Um Verão em Boulder City
6 Vanessa e a van Nessa
Notas iniciais
Acordei deitada no sofá, descalça e coberta por um edredom fininho. Olhei ao redor e vi Abigail vindo da cozinha com seu típico avental, trazendo nas mãos um pequeno vaso com flores de seu jardim para colocar na janela.
— Bom dia, flor do dia — ela cumprimenta ao passar por mim.
— Acho que eu realmente encerrei a fase do teletransporte entre o sofá e minha cama — comentei, esfregando os olhos.
— Ora, você não esperava que eu te carregasse no colo, esperava?
— Na verdade, eu esperava sim — respondi me levantando e estralhando as costas.
— Joyce te ligou — avisou vovó, após posicionar seu vasinho na janela.
Concordei com a cabeça e subi as escadas com minha jaqueta nos braços. Coloquei o celular para carregar no quarto e me encaminhei para o chuveiro. Eu precisava lavar o cabelo e tirar essas roupas de ontem. Tomei um banho relaxante e acabei passando mais tempo em baixo do chuveiro do que eu normalmente passaria.
Quando termino o banho, me enrolo na toalha e migro para o quarto. Me surpreendo ao encontrar um embrulho em cima da minha cama e meu coração se enche de amor. Apressadamente, abro o presente e contemplo um lindo macaquinho jeans.
— Era meu — ouço Abigail falando da porta do quarto, escorada no batente. — Quando eu tinha sua idade eu ganhei da minha patroa. Eu trabalhava na Flores da Tia May, no centro da cidade.
Sorri e me levantei da cama para lhe dar um beijo na bochecha.
— Eu adorei. Obrigada, vovó.
Ela acenou a cabeça com um olhar que eu classifiquei com nostálgico ao mirar a peça de vestuário em minhas mãos. Abigail se afastou do quarto, me deixando sozinha para que eu me trocasse. Peguei uma camiseta qualquer e a coloquei por baixo do macaquinho. Desembaracei meu cabelo e joguei a toalha para secar na janela antes de descer para a sala. O glorioso cheiro do almoço já tomava conta do andar de baixo.
— Quer ajuda? — indago, aparecendo na cozinha.
— Preciso de cominho — respondeu. — Compra lá na tia da Joyce, pede pra colocar na conta.
— Beleza — respondi. — Volto já.
Me apresso pelas ruas na direção da mercearia, sentindo um calor infernal apesar da roupa leve. Passo por uma feirinha que acontece todos os sábados antes de chegar na avenida. Entro na mercearia e dou de cara com a tia de Joyce.
— Oi, dona Geogia — cumprimento, sorrindo.
— Vanessa Frederiksen! — ela saudou. — Você cresceu ein, menina! O que posso fazer por você hoje?
— Preciso de cominho — disse.
Ela sumiu por alguns segundos em meio às preateleiras. Olhei para trás por instinto e vi Luke colocando o lixo do lado de fora da padaria. Ele pareceu ter me visto também, já que parou e acenou para mim. Ergui a mão para mostrar que o tinha visto bem na hora que Georgia retornou com o cominho.
— Aqui está querida — entregou o pacotinho na minha mão. — Anoto na conta?
— Sim, por favor. Muito obrigada — agradeci, guardando o cominho no bolso do macaquinho e deixando o estabelecimento com repentina pressa.
Luke estava parado do lado de fora da padaria, me aguardando. Olho para os dois lados antes de cruzar a avenida na sua direção.
— Oi — ele saúda com um sorriso amplo, se precipitando para um abraço.
Percebo agora que ele tem um cheiro muito bom de canela e açúcar, provavelmente decorrente de uma manhã de confeitos deliciosos.
— Olá — respondo quando o abraço se parte.
— As filhas do Don terminaram a mudança, agora meu horário está mais estável. Meu turno hoje termina lá pras duas horas. Topa um passeio? — disse sem rodeios.
Eu adorava a convicção que ele tinha, essa sua pose confiante. Seus olhos verdes me perfuravam, aguardando uma resposta. Fingi pensar por alguns segundos antes de responder.
— É, acho que não tenho nada pra fazer hoje a tarde — respondi, tentando imitar seu sedutor sorriso de canto.
— Tá certo então. Te espero aqui — falou, piscando para mim antes de entrar na padaria novamente.
Minhas convicções sobre o futuro da nossa relação platônica haviam acabado de ser profundamente abaladas. Minha única certeza era que eu precisava falar com Joyce.
Andei todo o caminho de volta sem saber o que esperar dessa tarde. Quando entrei em casa fui direto para a cozinha, entreguei o cominho para a Abigail e subi para o meu quarto para pegar meu celular. Liguei para Joyce que me atendeu com uma voz ofegante.
— Oi, moça — eu ri.
— O que é tão importante para a senhora interromper o único momento da minha vida em que eu tomei a decisão de ser saudável e fazer alguns agachamentos?
— Acho que o universo não quer que você seja fitness, Joy — dei risada.
— Me conta, qual tripa estourou agora?
— Eu fui até a mercearia da sua tia para comprar cominho e encontrei o Luke — disse calmamente.
— Interessante. Sinto que essa conversa vai acabar comigo ganhando vinte pratas. Prossiga, minha cara.
— Cala a boca — dei risada. — Enfim, ele me chamou para dar um passeio hoje a tarde.
— Ai ai, já estou me vendo ganhando vinte dólares e perdendo minha amiga — provocou.
— Cala a boca — repeti com veemência, fingindo estar brava enquanto seguro o riso.
— Eu sugiro que você se jogue, Nessa. Não fica com medo não, amiga. Luke parece ser um cara bacana, não deixa sua experiência bosta te privar de uma coisa que pode ser maravilhosa. Se ele se mostrar um cuzão eu quebro ele.
Essa parte de me jogar era complicada. Mesmo antes do meu último relacionamento eu sempre tive alguns problemas de confiança em mim mesma e nos outros. Para mim é tão fácil me abrir para conhecer pessoas novas e deixar que elas me conheçam quanto é fácil me jogar em uma serra elétrica.
— Certo — respondo pausadamente, repuxando uma pelinha do lábio de forma ansiosa.
— Vanessa Frederiksen, você não vai deixar aquele pitelzinho escapar só pra não ficar me devendo vinte pratas, tá me ouvindo? — disse em um tom falsamente autoritário.
Joyce sabia bem como quebrar a tensão.
— Certo — respondi novamente, frisando a última silaba. — Preciso ir agora, o almoço está quase pronto.
— Acho bom a senhorita arrumar um tempinho para mim nessa sua agenda, viu? Eu tinha planejado uma maratona de The Rain pra gente hoje a tarde — disse. — Eu liguei mais cedo, mas a velha Abby disse que você estava dormindo.
— A gente maratona amanhã, eu prometo. Beijo, Joy. Boa sorte com sua nova fase fitness.
— Obrigada, garota. Infelizmente nem todas as pessoas têm a sorte de queimar calorias transndo loucamente.
— Ai, cala a boca — digo rindo mais uma vez antes de desligar.
Me olho no espelho atrás da porta do quarto e tento sorrir, virar a cabeça em vários ângulos e jogar o cabelo de um lado para o outro. Realmente, nada de extraordinário: só uma garota mediana, medíocre, na média, na faixa, normal, corriqueira.
— Tá pronto! — ouço Abigail gritar do andar de baixo, interrompendo minha análise crítica.
Corro escada abaixo pois ouço meu estômago roncando de fome.
***
Faltam três minutos para as duas da tarde e eu estou há uma esquina de distância da padaria, aguardando Luke sair para eu poder me aproximar. Cheguei aqui há uns cinco minutos e não desviei meus olhos daquela calçada desde então. Todas as vezes que a porta se abria meu coração errava a batida e se descontrolava um pouco, mas até agora somente senhorinhas saíam com pães e doces.
Eu estava pronta para ver mais uma senhorinha saindo da padaria quando, finalmente, Luke deu as caras, olhando seu relógio com uma embalagem parda em mãos. Respirei fundo e andei na sua direção, aguardando uma tensão que não veio, uma ansiedade que não deu as caras. Apenas um comichão confortável no pé da barriga ao vê-lo sem o uniforme marrom que estava usando pela manhã, tendo em seu lugar calças jeans escuras e uma camiseta preta lisa, com a mesma jaquela jeans que usava ontem enrolada em um dos braços.
— Oi! — saúdo ao me aproximar. — Está esperando há muito tempo? — perguntei de forma inocente, como se nem tivesse passado uns 10 minutos do outro lado da rua esperando ele sair.
— Que nada, eu saí agorinha — sorriu.
Nós caminhamos para a rua lateral da padaria. Ele rumou na direção de uma van amarela que estava estacionada próxima a um canteiro cheio de arbustos, bem ao lado de uma árvore frondosa que havia coberto a van de folhas verdinhas.
— Essa é a Nessa — disse Luke com um sorriso quando paramos ao lado do veículo.
— Nessa? — pergunto de forma sarcástica segurando uma risada. — Por que raios seu carro tem o mesmo apelido que o meu?
— A senhora escute aqui — ele disse se virando para mim. — Essa van se chamava Nessa antes mesmo da senhorita sequer sonhar em aparecer para perturbar os dias de Boulder City. É a minha van Nessa e a senhorita a respeite.
— Van Nessa? — não aguento e explodo em risadas, sendo acompanhada por Luke. — Ok, e para onde a van Nessa vai nos levar hoje?
Luke piscou para mim de forma misteriosa e destrancou a van antes de abrir a porta do passageiro para que eu entrasse.
— Não se esqueça que eu preciso estar cedo em casa — disse ao me sentar no assento do passageiro.
Luke concordou com a cabeça e fechou a porta, caminhando para o outro lado. Ele entrou no carro e eu coloquei o cinto de segurança.
— Muito consciente, com certeza ganhou pontos — disse, se virando para trás e colocando o embrulho e a jaqueta em cima de um apoio que dividia a van logo atrás de seu assento.
Ao virar para a frente novamente, ele colocou o cinto e ligou o carro, dando partida e saíndo da ruazinha, pegando a avenida prinpipal. Sua mão direita rumou para o rádio, o ligando. Uma música meio old school tocava, o fazendo balançar a cabeça no ritmo dela, totalmente compenetrado em dirigir.
Permaneci em silêncio, apreciando a música e vendo a cidade passar veloz por mim enquanto avançavámos am direção a sabe-se lá onde. Minha mão estava para fora da janela, aproveitando o vento forte. Eu não sentia a obrigatoriedade de falar nada. Era um silêncio confortável.
Prosseguimos na estrada por mais uns quinze minutos, apeas curtindo a música que preenchia a van junto com um comentário ou outro sobre gostar muito ou não conhecer o que estava tocando. Então, ele pega uma estradinha de terra à direita, pela qual avançamos por mais uns cinco ou dez minutos.
— E assim termina a vida da pobre Vanessa Frederiksen: morta por um jovem psicopata que fugiu em uma van amarela, abandonando o corpo da vítma no meio do mato — falei, imitando a cordialidade dos âncoras de jornal.
— Com a velocidade inacreditável que esse bebê alcança, eu não consigo nem sair de Boulder City antes de ser preso — ele comenta dando risada.
O final da estradinha era um magnífico lago que refletia o céu azul de poucas nuvens. Luke estacionou a van Nessa paralela ao lago e retirou a chave da ignição, sinalizando com a mão toda a beleza que havia na nossa frente.
— Bem vinda ao Lago Mead.
— É lindo — digo, sem tirar os olhos da paisagem.
— Só tem um jeito de deixar melhor — ele fala antes de destravar a porta e sair, dando a volta na van e abrindo a minha rapidamente, me auxiliando a descer.
Ele abre a porta traseira da van, sentando-se lá e puxando o embrulho pardo, finalmente revelando seu conteúdo: doces e pães de vários tipos com todos os seus cheiros maravilhosos invadindo meus sentidos.
— Vou acabar mal acostumada desse jeito — comento, escolhendo um pãozinho doce polvilhado de açúcar e canela.
— Sente a textura dessa massa — ele pediu. Dei uma mordida no pão e no mesmo momento experimentei um orgasmo gustativo.
— Hmm, isso tá muito bom — elogiei. — Você que fez?
Ele concordou com cabeça, pegando para si uma bomba de creme, passando o dedo da cobertura e o levando à boca.
— Gosto muito de confeitar — Luke me disse. — Sou aprendiz do Don desde que eu cheguei na cidade, há uns quatro anos.
— Você não é de Boulder City? — pergunto surpresa, lambendo os dedos.
— Não, eu sou de Sacramento, na Califórnia.
— Califórnia — imito sua fala na tarde anterior, quando fiquei ilhada na padaria. — O que o trouxe aos confins de Nevada?
Ele sorriu, me olhando. Seus dedos tiraram um pedaço da massa e do creme de seu doce, os levando à boca antes de responder. Agora seu olhar era distante, em algum ponto no horizonte além do enorme lago à nossa frente.
— O último ônibus da rodoviária de Sacramento — deu uma resposta similar à minha.
— Muito engraçado — respondi.
— Você errou o script. Eu falei "engraçadinha" — Luke se virou para mim e limpou um pouco de canela e açúcar que haviam ficado na minha bochecha com seus olhos cravados nos meus.
Senti meu coração acelerar com seu toque. Cada momento que passava eu tinha mais certeza de que Joyce estava certa e eu ia perder a aposta. Perderia nossa aposta com a maior felicidade do mundo. De algum jeito, eu já sabia que isso ia acontecer desde o momento em que eu contrariei Joyce. Por um momento, eu quis que ele me beijasse. Não sei se o mesmo passou por sua cabeça, ele ainda me olhava. Quis que ele me beijasse mesmo sabendo que talvez fosse melhor não fazê-lo e isso nada tinha a ver com minha insegurança. Tinha a ver com o fato de que eu poderia gostar, nós poderíamos gostar e eu só estaria ali durante o verão. Depois disso, só Deus sabia quando eu pisaria na cidade novamente. Não seria justo.
Sua mão se afastou de forma lenta e ele voltou a mirar o horizonte. O rádio que não havia parado ainda agora tocava Miss atomic bomb do The Killers.
— Por quanto tempo você vai ficar na cidade? — ele perguntou por fim, quebrando a tensão que havia se criado e expondo em voz alta a questão que provavelmente ditaria o ritmo das coisas que aconteceriam entre a gente.
— Até o fim do verão — respondo também mirando o horizonte.
— Acho que esse é o momento em que você me conta o porquê de estar tão desesperada para sair daqui.
— Não estou desesperada — discordo. Sinto vontade de acrescentar um "muito pelo contrário", mas eu me contenho. — Nunca gostei daqui, desde criança. É como eu já disse: cidade pequena, povo da língua grande. E doidos por café da tarde e simpáticos até por demais. É tudo muito... — paro, tentando achar a palavra certa.
— Ordenado?
— É — concordo, sem conseguir pensar em palavra melhor. — É tudo muito nos eixos. Isso me irrita, gosto de ter com o que me preocupar.
Ele soltou uma risada gostosa de ouvir, erguendo as duas pernas e as cruzando embaixo de si. Encostei a cabeça na parede da van, olhando para ele.
— Você gosta de caos e devastação então? — indaga.
— Não é isso — discordo e começo a falar sem parar. — Parece superficial demais. Perfeito demais. Existem problemas que são ignorados apenas para manter o bem estar, entende? Problemas que são jogados em baixo do tapete só para...
Me interrompo ao perceber que eu talvez não esteja falando de Boulder City toda em si. Na verdade acho que estou falando de uma bouldercitizien em especial.
— Para...? — Luke me incita a continuar. Eu respiro fundo.
— Para manter uma boa aparência — sorrio amarelo. — Sei lá.
Eu disse pra mim que não ia sair jogando minha vida problemática para cima do menino. Tá de parabéns, Vanessa. Ele pareceu reflexivo por alguns segundos.
— Acho que você está certa parcialmente — ele diz por fim.
— Parcialmente?
— É como eu já disse, Vanessa: eu adoro cafés da tarde. Na verdade, isso é o que mais me atrai em Boulder City — ele brinca, quebrando o clima tenso. — É bom para meu ramo de negócios. É bom para o meu estômago. Alias, esses deliciosos quitutes do chef Collins não vão se devorar sozinhos. E adivinhe só? É de tarde.
— Não acredito que você me coagiu a tomar um café da tarde — digo fingindo indignação.
— Não precisa comer, boba, sobra mais pra mim — ele fala, mostrando a língua antes de pinçar mais um pãozinho doce da embalagem.
Eu gostava do jeito dele. Gostava da forma como ele fazia comentários que quebravam o clima tenso das coisas. Gostava da sua presença leve e, acima de tudo, eu gostava muito dos pãezinhos doces que ele fazia.
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