Um Toque Feminino

16 Capítulo - 16 Epílogo


Notas iniciais
Hora de fechar as aspas e abrir um novo parágrafo, agradeço a todos que me acompanharam até aqui. Abraços.

Capítulo dezesseis

As Três

A lua marcava o céu, no ponto das dez horas, pelo relógio bio eu não tinha a menor noção de quanto tempo me separava da meia noite, minha conversa com a Clarice acabou enveredando no rumo das brincadeiras e as poucas verdades e revelações que eu precisava ouvir dela, acabaram saindo em conta-gotas, mas naquele momento eu tinha uma ideia exata dos sonhos, projetos, talentos e deficiências que formavam a personalidade da minha irmãzinha. Astuta e desconfiada, seria uma boa e leal amiga de quem conquistasse sua simpatia. Fez muitas perguntas e deu respostas curtas, mas aos poucos foi se abrindo. A harmonia que se estabeleceu a partir daí, fez com que eu perdesse a noção do tempo em que ficamos paradas em frente ao portão da casa dela. Fomos interrompidas pelos gritos da Doutora, que aparentemente ainda estava na piscina. Não tivemos paciência para pôr o carro para dentro. Quando o portão começou a se arrastar lentamente, acionado pela Clarice, saímos do carro e corremos até à piscina. Aparentemente estiveram brincando em volta da pedra e minha mãe estava dentro da água, sustentada pelo Doutor. Ambos nus e ela desmaiada.

– O que houve?

– Estávamos lendo sua pedra. Ela juntou o que eu vi com coisas que ela sabia e resolveu fazer uma leitura conjunta...

– Conjunta, mas...

– Pediu para eu ficar nu... Ela usou as energias, como a Maria...

– Estou entendendo, mas...

– Foi muito rápido, ela conseguiu envolver a Nair também, mas não durou nem um segundo, desmaiou. Não sabia o que fazer, lembrei que a Maria me pediu para levá-la à água...

Segurei o pulso dela e toquei na água com a outra mão.

– É o melhor a fazer, mas não está fazendo efeito, só estabilizou...

– O que faremos? Levamos ao hospital...?

– Ela precisa de água pura, o choque foi muito forte.

– Água pura? Mas...

– A química da piscina..., barrila, cloro..., está isolando o corpo dela. Precisamos de algo mais natural.

– O Lago Paranoá...?

– Não, ela não gosta do lago.

– Papai, temos que levá-la ao Parque da Cidade, lá tem água natural...

– As piscinas da Água Mineral no Parque Nacional...

– Está fechada. Serve uma ducha?

– Onde vamos arrumar uma ducha de água pura? – perguntei.

– Eu sei onde tem uma. Ajudem-me a lavá-la ao carro.

Passei a mão por baixo do corpo dela e a tirei da piscina, leve como se a água ainda a sustentasse. Os três ficaram a me olhar, assustados.

– Não sou tão forte assim. É como se ela estivesse desidratada, completamente seca, vazia do peso da água, não sei por quanto tempo ela vai aguentar sem murchar. Vamos no meu carro, que já está atravancando a saída, acho que deixei a chave na ignição.

– Nair, busque um roupão enquanto me visto, vocês duas podem ir se ajeitando no carro. Cuidado para não bater a cabeça dela.

Voamos o mais rápido possível. Negociação sumária com o porteiro do club, quebra-molas e com uma corrente que mais à frente bloqueava o caminho. Uma curva à direita e em seguida, árvores dos dois lados e a umidade do ar indicando a presença de água. Desligou o motor e ouvi o barulho da ducha. Desci do carro carregando o corpo com o roupão por cima, que foi retirado pela Clarice quando me aproximei da ducha.

Dois casais que namoravam por ali, sob a luz do luar, ao constatar a nudez da minha mãe, foram saindo de fininho, não sem antes deixar no ar suas manifestações de espanto.

Usei meu corpo para quebrar a força do jato sólido que descia, generoso, de uma canaleta a mais de metro acima da minha cabeça. Deixei a água aspergir pelo corpo dela. À medida que ia se molhando ia ganhando peso e meus braços iam cedendo. Deixei as pernas descerem e sustentei o tronco. Em poucos minutos ela já estava sobre as próprias pernas. Continuamos abraçadas até que ela se sentiu em condições de caminhar.

– E aí, dona Catanduva, a senhora está bem?

– A dona Catanduva eu não sei, mas a dona Karine está novinha em folha.

– Quer ficar um pouco mais sob a água?

– Só mais um minuto, sozinha, por favor.

Reforçou o abraço com um beijo e empurrou-me para fora da ducha. Tirou a calcinha, para completar a nudez, e a jogou para mim. Ficamos assistindo o guarda-chuva que a água formava quando batia no centro da cabeça dela, e depois, todo um ritual de massagem, que ia das mãos aos pés, usando a força da bica. Depois voltou a fazer o guarda-chuva e de costas para a fonte abriu os braços em cruz, com as mãos voltadas para cima e depois para baixo. Abriu os olhos, examinou a plateia e parou-os em mim. Baixou os braços, deu um passo à frente e disse.

– Venha, agora é a sua vez.

Vestiu a calcinha e começou a me despir.

– Mamãe, a senhora tem certeza?

– Você não devia estar fazendo perguntas a mim, faça à água.

Livrei-me do vestido molhado, da meia-calça e da calcinha. Os sapatos, com seus saltos finos, ficaram entre o portão e a piscina da casa deles. Caminhei na direção da água, sem olhar para trás, entrei sob a ducha e me perdi no tempo. Quando abri os olhos vi a minha plateia assustada e confusa à minha frente. Só minha mãe sorria, ainda nua. Apanhei o roupão que estava na mão da Clarice, ela deu um passo atrás, mas pareceu acordar. Virou-se para a mãe, pegou outro roupão e ajudou minha mãe a se vestir. Depois voltou-se para mim.

– Eu ganhei uma irmã ou um irmão?

– Já lhe disse, você tem o direito de escolher como quer me ver.

– E porque você não usa uma cueca? É por isso que você disse que põe uma gravata...?

– Não combinaria com este vestido, mas eu tenho outros que aceitam uma cueca, e uns jeans também. Mas no momento, precisamos ouvir a dona Karine. Porque não sentamos naqueles bancos?

– Você e sua mãe precisam tomar alguma coisa quente. Vamos sentar lá em casa. Uma conversa longa requer um sofá macio. – o Doutor parecia ter acordado.

Conduziu a Doutora de volta ao carro e a Clarice me ajudou a amparar minha mãe, mais por zelo que por necessidade. O silêncio entrou no carro conosco. Antes que pesasse demais a Clarice, que parecia estar mais à vontade que os demais, se manifestou.

– Tia, quantos anos você tem?

– Ora! Isso é coisa para você perguntar ao seu irmão, e não à sua irmã ou à sua tia. – brincou minha mãe.

– Eu tenho, mesmo, um irmão?

– Bonito e cheiroso como uma dama e gostoso como nenhum homem foi até hoje. Cuide das suas amigas.

– Tia, você é tão linda! Porque nunca quis ter filhos?

– A mãe do seu irmão era muito mais linda que eu. Ela achava que eu era mais carinhosa que ela. Aí fizemos um consórcio, ela gerava meu filho e eu criava a filha dela. Mas apareceu um deus invejoso e misturou nosso acordo. Teve um que tentou consertar, chegou um pouco tarde, mas foi de grande valia. Deu a ela um filho lindo e deu a mim uma filha carinhosa. E tudo em um corpo só. Economizei metade das fraldas.

– Fala sério, tia! Pode ser?

– Pode. Eu não sabia, até hoje. Descobri que gente da minha espécie não pode engravidar com qualquer um.

– O que significa minha espécie?

– Sabe a história do XX e XY?

– Sei. DNA. Feminino e masculino.

– No meio daquela bagunça toda, alguém deixou cair um pingo a mais. Só posso engravidar de quem tiver esse pingo.

– Meu pai tem este pingo?

– É melhor ele responder. Tem respostas que só ficam bem na boca da mãe ou do pai, na de uma tia vai soar esquisito. As tias são muito fofoqueiras. – arrematou com um cochicho.

– A senhora sabe e não quer dizer...

– Se você me perguntasse se nós já estivemos na cama juntos eu poderia responder, porque eu faria parte da cena. Se você perguntar se ele me engravidou, eu poderia responder não, pois você já sabe que eu nunca gestei ninguém. Não posso falar sobre os talentos do seu pai.

– E do seu filho, pode?

– De alguns que ele me contou e de outros que partilhamos, mas tem uns que só ele sabe.

– Ele tem o pingo?

– Tem, mas é diferente. Tem dois, conservou o da mãe e o do pai.

– E com quem ele vai poder...

– Com quem quiser engravidar e estiver aparelhada para isso.

– Aparelhada?

– Tem que ter útero e a semente inicial, o óvulo.

– Ele já conseguiu...

– Você vai ter que se consolar comigo, se ele te fizer titia, vai fazer de mim vovó.

– E ainda não somos?

– Ele nunca me contou. Quem sabe você não consegue arrancar esta informação dele?

– Se eu tiver herdado o pingo do meu pai, tenho que procurar alguém especial?

– Caso seu pai tenha...

Foi interrompida pela Doutora Nair.

– Estamos chegando, quando a Karine se recompor, vai nos contar todas as verdades que sabe e que viu naquela pedra, vai satisfazer toda a sua curiosidade, mas por enquanto, deixe-a descansar um pouco.

Recuperei meus sapatos e a roupa da minha mãe. Depois, fui colocada dentro do closet do casal, roupas masculinas de um lado e femininas do outro.

– Fique à vontade. Tanto as do seu pai quanto as minhas estão à sua disposição, sem reservas. Se quiser um banho quente, as toalhas estão aí embaixo. Deixe-me pegar uma calcinha, pois as da Clarice não ficarão bem em sua mãe.

Saiu levando uma calcinha branca. Optei pela roupa masculina com um blazer, tranquei a Carmem no armário e desci em seguida. Na cozinha, a Clarisse e o pai se viravam para organizar uma mesa com um lanche. O assunto era a formatura da Carmem. Interromperam quando eu entrei e ficaram me olhando.

– Oi, Clarice! Sou o Carlos. Sua mãe convidou-me para um lanche.

– Nossa! Sua mãe tinha razão, você é lindo!

– Pois eu prefiro ter duas filhas. Mas talvez você tenha aprendido a abraçar com a Carmem. Vamos testar, Clarice? – sugeriu o Doutor.

Ganhei o abraço negado à Carmem e realizei o sonho de ganhar um abraço de pai.

– E aí? Você vai à formatura da Carmem, maninho?

– Ela me detesta. Nunca me convidou para nada. Divide a cama comigo, mas sempre me deixa para trás.

– Ela é ruim para você?

– Já foi. Quando começou a me obrigar a usar batom, lycras e saltos, mas agora nos damos bem.

– Por que o convite é em nome dela?

– Eu nasci homem, quando meus seios começaram a crescer, fiquei apavorado, foi surpresa para todos nós. Meu avô não aceitou, mas minha mãe foi “dez”. Tive que trocar de vida, também. Eu não sabia como encarar meus amigos. Minha mãe me levou para a Europa e me mostrou o que era ser mulher e as lutas que enfrentam em cada cultura. Nunca me senti como se fosse uma delas, mas deu vida à Carmem e ajudou-me a aceitar minha condição de portador de seios. Mas para encarar os amigos, ainda estava difícil. Preferi assumir a vestimenta feminina, minha mãe arrumou um passaporte europeu, em nome de Carmem e é mais fácil usá-lo que o do Carlos. Tenho uma amiga que usa o nome masculino e tem muitas dificuldades. Tinha professor que fazia questão de chamar o nome dela bem alto, só para ridicularizar. Mas ela sempre dava a volta por cima, acabaram respeitando.

– Você a namora?

– Namoro. Ela é um doce de pessoa. Um coração enorme. Você vai gostar dela.

– E a Carmem?

– Ela tem um namorado legal também, mas minhas namoradas não dão muito espaço para ele.

– Quantas namoradas, você tem?

– Umas três. Mas tem mais umas que a gente fica de vez em quando.

– Você já tem filhos?

– Ainda não, mas a Nathália, que é tão linda por dentro quanto é por fora e a Ana Maria, estão planejando engravidar depois da formatura.

– E a outra?

– A Marcela não tem como ficar grávida, é mais fácil ela ser pai, igual a mim, mas ela não gosta, sonha mesmo é com uma gravidez própria.

– E você, não sonha em ser mãe?

– Não. Minha cabeça foi treinada para administrar os dois gêneros, mas funciona mais do ponto de vista do pai. A Marcela é o contrário, se vê apenas como mãe. Sonha em fazer aquela mutilação, mas é como eu: não temos útero.

– O que muda em você, quando põe um vestido?

– Nada. Deixo a Carmem assumir, mas sei que um dia, os que vierem depois de mim, não precisarão vivenciar esta dupla personalidade.

– Você consegue viver em paz com isso..., meu filho? Confesso que não sei como te tratar. Ainda hoje você..., ou a Carmem..., me pediu para...

– A ideia é esta. Viver em paz. Não entro em conflito com a Carmem e vamos vivendo cada qual em um ambiente. No momento a Carmem saiu. Sou o que você vê. Me comporto de acordo com a imagem que apresento. Meu avô rejeitou a Carmem, ficou só comigo. Minha mãe tanto ama uma quanto o outro. Eu senti amor neste abraço que ganhei, quando a Carmem o visitar, tentará não quebrar isso.

– E você, me abraçou com o mesmo carinho que a Carmem?

– Com o mesmo amor, com o mesmo carinho só quando você se adaptar.

– Eu me adaptar...?

– A Carmem beija a boca da minha mãe da mesma forma que eu, quando você estiver pronto, poderemos repetir o abraço da Carmem ou quem sabe um beijo.

– E como seria um abraço entre nós duas?

– Pode ser assim como foi entre nós dois, eu e você. Depende mais de você que de mim, eu e a Carmem amamos vocês com a mesma intensidade, vocês é que nos veem de forma diferente.

– E se..., se...?

– Vocês podem fazer as perguntas que quiserem, não me constrangerão. A relação familiar que nos une, os laços de sangue e o fato de eu olhar para você e ver uma irmã, impedem qualquer possibilidade de circular pela minha cabeça, ou na da Carmem, um pensamento erótico. Você nunca vai conseguir uma ereção em nós.

– Mas elas existem?

– Sempre que alguém queira e que as leis do céu não impeçam.

– E se você ficar entre o querer de alguém e as leis?

– Não tem espaço entre uma coisa e outra. Você, sua mãe, minha mãe, seu pai; estão todos incluídos na lei. O querer de vocês não será ouvido pelo meu corpo.

– Mas não impede você de beijar sua mãe!

– Não, mas quem vê sexo em uma criança ao seio, não é normal. Ela pode, e vocês também, fazer o que quiser e sentir o que quiser, mas eu estarei imune, mesmo que sua excitação cresça além da luz dos seus olhos e embote sua razão.

– Posso ganhar um beijo como os que você dá em sua mãe?

– É tudo que você terá, carinho puro, isento de hormônios. Assim também ocorrerá com qualquer outra pessoa cujo corpo rejeitar o meu.

– E como você consegue?

– Lembre o que a Carmem lhe disse; pai, mãe e irmã, só valem se estiver no coração. Há dois meses eu os vi, e foram inscritos no meu coração, como minha irmã, meu pai e minha terceira mãe. É assim que os cultuo. Estou muito feliz por vocês me abraçarem, mas com abraço ou não, nada mudará o status de vocês aqui dentro de mim.

– E o que aquelas águas te falaram?

– Que eu tenho uma irmãzinha que vê e ouve tudo.

– Ah. Isso eu já sabia! Elas te contaram segredos que sua irmãzinha não pode saber?

– Não. É importante que minha irmãzinha saiba que ela está pronta para ser titia. Aquele banho, além de repor as energias que foram usadas para manter minha mãe viva, completou minha estrutura corporal e mental para ser pai. Um pai que amará como uma mãe, mas sem tomar o lugar dela.

– Seu banho foi bem diferente do da sua mãe.

– Foi? Talvez porque eu não precisasse daquela massagem toda.

– E porque massageou tanto os seios?

– Na verdade eu não vi nada. Entrei embaixo da água, fechei os olhos e quando os abri, vi vocês me olhando e saí. Dentro da minha cabeça, a certeza de que estou pronto para o sentimento que existe até mesmo antes do alfa e depois do ômega.

– Antes do começo e depois do fim?

– Exatamente. Do amor que existe antes do começo ao que perdura após o fim.

Por fim, as duas voltaram à cozinha.

– Com tanto amor circulando por aqui, talvez se eu ganhasse um abraço de vocês, o estado de ebulição em que me encontro, melhorasse e meu coração encontrasse um pouco de paz. – disse a Nair.

– Nossa! Mãe, que coisa mais down... quantos abraços a senhora quer?

– Um de cada e dois seu, Clarice.

– Vou entrar na fila muitas vezes.

– Vou precisar. Você fica bem nestes trajes, menina...

– Mamãe! É menino!

– Desculpe querido, prometo que vou me acostumar, é só você me dar uma chance.

– Não precisa se desculpar. Posso abraçá-la como abraço minha mãe?

– Você decide. Eu estou resolvida a te abraçar como meu marido abraça minha filha.

Abraçou-me com muito mais carinho que o meu pai. Depois apontou a mesa posta dizendo.

– Vamos a este café que a Karine ainda tem que fazer um relatório esta noite.

Tomamos o café sob a batuta da Clarice, ela fazia a diferença, enquanto todos revelavam, no semblante, uma dose de preocupação ela era só leveza, alegria e curiosidade, mas de repente se fez séria.

– Tia? Agora você vai responder aquela minha pergunta?

– Você faz perguntas e mais perguntas, minha filha, como ela vai saber a qual você se refere. – intermediou a Nair.

– Ora, mãe! Se eu preciso achar alguém que tenha o tal pingo no DNA.

– Eu entendo que seria mais prudente ela começar pelos assuntos que interessam a todos e depois individualizar, você não acha?

– Tudo bem, mãe. Que você acha, tia?

– Vou preservar sua curiosidade, ela pode ser minha salvação caso alguém aqui resolva me expulsar.

– Ninguém vai se atrever a fazer isso.

– Estou contando com você. Espero ter contratado uma boa advogada de defesa.

– Boa!? Eu sou a melhor! Pode confiar. E depois, em dia de tsunami todos têm que ser receptivos. Meu pai prefere conversar na sala, se você não tiver que consultar a pedra novamente...

– Ave! Esqueci-me da pedra, vou... – comecei a falar.

– Não precisa meu filho, eu a guardei, enquanto vocês se vestiam. Está segura no cofre.

– No cofre!? Mas...

– Visto que é um tesouro de família, tanto faz estar aqui como no seu quarto, mas não se preocupe, a senha é “o dia da salvação”. A Clarice te leva até ele. Os números você conhece, não?

Por um momento assustei-me com a possibilidade de ficar sem a pedra. Porém ocorreu-me a ideia de que minha mãe havia, enfim, desvendado o mistério que consumiu a vida dela.

– Deixe-a, meu filho. Não vamos precisar dela hoje e está bem guardada.

Acomodou-se no sofá e prosseguiu.

Quando o Carlos Alberto se identificou naquela pedra como sendo o elemento à esquerda da figura que me representa, e resumiu o que foi a vida dele, pudemos deduzir que os outros dois seriam, sua mãe genética, que está de costas e o marido dela, à minha direita. A missão dos quatro era gerar e criar o elo com o futuro. A massa bruta sobre a cabeça deles, representa o bem e o mal desta humanidade. Do amor ao ódio, passando por todas as variáveis, era feita a matéria prima que tínhamos que trabalhar. Aparentemente, aos quatro foi permitido trabalhar a matéria, porém, só dois participariam da geração de um único elo.

Maria e eu fizemos nossa jornada pelo mundo todo buscando algo que estava dentro de nós. Procuramos aquelas figuras da pedra, influenciadas por outras pessoas, não percebemos que éramos nós, procurando por nós mesmas. Até que um dia, ao fazer nossos rituais fomos assistidas por dois homens. As energias refletiam o vazio e as intenções deles. Ao terminarmos a sessão, fiquei tão esgotada como fiquei hoje. As forças da Maria me levaram até a água, sem que os dois percebessem que eu precisava ser carregada. Quando o campo magnético se desfez na água, nós sabíamos que a busca, daquela forma, estava encerrada. Era hora de deixar de olhar o mundo e olhar para dentro de nós. Éramos plenas de amor, mas aqueles dois despertaram em nós algo novo, a insatisfação. Foi aí que nos chocamos ao ver que a sensação de vazio que sentíamos, vinha dos nossos úteros. Encerramos nossas viagens pelo mundo e passamos a viajar para dentro do nosso útero. Precisávamos de alguém para amar.

Foi quando o Carlos Alberto e o amigo dele apareceram. No dia seguinte, minha amiga, antes que eu, percebeu, que eles eram quem nós procurávamos. Seu pai adotara uma postura de líder, mas tanto eu como ela, sabíamos que a chefia ali, como entre nós duas, não era exercida pela postura da matéria, mas pela força do espírito e a grandeza da alma. Eu conduzia nossas vidas no dia a dia, mas os nossos destinos eram conduzidos por ela. Seu pai tinha um carro, mas o amigo era quem dizia para onde ir. Com nós duas era a mesma coisa. Ela resolvia qual montanha a gente deveria subir e eu achava o caminho. Ela me seguia, para que eu a levasse onde ela queria ir.

Ela adotou uma estratégia de forçar o ponto fraco para que o forte fosse envolvido. Quando seu pai se enrolou na própria teia ela tirou o corpo fora e deixou que eu solucionasse o impasse. Ela tinha definido que nos próximos dias, íamos viver a quatro. Cabia a mim encontrar o caminho.

Ela manipulou todos nós, mas havia tantas teias, que eu não consegui ver qual era o caminho a seguir. Seu pai fazia o papel de bobo da corte e envolvia todos nós em amor e carinho. Dividia-se, igualmente, entre nós três, de tal modo que o amigo dele acabou por se confundir, e de líder, passou a seguidor, e como não havia nascido para subalterno, isolou-se. Preferia se isolar a não ser recebido como um rei. Eu estava ao lado dele, mas não era sua rainha. A rainha dava atenção ao seu pai, que não fazia questão de exclusividade, mas ele, cheio de orgulho, não queria migalhas doadas pelo amigo, queria a rainha a seus pés, por mérito próprio. Enquanto ele se definhava em ciúmes e orgulho, o amigo engravidou a rainha dele.

Isto foi o que pudemos concluir ao juntarmos a leitura que o pai de vocês fez, ao que já sabíamos. Mas as brumas ainda escondiam mais coisas. Resolvi usar os olhos da alma. Mas não conseguia remover a neblina, foi então que me lembrei do interesse da Nair em espanar aquele pó. Envolvi-a no meu campo energético e ela removeu as brumas.

A parte iluminada nos mostra quatro níveis existenciais, aqueles incompletos representam o ser humano. As figuras espalhadas ao longo do caminho, e que não se movem, estão em nível de influência, atuam em cada estágio. Só quem transmuta de estágio em estágio são as quatro figuras centrais. Iniciam em um grande desnível, e vão se igualando a cada estágio. Ao chegarem ao centro, se misturam e se intercalam, XX, XY, XX e XY. Os que caminham da esquerda ao centro são os XY, os XX vem da direita. Com a remoção das brumas, pude observar que o XX e o XY que iniciaram a jornada tendo que se reduzir para chegar ao nível do outro, é o que está de costas e o mais à esquerda. O de frente, ao centro, e o que fica mais encoberto e à direita, são os que tiveram que crescer durante os estágios. Absorviam as energias dos outros para atingirem um campo vibracional semelhante, servem de esponja e depósito de energias superiores. São serviçais. Mesmo se igualando ao máximo, para chegarem a este mundo, não deixaram de ser diferentes. Em seu estado de origem, não podiam se fecundar fora do nível. Ao se assemelharem, isso se tornou possível. Os semideuses poderiam fecundar ou ser fecundada pelos subalternos, mas não por humanos. Foi o que aconteceu quando ficaram expostos à influência deste mundo. Os subalternos continuaram amando, vieram para amar. Aos semideuses não se podia negar a liberdade das decisões, pois vieram para fazer e legar à humanidade, o rumo do futuro. Caso lhes fosse permitido a reprodução com humanos a evolução seria aleatória. Como segurança só se lhes foi permitido um filho aos quatro. Em outros pontos da Terra existem outros quatro.

Tentar matar ou deixar-se engravidar por um serviçal, parece-nos um erro mais apropriado aos humanos, que misturam o amor ao ódio. No entanto, nem eu e nem o pai de vocês, podemos citar qualquer outra falha na vida deles por aqui. Assim, acreditamos mais, que fizeram o que tinha que ser feito.

– Tia. Eu posso fazer uma pergunta?

– Todas que você quiser, minha querida.

– Eu não desmaiei com esta história, mesmo sabendo o tanto que ela me afeta. O que a fez desmaiar?

– O fim da busca. Andamos tanto e tudo estava dentro de nós! O seu irmão tem um atestado de óbito, de cada um deles, ele mandou verificar, mas eu já sabia, desde que ele os recebeu, que eram falsos. A minha esperança, de ver minha amiga voltar para abraçar o filho, que deixou aos meus cuidados, nunca morreu. Mas hoje...

Vi meu pai amarelar e afundar no sofá. Depois em um fio de voz murmurar.

– Estão mortos?

– Cumpriram a missão e voltaram ao seu mundo. Você entende o que isso significa?

– Abandonaram o barco... Os pajens continuam a obra...

– Sim! Mas veja o fruto da nossa missão! Não é hora para nos sentirmos deprimidos. Se bem me lembro, aquele dia em que me senti desligada da Maria, amanheceu com você sendo nomeado “o homem de mais valia”. Hoje podemos entender o significado da conversa dos nossos amigos durante aquele café matinal.

– Você acredita que eles sabiam o que estavam dizendo?

– Não, não creio, contudo, aquela pergunta que ela me fez, até hoje me soa como se fosse um agradecimento infindo.

– A mim, soou como se fosse uma cobrança.

– Não era uma cobrança. Ela já sabia a minha resposta. Colocou as palavras no ar para que nossos ouvidos registrassem que a vida merece ser preservada. Aqueles dois captavam o inconsciente coletivo de uma forma muito mais avançada que a nossa.

– Neste aspecto, sempre me senti um mouro diante dele, mas precisava terminar tudo como terminou?

– Terminou para eles, nós continuamos aqui e vamos velejar enquanto Deus permitir. Não se entregue.

Sentei-me ao lado dele e o trouxe para junto do meu coração.

– Calma, papai, vocês estão remando a sós durante muito tempo e estão se saindo muito bem! Não é, Clarice?

– Com certeza! Não troco meu pai por semideus nenhum!

– Não é só isso meus filhos. Olhem para a Karine e para mim. Agora olhem para a Nair. Digam o que seus olhos adolescentes veem? Qual de nós está mais envelhecido. Estão entendendo? A Nair tem cinco anos menos que nós. Hoje, no meu escritório, você interrompeu o que prometia ser uma desagradável cena de ciúmes. Nunca houve isso entre a Nair e eu, mas ela tem olhos para ver que está envelhecendo mais rapidamente que eu, daí vem apresentando sintomas de insegurança.

– Eu!? Insegura...?!

– É, minha querida, você. Contratar detetives, pressionar minha secretária e entrar daquela forma no meu escritório, deixa isso bem claro. Você tem me observado com olhos que nunca teve, permitiu que se instalassem dentro do seu peito os cães da desconfiança e nós não precisamos que eles ladrem em nossos ouvidos. Quanto ao Piauí e à Maria, chegamos juntos e caminhamos juntos, eles voltaram sem nos dizer adeus. Fomos abandonados e sem promessa de tempo para retornar. Viver é uma maravilha, mas vocês quatro viram quanto dói enterrar um pai ou um avô. Tente imaginar a dor de enterrar um filho e os filhos do filho e assim por diante sem saber quando termina. A dor inominada e ilimitada, de enterrar a descendência, perpetuada por gerações. Concederam-nos como prêmio, a longevidade, um prêmio que se torna castigo. Agora acrescente aí dois corações que vieram a este mundo, programados só para amar. Por vezes eu me impaciento, me irrito, mas não tenho como me livrar do coração que está sempre diante dos meus olhos. Vou ter que dispensar minha secretária e sei o quanto isto está doendo. Não pense que para a Karine será mais fácil, porque sei que não vai. Qualquer um diria ao seu avô, um palavrão qualquer, quando ele fez vocês saírem de casa, mas certamente você se lembra o que foi que sua mãe disse a ele.

– Eu me sinto culpado por...

– Não, não, não! Nada disso! – prosseguiu ele. – Você não tem que se sentir culpado por nada e muito menos começar a imaginar que é fruto de um erro. Você é a melhor coisa que poderia ter acontecido a este mundo. É o que nós precisamos, e é o que nós podemos ter. Não fosse eu, seu pai, e você estaria tão distante da realidade deste mundo que não seria um elo, mas o começo de algo novo. Viemos pela evolução e não por um recomeço. Em cada um dos povos, que sua mãe visitou, ela sentiu que as energias indicavam a formação de correntes para reproduzir o elo local, e nenhum deles será melhor ou pior que você. Todos serão e guardarão o padrão merecido por cada povo. Os deuses conduzem, mas a humanidade dita o ritmo.

– Não estou querendo questionar, mas...

– Pois deveria, estamos aqui para descobrirmos juntos, o que está acontecendo, não é hora para guardar dúvidas.

– Quatro para produzir um?!

– Entendo aonde você quer chegar. Na verdade, dois produzem um, quatro podem produzir quatro. Quatro níveis de atendimento, a cada povo o que merece. Você é o que nós merecemos ou precisamos.

– A senhora concorda com esta tese, mamãe?

– Concordo, foi o que eu vi. Se seu pai tivesse me fecundado, você não teria tantos talentos como tem. E se fosse o amigo dele, você teria uma cabeça semelhante à da Marcela. E se nós dois não contribuíssemos, você seria completo demais para este mundo. Você é o elo perfeito para evoluir este povo!

– Onde está a evolução nisto? – abri o blazer, mostrando os volumes sob a camisa folgada.

– Ora, meu filho! Você mesmo acabou de nos dizer! Ou você acha que o fim da violência sexual é um passo muito pequeno para a humanidade? Se tiver dúvidas pergunte à Nair. – sugeriu meu pai.

Não perguntei, mas a minha irmãzinha não se conteve e fez a pergunta de uma forma que eu não ousaria fazer.

– Se o meu pai não pode...?! Como foi que a senhora engravidou, mamãe?!

– De uma maneira que nenhuma mulher deseja.

– A senhora ainda guarda cicatrizes?

– Não, minha filha. O prazer de ser mãe supera todas as dores. Perdoe-me por nunca ter lhe falado sobre isso, mas seu pai nos cercou com tanto carinho e amor, que só hoje me recordei que no passado, vivi uma noite de terror. Nem mesmo na hora da dor do parto eu me lembrei do infeliz que violou minha vontade. Não me pergunte quem foi, ou quem é, pois se eu soubesse... – interrompeu-se, secando uma lágrima.

– Posso concluir que eu não herdei o tal pingo evolutivo?

– Não minha filha, você não o tem. Aqueles olhos que brilham, em eterna vigilância, esculpidos naquela pedra, não pertencem a mim e sim à Karine. Ela nunca os desviou daquela massa e também não vai afastá-los do filho. Hoje seu pai tem conhecimento de que precisa juntar o desvio à estrada principal. A Karine tem feito um trabalho que pertence aos dois. – continuou Nair.

– A senhora também vê isso como um passo em frente?

– Sem dúvida, e é um grande passo – afirmou ela – só não entendo porque tinham que te dotar de seios, meu filho, se não lhe deram um útero – completou se dirigindo a mim.

– Um passo de cada vez. Creio eu. Estes seios já pesam em demasia, imagina desfilar um útero cheio entre meus amigos...

– Meu filho! – fui interrompido por minha mãe – Você representa muito mais que um passo, estes seios que tanto te incomodaram, fez com que você voltasse os olhos para os problemas das mulheres, não só olhar, mas vivenciar. Mas o passo maior que você está trazendo é a parte que não se vê. As suas qualidades internas. O respeito que a natureza do seu corpo impõe. Quanto ao útero, os efeitos de uma autofecundação em um povo que ainda não entendeu o significado do “nós”, certamente, seriam desastrosos.

– Mas tia! Ele não precisava de seios para ver os problemas das...

– Também creio que não, mas tem coisas que só ele pode responder. Do meu ponto de vista, as luzes que vi naquela pedra indicam que ele traz a promessa de um papel mais participativo da mulher. Deixaremos de ser a parte puramente passiva do “crescei e multiplicai”, vamos dividir com igualdade com os homens o “amai-vos uns aos outros”, estamos trocando a quantidade pela qualidade. Menos multiplicação e mais soma. Este mundo já está superpovoado, precisamos agora é de mais amor o que nos traria uma vida de cores mais suaves.

– A senhora vê em seu filho o poder de realizar tudo isso, tia?

– Ele vai dar o passo inicial, o tempo fará o resto.

– E eu como irmã dele, vou ficar só assistindo ou posso quebrar o vínculo e participar mais ativamente?

– Gerar um filho dele, não é sua missão, você e a Marcela serão os pilares em que ele se apoiará para sobreviver ao isolamento, à discriminação e às perseguições que virão.

– E a Nathália, ela vai...?

– Ela já está cumprindo o papel que veio representar. Trazer-nos, um neto é importante, mas ela está fazendo mais que isso. Tem se dedicado a testemunhar a favor do meu filho.

– Testemunhar?!

– Sim. Vocês duas são os pilares de apoio e conforto e ela é o arauto que anuncia a obra. Um testemunho ao mundo de que a obra é boa.

– Continuo “bolada” com os seios dele.

– Nunca perdi sono com isso. O que me preocupa é a crença dele, de que terão utilidade. Não nasceram apenas para fazê-lo mais bonito que os outros homens. Rejeitava, mas não aceitou discutir a possibilidade de extirpá-los. Mas, e se forem iguais aos da Marcela?

– Depois de hoje você vai aprender a amá-los, não vai, maninho?

– A Carmem morreria se eu me livrasse deles. Não mamãe, eles não são iguais aos da Marcela. Hoje eles se completaram. Aquele banho me trouxe a resposta. Eles estão vivos, e com mais um par de seios à disposição, o sentido do “nós” ganhará uma nova conotação e seus netos não serão criados guaxos.

Fim.

Notas finais
Meus amigos, esta é a forma como vejo e sonho os caminhos da humanidade. Vejo que o homem desbravador perdeu espaço para o homem da ciência, assim como as muralhas se foram com a invenção da pólvora. Os músculos outrora necessários ao empunhar das espadas foram substituídos pelo intelecto. Estamos vivendo tempos de menos testosterona. Abraços a todos.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.