Um Toque Feminino

12 Capítulo - 12 Os Dois


Notas iniciais
Heranças...

Capítulo Doze

Os Dois

Almoço na casa do meu avô é sempre uma recepção clássica. Se dependesse da vontade dele, entraríamos na piscina de black-tie. Enquanto minha namorada termina a maquilagem, vou lutando com o nó da gravata.

– E então, como estou?

– Prefiro outro estilo de roupa, mas vou continuar bem acompanhada. Porque você não põe a gravata rosa, vai dar um charme especial.

– Para ir à casa do meu avô? Não senhora! Quanto mais preto melhor.

– Solte mais um botão do paletó, está muito justo na bunda. Tem que mandar fazer um mais largo ou um modelo com mais umas aberturas aí na barra... Legal... Vamos? Estou pronta.

– Vamos. Acho que eu devia ter aparado o cabelo.

– Ah, deixa disso! Ele nem enxerga direito. Vou sentar no colo e beijar a boca dele, quero ver se percebe a diferença.

– A última vez que eu sentei ele me jogou no chão.

– Claro! Você esqueceu de abraçar o pescoço dele.

– Vamos. Se chegar um convidado antes de mim ele torce o nariz.

– Antes de você? São nove e meia, para um almoço marcado para as treze.

Rodamos no rumo da casa dele, bem devagar, pois minha carta de motorista ainda estava na fábrica.

– Que merda! Já tem um carro aí. Placa CD? Ele perdeu o contato com o povo do corpo diplomático desde que eu nasci! O que será que estão fazendo aqui?

– Calma, amor! Visita antes das dez, não veio por causa do almoço.

– Então ele morreu?!

– Calma. Não vejo nenhuma ambulância ou rabecão.

Fui entrando..., esta é a casa onde eu fui criado, pouca coisa mudou, o escritório onde eu tive muitas aulas de vida, fica à esquerda, e a conversa animada que chega de lá, está me dizendo que está tudo bem com o meu avô. Mas e minha mãe, ela não está aí. Antes que estes velhos me aluguem, vou procurar por ela. Será que foi com ela? Soluços? E vindo do quarto dela? Santo Deus... será?

– Mamãe! O que houve? Porque isso? A senhora nunca foi dada às lágrimas.

– Ah! Meus filhos! Que bom que vocês chegaram! Estou tão arrasada.

Abraçou-me e depois se grudou à minha namorada e eu vi sobre a cama um estojo chique com uma pedra polida dentro.

– O choro é por causa disso, mamãe?

– Disso? Isso aí não é só isso, meu filho. É um tesouro de valor incalculável, e que aqueles...

– A senhora recebe um tesouro e chora?

– Aqueles dois não trouxeram só notícias boas. E me devolver isso, significa que não estão dando a menor importância à história que esta pedra encerra.

– E quais são as notícias ruins, que transforma assim, a pessoa mais sorridente do mundo em um rio de lágrimas?

– Não sei. Só me entregaram a pedra, a conversa tem que contar com sua presença.

– A minha presença? Que tenho, eu, a haver com isso?

– Não sei. Mas seja o que for não se envolva com eles. Não quero que você tenha qualquer tipo de sentimento por eles, nem amor e nem ódio. Está me entendendo?

– Não! A senhora sempre me orientou, mas o rumo a seguir eu decidia, o que mudou agora? Nem uma orientação e os caminhos bloqueados. Como posso entender?

– Quero que você continue a escolher seus rumos, mas não quero a influência daqueles dois na sua decisão. Ouça-os, o mais friamente que puder e decida sem amor e sem ódio. Eu não posso ditar seus rumos e também não vou permitir que eles o façam.

– A senhora está me assustando.

– Não é necessário. Vamos ouvir o que eles têm a dizer, depois voltamos para cá e eu te conto a minha versão da história. Mas saiba que de mim eles já tiraram tudo que tinham para tirar e devolver esta pedra não me leva nem a dizer-lhes “muchas gracias”. Faça a eles as perguntas que quiser fazer, mas a mim, só as faça aqui, para nós três e ninguém mais.

– E qual vai ser o assunto?

– Esta pedra, sua mãe e eu. Deixe-a aí. É melhor, que eles, nunca mais ponham os olhos sobre ela. É a minha opinião, se a sua for diferente, não se deixe influenciar.

Sentenciou e antes que eu elaborasse minha opinião, dirigiu-se à Marcela.

– Venha comigo, Marcela, quero você sentada ao meu lado para enfrentar aqueles dois.

Quando não se tem qualquer opinião, é melhor seguir a que aparentar mais sensatez. Deixei a pedra onde estava e segui as duas, que abraçadas, já estavam à porta do escritório. Da porta fiquei assistindo os dois velhos levantarem das cadeiras com dificuldade e ir babar a mão da minha namorada. Depois a voz mais fria do mundo, estranho partindo dela, anunciar: e este é o meu filho, Carlos Souto-Maior Benitez e Gonçalves. Os dois velhos deixaram cair o queixo e ficaram a me olhar, imóveis.

– Benitez e Gonçalves!?

– Como Benitez e Gonçalves?

Minha mãe manteve o silêncio e eles continuaram com cara de aparvalhados.

– A senhorita poderia explicar...

– Não. Basta que os senhores saibam que a pedra tem um herdeiro. E se quiserem falar com alguém, é com ele. No mais podemos sair...

– Por favor, senhorita Gonçalves. Não queremos repetir os erros do passado, estamos muito velhos, olhos cansados e memória fraca, mas mesmo assim ambos vemos no seu filho os traços hereditários da sua amiga de infância, mas vemos também os seus. Mesmo que a senhorita não queira nos responder, vamos estar sempre nos perguntando: Como é possível?

As duas sentaram no sofá e eu permaneci de pé. Eles voltaram às cadeiras sem tirar os olhos de cima de mim.

– Eu e o senhor Munhoz, viemos aqui para trazer uma notícia ruim e aproveitamos para devolver a quem de direito um tesouro que tínhamos sob nossa guarda. Não o fizemos antes porque não sabíamos a quem devolver, se à senhorita Gonçalves ou à amiga dela, a então senhorita Benitez, que se tornou senhora Paiva. Recentemente recebemos provas inequívocas de que o senhor e a senhora Paiva faleceram de forma trágica. Não sabíamos da existência de um herdeiro Benitez-Gonçalves, até que seu avô nos informasse. Isto facilita muito nossa tarefa e mostra que estamos fazendo a coisa certa, mesmo que tardia. Esta valise preta, sobre a mesa, contém os trabalhos apresentados pelas duas, e esta marrom, contém pesquisa e opiniões de alunos que deram sequência ao trabalho. Infelizmente ninguém avançou ou conseguiu reproduzir de forma consistente os fenômenos ai listados. O objetivo foi ficando cada vez mais distante dos nossos olhos e o desânimo crescente fez com que a teoria fosse abandonada. O troféu que hora lhes devolvemos, pode não representar um fato histórico, mas está eivado de arte e beleza que por si só o torna valioso. Acredito que posso encerrar por aqui, e me colocar à disposição para responder a quaisquer perguntas.

– Os papéis referentes à morte deles estão aí? – perguntei.

– Como são cópias, estão na maleta preta, os documentos da pasta marrom são todos originais. Caso você queira os originais do atestado de óbito, tem que comprovar a legitimidade de herança no cartório que o emitiu, as outras cópias são trabalhos de terceiros, trouxemos apenas a título informativo.

– Muito obrigado, eu agradeço em meu nome e no da minha mãe.

– Não há de que, ficamos felizes em poder devolver isso, e conhecer você, enriquece nossa experiência de vida. À sua mãe, deixamos registrado nosso pedido de desculpas.

Puseram-se de pé e se despediram do meu avô e da filha, que mal lhes desejou uma boa viagem de regresso. Acompanhei-os até o carro. E longe dos ouvidos da Karine o senhor Munhoz, que esteve mudo o tempo todo, resolveu abrir a boca.

– Senhor Benítez – registrei o uso do sobrenome da minha mãe número um – inteire-se do valor do seu tesouro, e caso queira se desfazer dele conceda-me o privilégio da compra. A senhorita Gonçalves já se pronunciou contra, porém, caso queira retomar as pesquisas creio que em se comprovando qualquer vínculo entre as imagens da pedra e a realidade, haverá uma evolução no caminhar do ser humano.

– Senhor Munhoz, é fato que ambas as minhas mães, por razões pessoais, abandonaram a pesquisa, porém enquanto recupero minha herança, estarei a considerar a sua sugestão.

– Não creio que sua mãe tenha lhe deixado muito, exceto a pedra, mas retorne às pesquisas e seu patrimônio poderá saltar da casa dos milhares para a dos milhões.

– Agradeço o convite e...

– Por gentileza não extravie meu cartão.

– Certamente cuidarei dele, boa viagem.

Esperei que o portão se fechasse atrás deles e voltei ao escritório. Só estava por lá o meu avô.

– Venha cá meu filho quero dar-lhe um abraço pelo aniversário e outro pela consideração que você tem tido comigo.

– A primeira parte eu entendi, mas qual é a segunda?

– Eu teria ficado muito constrangido se visse meu único filho se apresentar vestido de forma não condizente a amigos tão antigos.

– Não se preocupe vovô, o senhor nunca me verá sem gravata. Fico feliz que o senhor tenha falado sobre mim com seus amigos.

– Não tenho certeza se falei ou se foram eles. Minha cabeça está cada dia pior. Minha paralisia está subindo. A sua namorada é muito bonita pena que sua mãe não estava de verde. Não é de bom tom perguntar sobre a gravidez da filha dos outros. Você vai ter que se casar com ela no dia em que ela se vestir de verde. A sua avó era bonita. Sabe aquela saia azul que ela tinha, azul não, era verde. Verde? Não, verdes eram os olhos. Você pode dizer à sua mãe que eu te amo? Ela precisa saber que eu amo a sua namorada também, ela sim, seria uma linda neta. Ela vai ficar com ciúmes, mas é preciso...

– Vovô. Eu preciso dizer que te amo. Você está me ouvindo?

– Claro! Eu ouço bem.

– Você sabe que eu te amo?

– Sei. Mas a sua mãe...

– Ela também te ama e sabe que o senhor me ama. Sabe quem mais te ama?

– A sua avó...

– Isto vovô, e mais a minha namorada, vou me casar com ela e vou te dar um netinho. Se ela não quiser te dar um neto eu arrumo outra namorada.

– Isso meu filho, uma mulher precisa dar um neto para nós. Você também vai ter um neto?

– Claro. E vou ser um avô “legal”, igual o senhor foi.

– Eu fui “legal”?

– O melhor do mundo. Vou ficar te copiando o tempo todo.

– Você aguenta me pôr no sofá?

– Claro! Eu tenho pernas fortes, pega aqui para o senhor ver. Viu!? Músculo puro! Sou craque no futebol.

– Então me leva, não quero morrer nesta cadeira.

– É só o senhor abraçar meu pescoço com força e eu o levo, mas vamos parar com esta história de morrer. Mamãe vai ficar triste.

– Não conte a ela. Sua avó vai cuidar de mim.

Abracei-o e o tirei da cadeira. Entre a cadeira e o sofá a vida dele se foi. Minha mãe chegou a tempo de levantar as pernas dele para pôr sobre o sofá. Ele me rejeitara por quatro anos, mas depois voltou a ser o pai que sempre fora. A pessoa a quem eu me apegava para não me sentir “filho das ervas”. Isto de chorar por quem se ama, é muito triste, íntimo e solitário. Todas as prevenções que arrumamos para suportar a dor causada pelo fim de alguém, se tornam inócuas quando a morte chega. A dor tem que ser vivida. O consolo de pensar que: estava na hora; já era muito velho; viveu bem vivida a vida; sofria muito; partiu em paz; está com os anjos. É só poeira do nada, pois sua dor é o todo. O abraço substituindo mil palavras. Não existe força que arranque um sorriso de entre as lágrimas da morte. Não fosse a presença e iniciativas da Marcela, eu e minha mãe, teríamos passado a noite ali naquele sofá, abraçados, chorando por ele. Esquecemos o aniversário, o encontro com a família da Marcela e o presente da Nathália. Mas aquele foi o momento da nossa despedida, um momento em que ele foi da família, depois disso virou propriedade do estado, do corpo diplomático e da imprensa. O mundo ficou menor para mim, busquei refúgio entre minhas amigas e deixei os flashes para minha mãe.