Finalmente estávamos todos reunidos novamente: os “monstros de Adair”. Tecnicamente eu não sou um deles, já que foi Lanore que me transformou pela primeira vez, mas mesmo assim eu vivo com eles. Estávamos no meio de um jogo de cartas quando o assunto surgiu pela primeira vez. Naqueles dias eu estava bem pensativo... Me lembrava de coisas que aconteceram há muito tempo atrás, na minha primeira vida. Estava grato por ninguém perguntar o motivo de eu estar tão quieto, acho que todos nós ficamos assim às vezes.

Teve uma hora que não consegui me conter.

–Hmm vocês em algum momento já pararam para pensar nas pessoas que ficaram para trás, quer dizer, pessoas que vocês conheceram quando...

Fui parando de falar quando percebi o quanto era idiota isso que eu dizia. É claro que eles já tinham parado para pensar no passado várias vezes.

– É melhor esquecer. Ficar se lembrando e se torturando só vai tornar as coisas piores. – Dizia Alessandro.

Concordei com a cabeça.

– Mas porque você está dizendo isso? Pensando em alguém em especial? – Perguntou Adair.

Percebi que todos os olhos estavam fixos em mim.

– Sim... Eu tinha uma pessoa em St. Andrew e... De vez em quando eu me lembro dela... Me sinto bastante culpado pelo que aconteceu, isso é um pouco estranho, sabe, mas não pode fazer nada para mudar o passado, então...

– É você não pode. – Disse Lanore enquanto me abraçava por trás. – Sei que nós temos uma chance de começar de novo.

Nem respondi. O que eu teria de fazer para ela perceber que eu não quero mais nada com ela?

– Mas quem é essa pessoa? Quem pode ser tão especial assim, hein? – Perguntou Jude.

Sinceramente, eu não queria responder, preferia guardar toda aquela história só para mim, mas percebi que todos estavam curiosos e não iam parar de me perturbar com perguntas enquanto não respondesse.

– Ultimamente eu tenho pensado bastante na minha esposa. Antiga esposa na verdade... Ela morreu bem nova... Tenho certeza de que ela deve ter pensado que eu a abandonei e tudo... Queria poder fazer tudo diferente.

Um silencio caiu sobre todos. Lanore foi a primeira a se manifestar. Primeiro me soltou do abraço e depois disse:

– Isso já passou ok?! Você se lembra de quando a gente foi em St. Andrew e visitamos o túmulo dela?! Então, ela se casou novamente, não ficou sozinha chorando por você, ela seguiu com a vida dela.

– Ela foi morar com meu irmão que era completamente louco, nem posso imaginar o quanto ela deve ter sofrido...

Novamente silêncio. E assim continuamos com o jogo de cartas sem nem tocar no assunto novamente.

Depois de umas rodadas fui para o meu quarto sozinho. Eu era o primeiro a ir dormir naquela noite, eu não agüentava mais ficar ali. No dia seguinte era o dia da minha viagem com a Lanny. Nós íamos passar um tempo na França. Mais uma temporada de exposição, de todos querendo me ilhar e me tocar. Confesso que com o tempo estou ficando cada vez mais misantropo.

Assim que acordei, acabei de arrumar a mala e fui saindo quando vi Jude e Adair conversando.

– Não Jude, não sei... Só fiz isso uma vez... Não tenho muita certeza. – dizia Adair andando de um lado para outro. Para ele estar confessando que não sabe algo, deve ser realmente muito importante, pensei eu.

– Mesmo com os riscos vale à pena tentar. Por favor! – Insistia Jude.

– Ah não. Não comece a implorar.

– Fiquei pensando nisso a noite toda... Não consegui dormir e...

Foi quando ele virou e me viu.

– Bom dia Jonathan! Está de saída?

– Eu e a Lanny. Mas sobre o que vocês estavam conversando? – Perguntei curioso.

– Jude sempre tentando me convencer a fazer alguma coisa. Mas isso não importa para você agora, não é.

Dei mais uma olhada para os dois, certo que estavam querendo me esconder alguma coisa, embora eu não soubesse bem o que.

– Ok, então estou indo...

– Boa viagem! – Disse Adair.

***************

E então, depois de muito tempo, comecei a sentir uma sensação. Primeiro uma quentura passando por todo meu corpo e depois como se estivesse sendo puxada por uma garra, algo muito forte. Finalmente abri os olhos.

Estava deitada no chão de uma casa. Demorou um pouco para meus olhos se acostumarem a claridade. Quando finalmente pude enxergar, vi que tinham dois homens parados bem na minha frente. Comecei a me sentar e um deles veio em minha direção me ajudar. Parece que ele pensou duas vezes e parou no meio do caminho.

– Seja bem vinda a sua nova casa. – Disse o rapaz. O outro continuava apenas me observando com aqueles olhos que pareciam os de um lobo.

Não respondi nada. Onde eu estava? Não conseguia me lembrar de nada. Quem eram aquelas pessoas? Definitivamente eu não os conhecia. Fiquei forçando lembranças na minha mente, até que consegui recordar de algo...

– O que vocês são? Bruxos?

Era a única coisa que eu consegui imaginar. – Eu... Como posso estar aqui se...

– Evangeline, nós escolhemos te dar uma 2° chance. – Disse ele bem devagar e gesticulando bastante.

– Mas quem são vocês para escolher quem vive ou quem morre? São uma espécie de deuses?

– Não – Disse o rapaz dando um sorriso – Estamos bem longe disso. Meu amigo aqui é um mago muito poderoso. Ele ouviu a sua história e...

– Vamos deixar isso tudo para depois, certo Jude?! Ela precisa dormir um pouco agora.

Finalmente ele falou alguma coisa. Eu estava muito curiosa, tinha um milhão de perguntas.

– Vamos Evan. – Disse o homem que se chamava Jude – Você precisa dormir um pouco e depois nós te explicamos tudo isso.

– Não – disse me levantando e entrando na frente dele – Como vocês sabem meu nome e de onde vocês me conhecem e sabem minha história? Que roupas estranhas são essas e...

– Você tem muitas perguntas, hein. Por mais que eu queira, não posso te explicar tudo agora porque iria te deixar muito confusa.

– Mas eu estava morta! Disso eu me lembro muito bem.

–Como já disse antes, meu mestre é um mago muito poderoso. Por muito tempo ele tem aperfeiçoado uma poção que trás de volta a vida a uma pessoa. Você deve saber que agora você é imortal. Não ficará doente, não precisa se alimentar nem nada disso. Na verdade a única pessoa que pode ferir você sou eu, por minha mão e intenção.

Jude esperava que depois de todas essas informações a menina ficasse desesperada, afinal era informação de mais para qualquer um. Mas não, ela continuava com a mesma expressão.

– Isso é inacreditável. Imortalidade...

É totalmente real, acredite. Então por enquanto é isso. Estamos em 2014 agora, sabia que você vai ter bastante trabalho pela frente e...

Não conseguia mais ouvir nada. Ele falava sem para um minuto. Finalmente me lembrei de algo que me deixou bastante curiosa.

– Jude, de onde a gente se conhece? Quer dizer, como você sabia sobre mim? Tipo, a muita gente morta nesse mundo então porque eu? Não consigo me lembrar de você.

– Nós não nos conhecemos, pelo menos não pessoalmente. Temos um amigo em comum.

– Um amigo? Que amigo meu poderia estar vivo até agora? – Eu disse reflexiva.

– Ele estava falando ontem sobre você. E achamos – Adair e eu – que poderíamos fazer algo a respeito. E fizemos. Então, agora você precisa tomar um banho e dormir. Logo depois vamos conversar mais um pouco. Tenho muita coisa a explicar a você.

Concordei com a cabeça, mas ainda estava muito curiosa.

– Você ainda não me disse quem era o seu amigo.

– Jonathan, conhece?

Meu coração foi a 1000. Como assim?

– Jonathan, como você conhece ele? Ele está vivo?

Era isso que Jonathan fez desde que me abandonou? Morava numa casa com bruxos e magos... Devia ser imortal agora.

– Sim, o conheci há muito tempo... Sei do passado de vocês naquela cidadezinha. E caso você esteja se perguntando, sim, ele também é imortal.

– Então onde ele está? Preciso muito conversar com ele, tenho muitas coisas importantes para tratar e...

– Ele não está. Saiu hoje de manhã... Teve que fazer uma viagem urgente.

– Mas ele sabia que eu ia voltar?

– Não. Nós preferimos não contar nada para ele. Não tínhamos certeza que a poção funcionaria... Vamos apenas deixar ele de lado por um tempo, ok?!

Não sabia bem o que aquilo significava, mas mesmo assim concordei.

Antes de sair ele me explicou como funcionava aquilo que ele chamava de chuveiro... Depois pude finalmente tomar um banho enquanto pensava em como tudo era tão inacreditável. Estar viva novamente por si só já era algo fantástico. Ser imortal e vivendo num mundo totalmente diferente do que era antes... Mal podia esperar pelo resto.