, vocês duas — vovó bufou. — Não aprontem — adverteu antes de retornar ao seu trabalho no quintal.
— Sem escadas! — eu gritei para lembrá-la. Ela ergueu algo que lembrava o dedo médio do ar antes de se enfiar no meio dos seus matos novamente.
Sentei com Joyce na sala e liguei a tevê em um programa de auditório qualquer enquanto conversávamos. Ela me atualizou sobre o que vinha acontecendo pelas redondezas desde domingo, o que não era muita coisa. Luke, que antes a cumprimentava de forma animada todas as manhãs que encontrava com ela na Avenida Principal, passara a ignorar Joyce.
— Não que faça diferença pra mim — esclareceu. — Mas é um sinal muito claro que ele está chateado, Nessa. Você nem cogitou falar com…
— Não — cortei depressa. — Não posso deixar, Joyce… de todo jeito, o verão vai acabar em breve.
Olhei para ela que mordia o lábio, provavelmente se indagando se valia a pena me contrariar. Revirei os olhos e aumentei o volume da tevê, deixando claro que aquele assunto estava encerrado.
— E a Milena? — perguntei sem olhá-la.
— Está bem — pude ouvir o sorriso em sua voz. — Estamos bem. Saímos ontem a noite, fomos naquela praça do lado rico da cidade, sabe? Olhar o céu.
Eu sabia. Foi onde dei meu primeiro beijo em Luke.
— Que ótimo, Joy! — exclamei, sem deixar que ela soubesse que aquela localização também tinha um significado para mim.
Passamos o resto da tarde conversando amenidades, até Abigail me convencer a cortar um pedacinho do doce que a tia de Joyce havia mandado. Saboreamos o delicioso merengue enquanto Abigail nos contava sobre sua futura aventura jardinística, que ela planejara enquanto esteve internada.
— Amanhã a Vanessa vai comigo até a casa de jardinagem no centro da cidade e vamos começar o projeto.
— Vou é? — eu ri. E sob seu olhar de ameaça logo acrescentei: — Se a senhora diz, quem sou eu para contrariar, vovó?
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