Um Reino de Monstros Vol. 4
18 Capítulo 4: A proporção de um milagre - Parte 2
Não demoraram muito a iniciar os primeiros ataques. As duplas se separaram, mantendo uma distância respeitável de um para um.
Vulcanitro olhava de soslaio àquela garota o rondando. Em nenhum momento ele se sentiu intimidado. Era um dos mais poderosos elementais do fogo. A salamandra que tinha o poder de evaporar as águas de uma nação inteira com o seu poder, estava ali em frente a uma jovem munida com apenas um punhal.
Rosicler estudava o seu inimigo como uma predadora voraz. Tentava encontrar uma fraqueza naquela sobrepele de brasas ardentes.
A salamandra tinha um corpo reptiliano, com garras e uma barbatana de chamas.
O calor incomodava, combater a longa distância seria a solução. A gatuna tinha duas bolsas de couro atadas a cintura. Dentro delas, variadas porções dadas por Letícia. A alfonsina, dias antes da batalha, produziu várias poções. Porém, devido à gravidade do conflito, as cedeu a ladina. Ela com certeza saberia fazer bom uso.
— Eu, general Vulcanitro, me sinto ofendido de ter que lutar com uma reles fedelha.
— Oh, o cara aí! O seu hálito cheira a enxofre.
A provocação foi o suficiente para esboçar uma reação do monstro. Ele juntou as garras na altura do abdome, curvou-se. Dentro do espaço entre as mãos, uma tocha se formou, cresceu e se tornou uma esfera de chamas poderosas.
— Eu vou incinerar você, sua vadia!
Merda!
— Bola de Fogo.
O salamandra lançou a conjuração na direção de Rosicler. Saltando para trás, ela conseguiu desviar do ataque. A bola explodiu na areia, criando uma cortina de poeira.
Quando a poeira se dissipou, Rosicler apareceu de costas. Empinou o bumbum e deu dois tapas nele. Para completar a provocação, ela abaixou a cabeça entre as pernas e deu língua e dedo ao monstro.
O general ardeu em chamas. Aquilo era humilhante demais para ele.
— Ótimo, vamos ver se escapa dessa agora: Granadeiro de Fogo!
E criando uma esfera de chamas em cada ponta dos dedos, ele continuou a atacar sem parar. Estava em estado de fúria. Dez bolas de fogo lançadas ao mesmo tempo. A gatuna conseguiu desviar de todas.
Isso provocou ainda mais a fúria de seu oponente. Não podendo atingi-la a distância, ele resolveu usar a sua conjuração mais poderosa.
— Sua verme inútil, vou fritá-la como um pedaço de toucinho!
Vulcanitro flexionou os joelhos e passou a rugir de modo estrondoso. Os grânulos de areia subiam e se transformavam em vidro devido ao calor. O ar em volta ficou sufocante.
— Essa é a minha conjuração mais poderosa, Alma de Fogo. Eu vou derretê-la.
Rosicler começou a sentir a sua pele ressecar. Estava desidratando. Era uma magia divina poderosa que impedia a aproximação, mas que também impossibilitava ataques a distância. Quaisquer facas arremessadas naquelas escamas de fogo derreteriam.
Entretanto, para que houvesse efeito, era necessário que o monstro ficasse parado. Concentrando a expansão das chamas no seu entorno.
— Você está precisando esfriar a cabeça!
Trinc, Vulcanitro foi atingido por um vidrilho globular. E na parte atingida, a sua pele de fogo diminuiu a intensidade das chamas. O monstro ficou impressionado, era gelo instantâneo.
— O que é isso?
— Porção Blizzard, eu chamo de “nevasca em pó”.
E jogou outra, dessa vez, no rosto do oponente. Ele rugiu de dor. A ladra continuou a jogar. O adversário intensificou as chama, mas a porção era concentrada. A luta durou por alguns minutos, até que todo o corpo do inimigo havia sido atingido. Rosicler virou-se. Vulcanitro gritou para que ela não lhe desse as costas:
— Foi mal veio, não falo com gente derrotada não, morou?
— Shashashas, você é estúpida ou o quê? Eu vou...
Tlinzsh, o corpo dele começou a rachar de cima a baixo. As chamas se extinguiram por completo. Sua pele, antes de um vermelho-vivo, foi ficando cinzenta como cimento.
— O que você fez comigo?
— Eu não, a porção. Você sofreu um grande choque térmico. Agora o que tu tá sentindo se chama psicroalgia, mano. É dor de frio, tá ligado? Relaxa, vai doer mais em tu do que em mim mesmo...
Tomp, o corpo de Vulcanitro foi adquirindo uma camada de gelo espesso e rijo. Primeiro começou nas pernas, que tremiam. Depois o gelo foi tomando todo o restante do corpo até transformá-lo numa estátua glacial.
***
O vento do deserto agitava as capas dos dois conjuradores. Ambos se entreolhavam furiosos. Saragat sabia que Zarastu tinha uma vantagem sobre ele: conjuradores não tinham domínio de energia mágica.
O rei dos monstros se tornou arquimago desde muito cedo. Foi discípulo do Mago Dourado. Era um oponente formidável. Mas já não era tempo de admirar o inimigo. A única coisa que o servo de Nalab desejava saber era como um antigo herói havia se tornado o conjurador dos monstros.
Como ele pode abraçar a existência daquilo que odiava? Isso não faz sentido...
— Saragat, as suas habilidades seriam úteis a Horda.
— Jamais me rebaixaria a essa posição como você fez, Zarastu. O que aconteceu pra você se tornar isso? Não sente vergonha?
— Não seja paternalista, seu mago divino de araque. Uhohohohoho, a humanidade estava perdida desde que os Deuses Virtuosos imbecis consentiram que herdássemos a Terra. Foi um erro crasso. Você acha realmente que homens e monstros são diferentes? Olhe para dentro de você mesmo. Seu coração está cheio de medo, ódio e cobiça, é isso que move o mundo. A confiança e a liberdade são ilusões criadas pelo espírito humano...
— Isso parece filosofia de porta de taverna.
— Você defende a humanidade que te fere. Serve a uma deusa que não se importa com os humanos. Se os deuses realmente se importassem conosco, não haveria guerras, desigualdade, fome ou doenças. Entretanto, todas as noites eles exigem orações, e nas festas: sacrifícios e rituais inúteis. Sinto pena de você, Saragat.
— O sentimento é recíproco.
***
Tlanz, as lâminas se chocaram com força, fazendo com que o impacto fizesse a areia se dispersar. Com o girar da lança, Rachid desfez uma duna. O oponente trotou de lado. Pesquisou àquela técnica tão perfeita e poderosa.
Íons era o melhor lanceiro da Horda. Graças a sua maestria, conseguiu o posto de líder da Cavalaria da Horda, anexada ao Batalhão Furioso. Ele era o centauro de confiança de Sirius. Aquele combate o estava excitando. Era a primeira vez que enfrentava um usuário da Lâmina Astral. O resultado estava sendo incrível.
O príncipe manuseava muito bem a sua arma. Um exímio lutador na concepção do monstro.
— Tenho que admitir, você é bom em lutar com esse espeto.
— Para um reles pangaré, você luta bem.
— Vamos, maldito oasiano, vamos ver quem é o melhor lanceiro dentre nós. Tropel Cabalístico da Morte.
Riscando a areia com as patas dianteiras, o centauro avançou em direção ao alfaraz com extrema velocidade. A lança em riste, mirando o peito do inimigo.
Era tanta energia divina concentrada na lança, que a energia aumentou o tamanho da lâmina. A energia divina de Enug formou a face de uma caveira na ponta da lança. A conjuração aumentou a velocidade do monstro.
— Morra, Rachid al Názir!
— Não, hoje é a sua morte!
O choque foi tremendo. O guerreiro se defendeu do ataque com o Escudo da Lua Minguante. Uma grande massa de ar foi deslocada, lançando uma cortina de areia no ar. Quando a poeira baixou, Rachid estava de pé. Íons estava há alguns metros dele. O centauro parou a marcha e se pôs de frente para o inimigo.
Rachid percebeu que o ombro de sua armadura estava rachado.
É a primeira vez que o Escudo da Lua Minguante é trespassado! Meu adversário é formidável.
— Estás pensando que irá me derrotar? Eu sou Íons, o mais poderoso lanceiro da Horda...
— Esse discurso é para ocultar o seu medo? Veja, as suas patas estão tremendo!
Maldição! Como ele sabe que fui atingido?
— Como ousa?
— À moda oasiana, ousando!
Mais uma vez os oponentes se prepararam para o ataque. Rachid assumiu uma postura de luta diferente da anterior. O capitão tinha um ferimento no anterior da coxa, a defesa alfaraz projetava a força do inimigo contra ele mesmo, por isso era considerada uma grande defesa.
Provavelmente não irá se defender dessa vez, pouco importa, dessa vez irei cravar a lança no seu peito, humano imundo!
O centauro ciscou a areia escaldante do deserto. Aquelas areias eram testemunhas de muitas guerras, muito sangue clamava ali embaixo.
Rachid sentia ecos ancestrais. Sua alma estava revigorada, a vontade de vencer calava o estresse comum ao campo de batalha. E ele agora tinha companheiros. Quatro pessoas distintas dispostas a derrotar um inimigo em comum, Zarastu, há poucos metros dali.
O oasiano concentrou a sua aura na lança, dessa vez não seria atacado.
— Morra, Rachid al Názir.
— Aqui nessa terra, nós é que montamos em cavalos!
— Tropel Cabalístico da Morte.
Rachid flexionou os joelhos, girou a lança na lateral e depois jogou a lâmina para trás.
A ponta da lança foi adquirindo um brilho prateado. Aumentando de tamanho. O alfaraz segurou a arma com decisão e esperou o momento adequado. E o momento chegou:
— Corte da Lua Nova.
Splanzinnnn, um chiado metálico e agudo ecoou no ar. O feixe prateado deixou a lâmina e foi em direção ao centauro com extrema rapidez.
Íons foi atingido em cheio. Caiu ao chão, embolou por alguns metros adiante de Rachid. O lanceiro o observou verter sangue pelas feridas. Com um único golpe, o alfaraz arrancou todas as suas patas!
— Belo golpe, maldito alfaraz... cof, eu cof-cof, nunca imaginei que seria derrotado... cof, assim...
— Sempre há uma primeira vez para tudo, meu caro pangaré!
— Como, cof-cof, conseguiu?
— No seu galope, você costuma levantar as quatro patas do chão. Ocorre numa fração de segundos, mas os meus olhos treinados perceberam. Foi só uma questão de esperar a hora certa.
Rachid deu as costas. Mas mesmo impossibilitado de galopar, o capitão ainda tinha os braços, podendo o lancetar quando quisesse.
— Não vire cof, as costas para mim Rachid al Názir, cof-cof, seu alfaraz imundo...
O príncipe apenas se desviou do ataque, evitando revidar golpear o moribundo.
— Como diria um adágio da minha terra: “É inútil falar com os mortos”.
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