Notas iniciais
Oláá ♥ mais um capítulo lindinho. Espero que gostem, boa leitura ^^

Na manhã seguinte, eu acordei quase animada. Desembaracei meus cabelos e lavei o rosto antes de me trocar e descer as escadas. Como sempre Abigail aprontava alguma coisa, dessa vez na porta da frente.

— Bom dia — saúdo ao pisar na sala.

— Bom dia — ela responde com uma voz estranha se virando para mim com uma chave de fenda em mãos. — Essa animação toda é para a minha troca de dobradiças semestral?

Eu dou risada. Minha avó é uma figura.

— Não estou animada — disse. — Estou com fome. Vou até a padaria.

— Certo então. Mas vai ter que sair pela janela. Eu não terminei ainda — ela disse me entregando algumas moedas. — Traga leite também — pediu, acrescentando algumas notas.

— Ok.

Com um pequeno impulso, eu saio pelo parapeito da janela, causando certo estranhamento nas pessoas que transitavam pela rua naquele horário. Ignorando-as, segui meu caminho até a padaria com a esperança que eu iria ser atendida pelo rapaz dos olhos claros que me atendeu ontem. Mal contenho minha empolgação ao avistar a parede amarela emoldurada pelas flores roxas e entro na padaria com total confiança.

Com um sorriso no rosto, olho ao redor mas só vejo Don e suas filhas trabalhando em entregar e cobrar produtos. Não consigo evitar de murchar um pouco. O primeiro bouldercitizien que eu conheço que parece fazer algum sentido provavelmente não passou de uma ilusão.

— Bom dia — o velho e corpulento Don me arranca de meu luto passageiro com um sorriso no rosto. — Em que posso ajudar?

— Dois pães e um litro de leite — peço no meu tom mais monótono.

Ele prontamente me atende, ensacando os pães enquanto assovia uma melodia animada. O pão me foi entregue, eu paguei por ele e voltei à rua, andando distraída na direção de casa. Mas é claro que o atendente bonitinho não ia estar lá hoje. Seria sorte demais para mim. Acho que o que me espera no dia de hoje é um tédio sem fim trancada em casa com Abigail aprontando as suas. Com um suspiro resignado, me preparo para pular a janela para dentro novamente quando ouço meu nome vindo do outro lado da rua.

— Nessa? — uma voz feminina pergunta.

Franzo as sobrancelhas temerosa antes de me virar, esperando encontrar algum rosto que me lembre dos momentos péssimos que passei aqui durante a infância. Sinto meu estômago se apertando em ansiedde ao mirar o rosto de pele negra e traços delicados emoldurados por um black power muito impositivo da moça que se aproximava rapidamente com sacolas balançando nos braços.

— Ah, você não pode ter se esquecido de mim! É a Joyce! — ela fala na esperança de que eu me lembre dela.

— Joy! — exclamo perplexa, esticando os braços para ela que coloca as sacolas na calçada para me esmagar em um abraço apertado. — Mas como? Você não tinha se mudado para o Texas?! — indago surpresa.

Um dos motivos que me fizeram odiar Boulder City foi o preconceito das pessoas. A mãe de Joyce era uma mulher negra que criou a filha sozinha nesse inferno durante quase oito anos, onde as pessoas se recusavam a dar algum emprego digno para uma mãe solteira. Ela sofreu trabalhando de empregada em duas casas diferentes por dia para conseguir criar Joyce. Minha avó cuidava dela para a mãe trabalhar e nós brincávamos quando eu vinha para cá durante as férias de verão ou no feriadão na primavera. Era a minha melhor amiga em Boulder City, até que sua mãe arrumou um bom emprego no Texas e elas se mudaram. Eu tinha uns oito anos. Depois disso, a minha vontade de retornar para essa cidade foi minguando cada vez mais, até que eu bati o pé e me recusei a retornar aqui.

— Minha mãe organizou a vida dela por lá — suspirou com um sorriso triste. — Eu resolvi voltar pra cá há dois anos. Conversei com a meia irmã da minha mãe, minha tia Georgia. Lembra dela?

— Lembro sim! A da mercearia, não é? — pergunto me lembrando das travessuras que eu e Joyce aprontamos nos corredores do estabelecimento.

— A própria — concordou. — Estou morando com ela até o fim do colégio.

— Caraca, isso é extraordinário! — exclamei, abraçando-a novamente.

Eu havia calculado dois meses da mais pura vontade de morrer presa nesse fim de mundo, sendo no máximo dos máximos parceira de crime de Abigail quando ela precisasse de alguém para segurar a escada ou comprar fertilizante, mas agora eu tinha Joyce. Era muito mais do que eu esperava.

— E você, faz o que aqui, menina? — perguntou colocando as duas mãos na cintura em uma pose surpresa. — Achei que você odiasse Boulder City e tal.

— Eu odeio — concordei com um suspiro. — Mas minha avó precisa de companhia, sabe como é. Ela é bem velha — prossegui em um tom mais baixo.

— Sou velha, mas não sou surda, Vanessa — Abigail apoia o cotovelo na janela e me encara acusadora.

— Oi, vó Abby — Joyce cumprimenta da rua acenando a mão. — Você lembra onde eu moro certo?

— Lembro sim — afirmo.

— Passa lá mais tarde, tá bem? — pede Joy, recuperando suas sacolas e me dando um beijo em cada bochecha. — Até mais, vó!

— Vai pela sombra, Joyce! — minha avó se despede acenando a chave de fenda na direção da menina que se afasta.

Quando Joy dobra a esquina, me viro para a entrada da casa e minha avó abre a porta com as novas dobradiças.

— Que demora ein, garota — Abigail resmunga brincando enquanto me cutuca de leve com a chave de fenda quando eu passo.

Coloco os pães na mesa e me sento para comer sentindo mais alivio do que eu achei que fosse possível. Talvez as piores férias de verão da minha vida não estivessem completamente perdidas. Encontrar Joyce foi um prêmio. Me sentia aliviada da mesma forma que um detento se sente ao receber uma redução da sua pena.

***

Acordei do meu cochilo pós almoço com uma barulheira vindo do quintal dos fundos. Quando fui checar o que era, vi Abigail do topo da escada olhando para o chão desesperada. A casa de passarinhos que ela havia montado jazia em pedaços no quintal, ao pé da árvore grande que havia lá.

— E o que a senhora está aprontando agora? — pergunto, colocando as duas mãos na cintura em uma pose rígida enquanto me aproximo.

— Achei que você tivesse ido visitar a Joyce — comentou com uma expressão culpada descendo da escada lentamente.

Balanço a cabeça em negação enquanto me abaixo para juntar os pedaços da antiga casa de passarinhos e os colocando no carrinho de metal para a auxiliar. Ela parou na minha frente e juntas começamos a tentar remontar a casinha.

— Não vim aqui para ficar brincando com minhas amigas de infância — respondi olhando para o trabalho que minhas mãos tentavam fazer. — Vim para cuidar da senhora, cumprir meu castigo e pensar sobre as minhas decisões horríveis.

Essa última parte havia saído mais ironica do que eu havia planejado. Abigail parou de tentar juntar as partes quebradas e segurou as minhas duas mãos no meio das suas. No mesmo momento eu olhei para seu rosto. Ela estava serena e sorria levemente para mim.

— Eu não sou seus pais, Nessa. Não vou tratá-la como se estivesse em uma prisão. Não concordo com o que eles estão fazendo, porém não posso me meter na forma como eles criam você. Essa sempre foi a minha maior briga com a sua mãe — suspirou. — Sei que sou uma velha inconsequente, mas eu vou me comportar. Pode ir visitar Joy. Eu não estou doente da forma como eles fizeram parecer, minha flor.

— Tem certeza? Agora foi a casa de pássaros, mas poderia muito bem ter sido...

— Sem escadas, eu prometo — ela me interrompeu. — Agora vá. Não vou te manter presa aqui. Não sou sua cacereira, sou sua avó. E o trabalho das avós e estrabar a boa educação que os pais deram aos filhos.

Ela beijou a palma das minhas mãos antes de as soltar. Depositei um beijo em sua bochecha sorrindo e voltei para dentro da casa. Penteei os cabelos e peguei as chaves extras da casa.

— Eu não vou demorar, tá? — falo, colocando a cabeça para fora da porta da cozinha. — Sem escadas!

Abigail apenas resmunga uma concordância, compenetrada em remontar a casa de pássaros.

Bati a porta da frente e a tranquei antes de me pôr a caminho da casa de Joyce. As ruas pouco movimentadas pareciam não ter fim enquanto eu dobrava duas, três, quatro esquinas até chegar na rua de certa: estreita, sem saída e ladrilhada. Sua casa era a mais reconhecível pois era de seu segundo andar que despencava uma enorme samambaia, ficando a uns quarenta centímetros de distância da calçada. Gritei seu nome no portão e ela apareceu com seu sorrisão de sempre estampado no rosto.

— Mulher, eu achei que você tinha desistido de aparecer! — disse ao abrir o portão.

— Eu estava cuidando da velha — falei.

Ela saiu e me puxou pela mão na direção da pracinha. Como eu mencionei anteriormente: zero programas culturais. Nós sentamos em um dos banquinhos que ficava à sombra de uma frondosa árvore. Haviam várias crianças brincando no playgound no centro da praça.

— E então, o que você me conta de novo? — perguntou Joyce, tirando os chinelos e afundando os dedos na grama.

— Nada muito extraordinário na verdade — falei, imitando sua atitude. — Pra ser sincera, não to muito afim de falar sobre mim. Me conta o que você tem feito.

Joyce me encarou por alguns segundos com os olhos cerrados antes de desatar a falar sobre como sobreviveu ao Texas e porquê havia resolvido voltar para Nevada. Me contou que a relação dela e da mãe havia se balançado quando Joyce se assumiu bissexual há dois anos.

— Tipo, ela surtou — contou sem me olhar nos olhos, dando de ombros. — Falou um monte. Eu já trabalhava na época, mas ela jogou na minha cara que não ia ficar dando dinheiro pra me sustentar. Eu fiquei bastante chateada, quer dizer... ela era a última pessoa de quem eu ia esperar isso, saca? — perguntou, agora me olhando. — Não só porque ela é minha mãe, mas porque ela sabe como é sofrer com preconceito. Ela de todas as pessoas do mundo devia me entender. Além do mais, não é como se eu tivesse me assumido zoófila ou algo do tipo.

Meu coração se quebrava a cada palavra de Joyce. Eu sempre havia admirado a mãe dela porque quando eu perguntei para minha avó porque a Joy tinha que passar os dias com a gente até nas férias ela me respondeu:

— A mãe da Joyce não é uma princesa, minha querida. A mãe da Joyce é uma guerreira.

— Mas mulheres também lutam? — eu perguntei do alto de minha inocência infantil.

— Só as mais corajosas e especiais. A maioria tem medo — me contou passando as mãos no meu cabelo.

— Quero lutar quando eu crescer, vovó. Igual a mãe da Joy — eu havia dito, colocando um sorriso no rosto dela.

— Joyce, eu nem sei o que dizer — falei, a puxando para um abraço apertado, totalmente abalada pela sua narrativa sofrida. — E depois disso, o que houve?

— Bem, eu estava chateada. Liguei para a tia Georgia e ela me deixou morar com ela. Minha mãe estava bem no Texas e eu nem tanto. Ela nem questionou.

Alguns segundos de silêncio nos esmagaram enquanto aquelas memória dolorosas provavelmente acabavam com Joyce por dentro. O sol começava a querer se por e as crianças ainda brincavam.

— E você ainda não me contou nada sobre você. A gente não se vê tem quase dez anos, Nessa! — insistiu, me empurrando de leve com seu ombro.

— Ah — falei. — Bem, eu gosto de sorvete de creme ainda — dei risada.

— Me conta alguma coisa pra valer — pediu. — Mulher, eu escancarei a minha vida para você aqui.

— Ontem fez seis meses desde que eu terminei um namoro problemático — confessei. Era um assunto que eu evitava até com a minha avó.

— Problemático? — indagou.

— Ele era possessivo. Não me deixava passar batom para sair de casa, implicava com minhas roupas, esse tipo de coisa, sabe?

— Garota, que absurdo — comentou.

— Ele surtou um pouco quando eu quis terminar — disse, me utilzando de eufemismos para concluir minha história sem que Joyce pudesse perceber que eu só atraia malucos. — Não acreditou em mim, quase quebrou meu braço e tal.

— Como assim? Vanessa! — exclamou com os olhos arregalados.

— Pois é. Eu tenho um dedo podre, o que posso fazer? — falei na tentativa de deixar o clima menos pesado. — Foi meu primeiro namorado, então talvez eu tenha sido submissa demais.

A garota de seis anos que sonhava em ser uma guerreira teria vergonha em ver a derrotada de dezesseis em um relacionamento desses. Não é a minha fase de maior orgulho, mas eu consegui sobreviver. Não contei para Joyce, mas depois do término as coisas só pioraram em casa até que resultaram no meu verão em Boulder City. Meu último verão como aluna do ensino médio deveria ser regado à festas e curtição porque eu sei que o próximo ano vai ser de uma dedicação insana para conseguir entrar em alguma faculdade.

— Por quanto tempo vocês ficaram juntos? — perguntou Joyce.

— Quase um ano — respondi de cabeça baixa.

— Fico muito feliz que você tenha se libertado daquele traste, Vanessa — Joy disse, beijando minha testa. — O que acha de comer alguma coisa? A gente passou a tarde toda aqui falando das nossas tristezas.

— Acho que merecemos — concordei, resgatando meus sapatos da grama e os calçando novamente. — Padaria? — sugeri como quem não quer nada e Joyce concordou.

Eu ainda não perdi as esperanças de ver o rapaz novamente. Se ele não estava lá pela manhã, provavelmente estaria agora. Passei os dedos nos cabelos para mantê-los arrumados e alisei a blusinha sobre a barriga enquanto caminhávamos pelas ruazinhas na direção do estabelecimento, conversando amenidades.

Nesse horário todos os preguiçosos demais para fazer um jantar decente se encaminhavam para a padaria para comprar pães ou lanches prontos, então não consegui vê-lo lá através do vidro. Entrei pela segunda vez cheia de confiança para me deparar com Don e suas filhas ainda atendendo os clientes impacientes. Não consegui evitar murchar novamente enquanto Joyce pedia um queijo quente.

— Queijo quente também — resmunguei me sentando ao lado dela no balcão.

Mas é claro que eu nunca mais ia dar a sorte de encontrar aqueles olhos maravilhosos de novo.

Notas finais
Vanessa representa todas nós não é mesmo? Ahdiahdiaud vejo vocês no próximo capítulo ♥