Um Terrível Erro: A Vida de Evangeline
6 O silêncio e as últimas palavras
Notas iniciais
É incrível os dias em que somos obrigados a lidar com coisas que estão acima de nossas forças. Nesse período eu tive uma porção de dias como esses. Não sabia como conseguia me levantar no dia seguinte. Demorou um tempo até aceitar que Jonathan não ia voltar. Que ele tinha ido embora sem se despedir. Na verdade fui forçada a aceitar a realidade da mesma forma que estava sendo forçada a me casar novamente.
–Já estou cansada de vocês ficarem jogando com a minha vida como se eu fosse apenas maus um peão em um jogo de tabuleiro. – Disse para minha mãe.
– O Benjamim é herdeiro direto de Andrew. Você sabe que deve...
– Não... Na vida há muito mais que casamento sabia? Eu quero conhecer novas pessoas, novos lugares. O Jonathan sempre me falava que... – Tive que parar. Ao citar o nome dele, parece que fui inundada por uma avalanche de lembranças... lembranças que pareciam ser um passado tão distante, ele me prometendo que iríamos viajar para a Europa durante as férias... Íamos conhecer castelos, igrejas... E agora nem aqui ele estava.
– Eu posso estudo, posso trabalhar. Isso não vai ser problema nenhum para mim. De qualquer forma, prefiro trabalhar do que ficar morando junto de alguém completamente louco.
– Você conhece St. Andrew... Realmente você acredita nisso que está dizendo? Sabe que será impossível um futuro aqui.
Conhecendo St. Andrew, essa cidadezinha patriarcal e rígida, fundada por um grupo de puritanos... Sabia que o que estava dizendo não podia se realizar... Na verdade eu não tinha coragem, força de vontade suficiente.
O casamento foi no dia seguinte, na casa dos pais de Jonathan. Parecíamos dois fantasmas, desconectados desse mundo. Não conseguia pensar em nada, a dor era tão forte. Não sei explicar. É como se a cada instante eu fosse forçada a me lembrar da vida que tinha perdido.
Tarde demais fui perceber que ele não era completamente louco. Não quero dizer tudo que passei. Você deve imaginar o que é morar junto de alguém extremamente violento. Todas as agressões, estupros, xingamentos... Não acreditava que minha vida tinha chegado nesse ponto. E pior que tudo que ele estava fazendo era comigo era o silencio da minha família sobre isso. Pedi ajuda várias vezes, mas eles simplesmente não se importavam.Pensava sobre como a minha vida não faria falta para ninguém. A única pessoa que eu acreditava que em amava e se importava comigo era Jonathan e ele provou o contrário, não se importava em como ficaria a minha vida e a vida de Ruth – nossa bebe – longe dele.
Por mais que isso tenha passado várias vezes pela minha cabeça, eu sempre tratava de tirar isso da minha mente o mais rápido possível. Sempre ouvi falar que é um pecado imperdoável, mas agora as coisas mudaram. Ficava apreciando cada vez mais a cena dentro de minha mente: meu corpo sem vida, preso por uma corda, todo roxo e inchado. A minha parte preferida é quando eles ficam chorando e se lamentando pela omissão deles .
Também gosto de pensar em como seria não sentir dor, não ter memórias que me fizessem sofrer todo dia. E para isso só tinha um caminho.
Voltei a minha antiga casa, aquela em que eu morava com Jonathan. Me lembrei do meu primeiro dia dentro daquela casa, em como estava assustada com tudo. Quase igual a hoje. Quase.
Entrei pela porta da frente. Tratei de preparar tudo o mais rápido possível antes que pudesse mudar de idéia. Comecei arras uma mesinha para debaixo do lustre. Consegui subir e fiz um nó na corda do jeito que Jonathan tinha me ensinado uma vez quando tínhamos ido caçar juntos. Coloquei a corda e fui apertando até sentir o laço ficar bem firme ao redor do meu pescoço. Dei uma última olhada para a minha carta que estava sobre o sofá. Ela dizia mais ou menos essas palavras: “Não quero o choro de vocês. Sei que agora deveria deixar nessas últimas palavras algum consolo, algo como “não se culpem pelo que aconteceu”. Mas não. Cansei de durante toda minha vida falar o que vocês queriam ouvir e fazer coisas que eu era obrigada. Espero que possam dizer a Ruth o quanto eu a amo e o quanto ela é importante para mim. E você Jonathan, se algum dia ler essa carta, saiba que te odeio e espero que você queime no inferno”
Passei novamente a mão pelo meu pescoço, pela corda. Respirei fundo... Espero que Deus me perdoe por isso. Pulei.
Sufocamento, tentava sugar o ar, mas não conseguia. Balançava meus braços tentando fazer a maldita corda se soltar. Estava desesperada. Não consegui soltar a corda. Não agüento mais! Tentava respirar e não conseguia. Finalmente começou aos poucos a ficar tudo escuro. E chegou o fim. O meu tão aguardado alívio.
Fale com o autor