Um Verão em Boulder City
16 Thirst
Notas iniciais
Naquela manhã, eu acordei me sentindo pesada pela primeira vez em um mês inteiro. Uma enfermeira trocava a bolsa nutricional de Abigail, que folheava uma revista de jardinagem.
— Bom dia — saudei, coçando os olhos e esticando as costas.
— Bom dia — a enfermeira disse. Abigail resmungou alguma coisa.
Dobrei o cobertor e o coloquei na ponta do sofá.
— Tudo bem se eu só voltar lá pras quatro da tarde hoje? — perguntei para a enfermeira. — Tipo, algum exame para acompanhar, papéis para assinar, médicos pra conversar...?
— A doutora Maria passa às dez da noite só, não tem problema ficar fora durante o dia — a moça me tranquilizou.
— Legal, obrigada — eu sorri e me virei para vovó. — Eu vou para casa dar uma limpada e tomar um banho decente. Depois vou passar na Joyce. A senhora precisa que eu pegue alguma coisa?
— Tudo que eu queria era um bife à cavalo — Abigail suspirou de forma dramática.
— Engraçadinha — falei correndo os dedos por seus cabelos grisalhos e curtos. — Vamos fazer uma hidratação nesse cabelo quando sairmos daqui, ein?
Abigail apenas bufou e continuou olhando a revista. Beijei o topo de sua cabeça antes de pegar minha bolsa e meu celular e abandonar o quarto.
Eu estava gastanto tanto dinheiro com táxi que eu não queria nem ver a reação de Abby quando ela conferisse o pé de meia. Eu cheguei em casa um pouco antes das dez e quarenta. Suspirei ao entrar na sala, relembrando todo o pânico que eu havia passado entre aquelas paredes. Tratei de me lembrar que Abigail estava bem.
Fui para os fundos e coloquei a roupa de cama da vovó para bater na máquina, enfiando cloro junto para tentar limpar totalmente o sangue dos lençois. Peguei o regador e o enchi com água da torneira e me foquei em cuidar um pouco das plantas. Abby ficaria hiper abalada se chegasse em casa e visse seus bebês desidratados. Quando terminei, a roupa ainda estava batendo na máquina. Eu lavei toda a louça do almoço de domingo e deixei na pia para secar, afinal secar a louça era o único trabalho doméstico que a natureza conseguia fazer por nós, então que o cumprisse.
Meu estômago roncava, reclamando a ausência do café da manhã. Olhei no relógio da cozinha: já era mais de meio dia. O tempo voa quando você quer que ele se arraste. Suspirei e coloquei uma lasanha pronta para esquentar no forno enquanto eu tomava um banho decente, daqueles que você lava o cabelo e usa um sabonete de verdade.
O processo todo durou bem menos do que eu tinha planejado e quando eu percebi, era uma da tarde e eu estava almoçando sozinha na casa de Abigail.
Quando terminei de comer, estendi a roupa de cama gloriosamente limpa e o tapete no varal e joguei o que sobrou de água na terra. Fui até a porta da frente e recolhi a correspondência, colocando todas as cartas em cima do rack para lembrar de entregar para Abigail amanhã quando chegássemos em casa.
Apesar de todo o trabalho doméstico com o qual eu me ocupei, ainda faltava uns bons trinta minutos para matar enquanto aguardava meu horário de conversar com Luke. Não queria ir para a padaria antes porque não queria passar muito tempo na sua presença, avaliando e repensando as minhas decisões. Eu queria chegar, falar o que eu tinha pra falar e sair fora. Resolvi ligar para Joyce.
— Oi, Nessa. Tudo certo? — ela me atendeu rapidamente.
— Por enquanto sim — eu disse.
— Por que por enquanto?
— Duas horas eu vou encontrar o Luke e vamos conversar — expliquei, lentamente, com medo dela jogar alguma verdade em cima de mim que me fizesse repensar todo o diálogo que eu já havia ensaiado na minha cabeça.
— Você tem certeza disso?
— Tenho — respondi com uma convicção que eu sabia que não me pertencia de verdade.
— Bem, vou te apoiar em qualquer coisa que você decidir fazer, Nessa. Se quiser pode passar aqui em casa antes de voltar para o hospital.
— Obrigada, Joy — agradeci, quase não cabendo em mim de felicidade. — Eu vou precisar.
— E a vó Abby?
— Parece que a úlcera diminuiu — informei. — Se continuar assim, amanhã mesmo elá já está de volta.
— Caraca, Nessa. Isso é ótimo! Estou muito feliz em ouvir isso.
Eu sorri. Olhei para o relógio. Os ponteiros mal haviam se mexido.
— Vou desligar. Preciso terminar de arrumar a casa.
— Tá certo, amiga. Até mais tarde!
— Até — disse e desliguei.
Lavei a pouca louça que eu havia sujado no almoço e me joguei no sofá da sala, ligando a tevê. Coloquei em um filme qualquer que me distraiu pelos cinquenta minutos que ainda me separavam de Luke e do nosso trágico desfecho. Chequei meu dinheiro, se iria dar para voltar de táxi para o hospital da casa de Joy. Dei uma olhada final na casa antes de trancar a porta e saí pelas ruas na direção da padaria.
Eu sentia um leve tremor tomar conta do meu corpo e um peso enorme na boca do estômago, como se eu fosse vomitar toda a lasanha que eu comi. Pela primiera vez, a parede amarela desbotada e as florzinhas roxas do canteiro não me trouxeram leveza e alegria.
— Oi, Don — saudei. — O Luke está ai?
— Oi, menina! Ele está lá atrás, eu acho.
O homem ergueu a porta balcão e eu passei apressada, respirando fundo para não surtar. O propósito de mamãe se cumpriria afinal. Aquela era uma decisão responsável.
A cozinha cheirava a açúcar e canela, um cheiro que eu já havia associado a Luke. Saí para o dia ensolarado pela porta lateral e o vi de costas, sentado no sofá. A embalagem parda estava ao seu lado. Eu já queria chorar.
Ao ouvir minha aproximação, ele se levantou e me puxou para um abraço contra o qual eu não consegui (e nem queria) lutar.
— Oi — ele disse com um sorriso. — Aconteceu alguma coisa? — perguntou preocupado ao partir o abraço e olhar meu rosto tenso.
— A gente tem que conversar, Luke.
Ele sentou de novo no sofá com um olhar perdido e eu permaneci em pé à sua frente. Se eu sentasse, meus joelhos fracos não conseguiriam me levantar de novo.
— Claro, pode falar.
Suspirei. Era melhor soltar de uma vez.
— Olha só, eu não quero um romance de verão, tá? — eu falei curta e grossa, sentindo meus olhos marejados de tristeza e irritação.
— Eu fiz alguma coisa? — ele indagou preocupado, com as mãos juntas.
— Não — respondi. — É só que... não é pra isso que eu estou aqui, Luke. Foi tudo um grande erro que quase... — me interrompi. Eu e minha maldita mania de falar demais quando estava nervosa.
— Como assim? — ele pergunta, parecendo perdido.
— Não é nada que você precise saber.
Ele franziu as sobrancelhas, fazendo seu rosto ganhar um ar triste. Responsável, Frederiksen!
— Mas a gente tinha combinado...
— Eu sei que a gente tinha combinado — cortei. — Mas eu simplesmente não posso... não dá mais, entende?
Virei de costas e cruzei os braços.
— Vanessa! — ele chama veemente, se levantando do sofá e pousando a mão no meu ombro, virando meu corpo na sua direção. — Você não pode aparecer na vida das pessoas, mexer com elas e cair fora sem dar nenhuma explicação!
Suspirei, rolando os olhos para não chorar. Eu não iria envolvê-lo no meu drama familiar fodido e idiota. Seria doloroso, eu sabia, mas eu precisava afastar Luke de mim para o meu bem, para o bem dele e, acima de tudo, para o bem de Abigail.
— Eu sinto muito, Luke — foi tudo que eu consegui dizer. — Espero que você fique bem.
— Vanessa, você não precisa...
— Preciso — o cortei.
Apesar de seu olhar quebrado estar me dilacerando, eu precisava colocar um final naquilo. Eu precisava cumprir com a minha responsabilidade, o motivo pelo qual eu havia sido mandada para Boulder City.
Não consegui dizer mais nada. Havia me apegado demais à ele nessas últimas semanas que saímos. Alguns segundos de silêncio nos esmagaram enquanto eu olhava para qualquer lugar que não fosse ele.
— Eu ainda sou muito grata — disse em voz baixa. — Por ter te conhecido. Em outras circunstâncias, eu...
— Tá certo, Vanessa — ele me cortou com um risinho irônico. — Você não quer um romance de verão, certo?
— Não deixa mais difícil do que já é. Não é culpa sua, Luke.
— Certo? — ele insistiu, me segurando pelos ombros e me fazendo olhar em seus olhos. Suspirei de forma pesada. Se aquele era o único jeito, então que se foda.
— Certo — concordei.
Ele afastou suas mãos de mim e deu dois passos de distância antes de me olhar, assentindo com a cabeça. Me doía tanto precisar me afastar dele, justamente ele que me fez tão bem. Abaixei a cabeça, não aguentando seu olhar dolorosamente esverdeado pousado sobre mim. Não o vi indo embora. Só o som dos seus passos me deixando sozinha naquele estacionamento vazio e depois a van Nessa partindo.
***
Cheguei na casa de Joyce chorando. Ela abriu o portão e já me envolveu em um abraço reconfortante. Eu trazia nos braços o papel pardo abandonado por Luke no sofá desgastado. Joyce me acomodou na sala e quando abrimos a embalagem, nos deparamos com alguns cupcakes decorados com corações. Joyce os levou para a cozinha e me acolheu durante algumas horas enquanto eu narrava para ela os acontecimentos.
— Você teve muita coragem, Nessa — suspirou ao final do meu discurso. — Ainda acho que haviam outros caminhos, mas esse com certeza era o que mais exigia peito.
— Era o mais certo, Joyce. Romances de verão nunca vão pra frente e eu tenho que cuidar de Abby.
Ela apenas assentiu e me envolveu em mais um abraço apertado, onde eu me permiti molhar um pouco a sua camiseta com minhas lágrimas. Ouvi um celular vibrando insistente, indicando uma ligação.
— É o meu — Joyce disse, dispensando a chamada.
— Não era importante? Pode atender, Joy. Não tem problema — desencostei a cabeça do seu peito.
— Nada que não possa esperar um pouco, ela vai entender.
— Ela? — indaguei, conseguindo sorrir um pouco.
— Lembra a menina que eu disse que ia sair? Na noite do coquetel?
— E quando eu vou poder conhecer ela?
— Bem, ela se chama Milena. E você vai conhecer ela na hora certa. Não quero parecer uma doida.
Eu consegui exprimir uma risada e encostei a cabeça no sofá.
— Fico feliz por você, Joy. Espero que ela seja uma menina legal.
— Ah, ela é maravilhosa, Nessa — Joyce se deitou ao meu lado, com os olhos vagando para longe de nossa conversa ali. — É muito inteligente. Vai começar a cursar filosofia no Nevada State College quando o verão acabar.
— Uau — exclamei me virando para ela. — Uma universitária! Bate aqui!
Fizemos um high-five. Olhei as horas no celular e resolvi voltar para o hospital.
— Acho que vou pegar meu caminho — disse com um suspiro. — Muito obrigada por me aguentar.
— É pra isso que as amigas servem — Joyce sorriu. — Qualquer coisa que precisar, não hesite em me ligar.
Nos levantamos do sofá e eu chamei um táxi.
— Quer levar os cupcakes? — Joyce perguntou com certo receio, apontando para a cozinha.
— Não, obrigada — neguei, sorrindo para a tranquilizar.
Ela deu de ombros e entrelaçou seu braço ao meu. Fomos esperar meu transporte no portão e, quando o carro parou, demos um último abraço apertado antes que eu embarcasse, de volta para o hospital.
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