Um Sonho de Venturo

5 [Capítulo 5] O começo


Me levantei com preguiça, tinha acabado de acordar. Mais um dia de aula, mais uma rotina chata e entediante. Fiquei sentado na cama com os pés no chão, pensativo. Criando coragem para mais um dia.

— Que loucura! — falei. E segui meus afazeres.

— Henrique! — me cumprimentou minha amiga, ao me ver chegando no colégio. Layane é uma das meninas mais inteligentes da turma.

Passei a aula toda pensando em tudo o que sonhei noite passada. Era informação demais para mim.

— Você está diferente. — comentou Lanna, outra amiga de turma — Cadê aquele Henrique brincalhão e divertido de sempre?

Antes de contar tudo o que eu estava pensando, eu precisava digerir tudo aquilo. Eu parecia estar dopado e anestesiado, mas com certeza não foi o efeito dos remédios de gripe que eu estava tomando.

Depois de algumas horas, eu percebi que precisava continuar a dormir. Eu precisava saber se o sonho voltaria de onde parou.

Resolvi contar às minhas amigas tudo o que sonhei naquela noite e a única coisa que fizeram depois de eu terminar de falar foram gargalhar. Eu senti um pouco constrangido, mas preferi não dar muita bola.

— É sério! — expliquei, tentando esconder o constrangimento.

— Tudo bem. Só que é um pouco inusitado. — comentou Layane, que sorriu por fim.

Ao chegar em casa, fiz uma pesquisa na internet: "Como continuar um sonho anterior?". Mas não deu muito certo, os resultados eram fracos e sem muita coerência. Então segui minha rotina.

Dois mil e dezenove

— Calma, ainda não pode abrir. — dizia o Mateus enquanto me guiava para o seu quarto, com as mãos sobre os meus olhos, que por este motivo andávamos a passos lentos.

Até que ele levantou os braços e eu pude ver várias caixas pelo chão, umas por cima das outras. Eu sorri como quem não entendia nada. Ele andou até ao meu lado direito na diagonal.

— Então, o que achou? — perguntou sorrindo

— Eu nem sei o que é isso, Mateus. -falei

— São caixas de panelas, vasilhas e coisas que iremos usar no nosso apartamento.

— Mas amor, não precisava...

— Ah, tem outra coisa: você vai me ajudar a pagar.

— Oi?

— Desculpa. — disse ele, se aproximando de mim e me abraçando por trás com um sorriso no rosto. A minha reação era apenas de: "puta que pariu, esse garoto é maluco".

— Pode deixar essa aí. Isso, valeu. — dizia Rodrigo a um dos rapazes que o ajudava na mudança.

— Já está tudo aqui, só estou te esperando para arrumarmos.

— Beleza. Eu irei passar no supermercado antes, no final da tarde eu chego aí.

Falou o publicitário com sua melhor amiga com quem dividirá apartamento. Mariana é designer gráfica e dj nas horas que precisa. Tem um estilo todo gótico e encantador ao mesmo tempo.

Mal sabia eu que seria vizinho dos futuros inimigos.

Dois mil e quinze

— Henrique? Henrique! — chamava minha madrasta para que eu acordasse.

Me levantei confuso e ainda dopado. Algo não estava bem e eu precisava de ajuda médica.

— Vai ali na padaria, por favor. — completou ela, enquanto eu abria os olhos e tentava entender o que estava acontecendo.

Era de tardezinha. Meus dias eram sempre os mesmos: de manhã escola, à tarde assistia tv, e , à noite, dependendo do dia, iria à igreja.

Fiz o que me foi pedido e contei a minha madrasta o que estava acontecendo.

Era um período da minha vida em que eu não podia ter celular, ou qualquer tipo de acesso à internet. Aos 14 anos meus pais descobriram minha sexualidade de forma impactante, confesso.

Dois mil e catorze

Lá estava eu, na madrugada, ainda naquele computador. Meus pais tinham uma loja de roupas na garagem de casa. Para mexer na internet pelo computador eu tinha horário, sempre tive. Meu celular não era um dos melhores e por este motivo não pegava acesso a wifi, então eu só mexia pelo computador.

Início de abril de 2014: Meus pais permitiram eu mexer no computador a hora que eu quisesse com a condição de eu olhar a loja e atender às pessoas.

Foi uma das melhores épocas da minha vida, E o mais injusto é que durou tão pouco.

Continuando...

Lá estava eu, na madrugada, ainda naquele computador. Eu realmente não controlava meu desejo compulsivo de mexer naquela máquina, que ficava na garagem de casa, na loja mesmo, no meio dos balcões de vidro que atendíamos os clientes. Estava tudo escuro, a minha frente dava para ver o vazio da avenida, da madrugada e os poucos carros que corriam ali. A frente da casa, uma boa parte, era fechada com pilastes com espaços entre si e uma tela fina de arame com furos por dentro impedia furtos de algumas peças da loja que ficassem por ali. Pelos espaços, por isso de eu conseguir ver a avenida.

Meu pai tinha costume de chegar por trás e ver o que eu estava fazendo na rede. E foi isso o que aconteceu naquela madrugada durante um sexo virtual com outro garoto.

— ISSO É CONVERSA DE CRENTE? — gritou ele, após me dar um forte tapa nas costas.

Foi a pior noite da minha vida. A partir dali eu passei do filho perfeito para um demônio desconhecido.

Dois mil e quinze

Peguei o celular que eu tinha sem meus pais saberem. Era um da minha madrasta que estava "quebrado" e do nada voltou a funcionar. Contei a alguns amigos do sonho maluco que eu estava tendo. Planejei no outro dia mesmo procurar um psicólogo gratuito ou algum tipo de profissional da área.

Dois mil e dezenove

Semanas depois, já estávamos no nosso apartamento. Recebi a mensagem de que a Lollipop já tinha uma nova data e precisaríamos divulgar.

— Me ajuda aqui, temos que terminar esses cartazes ainda hoje. — falei aos meus amigos, Wander e Marcos, que me ajudavam a colar os cartazes da Lollipop em frente a faculdade que eu estudava. Além da divulgação virtual, optamos pela colagem de cartazes nos lugares frequentados por jovens.

— Ai, estou cansado! — disse Wander, sentando-se em um banco próximo.

— Só faltam 3, eu hein. — reclamei

— ISSO! AHHH!!! — gritava Marcos, olhando entretido para o seu celular. Obviamente não entendíamos nada. — Fui chamado pela agência de modelos, uma das melhores daqui do Rio.

— Grande coisa — respondeu Wander, sem se importar.

— Que bom. Mas iai, já vai começar a trabalhar...? Já é modelo ou o que? — perguntei

— Por enquanto modelo fotográfico. Eles pediram um mini curso para que eu possa ir às passarelas.

— Sempre soube que você seria modelo. — falei

— Eu só quero ver quando sua mãezinha souber disso. — comentou Wander e Marcos revirou os olhos — Ela já não gostou da primeira vez, quanto mais agora.

— Eu já sou um adulto. Ela tem que aceitar minhas escolhas. — desabafou o rapaz

— E está na igreja, AINDA. — conclui em tom de tédio

O Marcos, assim como eu, cresceu na igreja, na mesma igreja. Nos conhecemos por lá e desde então passamos inúmeros momentos marcantes dentro e fora.

— Está mais do que na hora de você ter uma conversa com ela. Você tem que saber o que você quer para a sua vida. Rigidez de igreja não é futuro para ninguém não. Eu não estou querendo dizer para você sair que nem esse aqui, — falava Wander, apontando para mim — só para dar um rumo a sua vida. Como você mesmo disse: Você não é mais criança. — terminou o atendente de telemarketing se levantando do banco.

— Concordo com tudo o que ele falou. — comentei e então sorrimos aliviados

— Depois conversamos sobre isso. Vamos logo, se não nos atrasamos para a festa. — respondeu Marcos

— Sempre deixando as coisas para depois. — falei um pouco zangado.

— Típico dele. — respondeu Wander, também sem paciência.

Começamos a ter uma pequena discussão enquanto íamos para o ponto de ônibus pegar o coletivo. Era o dia da festa no meu apartamento, a festa que Wanderlley inventou. Começava às 6 da tarde e ia até à meia noite ou mais. Mas com certeza eu teria que dormir para ir à faculdade no outro dia.

— AÊEEE!!! -gritei ao abrir a porta e ver Washington e Laíza chegarem. Os abracei, recebendo em meu apê e mandei-lhes entrar.

Cada convidado era responsável por trazer uma bebida, seja qual fosse, de sucos à vodkas.

— VIAAAAADO!! — era o Gilvan, acompanhado de Luana, Leonardo e outro promoter do Lolli, o Felipe.

— SANDRYNE AMOOR!!! CLÁAAAAAAUDIA!! — gritei mais uma vez ao abrir a porta e ver meus amigos de turma do 9º ano do fundamental ao 2º ano do ensino médio.

As pessoas não paravam de chegar. Fui recebendo todos os amigos convidados da festa sempre que ouvia a campainha tocar. Até que em um momento o movimento parou, aproveitei para ir aproveitar a festa. Horas depois, a campainha toca. Não me lembrava de mais nenhum amigo que faltava chegar. Imaginei ser reclamação de barulho e fui atender confuso a porta.

Eram eles.

— Olá!!!! — falaram em coral assim que me viram e com um sorriso no rosto.

— Rodrigo, quem chamou você? Quem é essa garota?- perguntei, começando a me irritar. Não estava nenhum um pouco confortável com aquela situação.

Eles estavam vestidos aparentemente de roqueiros, jaquetas de couro pretas. E a Mariana com uma maquiagem bem escura.

Depois da minha pergunta eles apenas estampavam sorrisos, sem responder nada.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.