Um Sonho de Venturo
3 [Capítulo 3] Não haverá amanhã
— É claro que isso é uma má notícia. — falei, enquanto colocava as apostilas do curso na mochila.
— Ele pode ter sido convidado da festa só. Como eu e o Marcos fomos ontem. — respondeu Washington enquanto fala comigo por ligação.
Estávamos conversando sobre o que pensei noite passada, antes de dormir. Era de manhã e eu já estava preparado para sair de casa e ir á faculdade. Minha irmã não estava em casa, havia ido ao trabalho como de costume. Só voltava às 3 da tarde e sempre deixava uma parte da casa para mim arrumar. Eu só voltara ao meio dia.
— É, pode ser. — conclui e desliguei.
Antes de sair de casa, dei uma checada no perfil do whatsapp da Laís e já não havia estado online há algumas horas. Eu ligava mas só dava fora de área. Foi aí que pensei em passar na escola dela depois da penúltima aula do curso da faculdade, para poder dar tempo de pegá-la por lá.
Horas depois já estava saindo. Todos estranharam o fato de eu estar "matando aula" e sem avisar à diretoria. Mas eu realmente precisava. Sai na penúltima aula do curso e me apressei para chegar a tempo. Corri desesperado enquanto meus colegas a faculdade me perguntavam o porquê de tanta pressa e de faltar à última aula, mas fui curto e sai às pressas.
Assim que cheguei, logo a encontrei, com uma feição não das melhores. Já fui a abraçando.
— Como você está? — perguntei, segurando em suas mãos. — Está gelada,
— Tô péssima. Deve ser o ar condicionado da sala, mas eu também não estou muito bem. — respondeu desanimada
— Olha Laís, eu já passei por isso e sei bem como é. Já ouvi de tudo também dos meus pais, mas a gente supera. E você só falta um ano para ficar de maior. Eu te amo, tá? — ela me abraçou como se não houvesse amanhã.
— Eu também te amo. Te amo muito, você foi a melhor pessoa que eu conheci. — disse a garota me abraçando apertado enquanto também chorava.
— Vai ficar tudo bem. — terminei.
Não estávamos nos importando com toda aquela gente entrando e saindo da escola. Aquele era o nosso momento. Era como se estivéssemos tido levitado por um instante e não existisse mais ninguém ali além de nós.
Ela se afastou, limpou as lágrimas e explicou:
— Eu estou sem celular, minha mãe pegou ontem. — respirou e continuou — Se você conhecer uma Clara, ela estuda no São Francisco, avisa que eu a amo muito, tá? -
Eu fiz que sim.
— Já já tudo isso passa e você vai ser muito feliz.
Ele fez sinal de positivo com a cabeça também.
As horas passaram e por volta das duas e meia da tarde tive uma conversa com a minha irmã que mora comigo, a Manuela.
— E o apartamento, quando poderemos nos mudar? — perguntou, enquanto fechava a geladeira.
Eu estava muito desatento, pensativo e preocupado para pensar no assunto, mas tentei focar.
— Ah, acho que já podemos. No contrato dizia após a festa de inauguração.
Então ela sentou em uma das cadeiras da mesa onde eu estava. Eu percebi a seriedade que ela ficou.
— Henrique, eu preciso conversar com você. — ela parou por um segundo, o que me deixou ainda mais tenso. — Eu vou precisar viajar e então você ficará só no apartamento, obviamente. Mas o que eu queria te pedir é que o Mateus vá passar um tempo com você. — eu fiquei sério por uns 5 segundos depois do que ela disse e em seguida larguei um sorrisão.
— E precisa pedir isso? — perguntei sorrindo. Então sorrimos juntos.
— Mas para onde você vai e por quê? — perguntei confuso.
— Eu vou fazer faculdade em Curitiba e eu realmente preciso dessa vaga.
— Mas e comida...? Como vai se manter?
— Já falei com nossos parentes por parte de mãe, parentes do vovô e tal. Eles já me arrumaram emprego. Começo semana que vem.
— Então quer dizer que...
— Sim. — completou
Eu a abracei e chorei.
Chegado a noite...
— Seu pai quer falar com você. — disse a mãe de Laís enquanto ela assistia em seu quarto. Os pais de Laís, enquanto a garota assistia em seu quarto.
Os pais de Laís são divorciados há bastante tempo e ao contrário de sua mãe, o pai já sabia da sexualidade da garota.
Assim que entrou no quarto da filha, Victor já foi fechando a porta.
— Meu amor! — disse seu pai, ia sentando em sua cama e a abraçava.
E aí uma lágrima escorreu dos olhos da estudante.
— Ei, eu tô aqui. — disse ele e ergueu a cabeça dela. — A gente vai amanhã mesmo passar sua guarda para mim, okay? Você já é grandinha, já tem idade para dizer ao juiz com quem quer morar e o porquê.
— Mas pai, — limpou as lágrimas — eu não quero ficar brigada com a minha mãe. E quando toda minha família descobrir eu vou ter que passar por isso de novo e de novo e de novo...
— Você vai ter que ser forte, meu anjo. Você é forte. — respondeu
Horas depois que o pai de Laís saiu de lá, ela retirou um generoso pedaço de corda debaixo de sua cama, amarrou uma ponta no seu pescoço e a outra num pedaço de madeira que estava amostra na parede do seu quarto. E então...
— Iai, você vem morar comigo? — perguntei ao Mateus enquanto andávamos na orla da cidade.
Ele parou, olhou para mim pensativo...
— Nossa! — ele sorriu — Eu estou realmente surpreso, juro que não esperava uma notícia dessas.
— Ah, Mateus. A gente se conhece há quanto tempo? Tem uns 7 anos aí, não 7 dias ou 7 semanas. — então ele me puxou para os seus braços.
— Bobo. É uma ótima proposta morar com o homem da minha vida.
— Mas você vai ter que aturar minhas músicas todos os dias e no último volume. — comentei
Uma das minhas coisas preferidas é música, ouvir música e falar sobre música. Especificamente o pop e o rap, meus gêneros preferidos, da qual sei muita coisa.
— Então, morar com você? Não sei, estou cheio de trabalhos da faculdade para fazer. — depois disso sorrimos — Tô brincando. Por você eu suporto até fanáticos homofóbicos 24 horas. — em seguida nos beijamos.
Em algum restaurante da cidade carioca, um dos meus grupos de amigos estavam reunidos para colocar a conversa em dia. Eu havia sido convidado, porém recusei para passar um tempo só com o Mateus.
— Por que o Henrique não veio mesmo? — interrogou Luana, enquanto todos se ajeitavam em suas cadeiras. Eles tinham acabado de chegar.
Luana é nutricionista e foi ela uma das apoiadoras a eu escolher nutrição ao invés de psicologia.
— Ele está com o boy dele. Segundo ele, já fazem uns 2 dias que não se vêem. — respondeu Washington
— Aposto que hoje tem! — comentou Gilvan, personal trainer. Todos sorriram.
Segundo depois, eles perceberam Elton e sua turma entrando no restaurante.
— Ih gente! Olha quem chegou. — comentou Luana
Elton era melhor amigo de Leonardo há alguns anos atrás. Ambos djs. Leonardo foi o responsável por criar a balada pop "Lollipop", que com o passar do tempo, e depois de muitas brigas, Elton e Leonardo terminaram se separando. Foi aí que Elton criou sua própria balada, a "Strange".
— Quando Leonardo chegar eu quero ver cabeças rolando. — disse Gilvan, muito enérgico, batendo na mesa com as duas mãos em movimentos acelerados.
— Para que Léo se você está aqui? — disse Washington. — Até porque você é que é o afrontoso.
Todos sorriram.
— Olha lá, aposto que estão falando da gente. — disse Elton, do outro lado do restaurante.
— Deixa falar. Você deve? — disse Diogo, um dos sócios da Strange.
A mesa que o pessoa da Strange tinha escolhido ficava próximo à entrada do restaurante, a primeira mesa ao lado da porta. O que foi um passo para a mente brilhante de Gilvan arrumar a primeira encrenca.
A rivalidade entre os sócios/promoters da Lollipop e Strange não se dava apenas pelos donos terem sido amigos e se separados. Mas sim porque após a separação de Leonardo e Elton, Elton fez uma balada com a mesma temática, promoções e produção, mudando apenas o nome e o local. Um verdadeiro plágio. Fato esse que tinha como ideia original a do Léo.
Ao avistar Leonardo mexendo no celular na porta do restaurante e percebido a localização dos "arqui-inimigos", Gilvan pegou uma garrafinha de água da mesa e não perdeu tempo.
— Volto já! — disse o personal, e levantando da cadeira.
No caminho ele foi afrouxando a tampa da garrafinha. Próximo a Leonardo, ele abriu os braços e o cumprimentou:
— LEONARDO!!! — disse ele, com a garrafinha molhando cada um dos sócios da Strange.
— VOCÊ ESTÁ LOUCO, GAROTO? OLHA O QUE VOCÊ FEZ. — gritou Juliana, amiga de Elton e a mais atingida por Gilvan.
— O que eu fiz? Desculpa, não foi minha intenção. — se perdoou, mesmo cinicamente. Leonardo não entendia direito o que estava acontecendo, em contrapartida Luana e Washington sorriam muito da cena. As pessoas no restaurante olhavam curiosas, sem entender muito também.
— Você quer que eu te limpe? — interrogou Gilvan, oferecendo um paninho que ele pegou em cima da mesa deles.
— Não, sai daqui. — respondeu Juliana, irritada. Os demais olhavam enojados.
— Garoto ridículo. — comentou Diogo, se secando pelo pouco que se molhou.
— Você tem espelho em casa? Porque se você quiser eu posso te emprestar, aí você ver quem é ridículo de verdade.
— Migo, vamos para a mesa. — cochichou Leonardo no ouvido de Gilvan, tentando o acalmar. Então o puxou pelo cotovelo.
Após o acontecido, o garçom levou guardanapos e as pessoas acompanharam com o olhar Gilvan e Léo passarem.
— O que foi isso? — perguntou Leonardo sentando-se. Logo depois todos sorriram.
No dia seguinte, fiquei sabendo de tudo o que aconteceu por eles e me lamentei por não ter ido, mesmo com o Mateus.
No intervalo na faculdade, recebi uma mensagem do Mateus me perguntando se eu conhecia algum Rodrigo. Foi aí que eu me espantei e fiquei totalmente sem reação. Respondi que sim, mas que há muito tempo não falo com ele.
Mateus: De onde você conhece ele?
Eu: Ah, faz bastante tempo, nos conhecemos no shopping. Mas o que ele quer?
Pedi ao Mateus que cortasse assunto e que se ele quisesse conversar chamasse no meu whatsapp.
Logo que cheguei em casa, depois do curso, procurei por todos os lugares o cartão que ele pôs no meu bolso. Até que após um bom tempo, encontrei em uma das gavetas do guarda-roupa. Tomei coragem, digitei os números e liguei.
— O que é que você quer, hein? — perguntei, sem paciência.
— Quem é? — perguntou
— É o Henrique, criatura. — respondi
— Ah, tá.— ele sorriu — Podia ser um pouco mais educado.
— Vai se foder e fala logo porque tu procurou o Mateus.
— Achei que você já soubesse. Me encontre às 15:15 no Shopping da Cidade. — concluiu e desligou a ligação.
— Droga. — falei, irritado
As horas passavam e eu não fazia ideia da morte de Laís. Ela sem celular só piorava ainda mais. Foi aí que às 14:05, eu recebi a mensagem do meu colega.
Miguel: Henrique, já está sabendo?
Eu: Sabendo de que?
Miguel: Laís se suicidou, fui informado pelos nossos antigos professores do colégio que estudávamos.
Neste momento eu fiquei perplexo, paralisado, sem reação e todos os seus sinônimos.
O Miguel disse que ainda não sabiam o motivo dela ter feito isso, mas eu sabia muito bem. Era compreensível o que ela estava passando, porém a atitude foi radical e não plausível.
Eu fiquei em prantos, pedi todas as informações do funeral para poder ir e liguei para o Mateus.
— Amor, — tentei falar, chorando muito — vem para cá, por favor. Estou precisando de você. Não demora, por favor.
Em 20 minutos lá estava ele. Tinha vindo com sua moto. Abri a porta de casa e o abracei.
— Eu sinto muito. Sinto muito mesmo, bebê. — disse ele
Eu só sabia chorar e o apertar. Tanto que deixei sua camisa toda molhada.
Eu realmente sei o que é a dor do preconceito. Principalmente vindo dos pais, vindo de casa. E eu me lembro como se fosse ontem tudo o que passei, das vontades que eu tive de me matar e ver tudo aquilo acabar, todo aquele peso sumir. Mas eu superei. O problema é que nem todos suportam.
Fomos ao funeral, procuramos pelo cemitério, não foi difícil de encontrar. Tivemos sorte, tinha acabado de começar.
A mãe de Laís chorava muito, tanto que gritara lamentando-se a perda da filha. Nos aproximamos do caixão, era perceptível o pescoço completamente roxo da garota, apesar das maquiagens usadas. E eu mais uma vez não suportei. O Mateus me abraça e me dava forças para prosseguir.
Na hora do enterro, o discurso de dor da mãe, o pai ao lado sem chão e o padrasto pouco chorava. Talvez por orgulho machista.
Eu queria dar um discurso de apoio e causa LGBT mas Laís não era assumida. Então preferi não polemizar numa hora como aquela. Apenas dei meu discurso dela como amiga. Enquanto aplaudiam, retirei minha fita com as cores da bandeira LGBT do bolso e amarrei no braço. O recado foi dado, mesmo que sutilmente. As lágrimas no meu rosto escorriam como águas na cachoeira.
Percebi a mãe de Laís me olhar e sentir o peso em seus ombros.
Fomos para casa e eu estava pouco me fodendo para o Rodrigo.
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