Um Reino de Monstros Vol. 2

27 Epílogo: Retomando a estrada...


Parte 1

A reunião com o Barão de Alfonsim seria feita a portas fechadas. Saragat, ainda convalescendo, e os seus outros dois companheiros não foram convocados.

O pretexto alegado é que ela era feita para reestruturar o exército local, mas havia algo mais. Quando Azambuja apareceu na mesma reunião, e com a condecoração de comandante-geral, a alquimista Letícia percebeu que a sua desconfiança tinha motivos de sobra.

Embora ela manifestasse o desejo de estar junto da companhia estruturada para purificar os humanos, ela iria pelos interesses militares de seu baronato.

— Entre e sente-se, minha cara alquimista. Eu a destituí de sua posição como comandante-geral. Espero que não fique chateada.

— De maneira alguma, Vossa Alteza. Alguém tão capacitado quanto a mim estará à frente da Real Força Espagíria a partir de agora.

— General-brigadeiro Letícia, eu farei jus a esta posição, é bom revê-la.

— É bom te ver também. Parece que vamos nos separar de novo por um bom tempo.

— Não se preocupe, sempre terá para onde voltar.

Ambos fizeram continência, e o Barão de Alfonsim, comovido, pediu:

— Ora, abracem-se logo!

E como era uma grande falta desobedecer ao nobre, eles se abraçaram. Azambuja saiu pela porta da sala do trono e a militar limpou a lágrima que teimava em cair.

— General-brigadeiro Letícia, eu sei que é duro se separar de seu irmão mais novo agora. Mas como um comandante-geral, a segurança dele está mais do que garantida. Sua partida terá um bom motivo, creio até que há algum interesse seu em acompanhar a companhia, não é?

— Oh, sim. Ainda estava em dúvida se permitiriam. Vossa Alteza, eu gostaria antes de agradecer o seu favor. Eu recebi vossa carta pela manhã nos dando folga para que pudéssemos usufruir desse reencontro.

— Sim, seria cruel não permitir que dois irmãos separados durante tanto tempo não pudessem gozar deste momento de reencontro.

Ela fez uma gesta e ele agradeceu com um aceno de seu cetro de marfim.

— General-brigadeiro Letícia, nós precisamos de olhos e ouvidos confiáveis nessa companhia, e os alquimistas são reconhecidos pela prudência com que trabalham. Tell é apenas um garoto e já possui muitas responsabilidades. Os seus acompanhantes são um “estranho conjurador” e uma “gatuna”, não é um grupo que exale muita confiança?

A alquimista se sentiu tentada em responder, mas esperou que o nobre continuasse.

— Estou lhe dando uma ordem direta: se em algum momento você perceber que o Monstronomicom é perigoso... destrua o livro, está entendido?

Letícia ficou sobressaltada. Aquela era uma ordem extrema, vinda do próprio barão, e que deveria seguir à risca. O Barão de Alfonsim repetiu com mais êxito:

— Você entendeu, general-brigadeiro Letícia?

— Sim, Vossa Alteza.

Parte 2

Acomodados num restaurante localizado no bairro mais boêmio de Alfonsim, o grupo de heróis usufruía da brisa que soprava pelo aconchegante bulevar.

Um menestrel errante recitava uma epopeia da Primeira Grande Guerra. Após concluir, ele retirou aplausos e algumas peças de Ouros dos clientes do restaurante.

As mesas postas na larga calçada da rua arborizada estavam ocupadas pelos irmãos Dumont, Tell, Index, Saragat e Rosicler. Acertavam os últimos detalhes para a partida.

— Ah, Rosicler, eu preciso que devolva os documentos e a insígnia que nossos militares extraíram do QG dos monstros.

— Sem problema, já tenho tudo que preciso.

A ladina devolveu os documentos e o anel a militar que prontamente entregou ao irmão.

— Perdoe-me, senhorita Cochrane, mas em que esses documentos lhe foram úteis?

Azambuja estava curioso em saber, os documentos eram uma série de relatos comerciais e ofícios expedidos pelas Almas de Rapina nos últimos dois anos.

— Acreditem em mim, eles me serviram bastante, seu Aza. Saca só!

E pondo na mesa quatro documentos, ela mostrou o resultado de seu trabalho.

— Documentos falsos?!

Saragat gritara tão alto que chamara a atenção dos outros clientes. Mais contido ele disse:

— O que faremos com isso? Aliás, que golpe você tá planejando dessa vez, hein?

— Não tem golpe nenhum, morcegão. Imagine que andar sempre por estradas secundárias ou improvisadas podem atrasar a nossa viagem. Precisamos ser mais rápidos se quisermos cumprir a nossa missão, sacou? Com esses documentos, nós poderemos atravessar esse mundão como se fôssemos fiéis de Enug. Entendeu ou quer que eu desenhe?

Azambuja pegou a mão da ladra, e se pôs a beijá-la de modo galanteador.

— Muito inteligente de sua parte, senhorita Cochrane.

— Hihihi, por que você não me trata como o nosso cavaleiro Aza, senhor Saragat?

— Eh, vai nessa, Aza. Quem não te conheci que te compre, Rosicler.

A alquimista revirou os olhos e abriu um mapa-múndi na mesa. Lá, todo o continente de Lashra podia ser vista. Index pousou em cima e surpreendeu-se com as suas proporções.

— Não sabia que esse mundo era tão grandão assim!

— Saí daí, seu infeliz.

Com uma cajadada, o conjurador fez o ser ficar como uma sanfona, e o removeu da mesa com uma mão. Index caiu no chão amaldiçoando o mascarado.

— Hanhan, bem, continuando, para aonde nós vamos?

Nesse momento, um debate acalorado ocorreu. Todos tinham uma sugestão. Só Tell não falara nada. Embora lhe perguntassem, ele não tomara partido de nenhum deles.

— Tell, você não vai dizer nada?

Calado estava, calado ficou. Ele estava cabisbaixo, nem mesmo tocara na comida.

— Eu sei por que ele está assim.

Todos se voltaram para o Guardião do Monstronomicom. Ele escalou a mesa com os braços roliços. No seu olho esquerdo havia um enorme hematoma.

— O sabre de Tell está praticamente inutilizado. Na luta contra o DEM, ele aplicou energia mágica continuamente na lâmina e a pressionou até o compartimento que continha a Pedra Filosofal ser destruído. Foi demais para o simples aço flandino.

— Puxa, é uma pena Tell. Se eu não me engano, aquele sabre foi presente de Clapeyron.

— Não, tudo bem. Eu acho que poderei consertá-lo.

— Bem, reconstruir uma espada custa dinheiro. Quanto você tem, Tell?

Respondendo à pergunta da alquimista, o garoto tirou a sua bolsa e despejou o seu conteúdo na mesa. Havia cerca de cinco peças de Ouros, essa era toda a sua economia.

— Isso não dá nem pra pagar o seu jantar, seu idiota!

Saragat pegou o desanimado Lisliboux pela gola da camisa, e vendo que o mesmo não correspondia as suas provocações, o largou.

— Espere, tem um lugar que você poderá até adquirir uma nova espada sem precisar gastar tanto.

— É o lugar que eu estou pensando, maninho Aza?

— É sim, Letícia. Na Federação de Comércio do Norte você encontrará os melhores armeiros de Lashra. Eles são especialistas em todos os tipos de armas brancas, e como a FCN fica encravada no meio da Cordilheira de Bashvaia, vocês estarão seguros.

— Bem, então já temos um lugar para ir?

Todos ergueram a mão e repousaram o dedo na parte da FCN indicada no mapa.

— À Cordilheira de Bashvaia!