Um Verdadeiro Conto
2 Capítulo 2
As carruagens foram chegando aos poucos e cercando a caverna escura que ficava no meio da floresta. Apesar de não demonstrar, Robert tremia por dentro, de tão nervoso que estava. Os guardas tiraram à força a fera de dentro da caverna, e a levaram até o homem com armadura e uma espada grande. O animal chorava e miava, ele definitivamente não queria estar ali, mas parecia que o único que o entendia era a menina da capa branca. Ela era a única, pura o suficiente, para encontrar os sentimentos expressados naquele par de olhos inocentes da fera. Ele não queria machucar ninguém, mas era obrigado a fazer isso. Ele tentou fugir, mas os guardas o pararam. Robert tirou a espada e ergueu em direção a fera. Ela miou mais alto. Anabelle correu até a fera.
—Você não quer fazer isso! Ninguém quer fazer isso! Vamos, pare! –ela gritou para o rei.
—Ela matou a minha mãe. –ele disse olhando sério para o lobo.
—A vovó sumiu! Não temos prova contra o lobo. –ela falou triste.
—Chega Anabelle! Saia!
—Não! A vovó sumiu! Não temos prova contra a fera! Ninguém nunca a viu matando!
—Anabelle, você está de castigo, agora saia!
Dois guardas a pegaram pelos braços, e continuaram a segurando bem perto da fera. Robert ergueu a espada, e quando finalmente ia enfiá-la no coração do monstro, ele o comeu vivo. Uma mordida grande, arrancando o corpo pelas pernas, e deixando apenas sua cabeça. Aquele golpe certeiro fez um maré de sangue respingar em todos, principalmente em Anabelle, que estava muito perto. Sua capa branca, que a protegia estava completamente vermelha. Todos, principalmente Meredith, o rei e Cinderella sentiam raiva da fera, mas Ana não. Ela sentia pena. Sentia pena de um animal ser obrigado a matar seu pai. Ela não culpava o monstro, e sim o rei.
A fera voltou ao seu esconderijo no interior da caverna, enquanto o rei corria até a cabeça do amigo.
—O que eu fez? –ele se perguntava.
—Tio Robert. –falou o príncipe triste.
—Robert! –gritou Meredith chorando.
—Pai. –falou Cinderella triste.
—Foi tudo culpa do rei bêbado! Ele foi tirando o meu pai aos poucos e agora o tirou de mim de vez. –falou Ana.
—Cuide dos modos da sua filha! –disse a rainha para Meredith.
—Meu marido acabou de morrer e você pensa na educação da minha filha? –perguntou Meredith assustada.
—Tenha piedade, o marido dela acabou de morrer. –começou o rei. –O Robert era um homem incrível. Seu único erro foi roubar de mim a mulher da minha...
Meredith olhou chocada para o rei. Ele mal terminou a frase e caiu morto. Sem razão. Sem armas, sem nada. Só caiu.
—Pai? –perguntou Encantado ao abraçá-lo. –Pai!
—Querido! –gritou a rainha se aproximando.
Ela deitou a cabeça no peito dele, e botou a mão em seu pulso.
—Ele parou de respirar. Deve ter sido envenenado! –ela disse baixo.
—Quem faria algo assim para o seu rei? –perguntou Encantado.
—O Robert! –ela falou apontando para a cabeça do falecido. –Foi ele quem buscou o vinho!
—Meu marido jamais faria algo desse tipo. Eles eram amigos! –disse Meredith.
—Então quem foi? –perguntou a ruiva, cara a cara com a doce morena.
—Foi você. –ela disse certa. –Foi você que planejou tudo! Foi você que pediu para ele buscar o vinho, e o envenenou, depois deu a ideia de trazer o Robert para lutar contra a fera e você sabia que ele não conseguiria, apenas para matá-lo e não ter provas contra você. Eu vi você mexendo na bebida do rei e murmurando depois, logo antes dele dar essa maravilhosa ideia.
—Eu não fiz isso. –ela disse friamente.
—Então é a minha palavra contra a sua.
—A palavra de uma camponesa contra a de uma rainha.
—Uma rainha? Você se casou com ele há menos de um dia.
—Mesmo assim eu serei a rainha até o príncipe completar vinte anos ou então se casar.
—Você é uma aproveitadora. –disse Meredith a encarando.
—Agora chega! Guardas! Matem-na! –gritou a rainha.
—Não majestade! Tenha piedade, por favor! –gritou Cinderella.
—Mamãe! –disse Anabelle abraçando o vestido da mãe.
—Terei piedade. –falou a rainha. –Cortem a cabeça e ponham ao lado da do marido. Para ficarem juntos pela eternidade, assim como nos votos de casamento.
—Você é uma bruxa! Pelo menos morrerei com honra. –falou Meredith.
Os guardas pegaram Ana e então enfiaram a espada no pescoço de Meredith. Sua cabeça estava no chão. Os guardas a jogaram ao lado da de Robert. As duas continuaram chorando.
—Vamos, peguem o corpo do rei e entrem na carruagem. –falou a rainha.
—E as cabeças? –perguntou um guarda.
—Que apodreçam juntas. –disse a ruiva friamente.
—E as meninas? –perguntou o mesmo homem.
—São órfãs. Deem elas a algum camponês.
—Por favor, majestade. Tenha piedade de mim. –falou Cinderella.
A ruiva analisou Cinderella de ponta a cabeça.
—Você vai para o castelo comigo.
—E minha irmã?
—Ela... Bom, guardas deem a alguém que queira. Já fiz minha boa ação lhe aceitando.
—Mas... Ela é minha irmã. –disse a loira olhando para a pequena que chorava com sua capa vermelha.
—Calma querida. Tenho forças de todos os lados que nos ajudarão. –ela falou olhando para Cinderella.
—Como assim? –perguntou a loira.
—Com algumas palavras ninguém se lembrará de você, da sua irmã e dos seus pais. Nem mesmo você.
Cinderella, sem entender ficou quieta. Na verdade, a rainha tinha se enganado, a bruxaria que ela praticava secretamente não tinha forças de todos os lados. Apenas de um. O lado negro.
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