Notas iniciais
Estou de volta! Desculpas pelo atraso, acabaram acontecendo umas coisas incríveis na semana passada que me impediram de postar o capítulo, mas aqui estou novamente ♥ agradeço a paciência. Como sempre, desejo uma boa leitura (e segura coração). Uma música legal para escutar lendo esse capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=tMWoimU2wUQ

Naquela manhã, eu acordei me sentindo pesada pela primeira vez em um mês inteiro. Uma enfermeira trocava a bolsa nutricional de Abigail, que folheava uma revista de jardinagem.

— Bom dia — saudei, coçando os olhos e esticando as costas.

— Bom dia — a enfermeira disse. Abigail resmungou alguma coisa.

Dobrei o cobertor e o coloquei na ponta do sofá.

— Tudo bem se eu só voltar lá pras quatro da tarde hoje? — perguntei para a enfermeira. — Tipo, algum exame para acompanhar, papéis para assinar, médicos pra conversar...?

— A doutora Maria passa às dez da noite só, não tem problema ficar fora durante o dia — a moça me tranquilizou.

— Legal, obrigada — eu sorri e me virei para vovó. — Eu vou para casa dar uma limpada e tomar um banho decente. Depois vou passar na Joyce. A senhora precisa que eu pegue alguma coisa?

— Tudo que eu queria era um bife à cavalo — Abigail suspirou de forma dramática.

— Engraçadinha — falei correndo os dedos por seus cabelos grisalhos e curtos. — Vamos fazer uma hidratação nesse cabelo quando sairmos daqui, ein?

Abigail apenas bufou e continuou olhando a revista. Beijei o topo de sua cabeça antes de pegar minha bolsa e meu celular e abandonar o quarto.

Eu estava gastanto tanto dinheiro com táxi que eu não queria nem ver a reação de Abby quando ela conferisse o pé de meia. Eu cheguei em casa um pouco antes das dez e quarenta. Suspirei ao entrar na sala, relembrando todo o pânico que eu havia passado entre aquelas paredes. Tratei de me lembrar que Abigail estava bem.

Fui para os fundos e coloquei a roupa de cama da vovó para bater na máquina, enfiando cloro junto para tentar limpar totalmente o sangue dos lençois. Peguei o regador e o enchi com água da torneira e me foquei em cuidar um pouco das plantas. Abby ficaria hiper abalada se chegasse em casa e visse seus bebês desidratados. Quando terminei, a roupa ainda estava batendo na máquina. Eu lavei toda a louça do almoço de domingo e deixei na pia para secar, afinal secar a louça era o único trabalho doméstico que a natureza conseguia fazer por nós, então que o cumprisse.

Meu estômago roncava, reclamando a ausência do café da manhã. Olhei no relógio da cozinha: já era mais de meio dia. O tempo voa quando você quer que ele se arraste. Suspirei e coloquei uma lasanha pronta para esquentar no forno enquanto eu tomava um banho decente, daqueles que você lava o cabelo e usa um sabonete de verdade.

O processo todo durou bem menos do que eu tinha planejado e quando eu percebi, era uma da tarde e eu estava almoçando sozinha na casa de Abigail.

Quando terminei de comer, estendi a roupa de cama gloriosamente limpa e o tapete no varal e joguei o que sobrou de água na terra. Fui até a porta da frente e recolhi a correspondência, colocando todas as cartas em cima do rack para lembrar de entregar para Abigail amanhã quando chegássemos em casa.

Apesar de todo o trabalho doméstico com o qual eu me ocupei, ainda faltava uns bons trinta minutos para matar enquanto aguardava meu horário de conversar com Luke. Não queria ir para a padaria antes porque não queria passar muito tempo na sua presença, avaliando e repensando as minhas decisões. Eu queria chegar, falar o que eu tinha pra falar e sair fora. Resolvi ligar para Joyce.

Oi, Nessa. Tudo certo? — ela me atendeu rapidamente.

— Por enquanto sim — eu disse.

Por que por enquanto?

— Duas horas eu vou encontrar o Luke e vamos conversar — expliquei, lentamente, com medo dela jogar alguma verdade em cima de mim que me fizesse repensar todo o diálogo que eu já havia ensaiado na minha cabeça.

Você tem certeza disso?

— Tenho — respondi com uma convicção que eu sabia que não me pertencia de verdade.

Bem, vou te apoiar em qualquer coisa que você decidir fazer, Nessa. Se quiser pode passar aqui em casa antes de voltar para o hospital.

— Obrigada, Joy — agradeci, quase não cabendo em mim de felicidade. — Eu vou precisar.

E a vó Abby?

— Parece que a úlcera diminuiu — informei. — Se continuar assim, amanhã mesmo elá já está de volta.

Caraca, Nessa. Isso é ótimo! Estou muito feliz em ouvir isso.

Eu sorri. Olhei para o relógio. Os ponteiros mal haviam se mexido.

— Vou desligar. Preciso terminar de arrumar a casa.

Tá certo, amiga. Até mais tarde!

— Até — disse e desliguei.

Lavei a pouca louça que eu havia sujado no almoço e me joguei no sofá da sala, ligando a tevê. Coloquei em um filme qualquer que me distraiu pelos cinquenta minutos que ainda me separavam de Luke e do nosso trágico desfecho. Chequei meu dinheiro, se iria dar para voltar de táxi para o hospital da casa de Joy. Dei uma olhada final na casa antes de trancar a porta e saí pelas ruas na direção da padaria.

Eu sentia um leve tremor tomar conta do meu corpo e um peso enorme na boca do estômago, como se eu fosse vomitar toda a lasanha que eu comi. Pela primiera vez, a parede amarela desbotada e as florzinhas roxas do canteiro não me trouxeram leveza e alegria.

— Oi, Don — saudei. — O Luke está ai?

— Oi, menina! Ele está lá atrás, eu acho.

O homem ergueu a porta balcão e eu passei apressada, respirando fundo para não surtar. O propósito de mamãe se cumpriria afinal. Aquela era uma decisão responsável.

A cozinha cheirava a açúcar e canela, um cheiro que eu já havia associado a Luke. Saí para o dia ensolarado pela porta lateral e o vi de costas, sentado no sofá. A embalagem parda estava ao seu lado. Eu já queria chorar.

Ao ouvir minha aproximação, ele se levantou e me puxou para um abraço contra o qual eu não consegui (e nem queria) lutar.

— Oi — ele disse com um sorriso. — Aconteceu alguma coisa? — perguntou preocupado ao partir o abraço e olhar meu rosto tenso.

— A gente tem que conversar, Luke.

Ele sentou de novo no sofá com um olhar perdido e eu permaneci em pé à sua frente. Se eu sentasse, meus joelhos fracos não conseguiriam me levantar de novo.

— Claro, pode falar.

Suspirei. Era melhor soltar de uma vez.

— Olha só, eu não quero um romance de verão, tá? — eu falei curta e grossa, sentindo meus olhos marejados de tristeza e irritação.

— Eu fiz alguma coisa? — ele indagou preocupado, com as mãos juntas.

— Não — respondi. — É só que... não é pra isso que eu estou aqui, Luke. Foi tudo um grande erro que quase... — me interrompi. Eu e minha maldita mania de falar demais quando estava nervosa.

— Como assim? — ele pergunta, parecendo perdido.

— Não é nada que você precise saber.

Ele franziu as sobrancelhas, fazendo seu rosto ganhar um ar triste. Responsável, Frederiksen!

— Mas a gente tinha combinado...

— Eu sei que a gente tinha combinado — cortei. — Mas eu simplesmente não posso... não dá mais, entende?

Virei de costas e cruzei os braços.

— Vanessa! — ele chama veemente, se levantando do sofá e pousando a mão no meu ombro, virando meu corpo na sua direção. — Você não pode aparecer na vida das pessoas, mexer com elas e cair fora sem dar nenhuma explicação!

Suspirei, rolando os olhos para não chorar. Eu não iria envolvê-lo no meu drama familiar fodido e idiota. Seria doloroso, eu sabia, mas eu precisava afastar Luke de mim para o meu bem, para o bem dele e, acima de tudo, para o bem de Abigail.

— Eu sinto muito, Luke — foi tudo que eu consegui dizer. — Espero que você fique bem.

— Vanessa, você não precisa...

— Preciso — o cortei.

Apesar de seu olhar quebrado estar me dilacerando, eu precisava colocar um final naquilo. Eu precisava cumprir com a minha responsabilidade, o motivo pelo qual eu havia sido mandada para Boulder City.

Não consegui dizer mais nada. Havia me apegado demais à ele nessas últimas semanas que saímos. Alguns segundos de silêncio nos esmagaram enquanto eu olhava para qualquer lugar que não fosse ele.

— Eu ainda sou muito grata — disse em voz baixa. — Por ter te conhecido. Em outras circunstâncias, eu...

— Tá certo, Vanessa — ele me cortou com um risinho irônico. — Você não quer um romance de verão, certo?

— Não deixa mais difícil do que já é. Não é culpa sua, Luke.

— Certo? — ele insistiu, me segurando pelos ombros e me fazendo olhar em seus olhos. Suspirei de forma pesada. Se aquele era o único jeito, então que se foda.

— Certo — concordei.

Ele afastou suas mãos de mim e deu dois passos de distância antes de me olhar, assentindo com a cabeça. Me doía tanto precisar me afastar dele, justamente ele que me fez tão bem. Abaixei a cabeça, não aguentando seu olhar dolorosamente esverdeado pousado sobre mim. Não o vi indo embora. Só o som dos seus passos me deixando sozinha naquele estacionamento vazio e depois a van Nessa partindo.

***

Cheguei na casa de Joyce chorando. Ela abriu o portão e já me envolveu em um abraço reconfortante. Eu trazia nos braços o papel pardo abandonado por Luke no sofá desgastado. Joyce me acomodou na sala e quando abrimos a embalagem, nos deparamos com alguns cupcakes decorados com corações. Joyce os levou para a cozinha e me acolheu durante algumas horas enquanto eu narrava para ela os acontecimentos.

— Você teve muita coragem, Nessa — suspirou ao final do meu discurso. — Ainda acho que haviam outros caminhos, mas esse com certeza era o que mais exigia peito.

— Era o mais certo, Joyce. Romances de verão nunca vão pra frente e eu tenho que cuidar de Abby.

Ela apenas assentiu e me envolveu em mais um abraço apertado, onde eu me permiti molhar um pouco a sua camiseta com minhas lágrimas. Ouvi um celular vibrando insistente, indicando uma ligação.

— É o meu — Joyce disse, dispensando a chamada.

— Não era importante? Pode atender, Joy. Não tem problema — desencostei a cabeça do seu peito.

— Nada que não possa esperar um pouco, ela vai entender.

— Ela? — indaguei, conseguindo sorrir um pouco.

— Lembra a menina que eu disse que ia sair? Na noite do coquetel?

— E quando eu vou poder conhecer ela?

— Bem, ela se chama Milena. E você vai conhecer ela na hora certa. Não quero parecer uma doida.

Eu consegui exprimir uma risada e encostei a cabeça no sofá.

— Fico feliz por você, Joy. Espero que ela seja uma menina legal.

— Ah, ela é maravilhosa, Nessa — Joyce se deitou ao meu lado, com os olhos vagando para longe de nossa conversa ali. — É muito inteligente. Vai começar a cursar filosofia no Nevada State College quando o verão acabar.

— Uau — exclamei me virando para ela. — Uma universitária! Bate aqui!

Fizemos um high-five. Olhei as horas no celular e resolvi voltar para o hospital.

— Acho que vou pegar meu caminho — disse com um suspiro. — Muito obrigada por me aguentar.

— É pra isso que as amigas servem — Joyce sorriu. — Qualquer coisa que precisar, não hesite em me ligar.

Nos levantamos do sofá e eu chamei um táxi.

— Quer levar os cupcakes? — Joyce perguntou com certo receio, apontando para a cozinha.

— Não, obrigada — neguei, sorrindo para a tranquilizar.

Ela deu de ombros e entrelaçou seu braço ao meu. Fomos esperar meu transporte no portão e, quando o carro parou, demos um último abraço apertado antes que eu embarcasse, de volta para o hospital.

Notas finais
IH RAPAZ E AGORA? Capítulo bônus amanhã, não percam o/