Elouise Blackrun:

NÃO É POSSÍVEL! LISA WATSON NÃO É MINHA IRMÃ! Dizer que ler essas palavras foi um choque seria pouco diante do absurdo das informações. Eu preciso saber mais sobre isso, e há algo mais. Preciso saber da existência da minha mãe, meu pai, preciso saber como Lisa é minha irmã.

ISSO NÃO É POSSÍVEL.NÃO É POSSÍVEL!!!!!!!!

Fecho o livro e rapidamente vou até os jardins do grande edifício, me sentando em um lugar onde outra vez conversei com o Grande Mal, e paro um pouco para clarear os pensamentos.

Com o passar dos dias, se tornou mais fácil viver no Palácio de Sangue, mas cada segundo faz com que eu perca qual a finalidade de estar aqui ainda. Não entendo o Grande Mal, ele não fala muito e é misterioso demais. Não tive notícias do Clã, nem se haverá uma guerra entre os vampiros. Mas, enquanto eu estive coberta de informações, livros misteriosos e lordes negros. Londres estava sendo investigada por descobrir uma nova espécie de animal, que humanos não sabem, mas somos nós. Não entendo bem como minha vida pode ser tão conturbada, se eu soubesse que ser vampira seria tão difícil eu teria feito um acordo com minha suposta irmã mais velha, quem sabe ela repensasse antes de fazer de mim uma aberração da natureza.

Apesar de estar me acostumando com a rotina aqui, sei que preciso ajudar meu Clã, minha intuição me diz que algo muito estranho está acontecendo e ainda não vi o Lorde das Trevas hoje.

Depois de alguns minutos deixando meus pensamentos fluírem, um lorde mensageiro pigarreia e me entrega um bilhete dobrado.

Nele está escrito:

"Precisamos da sua ajuda e do Lorde das Trevas. Com os humanos na nossa trilha, estamos quase expostos e precisamos fazer alguma coisa. Hoje os Alfws declararam que se não agirmos, eles agirão, e você sabe como eles resolvem as coisas. Marx"

Claro. Tinha que piorar. Agradeço ao lorde com um aceno e corro à procura do Lorde das Trevas.

O Salão Principal estava incrivelmente vazio, o que dificultaria encontrar o Grande Mal, e como eu sabia que precisava ser rápida começo a perambular pelos corredores do castelo. Vendo que o Lorde não estava em nenhum dos cômodos me dirijo a Biblioteca, um dos meus lugares favoritos. Antes de chegar à porta da sala dos livros, percebo que a porta está entreaberta e uma pequena luz sai pelas frestas, o que é incomum, já que ninguém além de mim parecia se interessar pelo local, porém quando coloco a mão na fechadura para entrar, ouço uma voz feminina que vem de dentro sala, então paro e ouço atentamente.

—Eu não esperava que fosse bem acolhida, mas quando soube que estava com ela aqui entendi que precisava vê-la.

Ela? A mulher se referia a mim?

—A garota nem ao menos se lembra de você, e não tente negociar, você poderia ter voltado antes. Não vai importar agora.

Ouvindo aquilo percebo que o assunto era bastante sério e embora eu não quisesse me mover, não podia ficar ouvindo uma discussão que não era minha. Mas quando eu vou me afastando da sala ouço algo que me chama a atenção.

—Mas ela é minha filha. Elouise é minha filha, tenho direito de vê-la.

Nem eu mesma percebo, mas quando olho em volta eu já estou dentro da sala olhando para o homem de preto e a mulher de quem eu não lembrava mais do rosto.



Lisa Watson:

O castelo estava quieto. Estranho, a essa hora Ellie e o Grande Mal estariam no jardim. Consigo entrar mais uma vez sem dificuldades e fui até o quarto de Elouise. Queria tentar falar com ela, sobre nenhum assunto em particular, mas eu precisava conversar. Porém, fico paralisada quando em cima de uma mesinha em seu quarto, estava o que eu procurava a tanto tempo: O livro dos Blackrun.

Pego-o e colocando-o sob minha jaqueta, decido que eu e Elouise conversaríamos outra hora.



Elouise Blackrun:

Como se fosse por impulso a mulher misteriosa me abraça, o que instintivamente eu retribuo, mas desconfiada. Enquanto nos observa, o homem de vestes negras fecha a mão em punho e murmura um som incompreensível até que resolve falar algo.

—Solte-a. Você não tem direito de ficar nem mil quilômetros de distância dela. —O Grande Mal fala calmamente.

—Lorde, nem mesmo conheço essa mulher. O que está acontecendo? — consigo falar, me afastando alguns metros dela, tentando entender se sua afirmação é verdadeira.

—Ela precisa saber. —Dessa vez quem fala é a visita surpresa.

—Você não tem o direito... —ele começa a dizer.

—O que eu preciso saber?

—Precisa saber, Ellie, que eu sou a sua querida mãe. —Ela fala ao mesmo tempo em que eu pergunto.



Lisa Watson:

"Ser vampiro, descobri que é mais do que desejar sangue. É ter os sentimentos intensificados em uma fração impossível de calcular e perceber que mesmo assim os sentimentos nunca devem guiar você."

Começo a ler o livro o folheando aleatoriamente, depois coloco em outra página e continuo.

"Fui transformado pela minha própria filha, o que quer dizer que, sobrenaturalmente, ela é mais velha que eu. Mas duvido muito que saiba a origem dessa abominação, ao contrário de mim, que dediquei alguns anos da minha existência em entender pelo menos como tudo começou."

"Ironicamente, foi culpa de uma bruxa, a grande bruxa, a mais antiga. Dizem que ainda conseguem se comunicar com ela por rituais de conselho. A primeira espécie a surgir foi o Clã Alfw. Havia uma família de camponeses que tinham um grande problema com os lobisomens que eram escravos da Lua, eram uma boa família, mas quando inconscientes e transformados, os lobos ficavam sensíveis a atacá—los. Desesperados e por conhecer a bruxa que era conhecida em grande parte por seus feitiços sobrenaturais, a família recorreu a ela que com um feitiço e em troca de sua fidelidade em guerras, os fez escravos do sol, fazendo com que os lobisomens e os vampiros não se encontrassem. Mas isso não resultou em boas coisas, quando lembrando a sede por sangue que os novos monstros tinham, o que desde então têm aumentado a legião vampiresca. O estranho é que mesmo depois da bruxa morrer, os vampiros conseguiram a ajuda de outras feiticeiras e com isso uma forma de viver normalmente entre os seres humanos, e sem se queimar ao sol. Queria eu ainda ser um mero mortal."




Mellody Denvers (viagem de Oxford):

É reconfortante saber que o nosso refúgio do Clã está em trégua com os Alfws, por isso decidi vir nessa viagem com a vovó Denvers. Não me sinto bem de ter me desentendido com Ellie, mas foi um tanto misterioso e desconcertante vê-la roubando um grimório. Por isso, foi melhor vir e me afastar de tudo, pois preciso entender o que aconteceu de verdade, se minha avó contar.

Aqui é um bom lugar para praticar novos feitiços e eu posso ajudar o Clã quando a guerra começar.

Os três dias que passei aqui foram calmos, mas houveram coisas que eu não deveria ter ouvido nem visto e que me colocaram contra a parede, ao mesmo tempo me enchendo de ódio.

As lembranças ainda são vivas.

Uma voz misteriosa foi ouvida no escritório da fazenda que estávamos:

—E acha que ela acreditou em você?

—A vampira tola acreditou em cada palavra que eu disse, a coitada nem percebeu quando eu falei que os avós estavam em uma guerra de quando eu era criança. Os avós dela nem eram vampiros! E eu nem os conheci, é claro. —Minha avó respondeu rindo.

—O que mais você disse?

—Algo sobre o sangue dela conter partículas humanas, o que é impossível. Afinal de contas, acho que ela não considerou nossa conversa importante. Tão preocupada com o Clã...

—Eu a vi uma vez, fiquei escondido entre as árvores onde ela foi sozinha. E ela ainda precisa descobrir que o Lorde das Trevas é o pai dela, ainda haverá o tal encontro entre os dois. —disse a voz estranha, calmamente.

—É claro, ninguém nunca viu o rosto do Lorde, então você sabe que ela não vai descobrir rápido.

—Não. Mas há o livro, o que contêm as crônicas dos diários de Hiram Blackrun, ela pode encontrá-lo. Pode-se dizer que darei um jeitinho dela encontrar o livro.

Eu não poderia contar isso a ela. Presumo que a protejo mais deixando minha amiga na ignorância do que dizendo o que houve. E essa é a primeira vez que eu sinto que nunca odiei ninguém mais do que odeio hoje Lady Denvers, minha própria avó.



Elouise Blackrun:

Faz uma semana que a mulher que parece com minha mãe apareceu e lembro as suas palavras exatas:

"Amo você como tudo. Não te abandonei, espero que um dia me perdoe."

Ela veio para desconcertar minha mente, são coisas demais para processar, além de uma irmã mestiça que é a última pessoa que eu desejaria. Também estou confusa em relação ao destino do livro de minha família que desde o dia em que minha mãe apareceu, sumiu misteriosamente. E eu preciso dele. Preciso entender o que aconteceu para tudo isso acontecer.

Estou com o Lorde das Trevas reunidos com o meu Clã.

A necessidade de unir forças é maior do que a vontade de afastá-las.