Notas iniciais
"Devo ater-me a meu próprio estilo e seguir meu próprio caminho. E apesar de eu poder nunca mais ter sucesso deste modo, estou convencida de que falharia totalmente de qualquer outro."

?” Jane Austen.

Meu nome é Elouise Courtney Blackrun e sou uma vampira. Canterbury tem sido um lugar suficiente pra passar parte da eternidade que fui forçada a aceitar. Estou aqui há mais de quatrocentos anos, depois de ter nascido em Londres, ter ido a bailes e sonhado em me casar com alguém de boa família, como todas as garotas do século XVII.

Cada dia que passa aqui tento entender a minha própria existência, a minha própria natureza. Não sei onde está minha família, nem onde posso começar a procurá-la. Mas talvez esse seja um início que não posso ter ou talvez eles tenham apenas não ter sobrevivido a transformação. Talvez seja só eu agora.

Mellody Denvers têm sido a única amiga que tenho: uma bruxa. Mel é a única que confio, pois, sua família cuidou de mim quando minha vida imortal começou a existir. Sua avó e sua mãe, foram o meu auxílio o tempo todo, mesmo que os vampiros, na maioria das vezes, não se dessem tão bem com os manipuladores da natureza e do poder. Nem sempre estivemos bem com os bruxos.

Sou uma abominação da natureza, embora ainda tenha alguns que me amam apesar da minha essência vampiresca. Em tudo isso, é evidente que cada passo que dou, cada respiração que não flui mais em minhas narinas, cada lugar que vou, cada vez que olho para uma veia sanguínea humana e sinto sede, mas me controlo, cada vez que me alimento de outros animais para que não machuque a espécie que um dia fui. Em cada uma dessas vezes, algumas citadas em pequena escala, outras citadas em grande frequência. Fica evidente que sou o pior ser que já existiu, mas posso tentar ser a melhor cobaia para testar os próprios limites de bondade.



"Oi, você ligou para a Mellody, por favor deixe um recado e lembre que sou uma bruxa"

"Oi, Mel, é a Ellie, preciso falar com você. Descobri algo sobre o ritual dos Alfws. Me liga."

Há tempos, enfrentamos grandes conflitos com o outro clã de vampiros, que se denominam como Alfws. São uma espécie de imortais que se alimentam de sangue humano sem piedade e não conservam nenhum fragmento de humanidade em si. Os Alfws têm feito grande estrago por onde passou, ao longo dos séculos, mas graças a um acordo que o meu clã realizou com eles, os sanguinários ficaram com uma extensão limitada de onde poderiam se alimentar de sangue inocente.

Após sair para caçar na floresta próxima à minha casa, começo a andar devagar e me sento perto de uma árvore para sugar o sangue de um coelho que consegui capturar. Algum tempo se passa e, mesmo que eu não esteja totalmente satisfeita, me levanto para ir embora, sinto uma presença entre as árvores e apuro os ouvidos conseguindo captar barulhos fracos nas folhas que estão caídas pela floresta. Vou em direção ao ruído, para checar quem está aqui e me assusto.

Alfw. Um caçador.

Caçadores são como corvos sedentos por carne morta e podre. Sempre estão atrás de algo que possa saciar sua fome e sede por poder, são capazes de qualquer coisa para consegui-las. E como todos no meu clã não vivem próximos como os Alfw, não sei sobre eles muito mais do que o nosso líder conta quando convoca todos para reuniões de emergência.

Mas como sempre foi o alvo deles em todos os séculos em que permaneceram famintos por mais poder. Tenho certeza que estão atrás da Coroa de Sangue — taça de ouro sagrada para feitiços poderosos — que por algum motivo está sob minha guarda de segurança. O que suponho, esteja comigo pela total confiança que o meu clã tem em mim.

Olho para o Alfw.

— Eu iria embora daqui se fosse você. Não quero matá-lo. — digo friamente.

— Quero apenas a taça de ouro, Eghy.

Ele me chama pelo nome do meu clã.

— Não há tempo para essa conversa, Alfw.

Com uma velocidade surpreendente me movo em distância de sete passos até ficar próxima a ele o suficiente para colocar a mão dentro de seu peito e arrancar seu coração com apenas um movimento, fazendo seu corpo murchar e ficar arroxeado pouco antes dele cair imóvel sobre o solo coberto de folhas. Como não posso perder mais tempo escondendo seu corpo, apenas o coloco apoiado em uma árvore.

Suspiro cansada e volto para casa, entrando no meu carro para ir até a casa de Mellody.

Certamente foi um erro matá-lo, pois virão atrás de todos os que são próximos a mim, mas se não fosse ele a estar morto seria eu.



Ao chegar na casa de Mel, bato na porta e entro logo depois dela abrir com uma expressão preocupada.

— Me desculpe, meu celular estava desligado, mas acabei de ver sua mensagem. O que descobriu sobre o ritual? — ela diz quando estamos sentadas no sofá de sua pequena sala.

— O ritual de poder dos Alfws. Estão novamente atrás da Coroa de Sangue.

A encaro e me levanto do sofá.

— Matei um deles na floresta. — Digo olhando pela janela.

— Elouise! Sabe que virão atrás de todos que tiverem ligação com você, não é? Vão vir para uma guerra e até lá, como você disse, talvez já tenham tudo o que precisam para o ritual que eles tanto insistem em criar.

— Não tive escolha. Não posso entregar aquela taça e não podia ter morrido. Ele com certeza me mataria ou ao menos tentaria me matar, depois de conseguir as informações que precisasse. E de qualquer modo, talvez ele nem seja tão importante para o próprio clã. Você sabe que vários dos vampiros Alfw são localizadores, caçadores como eu. — Digo voltando as costas para a janela, olhando agora para Mellody.

— Seja como for, precisamos nos preparar para isso. Convoque o seu clã, chame amigos sobrenaturais confiáveis. Tentarei convencer as bruxas da Virgínia a virem nos ajudar e tentarei a ajuda de alguns lobisomens também. Todos os reforços possíveis serão bem vindos.

Assinto para ela e vou até o sofá novamente, me deixando cair sobre o acolchoado.

— É muito mais do que já enfrentamos? Acho que não.

Fecho os olhos e tento clarear os pensamentos em relação a tudo isso. Talvez possamos lidar.