Um Vampiro
1 Tragédia.
Notas iniciais
Mais uma manhã gélida em uma dos vilarejos mais ricos do Reino de Even, o casal Takada esperava se mudar para um lugar mais tranquilo que aquele.
De dentro da carruagem, o pequenino menino olhava para as enormes árvores que ladeavam a estrada. Seus pais estavam orgulhosos de Oroi, ele era um dos garotos mais espertos do vilarejo em que vivia. Os jovens pais tinham muitas economias, e bem guardadas, eram pessoas de boa índole, porém, tinham mistérios que rondavam suas vidas, o que não vinha a ser novidade, pois num reino como aquele, em que haviam seres sobrenaturais e os mais bizarros tipos de pessoas, minorias eram aqueles que não tinham segredos.
Mudaram-se para um outro vilarejo, este com muito menos pessoas e muito mais árvores, além disso, o número de crianças era alto, o que agradava aos pais do menino.
Não demorou para fazer amigos, brincava com todos os garotos e garotas do vilarejo, no entanto, ao passo de que ia crescendo, seu círculo de amigos ia diminuindo, focando-se apenas em um garoto especial.
Este, tinha longos cabelos brancos, levemente liláses, ao passo de que seus olhos eram acinzentados. Sua pele era também alva, e suas roupas não fugiam destes tons.
Seu nome era Naitan, e a visão de seu ser, era algo simplesmente divino.
Mesmo com o passar dos anos, Oroi nunca tivera notícia dos pais do outro garoto, apenas sabia que quem cuidava dele, era sua mestra, uma mulher bonita e demasiadamente bondosa, gentil e jovem, que sempre acolhia Oroi em suas visitas a casa do amigo.
A primeiro beijo aconteceu quando o moreninho tinha só onze anos, a mesma idade que Naitan. Os garotos beijaram-se durante um de seus passeiros diários e matinais, onde trocavam segredos e brincavam das mais variadas coisas.
O namoro demorou um pouco a vir, mas crescia com uma pureza e paixão ímpar, e apesar destes dois serem sentimentos ou estados opostos, caminhavam juntos para o bem-estar dos garotos.
Yuki, a mestra de Naitan, ficara sabendo do namoro dos meninos, que crescera firme e completamente forte, ela não era contra, até apoiava, pois via que não existia maliciosidade ou maldade na relação das crianças.
Ao completar treze anos, Oroi ficou sabendo de um segredo, Naitan era um vampiro puro-sangue, o último da linhagem dos Murasaki, que perderam e morreram numa guerra a alguns anos e deixaram seu único herdeiro, o pequeno Naitan.
Na verdade, isso em nada influiu na relação dos dois, Oroi não sentiu-se traído nem nada do gênero, pois apesar de ser completamente transparente e tudo dizer ao seu amado, sabia que as pessoas tinham segredos.
Seu presente de 15 anos foi o declínio de sua vida e mal sabia o moreninho, que no ano seguinte, conheceria sua morte.
Inicialmente, no dia de seu décimo quinto aniversário, Oroi levantou-se radiante, pronto para comemorar com seu namorado numa festa que haveria na casa dele.
Penteou os cabelos negros como breu e que a essa altura já chegavam em seus joelhos e trançou-os, correndo e descendo as escadas de sua casa que mais se assemelhava a um palacete.
Achou estranho, o sol já estava alto, as flores que anunciavam a primavera e que abriam as dez da manhã estavam desabrochando, e no entanto, nenhum som podia ser ouvido.
Oh, e até podia, um discreto ‘ping, ping, ping’ poderia ser ouvido da cozinha e a porta deste cômodo estava fechada.
Correu até lá e estranhou sentir algo molhado em seu pés enquanto encostava o ouvido na porta, pensando poder ouvir seus pais cochichando algo sobre a festa, qeu já deveria estar pronta.
As meias brancas e as barras da calça do pijama estavam molhados, mas Oroi nem deu atenção a isto, achava ele, que poderia ser apenas água, que vazara da torneira e escorria pelo piso da casa. Triste engano o do menino.
Não conseguiu ouvir nada, por este motivo começou a bater na porta, continuando sem resposta. Irritou-se e começou a socá-la, esmurrá-la, tentando abrir a pesada porta de mogno.
Nada.
Olhou em volta, vendo numa mesinha não muito longo dali uma chave, a chave da cozinha. Sobre ela, havia um bilhete escrito com a caligrafia caprichada de sua mãe, num papel azulado, do tipo que seu pai usava para deixar-lhe recados importantes.
Sorriu ao sentir o suave perfume de lavanda que emanava do bilhetinho, era o perfume de sua doce mãe, correu até lá, pegando a chave enquanto lia o bilhete. Poucas palavras que estamparam no peito do menino uma falsa e incrivelmente curta felicidade.
“Meu anjinho, sabemos do seu namoro e o apoiamos completamente. Feliz aniversário de quinze anos, nos desculpe a ausência.
Sua surpresa está na cozinha.
Com amor,
Mamãe.
Miaka Takada”
Seu coração acalentou-se, foi até a cozinha envolto numa felicidade que não deveria existir, colocou a chave no trinco, o coraçãozinho batendo a mil, girou-a, duas vezes, um sorriso belíssimo estampado não só em sua boca fina e bem desenhada, mas também em seus olhos grandes e verdes.
Abriu a porta e sua vida nunca mais foi a mesma.
Diante de suas orbes atônitas e esverdeadas, estava um espetáculo que não deveria ser visto por nenhum ser humano, por mais vil que ele pudesse ser.
Em um dos cantos da cozinha, o corpo de seu pai jazia pendurado por uma corda, pelo pescoço, num laço firme, mortal, atado ao teto.
Seu rosto antes pálido estava agora roxo, o pescoço estava quebrado, os fluidos cerebrais desciam-lhe pelo nariz. Os óculos estavam no chão, envoltos num sangue seco, provavelmente causado pelo corte que havia na perna do jovem pai.
O espetáculo macabro não terminava aí, quase no centro da cozinha, onde havia a grande e bela mesa de jantar, estava a mãe do menino, sentada na cadeira de honra, com a face serena e mais pálida do que deveria estar. Claro que sim, afinal, em seus pulsos haviam cortes muito profundos, de onde mais cedo haviam escapado generosos jatos de sangue, mas de onde atualmente caiam ocasionais gotas do mesmo líquido maldito.
Esta na verdade era a origem do ‘ping, ping, ping’ anterior.
Oroi levou seus olhos para baixo, como se tentasse fugir da visão maligna daquela cozinha, infelizmente, deu de cara com apenas mais sangue…
Sangue em suas meias que outrora eram tão brancas.
Sangue na barra de seu pijama favorito.
Sangue tingindo o chão daquela cozinha e escorrendo para pintar o piso do resto da casa.
Sangue, sangue, sangue e mais daquele maldito sangue que também corria em suas veias.
Levantou novamente os olhos, que agora deixavam escapar grandes lágrimas transparentes. Fitou o rosto de sua mãe, os belos olhos verdes ainda abertos, os cabelos negros e longos escovados, penteados perfeitamente como em todos os dias.
Os lábios pintados de carmim, aquele mesmo vermelho que coloria o chão do palacete.
Como que hipnotizado, Oroi caminhou até ela, tomando uma de suas mãos frias numa vaga esperança de que seu pulso ainda pulsasse. Em vão.
Sentou-se no chão chorando como nunca chorara em toda a sua vida, olhar para a face angelical e com um sorriso sereno de sua mãe praticamente esmagou seu peito.
E foi aí que sentiu novamente o cheiro de lavanda, agora entrando arrebatador em suas narinas, causando-lhe náuseas, deixando-o num torpor macabro e maldito. Olhou para os olhos vazios de sua mãe e reparou que o cheiro não vinha dali. Levantou-se e viu sobre a mesa um bolo, do tipo que sua mãe fazia, aparentemente delicioso, coberto de doces e guloseimas. Sobre ele, estava espetado mais um cartão azul, um bilhete como o que tinha ao lado de fora da cozinha.
Pegou-o e leu, as mesmas letras bonitas de antes, só que agora um pouco mais trêmulas, haviam algumas marcas de lágrimas no papel, o cheiro lilás deixou-o tonto, mas Oroi não poderia se entregar, não desmaiaria sem antes ler o que estava ali escrito.
“ E então, meu anjinho. O que achou de seu presente?
O bolo está delicioso, é seu predileto. Saiba que você envergonhou muito papai e mamãe, nós tínhamos seu futuro planejado e você nos jogou na lama.
Amaldiçoamos você pelo resto de sua -esperamos que seja- medíocre e curta vida, guardaremos para você um lugar aqui no inferno. A propósito, tem mais um bolo guardado para você, é o do seu próximo aniversário, temos certeza de que vai ser o último.
Com amor,
Mamãe.
Miaka Takada.”
Largou o bilhete no chão, suas mãos estavam trêmulas, seu corpo paralisado, seus olhos se voltaram para a face de sua mãe e fitaram o sorriso mais maníaco e assassino que o garoto havia visto.
Claro que era tudo fruto de sua mente que estava muito perturbada, mas mesmo assim, era uma visão aterradora.
Fora capaz até de ouvir em sua cabeça cada palavra como se a jovem mãe estivesse falando, o tom de voz, o sotaque um pouco estranho, o perfume de lavanda…
Virou-se e começou a correr da cozinha, escorregando e caindo por causa de suas meias encharcadas de sangue. Levantou-se e foi até a lareira, que milagrosamente estava acesa. Pegou uma das maiores toras de madeira fumegantes dali e levou-a até a cozinha, deixando-a sob a mesa, não se preocupou com suas mãos que neste momento estavam completamente queimadas, só queria ver aquela casa toda incendiada.
Abriu um sorriso vendo os corpos de seu pai e de sua mãe sendo consumidos pelo fogo. Deu as costas e saiu de sua casa, que minutos depois estava sendo completamente destruída pelo fogo devastador.
Não olhou uma vez sequer para trás, chorava muito, corria pela floresta desesperado buscando apenas uma coisa, a casa de Naitan. Sabia que lá era o único lugar onde poderia encontrar abrigo.
Oroi apenas não soube de uma coisa, coisa que ele nunca saberia.
Apesar de tudo, o que aconteceu com seus pais, não foi suicídio, e sim um plano feito pela mestra de Naitan, que sabia que o primeiro lugar para onde o moreninho correria seria para lá. Ela queria Oroi para si, como um objeto para saciar seus desejos.
O tempo foi passando e o relacionamento de Oroi e Naitan foi ficando mais ardente, eles atreviam-se a trocar carícias discretas, mas nada avançado demais, afinal, Yuki, a mestra do menor ficava sempre de olho nos dois.
Apesar do trauma inicial, o ano que se passou foi calmo, até bastante tranquilo.
No seu aniversário de dezesseis anos, Oroi teve sua última surpresa desagradável em vida, mal acordou, e viu Naitan ao seu lado, segurando uma espada de prata.
“—O que está fazendo, Naitan?” – Continuava sem expressão, fitando o menor que se afastava de si com os olhos vertendo lágrimas.
“—Me perdoa, Oroi…” – Falou com sua voz doce, tendo certeza de que sua mestra estava atrás da porta, vendo tudo o que fazia. Começou a chorar compulsivamente, apontando a espada para o moreninho, que ficara de pé em sua cama.
O corpo crescera esguio, quase feminino, a trança já chegava em seus pés, e os olhos que eram de um verde vivo, haviam morrido, adquirindo uma cor mais escura, mas estranhamente mais bela.
“—O que está esperando!? Se quer me matar faça-o logo, não fique olhando assim para mim como se sentisse pena.” – Bradou, sentindo a ponta da espada tocar sua barriga.
“—Sim, eu sinto pena…” – Naitan falou, atravessando o corpo maior com a espada, vendo-o cair ainda com vida sobre si. “—Mas sinto pena de mim, Oroi. Eu, que sei que não vou conseguir viver sem você.” – Falou, chorando ainda mais do que antes.
Yuki havia ordenado a Naitan que matasse Oroi, alegando que este estava impedindo o vampiro de cabelos claríssimos de evoluir, de ficar mais forte.
O último dia do prazo para matá-lo era em seu aniversário de dezesseis anos.
Naitan ainda ponderou por alguns segundos, vendo seu amado em seu braços, semi-morto com aquela espada em si.
Arrancou-lhe o metal e o jogou longe, inclinando-se sobre o pescoço de Oroi e mordendo-o pela primeira e última vez. Arrancou quase todo o sangue de seu corpo, e depois que o fez, cortou seu pulso e entregou sua vida para o moreninho, obrigando-o a sorver de seu sangue puro, transformando-o em um vampiro livre, ao passo de que Oroi acordava em segundos.
Antes de ser morto por sua mestra, Naitan enviou Oroi para o lugar mais longe que sua magia permitia, uma floresta gelada, densa, ainda dentro do reino de Even.
O vampiro sangue-puro foi completamente massacrado por sua mestra, e Oroi podia sentir pelo elo que mantinha com ele, a última chama de sua vida se apagando.
Não tinha mais nada.
Não tinha família, não tinha amigos, não tinha mais amor… E agora não tinha mais vida.
Sua vida chegara ao fim, e agora era o começo de uma nova existência, não era mais Oroi Takada, era simplesmente Oroi, um vampiro.
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