Um Verão em Boulder City
20 Até o Fim do Verão
Notas iniciais
Comi comida sem sal o resto da semana. Passei uma sexta solitária com Abigail comendo sopa e no sábado Joyce veio nos visitar de novo. Tentou me arrastar para o aniversário de Milena, mas eu bati o pé e permaneci em casa vendo programas de auditório com Abigail. Nesse ponto eu já tinha desistido de comer só sopa e estava preparando comida de verdade para nós duas, mas ainda sem muito tempero.
No domingo meu desespero maior chegou sob a forma de treze palavras simples mas que conseguiram me causar um tremor nas pernas que teria me derrubado se eu não tivesse sentada.
— Estou com dor nas cadeiras, Nessa. Será que você pode ir comprar pão? — Abigail pediu.
— Claro — engoli em seco. — Vou só colocar um short decente.
Subi as escadas vagarosamente troquei de roupa. Nem me dei ao trabalho de pentear os cabelos. Eu sabia que esse momento chegaria mais cedo ou mais tarde. Já não nos falávamos há quase uma semana. Eu nem sabia o que esperar, só torcia para que Don estivesse sozinho cuidando da padaria hoje.
Me arrastei escada abaixo e peguei o dinheiro que Abigail me estendia.
— Se tiver, traz daquele pãozinho com açúcar e canela — pediu. Eu afirmei com a cabeça, sem forças para fazer mais que isso.
Andei lentamente pelas ruas sem pressa alguma de chegar ao meu destino. Vi aquela amiga espalhafatosa da vovó, a Gertrudes, na porta do brechó bem ao lado da banca de jornal na esquina da Avenida Principal. Ela sorriu para mim e eu sorri de volta.
Atravessei a rua sem cautela alguma e entrei na padaria fazendo o sino tilintar. O cheiro de canela e açúcar invadiu os meus sentidos e eu sabia quem eu encontraria atrás do balcão antes mesmo de olhar para lá.
— Bom dia, menina! — Don saudou no seu bom humor habitual.
— Oi, Don — sorri forçada e andei até o balcão.
O maxilar de Luke estava tenso e ele não me olhou. Entregou o papel pardo do rapaz que ele atendia e nem respondeu ao agradecimento que ele pronunciou. Seus olhos esverdeados que sempre foram tão calorosos agora estavam secos.
— Em que posso ajudar? — perguntou entre o tédio e a irritação. Aquilo era muito familiar.
— Dois pães de sal e um pãozinho com canela e açúcar — pedi de forma mecânica sem olhar em seus olhos. Ele se virou e colocou meu pedido no papel pardo, anotando o valor.
— Algo mais?
— Não, obrigada — agradeci e peguei a embalagem tendo cuidado de não tocá-lo.
Paguei pelos pães e saí em disparada pela rua, querendo somente estar dentro de casa. Meu coração batia com força na minha garganta como se quisesse me rasgar de dentro para fora. Eu me culpava por essa situação, queria esclarecer tudo, mas eu tinha medo. Medo de afogá-lo nas minhas complicações e nosso lance não ser mais tão leve. Medo de me distrair com Abigail novamente e ela ir parar no hospital mais uma vez. Medo do fim do verão na mesma medida que eu o desejava ardentemente. Medo de nem eu mesma saber lidar com isso tudo. E, acima de todos os medos, estava o medo de não ser suficiente, afinal quem quer uma garota quebrada com pais controladores, um relacionamento traumático e uma avó com câncer na mochila?
***
A segunda feira chegou me esmagando com força. No meio do turbilhão que foi a minha manhã eu arrumei um tempo de ouvir algumas verdades de Abigail.
— Senta — ela meio convidou, meio mandou. Eu sentei à sua frente nos banquinhos do quintal do fundo com uma jarra de limonada nas mãos. Abigail estendeu os copos que eu preenchi.
— Pode falar, sou toda ouvidos — eu disse tomando um gole do meu copo. Ela soltou um pesado suspiro.
— Você tem que se resolver com aquele rapaz, Vanessa. E parar de dispensar a Joyce — falou. E continuou antes que eu pudesse protestar: — Não, você vai me ouvir até o final.
Eu não me lembrava de ouvi-la usando aquele tom autoritário. Talvez lá para os meus cinco anos, quando eu quebrei um de seus vasos favoritos. Engoli em seco.
— Joyce ligou ontem logo depois que você foi dormir. Disse que você estava se sentindo culpada e afastou as pessoas que estavam te fazendo bem. Eu quero que você me escute com atenção: não sei ao certo o que causou essa sua necessidade de auto punição, mas eu quero que isso desapareça! Já te disse, é só não me dar pimenta, Vanessa. Não sou a sua mãe — frisou, me encarando nos olhos com uma intensidade que não permitiu que meus olhos se afixassem em outro ponto. — Tudo isso é um absurdo, sabe? A minha psicóloga disse que todos os comportamentos têm uma origem e eu não consigo me lembrar de ser tão rígida assim com a sua mãe. Nem mesmo o seu avô, que Deus o tenha, era de castigá-la.
Agora ela me olhava quase com pena. Eu não suportava esse olhar. Me ocupei em bebericar meu suco e olhar para uma planta muito amarela à minha esquerda.
— Talvez ela ache que precise ser exatamente o contrário com você e você cresceu com isso na cabeça que quando sente que fez algo errado e ninguém te castiga, você busca castigar a si mesma, Nessa. Não faça isso.
Meus olhos arderam, inundados de lágrimas. Não queria piscar porque eu sabia que elas iam escorrer. Bebi mais suco e respirei fundo, olhando para o topo da árvore e tentando enviar minhas lágrimas de volta para dentro.
— Não tem a menor necessidade, está me entendendo? — perguntou e eu assenti. — Olha pra mim — pediu.
Virei meus olhos para ela. Sabia que eles estavam vermelhos e irritados. Bebi mais suco.
— Você vai resolver isso tudo hoje, está me entendendo? Não quero saber se o verão vai acabar em um mês ou dez! Você não vai perder ele tomando conta de alguém que não precisa e deixando de lado um outro alguém que precisa de muitos cuidados.
Franzi a testa.
— Mas o Luke não…
— Fico feliz em saber que ele se chama Luke, mas eu estava falando de você — ela sorriu e segurou minha mão. — Seu último verão como colegial! Esse ano vai ser uma doidera, Nessa, você tem que relaxar enquanto pode.
— Vai mesmo — concordei com um sorriso, apertando sua mão.
— E se a sua mãe, sabe… — ela deu de ombros desviando o olhar. — Não aceitar sua faculdade você pode… vir pra cá.
— Você falou com ela, não falou? — estreitei os olhos, mas um sorriso tomou conta do resto do rosto.
— Eu imaginei na verdade. Ela não quis me contar — sorriu, dando de ombros mais uma vez. — Minha casa sempre vai ser a sua casa também, Nessa.
— Obrigada, vovó — falei, me precipitando para um abraço, que durou alguns minutos.
— Ai, agora chega — ela se afastou, limpando algumas lágrimas. — Tenho um jardim para cuidar e você tem um amor de verão para correr atrás.
Eu sorri, limpando as lágrimas também. Beijei a sua testa e corri escada acima para tomar um banho. Ter o apoio de Abigail tornava as coisas um tanto quanto mais fáceis.
Me enfiei em baixo do chuveiro e lavei o cabelo de qualquer jeito. Queria um banho rápido. Voltei para o quarto com o sorriso na cara ainda e coloquei um vestido qualquer. Enfiei a jaqueta jeans porque o céu estava muito azul, porém pontilhado de nuvens carregadas.
Peguei todo o necessário do meu quarto e desci, um pouco apreensiva. E se ele nem quisesse saber das minhas desculpas?
Vovó estava na sala me esperando com um sorriso no rosto que injetou em mim a coragem que eu precisava. Se tudo desse errado, ela secaria minhas lágrimas e compraria um potão de sorvete de baunilha.
— Você está linda — elogiou, passando a mão no meu cabelo molhado. — Mas vai precisar trazer ele aqui qualquer tarde dessas — avisou com uma falsa expressão de repreensão.
— Pode deixar — beijei-lhe a bochecha. — Me deseje sorte.
Saí pela porta enchendo os pulmões de ar. Eu nem sabia o que eu ia falar. Chequei o relógio. Faltavam uns bons vinte minutos para as duas da tarde, o horário normal de saída do Luke. Eu não sabia o que eu faria. Só queria chegar logo e me resolver com ele para poder abraçá-lo e sentir seu cheiro de açúcar e canela.
Espiei da banca de jornal e o vi atendendo uma moça mais ou menos da minha idade. Ela lhe lançou um sorriso indiscreto ao que ele só respondeu com um olhar distante. Pude ver que seu rosto ainda estava marcado pela barba cerrada, até que lhe caía bem. Caminhei para a rua lateral e me sentei no meio fio ao lado da van Nessa, aguardando ansiosa.
Estralei meus dedos umas onze vezes e mudei o cabelo de lado pelo menos umas sete antes de perceber alguma movimentação no fundo da padaria.
— Até amanhã, Don! — sua voz disse.
Assim que ele surgiu no estacionamento desprovido de veículos, seus olhos correram para a van do lado de fora e, por conseguinte, para minha estranha figura sentada ao lado dela. A expressão em seu rosto era indecifrável. Ele saiu pelo portão na cerca de arame e parou a minha frente, olhando para frente.
— Você está escorada no meu carro — falou sem me olhar.
— Eu sei — respondi me levantando. Ele fez menção de abrir a porta e eu me postei entre ele e a van. — Queria… — hesitei por alguns segundos. O que eu queria (além dele)? Conversar? Pedir desculpas? Me explicar? — Queria falar com você.
— Estou ouvindo.
Ele ainda não me olhava. Respirei fundo, sabendo que só a verdade total me salvaria dessa. Luke sempre foi honesto comigo até onde eu sei, não devo menos que isso para ele.
— Eu tive um ex idiota que minha mãe gostava porque, de acordo com ela, ele me mantinha com os pés no chão — comecei com a voz lenta olhando para seu rosto. — As coisas começaram a dar errado quando nós terminamos há uns meses. Desde então, eu larguei o intensivo de faculdade que eu fazia com ele em troca de aulas de arte.
Analisei as reações de Luke. Ele nada disse, continuou com o olhar perdido no horizonte e o maxilar travado. Escorei-me na van com os braços cruzados.
— No começo do primeiro mês do verão — continuei, respirando fundo. — Meus pais descobriram que eu fazia aulas de arte ao invés dos intensivos para a faculdade.
Luke finalmente desviou os olhos para mim, me encarando em um silêncio profundo, absorvendo todas as palavras que eu dizia. Engoli em seco antes de prosseguir. Eu batucava os pés insistentemente no chão, agora chacoalhando as mãos, na esperança de me livrar do nervosismo.
— A partir daí, foi o inferno na terra. Eles iam me deixar de castigo por algumas semanas porque eu menti pra eles. Eles ficaram irritados, muito bravos. Falaram um monte por horas sobre como esse ramo dependia da sorte e que eu devia me esforçar para fazer algo com a minha vida ao invés de desperdiçar meu tempo com sonho de gente rica.
Agora eu que não queria olhar para ele. Sabia que seu olhar gritaria pena pela minha família louca. Prossegui.
— Eu, não contente, peguei alguns formulários de inscrição para o Instituto Pratt em Nova York. Minha professora garantiu que se eu mantivesse minhas notas como estavam eu entraria. Enviei meus documentos e pré minha carta de admissão pedindo uma bolsa. Era perfeita: longe de casa, uma das melhores escolas de arte do país. Só que eles descobriram. Fui idiota, é claro que descobririam.
Um filme se passava na minha cabeça daquela tarde. Eu chegando em casa do cinema com a Marjorie, o desespero em ver que as correspondências haviam chegado e já estavam abertas. O gelo que tomou conta de mim ao imaginar a reação dos meus pais ao transgredir o único pedido que eles haviam me feito. Meus olhos estavam ardendo muito.
— Então, eles fizeram o que sempre fazem: me sentaram na mesa da cozinha para termos uma “conversa”. Estava mais para um monólogo tedioso de minha mãe sobre como todas as decisões que eu tomava nessa fase me afetavam para o resto da vida de uma forma que eu não podia imaginar e blá blá blá. Eu já sabia disso — falei, limpando algumas lágrimas que insistiram em escorrer. — E ela não entendia que eu queria afetar sim o meu futuro, porque era tudo meu. Preferia conviver com meu fracasso sabendo que as minhas decisões haviam me levado até ali do que uma vida de um sucesso indesejado causado pelo que meus pais achavam correto.
— E então, te mandaram pra cá — Luke completou, enfim rompendo seu silêncio. — Em um castigo de 2 meses.
Um alívio me preencheu. Ele pareceu entender afinal. Seus olhos verdes me miravam, ainda frios, porém sua voz estava calma, compreensiva.
— É. Para pensar sobre as minhas decisões enquanto cuidava da minha avó. Mas eu achava que... — nessa hora um soluço irrompeu de mim sem autorização.
— Como…? — ele franziu as sobrancelhas. Não sabia de Abigail.
— Eles me disseram que Abigail estava doente. Eu achei que fosse mentira, mas então domingo passado eu cheguei em casa e...
Agora eu já não consegui refrear o choro violento que tomou conta de mim. Luke pareceu uma estátua ganhando vida lentamente ao se precipitar na minha direção e me abraçar com força.
— Fui idiota. Eu achei que eles tinham inventado tudo, Luke. Ela parecia a de sempre, então imaginei que eles tinham inventado uma doença para me prender aqui. Então, começamos a sair e eu me descuidei! Coloquei pimenta na comida e ela foi parar no hospital porque eu sou irresponsável!
Ele só me apertou mais contra seu corpo, como se assim pudesse diminuir a minha dor e culpa.
— Você não tinha como imaginar, Nessa — ele me acalmou em uma voz baixa, passando a mão no meu cabelo. — Ela parecia bem e você tinha todos os motivos pra desconfiar dos seus pais.
Me soltei de seu abraço delicadamente e o olhei nos olhos, agora tristes por mim porém muito mais calorosos do que antes. Eu devia estar com a cara mais acabada do mundo. Alguns segundos de silêncio nos engolfaram enquanto sua mão fazia carinho no meu cabelo e seus olhos sustentavam os meus.
— Por que você se afastou? — ele perguntou quase em um sussurro.
— Eu precisava dar atenção total para Abigail — eu disse. — E eu achei que eu merecia algum tipo de… punição. Por ter sido tão irresponsável. Me desculpa, eu devia ter falado alguma coisa antes...
— Você é absurda, Frederiksen — ele sorriu, balançando a cabeça. — Eu te desculpo, é claro. Esses dias têm sido… — ele franziu as sobrancelhas e deu de ombros. — Estranhos. Eu me acostumei com você, Vanessa.
Eu consegui sorrir fraco de volta. Luke passou uma mão pelos meus ombros e eu me senti bem. Me senti segura. Tinha contado meus problemas para ele e ainda me sentia leve. Respirei muito mais do que aliviada, sentindo a ausência de um peso que eu nem sabia que existia.
— A van Nessa sentiu a sua falta, sabia? — ele perguntou. — Vamos dar uma volta.
Entramos no carro e aceleramos pelas ruas de Boulder City com uma música do Arctic Monkeys tocando no rádio. Ver seu rosto recortado contra o céu azul de Boulder City através da janela da van amarela era com certeza uma definição de um ótimo dia. Estávamos bem de novo. Até o fim do verão pelo menos.
Fale com o autor