Os dias passavam voando. Kristoff, ou melhor, Peter, tinha passado diversas aventuras ao lado de Belle. Desde lobos correndo atrás deles, dias sem local dormir, e horas de fome. Já era o terceiro dia que os dois andavam sem parar. Já era noite quando ele acharam um lugar na floresta bom para passarem a noite. A neve, provavelmente provocada por Cinderela ocupava cada vez mais os reinos, as florestas, e todos os cantos de seu hemisfério. Peter deu um jeito de fazer uma fogueira, enquanto Belle acariciava Sven.

–Consegui. –disse Peter finalmente conseguindo manter o fogo da fogueira acedo.

–Que bom! –ela falou se sentando em torno da fogueira.

Peter se sentou ao seu lado. Os dois se encaram por um tempo.

–Sabe, a gente nem conversou direito ainda. –ela disse olhando pra ele. –Você mora aonde?

–Em um lugar muito longe daqui, pode acreditar... –ele falou.

–Mas... Longe onde?

–Mais ao Norte que o reino Norte, e mais ao sul que o reino Sul.

–Mas... Isso é impossível, não é? –perguntou Ana confusa.

–Depende dos olhos de quem vê.

O silêncio tomou conta dos dois, até que Ana, olhando para o fogo perguntou séria:

–Por que você estava sozinho andando na neve? Não tem família? –ela perguntou meio sem graça.

–Eu tenho o Sven, e só isso me importa. –ele falou sério, deixando ela ainda mais sem graça. –E você? Tem família?

–Sim. Meu pai, ele já ta bem doente e não sei se vai aguentar muito, mas com fé, vai ver meus filhos crescerem! Não demorar muito pra isso...

–Você é casada? –perguntou Peter um pouco surpreso.

–Noiva, a realidade. Ele é um cara incrível e lindo. Ele ta cuidando do meu pai agora.

–Você o conhece a muito tempo?

–Não muito, mas o bastante para acreditar que ele é o amor da minha vida.

–Mas fazia quanto tempo desde a primeira palavra trocada entre os dois quando ele te pediu em casamento?

–Algumas horas, eu acho.

Peter a encarou pasmo.

–Está me dizendo... QUE FICOU NOIVA DE UM CARA QUE TINHA ACABADO DE CONHECER?

–Ah, vamos! Nunca sentiu que uma pessoa era certa mesmo a conhecendo a pouco tempo?

–Se esse pouco tempo for alguns dias tudo bem, mas HORAS?! –ele gritou.

–Olha, eu não te conheço muito bem, e você não pode me julgar assim.

–Me conhece a mais tempo que o seu noivo quando ele te fez a proposta. –zombou Peter.

–Se quer tirar sarro de mim tudo bem, eu não estou nem aí. Mas fique falando sozinho. –ela disse dando as costas, e se levantando.

Peter se levantou e correu até ela, a segurando pelo braço.

–Ana, não queria te magoar, desculpa. –ela o encarou meio chateada. –Só acho... –ele continuou. –Que uma menina bonita como você não deveria se casar com o primeiro que aparecesse. Aposto que você só fez isso porque não conheceu alguém que mexesse com seu coração.

Ela olhou para seus olhos azuis, concentrada. Ela realmente o achava atraente.

–Eu conheci sim, dias antes de aceitar a proposta do meu noivo.

–Então foi isso... –disse Peter se afastando um pouco, sem tirar os olhos da morena. –Ele te deixou não foi?

–Na verdade, eu o deixei.

–Ele te magoou então. E você, carente, aceitou a proposta desse maluco.

–E você acha que ele pode estar fazendo alguma coisa com meu pai? E se ele não me amar mesmo? E se não passar de um louco? Meu Deus... –ela falou entrando em desespero.

–Calma, vai ficar tudo bem. –ele disse, tentado acamá-la.

–Talvez... Eu devesse voltar.

–Só falta um dia pra chegarmos a sua irmã, é tarde demais pra voltar agora. Mas prometo que assim que sairmos com sua irmã, vamos procurar seu pai.

–Obrigada. –ela falou o abraçando.

–Mas sobre aquela sua desilusão amorosa, o que ele fez pra você?

–Me trancou numa mansão por dias pra me contar a minha verdadeira história, já que eu não lembrava de nada. Disse que eu não poderia levar meu pai, pois não tinha quartos, mas sei que tinha vários.

–Como você lembrou de tudo? Quando... Suas memórias voltaram? –perguntou Peter.

–Quando eu estava voltando pra casa, depois de sair da tal mansão.

–Vocês... –Peter tentou procurar uma maneira delicada de perguntar aquilo. –Se amavam? Quer dizer... Você sentia seu coração bater mais rápido perto dele? E o tempo congelar? Como se nada mais existisse?

–Sim. –ela falou depois de pensar um pouco.

–E vocês se despediram com um beijo?

–Sim, por quê?

–Porque o amor verdadeiro pode acabar com qualquer feitiço. E foi isso que aconteceu.

Ana o encarou por um tempo, pensando no assunto.

–Você ta querendo me dizer que essa pessoa quem eu beijei é o meu amor verdadeiro?

–Provavelmente. –disse Peter voltando a encarar o fogo.

–Não sei se devo acreditar nisso... Mas, talvez eu tenha conhecido meu amor verdadeiro e só não saiba quem é.

–Bom, isso depende do seu coração, e não de mim.

O silêncio tomou conta do lugar por um tempo.

–Ou azul... Que tal amarelo? Se bem que ta nevando, e com neve amarelo não rola... –disse uma voz um pouco distante.

Peter e Ana olharam pra longe. Não conseguiam ver nada, já que estava escuro. Peter acendeu uma tocha e caminhou pra descobrir de onde vinha a tal voz. Ana o acompanhou. Ele caminharam por mais ou menos dois minutos até acharem que estava falando. Um boneco de madeira sentado no canto de uma árvore. Assim que ele viu os dois, ficou parado e quieto, fingindo que não tinha vida.

–É impressão minha, ou esse boneco estava falando? –perguntou Peter.

–Eu também ouvi. –disse Ana, se aproximando e olhando de perto. –Espera um pouco! Eu conheço esse boneco.

O boneco mexeu os olhos, encarnado Ana.

–Pinóquio!- Ana gritou.

–O boneco tem nome? –perguntou Peter.

–Sim. Quando eu era pequena, o Gepeto, um dos melhores amigos dos meus pais, que morava pertinho de mim, tinha perdido a mulher e o filho num acidente, e com saudade de seu pequeno Pinóquio que devia ter uns sete anos, ele fez esse boneco, e botou o nome do filho. Sempre o tratou como se fosse mesmo da família. Eu e a Cinderela, por sermos filhas do seu melhor amigo, éramos as únicas crianças com quem Pinóquio podia brincar. Mas que eu me lembre, ele não falava.

–Ana? –ele perguntou se levantando calmamente. –Quanto tempo! –ele disse a abraçando.

–Um boneco falante acabou de te abraçar? –perguntou Peter se fazendo de surpreso. Ele já tinha visto coisas mais malucas que aquelas.

–Qual o problema? Eu gosto de abraços quentinhos. –ele disse olhando para Peter.

–A é, Pinóquio? –disse Peter sorrindo.

–Não me chama assim. Meu nome é Olaf. –ele falou sério.

Seu nariz cresceu um pouco.

–O que houve com seu nariz? –perguntou Ana.

–Nada. –ele disse, fazendo seu nariz crescer ainda mais.

–Pinóquio... –disse Ana sem acreditar.

–Tudo bem. Acontece que como meu pai queria muito que eu fosse uma criança, uma fada me deu os poderes de um humano: falar e se mexer. Mas eu comecei a mentir pra me safar de algumas coisas, e como punição ele disse que a cada mentira que eu contasse meu nariz cresceria.

–E por que você está aqui, e não em casa? –perguntou Ana.

–Porque meu pai me trata como o seu outro filho que morreu. Ele acha que eu sou ele, que gosto das mesmas coisas. Ele me deu o mesmo nome dele, e me fez bem parecido com ele. Acontece, que nós somos diferentes. Por isso eu pedi que me chamassem de Olaf, porque pelo menos assim, eu me sinto outra pessoa.

–Entendi. –disse Ana.

–E vocês, porque estão aqui?

–Ela está indo atrás da irmã, que está no topo da montanha, e eu vou ajudar. –disse Peter.

Pinóquio o encarou por um tempo.

–Eu te conheço de algum lugar, só não sei da onde.

–A é! Esse é o Kristoff. –disse Ana.

–Esse é o seu nome verdadeiro? Não conheço nenhum Kristoff.

–Claro... –disse Peter olhando pro chão.

–Olha só em... Daqui a pouco o seu nariz que vai crescer... –disse Pinóquio.

–Chega disso! Você quer vir com a gente, ou não? –perguntou Ana.

–Sim!

–Ótimo. Assim quando voltarmos pra casa, eu vou ver meu segundo pai, o que me criou por anos, e depois, vou visitar o seu, e vocês dois vão fazer as pazes. –disse Ana.

Os três seguiram até a fogueira, e dormiram tranquilamente durante a noite.

O dia seguinte amanheceu ainda mais frio. Ana e Peter já tinham guardado suas coisas no trenó, quando Pinóquio acordou.

–Bom dia. Afinal, você é o Pinóquio, ou Olaf? –perguntou Peter.

–Pinóquio. Mas por favor, me chama Olaf.

–Ok, Olaf. Então se levanta que precisamos andar um pouco até chegar na parte da escalada.

Os três andaram por uma hora e meia, até que finalmente chegaram na parede.

–Eu vou primeiro. –disse Ana.

–Acho melhor eu ir logo depois, caso você caia. –disse Peter.

–Eu posso me virar sozinha, sabia?

–Se você soubesse escalar...

–Quem disse eu não sei?

–Eu duvido que você saiba.

–Então você vai ver só.

Ana começou a escalar.

–Desce, ainda temos que botar as cordas.

–Eu não preciso de cordas. E nem da sua ajuda.

–Ana, por favor. Para de teimosia...

–Eu não estou sendo...

Bem nessa hora, Ana tropeçou, e caiu bem nos braços de Peter, que tinha corrido para não deixá-la cair no chão.

–Você chegou bem na hora. Quer dizer, você me salvou.

–Não foi nada. –ele falou a encarando.

Ela continuava em seus braços, e depois de alguns segundos de silêncio finalmente falou:

–O tempo congelou. É como se apenas nós dois existíssemos. Meu coração bate mais rápido. –disse Ana.

–O que? –ele perguntou preocupado, a soltando com cuidado.

–Você perguntou se sentia isso. E eu sinto. Sinto por você.

–Não, mas você não pode.

–Meu Deus! Você tem namorada? –ela perguntou envergonhada.

–Não exatamente. Eu gosto dela, e ela gosta de mim, eu acho.

–E por que não estão juntos?

–Por causa das maldades do destino.

–Mas ele também tem é bom de vez em quando. –ela falou se aproximando.

Ele se afastou um pouco.

–Bom... Vamos. Se quisermos chegar lá hoje não podemos enrolar.

Ana se afastou, e depois de algumas horas, os três estavam em frente ao palácio. Ana bateu na porta.

–Eu não quero receber ninguém! –gritou Cinderela.

–Sou eu, Anabelle.

Cinderela não respondeu. Ana, devastada, abraçou Peter, quase chorando.

–Eu não deveria ter vindo. Ela nem deve se lembrar de mim. –ela falou no ouvido dele.

Cinderela abriu a porta os surpreendendo. Os dois que até aquele momento estavam abraçados, se separaram rapidamente.

–Peter? –ela perguntou desapontada.

–Quem é Peter? –perguntou Ana assustada.

–É o nome do seu namorado. Ele não te contou? –perguntou Cinderela brava.

–Cindy, você não entendeu... –disse Peter.

–Se vieram pra me dar a notícia, sejam felizes para sempre, e me deixem em paz! –ela disse batendo a porta.

Ana encarou Peter confusa.

–Peter Pan! –disse Pinóquio. –Eu sabia que te conhecia de algum lugar! A fada que me deixou falar e me mexer era sua amiga. A fada Sininho.

–Seu nome é Peter Pan, e você é amigo de uma fada? E conhece a minha irmã! Era ela a menina que você gostava? Isso não importa. O que importa é que você me enganou esse tempo todo! E ainda falava mal do meu noivo. Aposto que ele é mais verdadeiro que você. –ela disse brava.