Um Tiquim de amor pela tia Lulu
1 Um Tiquim de amor pela tia Lulu
Notas iniciais
Ahhh, a vida. Muita gente acredita que um adolescente não tem problema, nem dificuldades… Que por brincarmos, e nos divertirmos, não há nada com o que nos preocupamos… Bem, pode não ser tão sério e importante quanto cuidar de uma família, mas também temos nossas aflições do dia a dia.
Tentem imaginar a minha situação; tenho 14 anos e sinto que estou apaixonado pela minha tia de 22 que não vejo a 4 anos. Ohh, que absurdo, você deve estar pensando, e eu sei que isso é bem constrangedor, então tenho que me controlar ao máximo par tentar esconder esse sentimento. Dramático de mais pro seu gosto? Bem, sinceramente pra mim também, mas fazer o que né? Dizem que o amor se escolhe sem olhar a quem… Dizem isso né?
Enfim, deixa eu me apresentar. Meu nome é Romero Afonso Dirreto Álvares Neto… Mas podem me chamar só de, não acredito que vou contar isso, Tiquim. Eu ganhei esse apelido porque sou o menor da minha turma desde a 2° série… Sério, chega a ser constrangedor sentar no banco e meu pé não tocar no chão.
Enfim, essa história não é sobre meu tamanho bem abaixo da média… Tudo começou quando minha Tia Lulu ainda estava aqui na cidade. Ela é bem mais nova que minha mãe, já que é esposa da 2° mulher do vovô, que se casou depois que a vovó morreu, e de certa forma isso aproximava muito eu e ela. Eu adorava aprontar com a Gertrudes, nossa governanta, só pra ela vir atrás de mim me castigar, porque no final ela acabava se entregando e rindo junto comigo porque as pegadinhas eram sempre engraçadíssimas, mas ainda sim ela fingia que me castigava para mamãe não descobrir. Uma vez eu coloquei um calango morto no lenço favorito que a Gertrudes usava na cabeça para ir na venda do seu Chico. Ela deu um grito tão alto que até as galinhas olharam assustadas para dentro da casa… Aquele dia nem a tia conseguiu impedir de eu ajoelhar no milho… Mas depois do castigo ela foi lá cuidar do meu joelho.
Nos domingos de catequese eu era o terror da madre Dirce. Eu fugia da aula, dava água benta para o cão da paróquia… Mas tudo mudou quando descobri que titia seria a nova professora infantil. Lembro como hoje de a ver entrando pela porta na sala da paróquia, junto com a madre. Estava tão graciosa naquele vestido bege rodado na altura dos joelhos… Lembro dos meus amigos me cutucarem perguntando se aquela era minha tia Lulu e eu me incomodar com a pergunta que gerou uma sequência de piadinhas comigo sendo interferido pela madre.
Claramente eu ainda aprontava, até porque, precisava estar fora de suspeita, mas ao mesmo tempo procurava me aproximar dela sem medo. Nós íamos para as quermesses, alimentavamos os bichos da fazenda, até saímos para pescar juntos uma vez. Nos sujamos todinhos caçando minhocas perto do lago, e conseguimos pescar um peixe de 3m de tamanho… Só que não conseguimos segurar ele no barco e acabamos deixando ele escapar… Não consigo entender o porquê ninguém acredita na gente… Mas enfim.
Como estávamos sujos, minha tia sugeriu que tomássemos um banho no lago. Fiquei meio receoso, mas ela me tranquilizou dizendo que tudo bem tia e sobrinho nadarem juntos… Mas que não contaria a ninguém se isso me deixasse mais confortável. E depois daquele dia foi assim, éramos cúmplices um do outro, nadavamos no rio, comíamos torta, roubávamos frutas dos pés, e no final do dia, depois de um banho de verdade, ficávamos sentado vendo o sol se pôr… e esse era o único momento que não me importava em ser pequeno, porque ela deixava ficar no seu colo, e aquele era o melhor momento do dia… E isso se repetiu até o dia que ela foi para capital, estudar jornalismo, e desde então, eu nunca mais a vi
— Sr Romero, tem algo mais interessante na janela do que minha aula de português? — quem me questionou foi a professora Elvira, que não parecia estar nem um pouco feliz com minha distração
— Ihh “fessora”, esse aí já foi pro mundo luizinha — Zequinha, meu melhor amigo quem puxa a zombaria fazendo todos rirem
— Mentira — respondi de pronto, piorando minha situação, já que aumentou os risos.
— Chega de algazarra na minha sala — a professora repreendeu — Romero, se foque na aula, porque se você tirar mais uma nota baixa, serei obrigada a chamar seu pai para uma conversa.
Balancei a cabeça em concordância, professora Elvira é igual onça brava, melhor não atiçar. A sorte é que faltava pouco para o sinal bater, como era o último dia de aula, minha mãe deixou eu ir pra pracinha jogar bola de gude com os meus colegas.
Pior do que ouvir eles me chamando de “menininho da titia’ só porque eu estava empolgado com o retorno da tia Lulu, era ouvir os planos de viagem que cada um ficava se gabando.
Nasci em Ouro Preto e nunca viajei para outra cidade, estado e menos ainda país, ao contrário dos meus colegas, alguns já até andaram de navio. Toda volta de férias eles tem coisas incríveis pra contar e eu? Só que teve rodeio na cidade ou Jubileu, mas eu não concordo com rodeios. Vocês sabiam que eles espetam o traseiro do touro para que ele possa pular daquela forma? E como alguém pode achar isso divertido? Os mesmos que se divertem com o animal sendo maltratado depois vão nos jubileus darem júbilos ao senhor.
Então voltando ao assunto, aqui nunca tem nada pra se fazer, bom… Digo por mim que não danço forró e não vejo graça nas barraquinhas que fazem na praça, nos finais de semana.. Contudo “ela” iria chegar. Obviamente na volta as aulas eu não vou sair falando para os idiotas dos meus amigos o que fizemos juntos, vou ouvir as férias maravilhosas de cada um, mas saberei que as minhas também foram as melhores.
E por minha empolgação, perdi umas duas latas de bolas de gude! Como não podemos levar para escola guardamos no armazém do Sr. Polino, é também onde deixamos nossas bicicletas. Após aguentar as expectativas e as troças dos meus amigos, segui com minha bicicleta pela estrada de terra até chegar ao sítio onde moro com minha família.
Cheguei em casa por volta das 6:40, tomei um banho e fui jantar. Durante o jantar meus pais não falavam em outra coisa que não fosse a chegada da minha tia, eu já tinha pensado sobre aquilo o dia inteiro, estava tão ansioso que mal conseguia comer.
Fui deitar, mas o sono não vinha. Rolava, rolava e rolava na cama, mas nada. A chegada da minha tia seria pela manhã e eu precisava estar descansado o bastante para conseguir me divertir com ela. Decidi então descer e ficar na varanda do sítio por um tempo, sentei na velha cadeira de balançar, mas logo minha mãe percebeu que deixei a casa, e veio e sentou-se ao meu lado.
— Oi meu filho, não consegue dormir? — eu e mamãe éramos muito amigos, contava quase tudo a ela, e só pela minha expressão, ela já entendeu — Está ansioso pela volta da Luiza né? — ofereceu um sorriso amigável e eu concordei com um menear de cabeça — Eu também estou meu menino. Sua tia é muito querida e faz muita falta aqui, mas por favor, não vá se decepcionar se as coisas não forem como antes, ok?
— Mainha, como assim não ser como antes? — a ideia de as coisas entrem nos mudarem, me fazia ter arrepios ruins. Minha mãe olhou pra mim como quem pensa se deve ou não contar algo.
— Querido, sua tia saiu daqui ainda com 18 anos, e dizem que a capital muda as pessoas, só não quero te ver magoado com isso ta bom? — depositou um beijo na minha testa — E não demore a entrar, logo o dia começa a raiar e vamos buscá-la na estação de trem cedinho viu?
— Sim sim, já vou entrar — digo vendo-a adentrar a casa e fico com a pulga atrás da orelha, bem, talvez seja só coisa da minha cabeça mesmo (desculpem o trocadilho).
Entrei e fiquei no meu quarto, espero o sono ou o sol dar as cara, o que vinhesse primeiro, e ganhou a estrela mãe. Levantei-me e pratiquei minha higiene matinal. Coloquei uma roupa mais arrumada, afinal, iríamos até o centro, na estação e eu queria estar apresentável para titia. Vesti minha melhor roupa, um terno marrom madeira, com uma camisa branca, de tecido macio, um colete da mesma cor que o terno e a gravata vermelha vinho, sem chamar muito atenção, enquanto nos pés o clássico, mas muito bem engraxado, sapato preto. Secretamente, fui até as coisas do meu pai e passei um pouco dos seus produtos, para arrumar o cabelo e também ficar mais cheiroso, mas era só porque estava indo para um local público, eu juro por santa mainha de Deus.
— Bom dia meu menino — cumprimentou minha mãe — Hummm, pra onde vai todo arrumado e cheiroso assim? — me questionou com um olhar que não soube interpretar.
— Ué, não vamos buscar a tia Lulu? Então, me arrumei apropriadamente para ir a estação. — Expliquei como se fosse obviedade e minha mãe apenas sorriu indicando o lugar para me sentar e comer o dejejum antes de ir. Me assentei com meu pai que elogiou meu cabelo alinhado e falou que eu parecia um homem.
Pouco tempo depois, já estávamos todos, no carro da família, indo em direção a estação. Meu coração palpitava e sentia minhas mãos suando frio, e por mais que limpasse na roupa, parecia não surtir efeito, mas por fora estava normal, olhando atentamente o caminho, enquanto meus pais conversavam na frente. Será que ela está ainda mais linda? Será que ainda lembra de mim? Me distraí tanto em devaneio que não me atentei quando chegou e fui acordado pela minha mãe avisando que chegamos e que eu deveria descer para ajudar com a malas, e assim o fiz.
Pouco tempo se passou desde a nossa chegada e logo um trem estacionou e muitas pessoas desceram dele, e logo a reconheci em meio a multidão. Meu coração acelerou tão rápido que parecia que dava pra ver a gravata se mexendo. Ela estava radiante com o vestido azul bebê rodado, e o sapatinho branco. As madeixas negras, estavam soltas em ondulações até um pouco abaixo dos ombros, encantadora, foi a única palavra que me veio a mente para descrevê-la. Nossos olhares se encontraram e quando ela sorriu, senti minha respiração falhar. Sem se importar com nada ela solta as malas no chão e corre em direção a minha família, se abaixando e me abraçando muito forte, me deixando constrangido e sem reação no mento.
— Tiquim!! Que saudade de você meu sobrinho favorito, nossa como está um hominho nesse terno! Kyahhhh.
— Tia Lulu, está me sufocando! — ri com sua reação espontânea quando voltei a mim — Também estava com saudade e.. espera, eu sou seu único sobrinho — pontuei quando ela me soltou. Ela sorriu e deu um apertãozinho de leve no meu nariz sussurrando algo como “garoto esperto”.
Depois dessa cena comigo ela também abraçou minha mãe e cumprimentou meu pai, dizendo que era muito grata por poder voltar a morar com eles depois desse tempo todo longe. Mamãe logo tratou de falar que ela era muito bem vinda, sendo apoiada por papai, que me chamou para ir ajudá-lo com as malas.
Logo, estávamos no caminho de casa e titia queria saber de tudo, tanto de mim quanto da casa. Minha mãe contava tudo, até das minhas travessuras com a nossa governanta. titia bagunçou meus fios loiros rindo e dizendo “Eita garoto arteiro que não muda nunca”
Chegando em casa, Dona Gertrudes tratou de nos receber e minha tia deu-lhe um abraço dizendo o quanto sentia saudade. Mais uma vez ajudei meu pai com as malas, deixando-as no quarto dela. Quando desci, Lulu foi logo me pedindo para acompanhá-la até o centrinho comercial, porque queria rever algumas pessoas e se situar na cidade novamente. Aceitei de prontidão, pedindo apenas alguns segundos para me livrar daquele terno quente. Fui ao quarto e tirei o terno, a gravata e o colete, também folguei o primeiro botão da camisa para ficar mais a vontade, pois pensei que iríamos de bicicleta, como costumávamos fazer. Quando desci, titia já estava a minha espera.
— Vamos meu sobrinho? Me ofereceu o braço de brincadeira, essa era mais uma de nossas tradições; entrelacei nossos braços e fomos em direção ao quintal do sítio, despedindo-se de mamãe, mas percebi algo.
— Tia, como vamos se você não tem mais bicicleta? — ela levou a mão a boca como quem se surpreende com a revelação
— Como assim? O que houve com a minha? — perguntou pasma, e então me lembrei que ela não sabia que houve um pequeno incidente, e acabamos, vulgo eu, quebrando o quadro da bicicleta.
— Er então, tia… eu posso explicar — sorri amarelo e ela logo entendeu que eu tinha culpa no cartório. Semicerrou os olhos em minha direção e eu conhecia bem aquele olhar de “Você tá frito”.
— Não acredito que você quebrou minha baby, Romero Afonso Dirreto Álvares Neto! — engoli em seco com a pronúncia do meu nome — Bem… nesse caso, vamos ter que ir de carro né — pisca pra mim mostrando as chaves e eu arregalo os olhos surpreso enquanto ela dá um sorriso sacana de quem tinha acabado de me trolar
— Espera, como, ham? — nada inteligível saiu da minha boca e causa uma risada escandalosa nela.
— Agora sua titia dirige baby, vem vamos logo que seu pai emprestou o carro para irmos — falou me puxando pelo braço.
No caminho, ela me contava da vida na capital e de como foi a faculdade de jornalismo, sobre a coluna acerca da função da mulher e de como era importante no jornal. Avisou que veio para passar férias a princípio, mas se conseguisse um emprego no pequeno jornal da cidade, iria ficar, porque sentia muita falta de todos. Sorri sem perceber e disse que também sentia muita falta dela, que fez um cafuné no meu cabelo
Quando encontramos um lugar para estacionar, descemos e andamos pelas pequenas feiras. Titia é muito querida, e todos a paravam para perguntar como estava e como tinha sido na capital. Até já imagino a notícia caindo na boca do povo
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— “Você soube que a Lulu voltou pra cidade?”
— “Que Lulu?”
— “ A filha do seu Romero, neto do seu Teodorico”
— “Que morava no antigo sítio do seu Fifi?”
— “Isso essa mesmo”
— “Mulher é mesmo?”
— “É ela fez faculdade na capital e voltou a férias… deve estar atrás de um pretendente”
— “Ahh não sei, essas mulheres da capital são tão diferente”
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Ri de mim mesmo imaginando o diálogo de duas senhoras idosas na frente de casa, e não sei porque torci o nariz imaginando que elas iriam ficar pensando sobre um pretendente para ela… ora, bando de fuxiqueiras.
Depois de passearmos muito e até participarmos da missa da tarde, onde ela reviu a madre Dirce e o padre Adolf, que elogiaram o quanto ela cresceu.
Quando o sol estava se pondo, voltamos até o carro, rindo e brincando, normalmente, e o caminho de volta foi assim a viagem inteira. Me senti vivo novamente, a presença dela me agradava, me atraia, e só Deus sabe o quanto senti falta dela no dia a dia.
Chegamos brincando e feliz, mas percebemos que tínhamos visita em casa. Tia Lulu ficou tensa, talvez imaginando o que aquela visita estava fazendo ali. Eu, confesso que estava boiando, sem entender muita coisa, e assim que estacionamos, ela segurou minha mão e me fez olhar pra ela.
— Tiquim, você sabe que é uma das pessoas mais importantes pra mim, não sabe? E que sempre vai existir um pedacinho do meu coração guardado só para você né? — Me assustei com a forma que ela falou, tão firme e olhando fixamente nos meus olhos, porque ela estava dizendo aquelas coisas? Meu Deus o que estava acontecendo?
— Tia Lulu, eu não entendo, eu… — tentava formular alguma frase mas ela me interrompeu
— Tiquim, apenas me diga que você sabe o quanto é especial pra mim, por favor — me pediu e eu apenas concordei sem entender nada. Então ela me abraçou bem forte, e mais uma vez pude sentir de perto o seu adocicado perfume, que vinha dos seus cabelos.
Titia colou minha cabeça junto ao seu peito, enquanto apoiava o queixo na minha cabeça. Dessa forma eu conseguia ouvir as batidas do seu coração, eram fortes, rápidas, mas o que isso significava? Apenas apertei sua cintura, retribuindo o abraço, fechei os olhos e me deixei levar, sentindo-me o garoto mais sortudo do mundo por estar ali, naquele momento. Ficamos assim, por alguns instantes até que ela respira fundo e fala, “vamos entrar?”. Confesso que não queria sair, mas, precisávamos entrar, ou logo alguém estranharia e viria atrás de nós.
Quando adentramos, meu avô, um senhor que não conhecia, e um outro homem, que aparentava ter a idade próxima a da tia Lulu estavam na sala.
— Minha filha, seja bem vinda. Desculpe seu velho pai não lhe buscar na estação; estava a resolver alguns negócios, mas foi bem de viagem? — Perguntou vovô
— Com sua benção, meu pai — fez uma reverência — Sim, minha viagem foi tranquila, estava no centro, a rever algumas amigas, e participar da missa das 03 da tarde — explicou minha tia.
— Que Deus lhe abençoe minha menina de ouro. Fico feliz em saber disso. Lembra-se do senhor Luiz da Costa?
— Sim, lembro-me bem, dono da maior fazenda leiteira de nossa cidade, certo? — Sorriu graciosa — É um prazer revê-lo.
— O prazer é todo meu, minha querida. Estávamos agora mesmo falando de você — revelou sem rodeios
— De mim? E o que devo a honra de ter o nome citado na conversa dos cavaleiros? — questionou graciosa, ainda a porta da sala
— Minha filha, queremos te apresentar o filho do senhor Luiz, o Afonso — Então o homem levantou e beijou a mão de titia, dizendo um “encantado” sorrindo para ela. Senti meu sangue ferver na hora, quem era esse almofadinha com tanta ousadia? Aposto que em uma disputa de pião ou bola de gude ele não dava nem pro cheiro… mauricinho
— Tiquim, meu neto, porque não sobre pra tomar um banho e fazer o dever de casa? — meu avô se direcionou a mim, me notando.
— Bença meu avô. Eu já estou de férias, não tenho dever pra fazer.
— Deus lhe abençoe! Ainda assim, agora a conversa será de adultos, crianças não devem ficar e ouvir — Deu um ultimato e antes que pudesse falar qualquer coisa senti titia segurando meu ombro e mesmo sem olhar sabia que ela estava pedindo que eu saísse. Me retirei e subi para o andar de cima bufando por dentro, mas calmo por fora, para evitar maiores problemas.
Tomei meu banho, e fiquei no quarto, olhando as estrelas, enquanto eles conversavam lá em baixo. Minha mãe veio me chamar pro jantar, mas me deitei correndo e fingi que estava dormindo. Senti quando ela depositou um beijo sobre minha testa e deixou-me.
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No outro dia, a bomba; aquele conquistador barato, era o prometido de titia, que o Avô arrumou para ela. Ambos estudaram na capital, e ele era doutor advogado, além de filho do maior produtor de leite (essa parte eu já sabia). O casamento aconteceria em 2 meses. Soube, ouvindo algumas conversas que não deveria, que o minha Lulu foi primeiramente contra, mas, o Vô tinha tomado a decisão e assim estava. Já tinha conseguido um emprego de editora no jornal local, e nada a prendia na capital, e essa união, faria muito bem a família
Admito, fiquei arrasado com a notícia, mas a tia parece ter recebido bem, durante o dia, ela me evitou, mas via-se claramente que ela não estava mal, ou coisa assim, até perguntou pra minha mãe se tudo bem chamar umas amigas para dormirem lá, pois queria contar a novidade e começar a organizar as coisas para o casório, que seria em breve. Meu queixo estava caído… mas e ontem? E daqui pra frente? Será que ela iria simplesmente esquecer? Parecia tão real….
Não aguentando mais ouvir a casa comentando sobre o casamento, sai de fininho e fui até o lago, precisava relaxar um pouco e nada melhor que nadar pra esfriar a cabeça. Eu achei que teria ótimas férias, que iria me divertir muito com ela, matar a saudade, mas… acho que só eu tive esses planos. Mergulhei o mais fundo que pude e voltei. Fiquei ali, boiando, lembrando da nossa última conversa… parecíamos tão… sintonizados… Ufff, fechando os olhos, conseguia recuperar as memórias do seu perfume, as batidas do seu coração. Como fui tão bobo, achei mesmo que minha tia teria reciprocidade comigo?
Quando senti meus dedos enrugarem, sai da água e fiquei a beira do rio, embaixo de um pé de goiaba. A depre estava tão profunda que não tinha vontade de pegar aquela fruta e comer… tudo me lembrava ela, e toda a dor que estava a sentir no momento. Não sei dizer o tempo que fiquei ali parado, apenas acordei do transe ao ver o sol se por e a lua começar a aparecer na noite. Me levantei e voltei para casa, jantei de forma automática e sentia dois olhos castanhos me caçando na mesa, como se quisessem me dizer algo, mas a mágoa estava ali, e mesmo tendo 14 anos eu tenho o meu orgulho, então ignorei e fiquei ali, alheio a conversa, respondendo de forma automática, até que me toquei que respondi sim para algo que não deveria.
— Ahh filho, que bom que aceitou, você vai ficar tão lindo de noivinho — minha mãe já sonhava. Pera, noivinho?
— O que? — perguntei claramente confuso
— Do casamento da Luizinha filho, você acabou de concordar em entrar com a irmã mais nova do Afonso, soube que ela é tão linda filho, vocês vão fazer um lindo par na festa… — minha mãe falava e gesticulava sem parar enquanto eu me estapeava por dentro. Olhei de relance e percebi que tia lulu não parecia muito contente com a ideia de eu entrar junto com outra menina… Ahhh deve ser mais uma coisa da minha cabeça
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Os dias foram se passando e se passando. Eu e tia Lulu estávamos distantes, praticamente não se víamos por causa dos preparativos do casamento e do novo trabalho no jornal. Minhas férias também acabaram e eu tive que fazer uma redação sobre a “maravilhosa preparação do casamento.” Sim, eu escrevi isso, afinal, era a única coisa que minha família falava, vivia ou pensava, chegava a dar raiva, mas.. paciência.
Faltando dois dias para o casamento, entro em casa e vejo minha tia de noiva, na última prova. Ela estava linda, aquela peça branca, indo até os pés, cobrindo os ombros e todo adornado na frente. Atrás, as rendas deixavam ver um mínimo de sua pele, com uma simples abertura mostrando as costas. Uma tiara e um véu terminava o visual. Eu paralisei, meu corpo inteiro formigava e por um segundo não me importei em olha-la de cima a baixo.
— Filho, sua tia não está maravilhosa nesse vestido? — perguntou minha mãe empolgada
— Si… sim mãe, ela está incrível, vai parar a cidade com esse vestido — brinco para disfarçar o nervosismo.
— Ta vendo Luiza, não tem porque você não gostar, você está incrível!
— Ai, não, sei… você tem certeza Tiquim? — Questionou-me claramente nervosa pela responsabilidade de escolha… eu ainda estava magoado, mas tinha que ser sincero, ela estava uma noiva linda
— Eu nunca vi uma noiva tão bem em um vestido como você! — falei sem pensar e sem quebrar nosso contato visual. Ela sorriu ue falou um “obrigada” sem som — Bem, vou deixar as senhoras e senhoritas continuar e vou subir para o meu quarto, tenho dever da professora Elvira. — Subo rapidamente, sem dar tempo para novos questionamentos.
No quarto não conseguia me concentrar na lição, o que foi aquele olhar? Bendito meu padrinho, porque mexeu tanto comigo? Me questionava enquanto jogava as costas contra a cama suspirando profundamente.
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O casamento se aproximava, seria amanhã e eu não estava com um pingo de ânimo. Na escola, meus amigos me perguntavam toda hora se estava ansioso para entrar com a
— Tiquim, você está bem? — perguntou, sem olhar para mim, apenas olhando também para as estrelas — Sabe, sinto que você tem me evitado ultimamente, estou sentindo muito sua falta. — desabafou
— Eu tô bem — respondi — Sentindo minha falta? Você está sempre rodeado de amigas para organizar o casamento do ano — rebati, ainda sem a encarar, até que surpreendentemente ela me abraça, do mesmo jeito que o dia no carro. Minha respiração parou na hora e todos os meus músculos ficam rijos
— Meu Tiquim… eu… eu… — suspirou como quem tenta segurar algo — Eu não posso pedir que entenda, nem nada na verdade, só por favor, lembre do que te falei no dia do centro, no carro… Aquilo nunca irá mudar, jamais. — me aperta mais forte e sinto lagrimas quentes tocarem minha pele… ela estava chorando? Mas porque? Decido jogar de lado minha mágoa e a abraço de volta, ouvindo seus batimentos, chocando minha respiração contra sua pele, e por um segundo tive a sensação de que vi os pelos dos seus braços arrepiarem.
Ficamos assim por longos minutos, sem dizer nada, apenas ali, curtindo um ao outro, como uma despedida, já que agora ela estaria longe dali. Quando ela se acalmou, limpou as lágrimas e me deu um beijo demorado no rosto me puxando de volta para um abraço
— Vou sentir muita sua falta, meu sobrinho
— Eu também tia, por favor, não demore pra nos visitar
— Não demorarei, prometo. — me colocou com a cabeça no seu colo e começou a fazer cafuné em minha. Fechei os olhos sentindo aquela caricia, me deleitando com ela, até que tudo ficou de fato escuro
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Acordei no outro dia, com a luz do sol entrando e percebo que estou deitado, será que tudo não passou de um sonho? Mas era tudo tão real? Minha mãe, logo me chamou porque o dia será longo, troca de roupas, preparação e muitas outras coisas, então deixo essa dúvida de lado e comecei a me preparar para o dia
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Bem, chegou o momento e a igreja estava com toda a cidade lá para prestigiar a tia Lulu. Pela primeira vez tive uma conversa de mais de 20 minutos com Terezinha que parecia ser uma menina super legal, entramos juntos, mas não me sentia nervoso mesmo com todas aquelas pessoas me olhando e meus amigos me dando sinal de polegar dizendo que eu mandei bem… até parecia que eu que estava casando.
Quando ela entrou, todos a olhavam de cima a baixo, conseguia ver seu sorriso nervoso enquanto todos cochichavam o quanto ela estava encantadora com o vestido. Nossos olhares se encontraram e pude sentir ela sorrir pra mim e apenas devolvi e dei um manear de cabeça para ela continuar.
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A cerimônia e foi normal, como em qualquer casamento. Admito que quando teve “se alguém tem alguma coisa contra esse casamento” me deu muita vontade de dizer eu, mas me contive. A hora do “o noivo pode beijar a noiva” eu preferi desviar o olhar… também não precisava me auto torturar assim né?
Depois, fomos a festa, na fazendo dos Costas e uau, era enorme. Apresentei Terezinha para minha turma, já que éramos de salas diferentes e logo estávamos todos entrosados, conversando em uma mesa só nossa. Ser noivinho tinha suas vantagens afinal. Sempre que tinha a chance via minha tia de longe, sorrindo e agradecendo a todos, e eu decidi que era melhor fazer o mesmo, então brincamos muito entre nós, até mesmo minha par que todos achavam ser uma boneca de porcelana, se mostrou tão arteira como nós, pregando peças na governanta da sua casa, me identifiquei.
A festa estava chegando ao fim, e Terezinha iria para a casa da avó passar o fim de semana para se livrar dos castigos de aprontar na festa. Antes de ir embora, ficamos conversando um tempo até que ela vem de surpresa e beija meu rosto, saindo correndo em seguida. O beijo dela era quente, e deixou a área formigando, ainda surpreso, levei a mão até o local, continuando meio bobo, mas senti que estava sendo observado, então virei e vi que minha tia estava olhando de longe. Ela sorriu e fez uma cara que não soube entender. Trocamos o olhar por alguns segundos e decidi ir até ela.
— Bem, então agora você é a sra Costa. — caçoei e ela revirou os olhos
— Ave maria, nunca mais me chame assim sua peste — bagunçou meus cabelos — Mas pelo jeito, alguém vai entrar pra família — devolveu e me deixou com as bochechas vermelhas, sem saber o que responder — Eu já vou indo, vamos sair agora para lua de mel.
— Você está bem? — perguntei realmente preocupado, ela então segura minha mão e me ofereceu um sorriso amistoso.
— Vamos, querida? — É o meu novo “titio” quem chega a chamando — Você é o Romero né? — se dirigiu a mim — ouvi dizer que você e sua tia são muito chegados, saiba que você é sempre muito bem vindo aqui rapaz, sempre que quiser rever sua tia — me cumprimentou com um aperto de mão e um sorriso amistoso. — Só que não mexe com minha irmãzinha em? — finge um ataque a mim para descontrair e acabamos todos rindo, é, ele não deve ser tão ruim assim.
— Já sabem aonde vão para lua de Mel — questionei por curiosidade
— Veneza — ele respondeu — Mas vamos voltar logo pra sua tia continuar o trabalho no jornal. Bem, precisamos ir, vamos — ofereceu o braço pra minha tia que antes de aceitar me deu um abraço falando “vou sentir saudades” no meu ouvido. Logo em seguida eles foram em direção ao carro que já está os esperando.
Ela entrou no carro, e de longe eu o vi partir… Mas meu coração estava em paz, porque sabia que sempre teria um tiquim de amor da tia Lulu.
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