Um Sonho de Venturo

1 [Capítulo 1] Introdução Obscura


— Okay então. Sim, eu irei passar lá no stand para pegar a chave do apartamento. A festa de inauguração é amanhã. Depois a gente se fala então. Beijos. — desliguei a ligação. Era uma das minhas irmãs, eu moro com ela por enquanto, desde que sai da casa dos meus pais aos 18. Meu nome é Henrique, eu curso nutrição, estou no 3º período.

— Ela ligou para quê? — perguntou Marcos, meu melhor amigo. Ele faz arquitetura e sinceramente? É um gato. Conheço ele há bastante tempo e sempre saímos juntos.

— Queria saber sobre o apartamento. — respondi — Vai amanhã comigo para a festa de inauguração? Tenho direito a levar três pessoas.

— Uma delas é o Mateus?

— Com certeza — respondi sorrindo.

Mateus é meu namorado. Cursa engenharia mecânica. Nos conhecemos há bastante tempo, mas namoramos há três. Eu sempre fui um cara de levar relacionamentos por muito tempo, não gosto de pouca coisa.

No outro dia, acordei um pouco mais cedo que o de costume e recebi uma mensagem de uma amiga, a Laís.

Laís: Preciso falar com você pessoalmente.

Eu: Fala garota, o que houve?

Laís: Tem que ser pessoalmente. Me encontre no primeiro terminal próximo à sua faculdade, assim que sair de lá.

Fiquei muito preocupado a partir deste momento, ela nunca foi de me encontrar para conversar assim.

Laís é estudante do 3º ano do ensino médio e super desconstruída como eu.

Assim que acabou minha aula na faculdade, me apressei para ir ao encontro de Laís. Até que fui barrado no corredor pela coordenadora.

— Henri!! — gritou ela com um sorriso.

— Ah, dona Nazaré — respondi também com um sorriso, mas super agoniado por dentro.

— Está com pressa? — perguntou.

A dona Nazaré é uma mulher legal. Ela que me ajudou a conseguir a bolsa na faculdade. Chamo ela de dona por costume, pois a avó do meu namorado também se chama Nazaré e eu a chamo de "dona". Quando conheci a coordenadora Nazaré assimilei, comecei a chamar e cai no costume.

— Não, claro que não — a respondi com um sorriso, mas as mãos e a testa soando de ansiedade.

Enfim ela parou e conversou por aproximadamente 15 minutos. Por fim...

— Oh, deu um probleminha com a bolsa de estudos, 'hein'? Depois vou precisar de você. — disse ela. E eu respondendo com respostas curtas.

Ela se despediu e eu corri.

Quando menos espero, uma ligação.

— Oi amor!—Era o Mateus

— Tá sumido, não é palhaço?

— Você sabe que estou ocupado com os trabalhos da faculdade.

— Eu não sei de nada não.

Enquanto falava com ele, eu me esquivava de pessoas, postes e tinha que aturar um barulho enorme de buzinas de uma avenida movimentada.

— Eu acho que nem vai dar para ir à festa de inauguração hoje. — falou

— Como assim? Você tem que ir. Eu não vou te ver por dois dias, é isso?

— Não, — se corrigiu — eu posso passar aí na casa da sua irmã para te ver rapidinho, ou a gente marca em qualquer outro lugar. Mas rápido.

— Pode ser então, — falei e atravessei a avenida — já que é assim...

Desliguei a ligação e enfim cheguei ao terminal.

Assim que entrei no terminal procurei ela por todos os lados e não encontrei. Até que parei para dar uma olhada no whatsapp e quando menos espero, vejo ela chegar chorando muito do meu lado direito. A maquiagem toda borrada, com farda e mochila da escola.

Assim que a vi a sentei num banco próximo, limpei os olhos dela com as mãos e comecei a perguntar o que havia acontecido.

— Você sabe o que é ouvir da sua mãe que você é um lixo, que você é uma vergonha, um nojo, só por você amar alguém do mesmo sexo que o seu? — perguntou ela, ainda chorando muito. Eu a abracei.

— Eu amo minha mãe, cara. Ela quem me criou, me gerou, me deu tudo o que eu preciso... eu não queria, eu não pedi para nascer assim. — continuou.

Então eu falei:

— Eu sei como é Laís, claro que eu sei. Você se assumiu para sua mãe, foi isso? — ela respondeu que sim com a cabeça. — Os nossos pais acham que é fácil para a gente, para o nosso psicológico. É difícil você ser negado por quem você mais ama. Mas eu espero que com o temp...

— Ela disse que prefere me ver morta do que com outra menina. — me interrompeu

— Eu também já ouvi isso, ma...

— Não, você não está entendendo, eu estou correndo risco de vida. — continuou

Ao chegar em casa, pedi que ela sentasse enquanto eu ia buscar um copo de água.

— E agora, o que a gente faz? — perguntei, entregando o copo a ela. E me sentei em um banquinho — Você acha mesmo que sua mãe...

— Eu não sei. Sinceramente, eu acho que não. Mas já ouvi casos de pessoas que já foram mortas por parentes por esse motivo. Meu medo é mais meu padrasto, sabe? — concluiu ela, ainda pouco abalada.

Eu estava completamente sem reação. Não achava possível acontecer um fato de assassinato por homofobia próximo a mim. Ainda mais vindo de parentes.

— Se você quiser passar uns dias aqui.... eu moro com a minha irmã, mas a gente se ajeita.

— Não, vai ser pior. Eu sou de menor e aí ela pode processar vocês. — ela abaixou a cabeça, ficou em silêncio e em seguida ergueu a cabeça. — Não era nem para mim estar aqui.