Um Verdadeiro Conto
5 Capítulo 5
Nas profundezas, Ariel acordara no meio da noite gritando. Seus olhos vermelhos e sua cara desesperada demonstravam que ela estava completamente assustada. Ela deu um grito muito alto. Todos vieram correndo. Sebastião, o caranguejo que trabalhava para seu pai correu o mais rápido possível. A sereia se levantou da cama e olhou ao redor: suas seis irmãs, Andrina, Aquata, Arista, Attina, Adella e Allana, a encaravam assustadas. Elas todas sempre foram meninas de muita classe e nunca entenderam o jeito despojado e destrambelhado de Ariel. O rei Tritão correu para dentro do quarto delas e foi até a ruiva.
–Filha, o que houve?
–Eu tive um sonho onde eu era bem pequena e tinha pernas. Uma moça me entregou a Úrsula e...
–Não fale o nome desta novamente, entendeu? –perguntou Tritão bravo.
A Úrsula era vista como uma bruxa malvada pelo rei e por todos no reino. Ela morava escondida na escuridão, e Ariel nunca a conhecera. Pelo menos não lembrava disso, e todas as conclusões que tinha a respeito dela era em base de fofocas e boatos que lhe contavam.
–Como você sabia que era ela? Por acaso não anda se encontrando com a bruxa, né Ariel? –provocou Aquata, enquanto mexia nos fios castanhos.
–Não, eu apenas tive sonhos. E nesse sonho, ela me entregou pra você, papai, e era como se eu não fosse sua filha.
–Ela diz isso como se não soubesse! –falou Andrina sarcasticamente.
–Saber o que? –perguntou Ariel.
–Saber o que? –perguntou Attina ironicamente, zombando de Ariel.
–Saber que você é adotada. Todo mundo sabe. –Aquata.
–Como assim?
–Eu não acredito que você não disse pra ela, pai! Você disse que ia! –disse Arista.
–Eu sou adotada, pai?- perguntou Ariel.
–Meninas. –disse Tritão chateado.
–Você nunca se perguntou porque que a gente não pode nem chegar perto da Úrsula? –perguntou Attina.
–O papai tem medo que você descubra seu verdadeiro passado. Que você descubra que é filha de outra mulher, e não da nossa mãe, Athena, assim como você não é filha do nosso pai. Você veio da terra. Nunca foi digna da sua cauda. –disse Aquata.
–MENINAS! –gritou Tritão. –Vamos conversar a sós.
–Não tem o que conversar. Não sou sua filha e ponto final. –disse Ariel chocada.
–Era só se olhar no espelho... –cochichou Allana.
–Mas o que a Úrsula tem a ver com isso?
–CHEGA! Não quero você repetindo esse nome de novo, entendeu? Agora todas vocês voltem a dormir! JÁ! –gritou Tritão.
Assim que todas dormiram, Ariel pegou suas coisas e nadou até a parte proibida das profundezas. Até o buraco mais escuro dos sete mares. Até o “lar” da Úrsula. Seus peixes espadas gritavam eufóricos.
–O que faz aqui, princesinha? –perguntou Úrsula mexendo seus tentáculos.
–Eu ando tendo sonhos, e descobri que sou adotada. E não posso falar com você por conta dessa tal adoção. Preciso saber a minha história e acho que você é a única que pode me contar.
–Entre querida... –ela falou lhe apontando para dentro. –Vou te contar a sua história. E ela começa com as três únicas bruxas ainda existentes nesse mundo.
...
No meio das altas árvores da floresta tenebrosa, Anabelle se aproxima com cuidado da grande caverna que visitara a uma semana atrás. Ela encostou a cesta numa pedra e deu a volta olhando em volta.
–Eu sabia que estava ficando louca! Um lobo falante? Imagina!
–Estou imaginando. –disse uma voz bem atrás dela.
A fera sorria de leve a encarando.
–Como você fala? E porque só fala comigo?
–Porque eu Anabelle...
–Como sabe o meu nome? –ela perguntou pulando de susto.
–Além de estar escrito no seu colar, eu conheci seu pai. E você. Não lembra?
–Não... E como você sabe ler? Que tipo de pessoa passaria o seu tempo ensinando uma a ler.
–Eu não sei ler bem. Quem me dera ler igual a você! Eu te vi semana passada com aquele livro. De qualquer forma... Gostaria antes de tudo me desculpar pela terrível morte de seu pai, mas saiba que foi uma questão de sobrevivência.
–Você matou meu pai?! Você não tem coração? –ela gritou.
–Você parecia ser mais compreensiva quando viu a morte a cinco anos atrás.
–Espera! Você matou meu pai a cinco anos atrás? Mas eu o vi hoje!
–Mas esse não pode ser seu pai.
–Ele é meu pai de consideração.
–E você não lembra do seu pai verdadeiro?
–Não.
–E da sua mãe?
–Não.
–E a sua irmã?
–Eu tinha uma irmã?
–Pelo visto será uma longa história... –disse a fera. – Se importa em me acompanhar?
–Eu quero saber agora quem são os meus pais. E a minha irmã. E quem é você.
–Acontece que pra isso, terei que contar a história das três bruxas, e isso levará um tempo. Por favor, passe uma semana comigo.
–Certo. Então, me mostre onde eu devo ir.
A fera levou Belle para dentro da caverna. Lá no fundo, existia uma passagem para um campo deserto, quer dizer, quase deserto, já que um belo castelo ficava bem ali.
–Então eu vou buscar meu pai e minhas coisas e...
–Não, o convite é apenas para uma pessoa.
–Mas...
–Só tem um quarto disponível.
–Eu durmo com o meu pai.
–Não, eu não gosto disso. Ou ele fica num quarto apenas para ele, ou ele não vem. Já que não tem quarto...
–Eu não posso, meu pai está doente, e ninguém gosta muito dele lá onde eu moro, provavelmente negarão lhe ajudar enquanto estiver fora, e além disso... Você é um monstro!
–Não precisa ficar me lembrando disso. Mas, se você prometer me acompanhar e me ajudar eu salvarei seu pai da doença que ele tem.
–Mas você nem sabe qual é! E como poderia ajudá-lo?
–Eu nem sempre fui assim, Belle. E se me ajudar a ser como era, farei o que quiser.
–Então está bem, pegarei as minhas coisas.
Belle avisou ao seu pai que viajaria a busca da cura de sua doença, e apesar dele insistir para que ela ficasse ela foi até o castelo. Ele era bem maior quando se chegava à porta de entrada. Ela bateu, sendo recebida por uma xícara de café.
–Olá! –disse a xícara com voz de criança.
–Ah meu Deus... –sussurrou Belle assustada, fazendo a xícara de entristecer. –Desculpe, xícara.
–Me chame de Zip.
–Olá, Zip.
Ele sorriu.
–Seja bem vinda, Belle. –disse a fera entrando no salão.
Assim que ela entrou, ficou pasma com a bela decoração. Era uma sala grande e com paredes douradas bem bonitas.
–Esses são: Lumiére, Horloge e Madame Samovar, meus melhor criados. E é claro, Zip. –disse a fera apontando para um bule, um relógio e um castiçal com rostos.
–De repente falar com uma fera não ficou tão estranho assim. –disse Ana baixinho.
–Bom, você tem meia hora para se arrumar para o jantar. –disse a fera.
–Meia hora?
–Vamos! Eu vou te ajudar! –disse Madame Samovar, o bule, lhe guiando até o quarto. –Meu amo falando muito de você. Deixou até um vestido separado.
Nesse momento, Belle olhou para o vestido amarelo cheio de detalhes em cima da cama.
–É lindo. –ela falou.
–Então arrume-se logo. –disse o bule.
Depois de exatos trinta minutos, ela desceu as escadas, até a cabeceira, onde Lumiére indicava como seu lugar. A fera já estava sentada.
–Belle... Você está bela! –falou a fera.
–Bom, obrigada. Adorei a escolha do vestido. Mas e a história?
–A história, é claro. Vamos lá... Ela começa com as únicas três bruxas existentes nesse mundo.
...
–Mandou me chamar, majestade? –perguntou Branca de Neve no quarto da rainha do reino Oeste.
–Soube que se recusou a viajar para o Norte.
–Soube que é para eu ir a um baile onde devo encantar o príncipe e me casar com ele.
–Então o recado foi bem dado. Qual o problema? –perguntou a rainha, se sentando em sua cama.
–O problema é que eu não vou sair daqui. Eu gosto do reino Oeste.
A rainha riu.
–Você se acha esperta e injustiçada, não é? Mas não sabe o que é justiça, ou inteligência. Até porque, se fosse inteligente já teria ido correndo pra fora desse reino.
–Mas não será tão fácil me tirar daqui. –ela falou se sentando no sofá, no canto do quarto.
–Por que não vai sair?
–Porque eu gosto daqui.
–Não. Você gosta do meu filho, e você não o terá.
–Você não controla o coração dele.
–Minha mãe também não controlava o meu, mas acabou com o amor da minha vida em poucos segundos.
A rainha se levantou e foi para trás do sofá onde Branca estava sentada. Pegou seus fios negros e começou a trançá-los. Branca de Neve estava quieta.
–Você não sabe o que é perder quem você ama. O que é perder sua própria filha. Não, você não sabe. É como perder cada fio de cabelo. Um de cada vez. Como morrer lentamente. Várias e várias vezes. Sabe Branca de Neve... –disse a rainha voltando para a cama. –Deve ser horrível viver sem saber da onde veio, sobre sua família... Eu vou te contar uma história. A sua história. E ela começa com a história das únicas três bruxas vivas nesse mundo. E vou logo avisando que não acaba com um Felizes Para Sempre.
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