O vento frio da noite passou entre os galhos cinzentos das árvores mortas, sussurrando palavras incompreensíveis. A região estava vazia por completo. Os animais que ali já haviam vivido fugiram para qualquer outro lugar onde não se sentisse o cheiro de putrefação.

A única alma presente naquele estranho local era uma garota; Mellara Jones era como se chamava. Trajava vestes cinza e seu longo cabelo cor de mel flutuava com a ventania. Ela caminhava por entre as árvores e os túmulos de pedra iluminados pela luz prateada da lua.

O que estou fazendo nos Campos Cinzentos?, Mellara perguntou a si mesma. Para onde estou indo?

A garota podia não saber o que a levara para lá, mas conhecia a história daquele lugar inóspito. Os Campos Cinzentos, como eram conhecidos, na antiguidade fora um belo bosque verdejante que acabara por arder em chamas durante uma velha e sangrenta batalha entre usurpadores. Desde então, lá estavam enterrados aqueles que morreram lutando com honra e bravura na batalha chamada Queima dos Carvalhos.

Ali, ao redor de Mellara, estavam os pálidos túmulos antigos. Alguns tinham nomes, outros não. Quando chegava mais perto deles, podia ler: Arthur Jones, Peter Jones, William Jones, Henry Jones... Quase todos eram Jones, seus antepassados. Estou cercada pela morte, pensou Mellara.

Os Campos Cinzentos eram ainda mais sinistros à luz do luar. As velhas árvores torradas cresciam em um chão composto de carvão, cinzas e ossos carbonizados. Vermes rastejavam entre os túmulos, procurando por alguma carne que ainda não havia entrado em decomposição. O cheiro das cinzas e a fumaça dos vegetais queimados faziam com que lágrimas involuntárias brotassem dos olhos de Mellara.

Mellara sentiu um gelado arrepio percorrer seu corpo... Afinal de contas, o que estava fazendo ali? Nem mesmo ela poderia responder. Tudo o que fez foi seguir seu caminho para o norte, penetrando na profunda e melancólica escuridão da noite.

Já ouvira muitas histórias assustadoras a respeito dos Campos Cinzentos, algumas convincentes e outras duvidosas. A grande maioria dizia sobre os espíritos que vagueavam entre aqueles túmulos, mas Mellara nunca conseguiu acreditar totalmente no que escutava. Os espíritos que deveriam ter medo dos homens, e não nós deles, ela pensava. No entanto, ainda havia nela um pouco de medo, por menor que ele seja.

Mas quanto mais medo Mellara sentia, mais vontade ela tinha de desafiá-lo. Parou de caminhar por um instante e fitou os túmulos com seus brilhantes olhos verdes.

– Vocês estão por aqui, espíritos? – ela disse para a escuridão. – Conseguem me escutar?

Como ela esperava, não houve resposta alguma, apenas o suspiro do vento. Se realmente há espíritos, eles estão com medo de mim.

Entretanto, poucos instantes depois, foi como se o vento ganhasse voz e começasse a proferir palavras sobre a cabeça de Mellara. Uma voz velha, áspera e feminina pairava no ar. De princípio, a garota não conseguia compreender, mas as palavras tornavam-se cada vez mais claras em sua mente:

... Nascida da Morte, Nascida da Morte... Mellara ouvia apenas isso.

Mellara jamais fora uma garota de se assustar facilmente, porém agora ela tremia ouvindo as vozes do vento. Não conseguiu mexer nenhum músculo, tudo o que podia fazer era escutar:

... Para o norte, siga para o norte e não olhe para trás...

– Norte? – Mellara perguntou ao vento. – Por que para o norte?

... Venha para mim... Foi a resposta... Siga o vento e venha para mim...

A menina permaneceu imóvel.Estou sonhando, Mellara enfim compreendeu, é apenas um sonho... Então, se era um sonho, não havia o que temer, pois não havia perigo algum. Parou de tremer e seguiu para o norte, tentando vencer o pequeno medo que ainda lhe restava.

Enquanto Mellara caminhava, o vento sussurrante passava por seus ouvidos e dizia: Venha, venha, venha...

Sozinha, avançou tanto pelos Campos Cinzentos que chegou a um lugar onde os túmulos não podiam mais ser vistos, somente as árvores. A cada passo, o ar tornava-se mais frio e a noite mais escura. Mellara caminhou sem olhar para trás e o vento ao seu lado sussurrava, sussurrava e sussurrava...

Então chegou em uma região onde não haviam árvores e a luz da lua havia quase desaparecido. Observando melhor ao norte, Mellara conseguiu avistar uma velha cabana feita de madeira, com uma fumaça cinzenta saindo pela chaminé. A garota sentiu-se intrigada. É apenas um sonho, lembrou a si mesma e aproximou-se.

Ficou frente a frente com a velha porta de madeira da cabana e, hesitante, deu três toques fracos. Que tipo de pessoa viveria em um lugar como este?, Mellara estranhou. Aqui é o lugar onde apenas a morte reside e já não há mais nenhuma alma que ela possa levar. Somente a minha, talvez.

E então ouviu passos abafados vindo de dentro da estranha cabana, aproximando-se da porta cada vez mais. Não estou com medo. Não terei medo. É apenas um sonho e os espíritos nos temem. Mellara viu a maçaneta girar e a porta rangeu quando foi aberta, trazendo um ar frio que vinha de dentro da cabana. A garota agora olhava para a moradora da cabana: uma velha, cinzenta, alta e corcunda, que trajava vestes cor da noite e possuía finos cabelos branco-prateados que voavam com o sopro do vento. Mellara não se lembrava de ter conhecido alguém tão velho como aquela senhora. A anciã fitava a menina com seus profundos olhos verdejantes, que brilhavam como duas esmeraldas.

– Quem é você, estranha criança de destino impiedoso? – a velha perguntou. Sua voz era áspera e torturante. Como as vozes do vento, notou Mellara.

– Mellara Jones é o meu nome – respondeu, enfim, a menina.

– Não – retrucou a senhora. – O nome que lhe foi entregue pode ser Mellara Jones, mas o vento lhe ensinou sua mais verdadeira e crua identidade. Quem é você, estranha criança de destino impiedoso?

Serei eu outra pessoa que não eu mesma? Mellara não soube a resposta. Serei eu alguém além de Mellara Jones? A garota encarava a velha, tentando buscar uma possível solução. O vento lhe ensinou sua mais verdadeira e crua identidade, foi o que a outra dissera. E então, Mellara soube:

– Nascida da Morte – sussurrou ela em resposta. Fora o nome que as vozes do vento lhe chamaram.

– Agora você está certa. Nascida da Morte – a anciã repetiu. – O que você teme?

– Eu não temo. Os outros temem, eu não. Isto é apenas um sonho, não é?

A face morta e enrugada da velha não mudou.

– Sonho, pesadelo, chame do que quiser – ela inclinou-se para Mellara para enxergá-la melhor na escuridão. – Não perca tempo sonhando com a morte. Mais tarde, depois de despertar, encontre-me novamente. Dúvidas surgirão para você e mais ninguém além de mim poderá ajudá-la. Siga pelo mesmo caminho e vá sozinha.

Mellara não compreendia. Achei que fosse alguém do fruto da minha própria imaginação. Será que estranha velha realmente existia escondida nos Campos Cinzentos?

– Quem é você? – Mellara perguntou a ela.

– Será você quem responderá essa pergunta – a senhora virou as costas para a garota. – Mas agora desperte, Nascida da Morte. Desperte e não olhe para trás.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.