Um Verão em Boulder City

10 Aaron, Lukesio e a Batalha dos Vegatais


Notas iniciais
Mais um capítulo fresquinho ♥ boa leitura

Acordei com uma leve dor de cabeça e olhei a hora no celular: onze e quarenta da manhã. Mais quatro novas mensagens de Luke.

Luke Taurino: Bom dia :D
Luke Taurino: Você vem, certo?
Luke Taurino: Vou te esperar na padaria meio dia.
Luke Taurino: Não me dá um bolo, beijos.

— Puta merda — exclamei, me jogando para fora da cama. Não vi Joyce no quarto, o que significa que ela já deve ter levantado.

Prendo o cabelo bagunçado em um rabo de cavalo e coloco meu macaquinho jeans e uma camiseta preta lisa. Pego meu celular e desço as escadas rapidamente, me deparando com Joyce lavando louça na pia e Abigail indo para os fundos como de costume.

— Bom dia — saúdo, tentando não parecer afobada.

— Bom dia — Abigail responde antes de sumir em seu recanto sagrado de terra.

— Joyce — falei em voz baixa e ela me olhou, chacoalhando as mãos molhadas na pia. — Luke me chamou para almoçar na casa dele.

Ela arregalou os olhos e me mirou com um sorriso pervertido em sua face.

— Ah, eu já ouvi tantas histórias de damas inocentes que saíam para almoçar e depois descobriam que elas eram o almoço — ela disse e eu explodi em uma risada. — Que foi? Acontece, ok?

— Mulher, para de ser perturbada, eu só vou almoçar! — falei, prendendo um sorriso. — Preciso que você saia comigo, ele vai estar me esperando na padaria.

— Ok — respondeu revirando os olhos.

— Vovó, vou indo com a Joyce, ok? — falei, saindo para o quintal. — Tudo em ordem? Algum problema?

— Claro que não, Nessa — respondeu, cavucando na terra perigosamente próxima do lugar onde havíamos escondido a garrafa. Engoli em seco. — Não vem tarde. E almoça direito!

— Tá certo, vózinha — sorri com a sua típica preocupação de vó. — Amo você — falei, me virando para a cozinha e pegando a chave extra que eu usava.

Já na rua, eu respirei fundo após trancar a porta.

— E a senhora ia me contar quando? — indagou Joyce com as mãos nos quadris, imitando uma pose brava.

— Eu tentei te contar — me defendi. — Mas a senhora bateu a cabeça no travesseiro e desmaiou.

Ela bufou.

— Quando você vai comentar sobre esse seu lance com a Abigail?

Mordi o lábio. Eu havia me perguntado isso já, havia me questionado se valia a pena, afinal era um romance de verão.

— Não sei — resolvi lhe responder da forma mais honesta possível. — Você também está com dor de cabeça? — mudei de assunto.

— É, quando eu acordei eu estava sim. Mas melhorou depois que eu comi — respondeu, pontuando a frase com um bocejo. — Que noite.

— Que noite — concordei.

Andamos pelo resto do caminho em silêncio. Ao chegar na avenida principal, eu vi Luke usando um boné, encostado na parede da padaria, ocupado em enrolar no dedo um fio solto de sua camisa xadrez. Suspirei e me virei para Joyce, que colocou alguns fios soltos do meu rabo de cavalo atrás da orelha.

— Juízo — recomendou com um sorriso. — Me conta tudo depois — ela me virou pelos ombros na direção da padaria e me deu um tapinha na bunda para me encorajar a andar.

Olhei para os dois lados da rua antes de atravessar na direção de Luke. Ele sorriu e se desencostou da parece ao ver minha aproximação.

— Oi — cumprimentou, me puxando para um abraço. — Achei que fosse me dar um bolo.

— Jamais — sorri de volta.

— Vamos? — perguntou após me soltar.

— Vamos — concordei.

Ele passou um braço pelos meus ombros e me guiou na direção da rua lateral onde a van Nessa estava estacionada. Como sempre, ele abriu a porta para mim antes de se encaminhar para o assento do motorista. A van Nessa acelerava pelas ruas da cidade com os vidros totalmente abaixados, deixando entrar um vento muito gostoso dentro do carro. A música no rádio era agitada e tinha uma batida muito gostosa.

O trânsito estava tranquilo nos permitindo chegar rapidamente em sua casa, uma construção de dois andares simples e bonita. A van parou rente ao meio fio na frente da casa. Luke desligou o motor e soltou o cinto, permanecendo dentro da van por mais alguns segundos.

— Meu irmão mais novo está em casa — avisou. — Ele pode ser um pé no saco de vez em quando, então só ignora tá bem?

— Tá bem — concordei, respirando fundo e soltando meu cinto de segurança. Luke desceu da van e prontamente abriu a porta para mim, trancando o veículo e me puxando pela mão na direção da porta de entrada.

Prendi a respiração enquanto a porta era destrancada e aberta. Um menininho de uns oito anos estava sentado no degrau mais alto da escada com as mãos apoiadas nos joelhos e uma expressão carrancuda ao nos ver entrar.

— Oi, Aaron — Luke cumprimentou o irmão, fechando a porta e jogando as chaves em uma mesinha ao lado da entrada. — Essa é a Vanessa.

— Oi, Aaron — eu disse com um sorrisinho, me sentindo um pouco tensa.

— Por que seu nome é igual ao do carro do Luke? — ele perguntou sem se levantar. Eu sentia seus olhinhos me escaneando e sabia que seu cérebro trabalhava tentando decidir se gostava de mim ou não. Fiquei um pouco preocupada porque o julgamento infantil jamais falha.

— Porque é o destino, Aaron — Luke suspirou. — Cadê o filme maneiríssimo que eu pedi pra você escolher enquanto eu ia buscar a Nessa?

— Na sala — ele disse, se levantando e descendo a escada.

Era alto para ter oito anos, sendo pouca coisa mais baixo do que eu. Era bonito igual Luke: olhos claros e sobrancelhas espessas. Usava uma camiseta do Homem Aranha e uma bermuda de surrada, claramente roupas de ficar em casa.

— Então por que você não vai colocando ele no DVD enquanto eu e Nessa pegamos o almoço? — perguntou, bagunçando os cabelos do irmão.

O menino deu mais uma olhada para mim antes de se virar e entrar no cômodo à minha direita para preparar o DVD. Luke me puxou pela mão para a esquerda, entrando na cozinha.

— Parece que ele gostou de você — comentou, abrindo o forno e fazendo um delicioso cheiro de frango preencher todo o ambiente.

— Você acha? — indaguei sorrindo um pouco. — Ele não me pareceu muito amistoso.

— Ele é sempre assim, se não tentou te bater é porque gostou de você — informou, retirando a forma e a colocando em cima da mesa.

— Parece delicioso — comentei.

— Não se iluda, eu comprei pronto no mercado e enfiei no forno — falou rindo. — Eu só sei confeitar. Pega os pratos ali em cima — apontou para um armário branco ao lado do forno.

Peguei três pratos e os coloquei em cima da mesa. Luke colcou o arroz de dentro do microondas para esquentar e se virou para mim, me dando um beijo na testa antes de beijar meu lábios. Era um beijo intenso que foi brutalmente interrompido pelo apito do microondas. Ele retirou a travessa de arroz e a colocou em cima da mesa. Pegou talheres e copos na pia.

— Sirva-se — falou. — O almoço está simples, porém a sobremesa está sublime.

— Convencido — brinquei, puxando um prato para me servir.

Eu peguei uma coxa de frango e uma colher grande de arroz. Luke colocou comida para si e para Aaron, encheu três copos de suco e sumiu por alguns segundos para levar a comida do irmão. Quando voltou piscou para mim, pegou seu prato e seu copo e seguiu para a sala comigo bem atrás.

Aaron já estava comendo com o prato pousado em cima de uma almofada, sentado ao canto do sofá. Luke sentou-se ao seu lado, bem no meio, e eu sentei ao lado de Luke. Na televisão, o filme estava pausado nos créditos de abertura.

— O que você escolheu? — perguntou Luke, puxando uma almofada para colocar seu prato em cima.

— A Batalha dos Vegetais — disse, dando play no desenho.

— Eu falei que não era para escolher desenho, Aaron! — exclamou Luke.

— E daí? — desafiou o menino.

Luke olhou para o irmão sem reação.

— E daí que agora você vai morrer de inanição — afirmou, retirando o prato do colo do menino e o segurando acima da cabeça. Eu sorri perante a cena fraterna.

— Ah, Lukesio! — exclamou o menino. — Para de graça e me devolve, vai — mandou, autoritário.

— Para de graça você, vai derrubar meu prato — Luke riu, levantando o prato ainda mais.

— Devolve! — pediu mais uma vez.

Luke desceu o prato para o colo do menino novamente.

— Pirralho chato — implicou, se acomodando no sofá e prestando atenção na tela da tevê. — Espero que você não se importe em assistir desenho.

— Não tem problema — eu ri. — Eu gosto de desenhos, Lukesio.

Luke revirou os olhos para mim.

— Ridícula — falou.

— Muito obrigado pela sensatez, Vanessa — Aaron agradeceu, totalmente vidrado no desenho que se desenrolava na tela.

A comida estava ótima e o desenho era bastante engraçado. Descobri que aquele era o filme favorito de Aaron e que ele o assistia pelo menos duas vezes por semana. Eles eram uma dupla engraçada de irmãos: implicavam muito um com o outro, mas era o jeito deles de demonstrar afeto.

— Quer mais comida? — Luke disse em voz baixa ao ver meu prato vazio.

— Não, obrigada — agradeci.

Ele pegou o prato da minha mão e o prato de Aaron que estava na mesinha e juntou com o seu, levando os três para a cozinha. Retornou com a jarra de suco para fornecer o refil e se sentou ao meu lado, agora passando a mão sobre meus ombros.

Beberiquei meu suco, recostando a cabeça no ombro de Luke para assistir ao filme. Agora o cachorro do personagem principal tentava arduamente capturar o temido Coelhosomem. Aaron estava completamente vidrado no desenho, era muito engraçado de ver. As crianças têm essa mania de se fixarem por coisas bobas em um nível que não importava para elas o quão idiota é, aquilo sempre ia ser o que as tirava do foco e as desacelerava. Engraçado como essa definição me lembra do meu último relacionamento: era algo repetitivo, que eu já sabia como ia acabar, mas ainda assim eu me deixava levar porque era confortável e me entretia.

— Ei — Luke chamou. — Tudo bem? Acordada?

Percebo que eu devia estar viajando com a maior cara de bocó do mundo.

— Sim — eu sorrio. — Só pensando.

— Incrível como desenhos deixam as pessoas reflexivas.

— Vocês podem calar a boca? — pediu Aaron. — Eu estou tentando assistir.

Eu e Luke rimos do tom autoritário de Aaron, mas nos calamos. O polegar de Luke desenhava círculos no meu ombro e eu já não prestava mais atenção no filme. Sua mão pegou a minha sobre sua perna, entrelaçando nossos dedos. Eu ergui meus olhos para seu rosto e encontrei suas orbes esverdeadas me encarando. Seu típico sorrisinho de canto brincava com seus lábios convidativos, me chamando. Ele se inclinou provocativo na minha direção e eu sorri, mordendo os lábios em expectativa de receber seu beijo. Mas o beijo não veio.

— Acho que é hora da sobremesa — falou Luke, se afastando de mim. — Você não acha, Aaron?

— Claro — o menino concordou de pronto.

— Você me ajuda com as tijelas, Vanessa? — perguntou se levantando e estendendo a mão para mim com uma piscadela.

— Ajudo — respondi sorrindo e me levantando.

— Você quer que eu dê pause? — Aaron perguntou, me fazendo parar.

— Não precisa, pode ir assistindo — o tranquilizei.

O menino deu de ombros e voltou a se focar no filme. Rumamos para a cozinha e eu sinto um gelo de expectativa e excitação tomar conta de mim. Luke encosta na me puxa de encontro a si, mantendo nossos corpos unidos com as mãos na minha cintura.

— Ele se dispôs a pausar A Batalha dos Vegetais por você — ele sorriu embasbacado. — Aquele moleque te ama.

— O que eu posso fazer? — me defendi, fingindo jogar meus cabelos por cima do ombro. — Eu sou encantadora.

— E é mesmo — uma de suas mãos segurou meu rosto, fixando meus olhos nos dele.

Seus lábios capturaram os meus em um beijo intenso que enviou arrepios por todo meu corpo, como se ele houvesse me transmitido uma corrente elétrica. Deslizei os dedos pelo seu pescoço e nuca, me sentindo inebriada por aquele momento como nunca me senti na vida. Eu estava totalmente entregue às sensações que me percorriam dos pés à cabeça, algo bastante raro. Esse era o efeito que Luke causava em mim: sem ansiedade, sem receios, sem o constante aperto de apreensão na boca do estômago.

Ainda era estranho para mim me relacionar com alguém que não me causava tudo isso. Eu tinha a impressão de que sempre seria daquele jeito: corrido, afobado, desesperado, urgente, enfim, o oposto de toda a calma que vinha junto da presença de Luke. Isso tudo vivia martelando em minha cabeça, me fazendo sentir que a qualquer momento tudo desabaria porque meu cérebro não processava que era possível me relacionar com alguém que não trouxesse consigo toda essa carga.

Esses pensamentos me fazem partir o beijo e manter os olhos fechados por mais alguns segundos.

— Tudo bem? — ele perguntou, pousando a mão em minha bochecha.

Só agora eu percebo que ela está úmida. Aperto ainda mais os olhos, enviando meu choro de volta para dentro enquanto abaixo a cabeça.

— Vanessa, você está bem? — Luke pergunta preocupado, com as duas mãos no meu rosto, o erguendo com delicadeza. — Ei.

Abro os olhos e o encaro. Eu disse que não ia jogar meu passado idiota em cima dele. O passado não existe. Eu sorri fraco enquanto o puxei pelos ombros para um abraço apertado.

— Luke, você salvou o meu verão — sussurrei em seu ouvido. Ele me apertou com força contra si e o calor daquele abraço me fez sentir bem novamente.

— O que aconteceu? — ele pergunta, me segurando pelos ombros para olhar meu rosto.

— Nada — desconverso. — É besteira minha. Vamos comer sobremesa.

Ele cerra os olhos durante alguns segundos e depois sorri, beijando minha bochecha e se desencostando da mesa.

— Pega o sorvete no freezer, por favor — pediu.

Luke se esticou para pegar pratinhos no armário. Eu peguei o pote de sorvete e o coloquei em cima da mesa. Ele abriu a geladeira e tirou de lá uma torta de limão que me fez salivar só de olhar.

— Meu Deus — exclamei. — Que torta linda — falei.

— Modéstia a parte — ele falou, a colocando ao lado do sorvete. — Está sensacional.

Luke cortou três fatias e as colocou nos pratos acompanhadas de uma bola de sorvete de creme. Peguei colheres na gaveta e coloquei uma em cada prato. Luke pegou um em cada mão e eu peguei o meu, rumando para a sala novamente. Os olhos de Aaron brilharam ao ver a sobremesa na mão do irmão. Sentamos todos no sofá para comer a maravilhosa torta enquanto o filme aparentemente chegava ao seu final feliz.

— Que pena, vocês perderam a melhor parte — lamentou Aaron.

— Aaron, conta pra Vanessa sua teoria mirabolante — pediu Luke enquanto os créditos rolavam. — Vocês vão se dar muito bem, são cheios das teorias malucas sobre tudo.

— Vanessa, imagina um corredor de hotel — Aaron falou com a boca cheia de sorvete.

— Engole antes de falar — pediu Luke.

— Um corredor, ok — eu disse com um sorriso.

— Cada porta do corredor — explicou, engolindo o conteúdo. — É um universo.

— Um universo inteiro? — perguntei.

— Sim. Os funcionários desse hotel são os deuses — falou. — Eles podem transitar livremente entre os quartos quando quiserem.

— E o que isso explica, Aaronzinho?

— Explica porquê temos muitas religiões. Os deuses entram nos quartos, arrumam ele do jeito que querem, ditam suas regras e quando se cansam do quarto vão embora. Outros deuses podem entrar depois e fazer o que quiserem. E os deuses antigos podem voltar.

Eu pisquei, atordoada por alguns segundos. Aquele menino havia acabado de me dizer uma teoria de multiverso que explicava as religiões utilizando como analogia um corredor de hotel.

— Quantos anos você tem de novo? — perguntei e Aaron sorriu, feliz em impressionar. — Isso é genial. O quão grande é esse hotel?

— Muito grande — falou, enchendo a boca de sorvete novamente.

— Eu disse. Aaron faz juz à cabeça grande que ele tem — Luke implicou.

Aaron depositou seu prato na mesinha de centro e começou a fazer cócegas em Luke que, entre risadas e ameças de morte, lhe implorava para parar.

— Vanessa, salva a torta! — pediu esticando o prato para mim. Eu o peguei e coloquei ao lado do de Aaron, contemplando a cena sorrindo.

Aaron subira em cima de Luke e o prendeu abaixo de si no sofá.

— Assim não vale — exclamou Luke sem ar. — Você é baixo.

Finalmente, Luke inverteu a situação e o segurou pelos braços. Aaron se debatia tentando escapar.

— Me solta, me solta! — repetia rindo.

— Vou te soltar. Agora vamos ter um alvo comum — Luke olhou para mim. — Atacar! — ordenou.

Os dois se lançaram contra mim, me fazendo cócegas sem parar. Eu já estava sem ar de tanto rir quando os dois desistiram. Aaron se jogou no chão respirando pesado e Luke caiu para o lado oposto ao que eu estava do sofá. Recobrei a respiração com dificuldade, porém inundada de felicidade.

Notas finais
Fiquem ligados que amanhã tem a publicação de um capítulo bônus einn! Afora isso, vejo vocês na segunda feira o/