Um Toque Feminino

15 Capítulo - 15 As Quatro


Notas iniciais
Neste penúltimo capítulo, reencontros e algumas cartas à mesa.

Capítulo Quinze

As Quatro

Faltavam poucos dias para minha formatura, e as pontas das linhas, que eu usava para alinhavar meus sonhos, ainda estavam soltas. O dia amanhecera iluminado e tudo estava sob controle. Eu estava atarefada com aquela história de seguir dois alvos ao mesmo tempo, mas não era problema. O problema era que estava tão fácil que resolvi dar uma olhada nas vitrines do natal. Deixei-me encantar pelo brilho da árvore e de repente encontro meu alvo secundário de olho em mim. Secundário para a missão do dia, porque na verdade o outro alvo não me interessava nada. Ele sim, o secundário, era o que me importava. Disfarcei e segui em frente. Deveria ter ido embora, não fui, acabei encontrando-o novamente e duas horas depois tive que me fazer presente no escritório dele.

Saí do prédio, satisfeita com o resultado, mas a quebra da rotina era um indicativo de que as coisas estavam se precipitando. Pela minha experiência, sei que quando as coisas começam a fugir do seu controle é porque você está fora de tempo, e quase sempre é atrasado. Vou mudar meus planos. Trocar o encontro das dezoito por um às dezessete e na casa dele. Trocar também o assunto, um papo de amigos por um de pesquisadores. Só preciso ir buscar uns argumentos em casa e talvez até dê tempo para um banho. Um vestido mais alegre e mais fresco. O calor está de rachar! Foi bom a mulher dele, mandá-lo para casa. Enquanto eles acertam os ponteiros, eu me preparo. Terei que voltar ao escritório.

Vejamos, Quadra do Lago Sul 1 ..., QL3 ..., QL ..., lote 1..., lote... Este mesmo. Vamos ao interfone...

– Preciso falar com o doutor Carlos Alberto.

– Quem é?

– Uma amiga dele.

– Com nome ou sem nome? – parecia irritada.

– Doutora Nair? É a Infinita. Preciso que ele me receba.

– É sobre o furto?

– Sim, mas isto é secundário, trouxe uns papéis de Goiânia e preciso do parecer dele, ainda hoje.

– Vou abrir...

Abriu o portão e veio me receber.

– Vamos entrar.

– Se não for incômodo prefiro esperar aqui perto da piscina, no guarda-sol.

– Tudo bem. Ele vai demorar um pouco. O Brito recuperou o teste?

– A senhora pode ligar para ele e cancelar o serviço. Estou de posse dos papéis. Antecipei-me a ele.

– Isto não é muito honesto, é?

– Não senhora, mesmo porque, antes que a senhora o contratasse eu já estava de posse do teste.

– Foi você que...?

– Foi, mas o objetivo não é uma ação de paternidade, é algo mais histórico, estou em busca de pessoas desaparecidas.

– E é o caso dele?

– Só ele pode responder. A senhora quer o teste?

– Não, é melhor você entregar a ele. Já pequei demais com essa história. Vou apressá-lo e trazer um suco para você.

– Grata.

Afastou-se e em pouco o marido aparecia. Vestia um terno de microfibra azul e não dispensou a gravata, mesmo embaixo do guarda sol, o calor era enorme.

– Se o senhor quiser sair do sol..., tudo bem..., mas vou ser rápida.

– Não acredito que possamos ser rápidos em nossa conversa, o sol não vai me incomodar por muito tempo, já passa das dezessete. Um pouco antes das dezoito e no local errado, não?

– Não me pareceu justo sustentar um encontro longe da Doutora e achei melhor lhe evitar o inconveniente do deslocamento.

– Para quem andou me espionando por duas semanas...

– Quatro anos, Doutor, foram quatro anos procurando pelo senhor.

– E porque seguia minha esposa?

– Era só um disfarce. Ela contratou um detetive para encontrar os exames e eu me fiz contratar pelo escritório, para procurar a mim mesma. Seu DNA está seguro e de volta às suas mãos.

– E o que me faz merecedor de tanto esforço?

– Apenas uma consulta, que preciso fazer à pessoa certa; não posso me enganar, por isso, comprei seu mapa genético.

– Uma consulta? As histórias que partem de você têm muitas versões.

– Todas verdadeiras. Apenas tenho palavras para ela e palavras para o senhor. Os papéis estão aqui nesta pasta, mas não é necessário que o senhor perca tempo com eles. Este estojo contém algo mais belo e mais interessante para se ler. É o motivo da minha busca e da minha consulta.

– E que preciosidade é essa?

– Abra e olhe. Dizem que estou representada aí, preciso saber se o senhor também se vê nesta pedra. Isto é uma fotografia de um momento histórico e eu acredito que o senhor esteja aí, que seja um dos ícones aí gravado. Gostaria que o senhor a olhasse com a maior pureza de alma possível e apontasse qual deles lhe causa maior empatia. Qual deles é o senhor? E o significado da sua trajetória neste mundo.

– Que coisa mais linda! Uma obra de arte! Você tem um preço para isso?

– Não estou pensando em negociar a minha alma. Preciso que o senhor se concentre na vida aí representada e me diga...

– Sei, sei, mas que estilo é este, qual é a técnica...

– Foi encontrada há trinta anos em uma caverna e desde então vem sendo estudada e não se chegou a qualquer conclusão. Não existe nada parecido na terra. O senhor já viu coisa semelhante?

– Creio que não. De onde veio?

– Foi encontrada em uma caverna no Peru.

– É Inca?

– Não se pode dizer que seja. Não guarda semelhança com nada. É única no mundo.

– Única? Já vi coisas únicas, mas nada igual, não neste nível de perfeição.

– E a que nível?

– Nível de garatujas, por exemplo.

– Garatujas?

– Sim as letras de São Tomé, pelo menos eu as vejo assim, e são únicas.

– Preciso conhecer São Tomé, dizem que é uma linda cidade.

– Você vai gostar, considerando o amor que vejo em você por esta pedra, lá será seu paraíso...

– Não foi para o senhor?

– Foi. Foi um paraíso, mas também foi um inferno!

– E qual o motivo?

– Atravessei uma linha invisível e fui expurgado da minha vida. Excluído do mundo. Perdi os amigos, o emprego e as raízes. Aí apareceu a mão de Deus. Um par de mãos morenas, e depois, um par de mãos brancas, me tiraram do inferno e me puseram de volta à vida.

– E por onde andam estas mãos?

– As brancas você conhece, são da minha mulher. As morenas pertenciam a uma pessoa maravilhosa, se eu não tivesse me apaixonado quando voltei à vida eu teria rodado o mundo atrás dela.

– O que houve com ela?

– Salvou-me e sumiu. Nunca mais tive notícias.

– E como ela era? Você se lembra?

– Ah, sim! Não posso me esquecer! Mais escura que você, umas curvas tão perigosas quanto as suas, cabelos tão negros e longos que na água ela ficava parecendo uma sereia. Tinha o mesmo biótipo que você, rosto, boca, nariz, neste mesmo estilo que você tem, mas os olhos! Nunca vi nada igual, pareciam fixar direto na alma da gente. Eram tão negros e luminosos que faziam os cabelos parecerem castanhos. Era de uma simpatia e uma amorosidade a toda prova. Ao lado dela vivi coisas que não dá para contar. Salvou minha vida. A última imagem que guardei, foi ela lutando para me tirar de uma corredeira. Depois sumiu e a outra terminou o serviço.

– Foi aí que o senhor trocou de nome e desapareceu?

– Você andou investigando minha vida mesmo, não é?

– Isto foi o que mais me atrasou.

– Como você conseguiu?

– Andei atrás dos mortos, depois atrás dos vivos e voltei aos mortos e heranças. O senhor continua vivo no cartório de Brasília. O de Goiânia andou se esquecendo de uns detalhezinhos. No momento o senhor representa duas pessoas distintas...

– Qual é seu objetivo com isso? Está pensando em... – o momento telúrico, a volta às raízes, se fora e as palavras agora voavam com desconfiança.

– Não se irrite, por favor! Eu preciso que o senhor olhe esta pedra e me dê seu parecer, é tudo que peço.

– Não estou gostando desta história, você entrou na minha vida, invadiu meu escritório, e...

– Doutor, esta pedra trouxe-me até ao senhor, o seu passado não me interessa. Só o investiguei porque era a única maneira de encontrá-lo. Dizem que estou nesta pedra. Ela não veio parar em minhas mãos por acaso, e também não é por acaso que ela indica o cruzamento dos nossos caminhos. Portanto, não se preocupe com o passado, meus pés estão apontados para o futuro e não voltados para trás, como se fossem jarretes de cavalo ou joelhos de galinha. O senhor pode despachar-me sem uma resposta, tudo que colecionei, a seu respeito está nesta pasta, saio daqui levando apenas o meu troféu. No entanto, caso o senhor se veja representado aí...

– E que a leva a crer que eu esteja aí?

– Duvido até que eu esteja, mas...

– E onde nossos caminhos cruzam?

– A cachoeira é um destes pontos, porém o inicial foi em Franca.

– Como você sabe da cachoeira? Franca?!

– Alguém, que se vê representado nesta pedra, colocou algumas imagens na minha cabeça. A cachoeira e outras coisas que o senhor não leva em consideração. E foi pela cachoeira que cheguei ao senhor. Recorri ao registro das terras em volta da cachoeira e achei um herdeiro com um nome bem parecido com o que eu procurava.

– Isto não comprova o cruzamento dos caminhos, é apenas um incidente. Casualmente você achou um herdeiro e...

– E se eu citasse uma cadeira que se moveu sozinha e uma arma conhecida que fez suas cicatrizes? Uma certa noite em Franca...

– O episódio da cadeira já foi discutido, continuo acreditando no instinto de sobrevivência, mas como você sabe da arma? Quem foi que atirou? Quem te falou?

– Calma! Já te falei. A pedra...

– Chega de pedra! Quero saber quem te contou. Só o atirador sabe com que arma atirou.

– Ele e a dona da arma.

– A dona?

– Sua morena foi ameaçada com a própria arma.

– Ela te contou?

– Quando ela desapareceu, eu tinha menos de dois meses de vida. Mas alguém ouviu a história dela. Alguém que se vê nesta pedra e tem o poder de colocar na minha cabeça as imagens que tem na dela. Existe uma simbiose muito grande entre nós, mas não é o suficiente para agregar conhecimentos, não passamos de vasos comunicantes, por isso que sua participação é fundamental.

– Você quer que eu acredite que uma lê os pensamentos da outra?

– Não é bem assim. Antes de você levar os tiros, a morena fez uma manipulação de energia. Você se lembra? Ela relatou à minha mãe, que você não se concentrou, mas que teria dito que viu alguma coisa. Foi o que minha mãe fez comigo quando eu tinha doze anos. Manipulou minhas energias para ver meus problemas e eu invadi os arquivos dela.

– Sua mãe? Você é filha da amiga dela? A Karine?

– É de quem eu estou falando...

– Então, o DNA...

– Lá vai você se exaltar novamente! Minha mãe não se deixou engravidar por você.

– O DNA te disse isso?

– Não. Eu revivi aquele momento que vocês dois viveram em Franca e sei que não fui gerada ali.

– Isso é absurdo, quero falar com sua mãe.

– Ela está no serviço...

– Não vou mais conversar com você, você é maluca, quero ver sua mãe confirmar esta história. Vamos! Ligue ou deixe-me ligar.

– Não me importo de ser chamada de maluca, já ouvi coisas piores. Aliás, muito piores. Não vou me abalar por pouco, mas também não vim aqui para ser tratada como criança. Você perdeu esta chance há muito tempo. Hoje, o que procuro, é encontrar pessoas como minha mãe, que possam contribuir na leitura da mensagem contida nesta pedra, e que possam se comportar de forma mais civilizada com o próximo. Não estou em busca de um pai, ou de alguém que guie meus passos, eles sabem para onde ir. Deus fez a vida bela, cabe a nós torná-la mais igualitária, fazer com que o “pensar em nós” seja uma bandeira muito mais reluzente que o “pensar em mim” que viceja por esta terra. Você é livre para consultar seu coração e me dispensar sem uma resposta. Tudo o que se perde é o conhecimento do momento em que vivemos. Os pés, que não me faltaram até agora, continuarão comigo. Nem meu corpo e nem minha alma foram solitários e nunca o serão, mas carinho nunca é demais. Se o senhor não quiser ou não puder colaborar, não tem problema vou continuar a busca em outras pessoas, mas como o senhor pode ver, não existem muitas nesta pedra. Se minha teoria estiver certa, vou ter muito mais trabalho para achar aquela arma, a dona e o usuário...

– Pelo menos respire! Se você tem o poder de invadir a mente...?

– Não confunda; Doutor! Havia uma interação muito grande entre as duas e casualmente acessei algumas imagens descritas por sua namorada. Não sou adivinha. Lembre-se que levei quatro anos para encontrá-lo. Só depois que eliminei todas as possibilidades foi que me ocorreu que o dono da terra, onde vocês encerraram a jornada, poderia ter sido inquirido pelo delegado. Minha profissão é investigar, não sei pôr cartas...

– Dê um tempo! Pise no freio...! Diga-me o que você espera encontrar escrito aí?

– Existe uma lenda que fala no terceiro degrau da humanidade. Ela pode apontar o rumo do futuro, nos mostrar onde encontrar o elo. Mas pode ser outra coisa qualquer. Temos que agregar outros pontos de vista; está muito linear só com a visão da minha mãe.

– Que informações você tem da Maria?

– O nome dela era Maria Soledad Benitez, desapareceu junto com seu amigo homônimo, e..., não vá se irritar novamente..., eu juntei informações, tudo circunstancial, que me leva a crer que foi ele quem usou a arma. Isso não o surpreende?

– Desapareceram juntos, assim, lado a lado ou um de cada vez? Qual foi a última notícia que você teve dele? Quando ele desapareceu? nesta pasta, saio daqui levando apenas o meu trof colecionei a seu respeito est

– Isso é mais importante que ele ter usado a arma?

– O dobro. Faz dela cúmplice.

– Cúmplice? A mulher que salvou sua vida?

– Se fugiram juntos...

– Eu não disse que fugiram. Casaram e foram pra Argentina, com origem e destino declarados. Evaporaram entre o aeroporto de Buenos Aires e um endereço oficial do estado. Pode ser que ele a tenha enganado, nunca vi sombras de culpa nas imagens que tenho dela.

– Ela é inocente e ele culpado?

– Tomou-a de você à força, estava apaixonado, escondeu a cara porque sabia que ela não o perdoaria. Encontraram-se tempos depois e deixaram a paixão florescer.

– Mas a nossa amizade não tinha limites e nem segredos...

– Atrapalhou. Minha mãe nunca teve coragem de confessar à amiga que estava amando, preferiu se afastar e deixar que ela fosse feliz com você. O seu amigo tomou outro rumo.

– Sua mãe era como eu, amava todo mundo!

– Exatamente. Incapazes de fazer mal aos outros, abdicaram de tudo, menos do amor ao próximo. Posso dizer que nossos caminhos se encontraram novamente? Que embaixo desta casca de jacaré está o irmão amoroso, o par que preciso para minha jornada?

– Ela estava apaixonada por mim?

– Como você disse, ela amava todo mundo. Ama até hoje, eu diria.

– Você me perdoa, pelo maluca, mas agora preciso mesmo falar com sua mãe, não vou conseguir me concentrar em nada.

– Ok! Mas lembre-se que ela não sabe que tem uma filha hacker.

– Temos nossos assuntos para pôr em dia. Você ter invadido a memória dela não será um deles.

Enquanto eu estava ao telefone com minha mãe, a Doutora chegou com uma bandeja e um suco de laranja, sabor curiosidade. Desliguei, tomei o suco e depois a acompanhei até à cozinha, deixando o Doutor na expectativa da espera.

– Conseguiu um parecer favorável?

– Ainda não. Quer conversar com minha mãe, para ter certeza da minha sanidade moral e mental.

– Não era só examinar os papéis?

– Os papéis são secundários, preciso que ele olhe uma pedra.

– Uma pedra?

– É. Está dentro daquele estojo, tem uma inscrição cheia de mistérios, tem coisas nela que só vejo depois que minha mãe me mostra. Vejo coisas que ela não vê e acredito que seu marido poderá ver outras.

– E qual a dificuldade? Vocês ficaram por lá quase uma hora!

– Ele está resistindo, olhou como um pintor de parede olha seu serviço e não como um artista olha uma tela. Viu o labor, mas se recusou a ver a alma da obra. A senhora é tão ligada a ele, talvez possa me ajudar.

– Se você não o convenceu...

– Não é isto. Gostaria que a senhora desse seu parecer. A mensagem que está lá, não é para muitos...

Fui interrompida pela campainha.

– Deve ser sua mãe ao interfone...

– Eles vão precisar de um tempo a sós, porque a senhora não olha aquela pedra? Depois eu as apresento.

– Você é cheia das artimanhas! Está tentando controlar meu ciúme agora? Acha que vou fazer uma cena?

– Não é isso, mas cada vez cresce mais em minha mente, que a visão que a senhora extrair daquela pedra, será importante.

– E por quê?

– Não sei como a senhora o salvou, mas salvou. A ligação é muito forte.

– Do que é que estamos falando?

– De uma cachoeira nas terras da sua avó. Vamos?

– Que é que você está me aprontando, menina? Um shopping, um escritório, uma piscina, minha cozinha, as terras da minha avó..., vai invadir o que agora?

– Gostaria de poder invadir seu coração, não para usufruir o que tem nele, mas para mostrar que o meu é cheio de amor.

Abracei-a carinhosamente e depois voltamos à piscina. Os dois conversavam ao lado do carro da minha mãe.

– Deixe-os, olhe para isso, teremos tempo para as apresentações depois.

– É realmente belo. Foi feito para prender a atenção nas formas, sugere que as ações sejam esquecidas. Quantos anos você tem?

– Foi isso que ele fez. Olhou e não viu. Vinte e dois.

– Esta neblina ao centro, parece destoar, é como se o vento não tivesse uma direção certa. Brumas para encantar? Ele é seu pai?

– Nunca vi por este ângulo. Talvez seja. Talvez não.

– E este encontro ao centro? Parece que estão se ajudando, mas ao mesmo tempo tem uma disputa. Escondem algo, assim como a bruma. Está na ordem certa?

– Mas as feições não apresentam traços de outra coisa que não seja o amor. O que se esconde por trás do amor? Ódio não é um sentimento para segundo plano. A senhora não acha? Certíssima.

– Concordo, pois eu também não vejo ódio, bajulação sim, ódio não. Talvez..., não. Se esta bruma deixasse..., que jogo é este? Parece um basquete com uma bola gigante. O DNA não tirou a dúvida?

– Acreditamos que seja um jogo da vida. Só interessa o pai de coração.

– Vocês veem vida nesta bola torta? Todos tentam chegar nela, mas a disputa me parece que está mais em baixo. Veja os olhos. Dos três que podemos ver, apenas um está claramente fixado na bola. Os outros dois..., se eu pudesse afastar esta bruma..., não têm brilho no olhar, como no outro. Ou é efeito da bruma ou desviaram o olhar do objetivo. Ficou ambíguo. Porque só o de coração?

– É uma análise bem lógica, a intuitiva lhe diria o que? O amor é tudo.

– Um objetivo secundário, uma disputa por um dos parceiros, e..., amor! Está escondendo o amor, um outro tipo de amor, como aquele abraço que você me deu, um amor cheio de...

Levantou a cabeça e olhou os dois que ainda conversavam.

– Você é venal! Está fazendo o papel da bruma...

– Calma, por favor. Não se retire, fique e afaste as brumas. Não existe disputa ali. Só reminiscências de velhos amigos. Quando chegarem aqui, deixe que ela te abrace e sinta o que o corpo dela irradia. Depois julgue. Ela é leal e se vê nesta figura cujos olhos brilham. Você acabou de dizer que ela não tem objetivos secundários.

– Aquele seu abraço teve. Qual destes é você?

– Você sabia que ele demonstrava meu carinho por você e também um pedido de tempo para os dois. Eu não sei qual é a figura que me representa nesta pedra. Sei que estou aí, mas ainda me procuro. Talvez eu seja esta bola torta ou qualquer destes outros disformes que se escondem na bruma.

– Complexo de inferioridade em uma mulher linda como você?!

– Não é assim que eu vejo. Sou apaixonada por mim mesma. Porém, nunca consegui reunir três amigos em volta de um objetivo comum e duradouro, por isso não me sinto como um dos quatro. Estou sempre reduzida a dois ou três, quando não estou sozinha. Os disformes, ou não acabados, estão sempre solitários. Olhe por toda a pedra e você não verá contato entre eles.

– E porque na bruma?

– Sou mais intensa sob a luz da lua. Isso exclui as partes iluminadas. E você? Se vê, aí?

– Não. Ainda não me vi, mas se eu pudesse entrar aí seria para espanar esta bruma. Gosto de ver as coisas com clareza.

– Gosto de você e minha mãe vai te amar.

Voltou a examinar a pedra e eu completei.

– Ela é deste jeito que está aí. Ninguém dá atenção a ela, no entanto irradia amor. E quem poderia estar olhando para ela, deu as costas ao mundo e não se sabe para quem olha.

O interfone voltou a tocar, ela se levantou e foi receber a filha, de passagem interrompeu a conversa dos dois. Apresentaram-se e eu não vi o abraço. Foram os três até o portão. Lá as coisas foram mais efusivas e por fim minha mãe apontou a direção do local em que eu estava. A Clarice deixou-os e caminhou para mim. Tinha muito da mãe, e nada do pai. Sob os últimos raios de sol, senti-me radiografada por um olhar intenso, direto e franco, esquadrinhador, meticuloso e obsceno. Se fosse um homem eu diria que estava me despindo. Parou a uns dois metros para concluir a revista. Olhava minha roupa e depois através dela. Quando pareceu se dar por satisfeita eu dei um giro para que ela examinasse o resto.

– E agora? Será que mereço um abraço?

– Acredito que sim. Quem é você?

– Vejo-a como uma irmã, mas reconheço que existem muitas formas para se ver uma pessoa. Como irmã, você tem o direito de escolher como quer me ver.

– Você está processando meu pai?

– Ah, não! Pai, mãe e irmã só conta se estiver no coração.

– Ele já te reconheceu?

– Você é rápida, hein!? Vamos voltar a fita. Eu disse que a vejo como uma irmã, não queria dar um cunho genético.

– Então qual é?

– Até hoje só ganhei abraços de amigas, gostaria de saber como é um abraço de irmã.

– Eu também não sei, não tenho uma.

– Está convidada a me olhar como se fosse uma. Quer que eu dê mais um giro?

– Não é preciso. Estou tentando imaginar como é ter uma irmã que nunca brincou comigo.

– É uma referência a mágoas passadas ou promessa de mágoas futuras?

– Acho que passadas, pois saí daqui hoje à tarde e meu pai estava na maior “deprê” e agora está rindo. Você tem algo a haver com isso?

– Creio que sim. Sente-se que eu explico.

– E o abraço?

– Quando você quiser e se sentir à vontade.

Sentou-se, sem o abraço.

– Quero que você me escute. Só isso. Não tire conclusões precipitadas. Estou aqui há quase duas horas esperando por uma resposta do seu pai, calma, não perguntei a ele, se quer ser ou se é meu pai, é outra pergunta. Nestas duas horas eu “cozinhei” o ouvido dele e o da sua mãe. Ele chamou minha mãe para cá, o que estava fora dos meus planos. O que eu disse a um, não repeti ao outro. O que vou dizer a você é somente para seus ouvidos. Acredito que temos uma ligação genética, mas isso é secundário e incerto. Ele te criou como filha, você mora no coração dele como filha que é. Eu fui criada por aquela mulher ali, e sou filha dela porque, assim, como você mora no coração do seu pai, eu moro no coração dela. Ela nunca pariu, mas tem uma filha e quando ela fica com saudade de um filho, eu abandono os saltos e ponho uma gravata. Se seu pai me aceitar no coração dele, para me abrigar ao seu lado, eu vou representar para ele o que represento para minha mãe. Se não for assim, não me serve. Da mesma forma, eu te quero para irmã, independente da genética, irmã de coração, se você arrumar espaço aí, posso ganhar uma irmã, mesmo não ganhando um pai.

– E qual é a resposta que você espera dele?

– Não é genética. É conceitual, filosofal, comportamental. Eu preciso saber qual é o papel que ele representa neste teatro que está neste estojo. Sua mãe não se viu aí, mas gostaria de entrar para dar uma espanada em tudo.

– E ele...?

– Só vai responder quando se acalmar.

– E você, está aqui? – perguntou olhando a pedra.

– Devo ser um caramujo escondido no meio das pedras. Você não vai me achar.

– Pode-se procurar você mesma e os outros também?

– Só você pode te encontrar. Sem a sua sinalização ninguém te vê.

– Você acha que é assim, chegar de mala e cuia e se instalar no coração alheio?

– Tudo é fácil quando Deus quer. É só nós não levantarmos muros. Estou dizendo que meu coração está aberto para que você se instale nele. Se acaso houver barreiras no seu, eu serei paciente.

– Você vai ter que ser paciente, por muito tempo, com minha mãe.

– Cada tijolo, não assentado, é uma vitória. Um sorriso é uma promessa de abraço. E cada abraço é um tijolo que cai, fazendo o muro menor.

Abriu um sorriso e levantou-se.

– Venha, vou mostrar-lhe meu quarto.

– A conferência deles acabou é melhor esperarmos por aqui mesmo.

Aproximaram da mesa onde estávamos e enquanto o Doutor tirava o guarda-sol, dirigiu-se à filha.

– Filhinha, leve a Carmem para tomar um suco que precisamos de uns dez minutos, a sós, conversa de velhos.

Minha mãe fixava a Clarice e eu senti que o motivo era ela.

– Podemos trocar o suco por um sorvete? Voltamos em meia hora. E eu aproveito para entregar a ela um presente que ninguém quis embrulhar.

– Você o trouxe?

– Estava muito abandonado, Doutor, mas não vou esquecer de comprar outro depois.

Levei-a para meu carro e saímos rumo à sorveteria mais próxima.

– É o meu presente de natal?

– É. Mas não é o presente da sua irmã, foi seu pai que comprou. Eu só embrulhei.

– Você leva jeito para “embrulhona”. Está bem feito!

– Já embrulhei muito, agora só enrolo.

– O que você faz na vida?

– Faço pesquisas e nas horas vagas ia pra UnB. Agora tenho mais tempo livre. Aí no porta luvas tem um convite para você.

– Convite?

– Ficarei muito feliz se minha irmã for à minha formatura.

– Desde quando você sabe que somos...

– Você não precisa me chamar ou considerar irmã, eu vou sempre considerá-la como tal, porque sei que é amada por aquele que me gerou. Pode me chamar de Carmem. Descobri há uns dois meses. Mas tive que comprar o DNA para mostrar a olhos incrédulos.

– Você tem namorado?

– Destes de ficar todos os dias, não. Mas tenho pessoas que gostam de ficar comigo e que me fazem feliz.

– Pessoas? No plural?

– É. Faço meu próprio padrão. Se me sinto bem com alguém e esta pessoa está se sentindo feliz, não vejo porque dizer tchau. Você está ficando com alguém?

– Meu pai marca em cima. Mas eu tenho um amigo no colégio. Lindão, estilo Kaká. Você quer conhecê-lo?

– Pode incluí-lo no convite. Se você deixar, eu danço com ele.

– E meu pai?

– Você vai poder dançar com todos os meus amigos, ele não vai impedir.

– Tem muitos?

– Muitos, mas vou te apresentar só os bacanas, os que são bonitos por fora e por dentro.

– Que coisa é esta do seu curso?

– Mecatrônica é uma mistura de mecânica, eletrônica e informática, a gente acaba virando um engenheiro “faz tudo”.

– Vamos voltar? A meia hora deles já passou.

– Vamos. Você fez opção para que?

– Medicina. Quero ser pediatra.

– Estes seus olhos, de ver tudo, ajudam ouvir o que as crianças não dizem?

– Espero que sim, mas por hora eles têm que ver é a resposta certa nas provas. Não quero ter que enfrentar cursinhos.

– E porque não?

– É pura gozação no colégio. Dizem que quem faz cursinho não é nada. Está perdido no vácuo. Ou você está na luta do PAS ou na faculdade, o resto não existe.

– Congratulações a você, se passar. Mas se você estiver em um cursinho, é sinal que você não desistiu dos seus sonhos. Quem sonha, é alguma coisa, mesmo que seja só um sonhador. Eu adoro sonhar.

– E com que você sonha?

– Tem noites que sonho que sou a Jennifer Lopes e danço a noite toda com o Richard Gere, em outras, sonho que sou o Richard Gere e danço a noite toda com a Jennifer Lopes.

– É mesmo?!

– De verdade! Tem gente que acha que sou maluca. Pegam no meu pé, mas eu não desisto dos meus sonhos. Ah! E quando eles estão ocupados e não podem dançar comigo, eu viro a Sandy ou o Junior. Só não tive coragem de virar o Senhor e a Senhora Smith, eles gostam muito de atirar.

– Carácolis! Arrumei uma irmã maluca mesmo! Muito doida!

Notas finais
No próximo epílogo.