Um Reino de Monstros Vol. 2

15 Capítulo 3: A Pedra Filosofal - Parte 5


Se não fosse por Index, ele teria se perdido diversas vezes. Para o filho de Taran, todas as ruas — exceto por pequeníssimos detalhes —, eram completamente iguais!

Como uma cidade planejada, com forte enfoque no desenvolvimento urbanístico, Alfonsim se tornou um polo de revolução industrial. Foi o Baronato pioneiro na fabricação e utilização de armas de fogo e uso de pólvora para fins militares.

Apesar de metade da cidade estar sob comando das Almas de Rapina, nenhum cidadão havia se juntado aos monstros, ao menos, não que soubessem.

— Puxa! Eu não sabia que Alfonsim era uma cidade tão bonita.

— Não, Tell, por aqui.

— Aqui, onde?

Bluogh, o estômago do guardião respondeu prontamente. A criatura alada planou vorazmente em cima de uma barraca de comida. Apesar da improvisação, a vida cotidiana continuava a mesma em Alfonsim. O garoto checou as suas economias para ter certeza de que podia comer.

— Dois pratos são seis peças de Ouros, meu jovem.

— Ah não, só o meu amigo aqui vai comer. Ele fica com fome quando está ansioso.

O velho atrás do balcão coçou a cabeça calva e imaginou que estranha espécie de animal seria aquela. A criatura esfomeada chamava atenção por onde passava.

Era um ser ovular que tinha orelhas como asas e que falava como um ser humano. Seu dorso era cheio de caracteres em relevo escuro. Entretanto, para o seu bem, ninguém até aquele momento o havia considerado perigoso, por isso ele ainda continuava vivo.

O mago-espadachim olhou a sua volta, as casas pareciam num processo de reconstrução constante. Durante os três dias que esteve perambulando pela cidade, o Lisliboux percebeu que todos os dias uma reforma estava sendo feita numa casa.

— Anh, senhor, desculpe perguntar, mas algo aqui me chamou a atenção. Estou já há algum tempo na cidade, e eu percebi que os pedreiros e carpinteiros todos os dias trabalham construindo uma casa. Os ataques da Horda continuam tão incessantes assim?

— Ah não, não, não, creio que deva ser realmente um turista desavisado. Aqui é Alfonsim, meu jovem, “a cidade em que todo dia explode uma casa”.

O garoto e a criatura se entreolharam confusos. O velhote sorriu e continuou:

— Nestas terras, os alquimistas estudam e produzem muitas fórmulas e elixires. E até eles saberem as dosagens corretas dos ingredientes, podem ocorrer, “alguns acidentes”.

— Alquimia parece muito perigosa, aliás, Alfonsim parece muito perigosa!

Index tremia todo. Tell o pegou e o aproximou do seu peito, lugar onde ele se aninhou. O senhor de cabelos grisalhos continuou os seus afazeres enquanto conversava.

— É verdade, não deixa de ser. Quando as Almas de Rapina chegaram aqui, ela levou tempo para subjugar à nossa defesa. Mas quando o fez, tomou controle de grande parte da cidade e agora estamos aqui, encurralados. Todos os dias os obituários relatam mais mortes de nossos brilhantes alquimistas, e agora tivemos uma traição, ora essa!

O homem parou de encerar o balcão e enxugou a testa. Parecia nervoso e cansado, mais para aquele do que para este. Ele apontou para um quadro. De onde estava, ele e o Lisliboux podiam ver a foto de um jovem bem-apessoado ao lado da esposa. Uma lágrima caiu no balcão, o dono da barraca logo a limpou. O garoto ficou em silêncio.

— O meu filho disse que daria a vida para o Conde Verdramungo, que ele o seguiria até o inferno se fosse preciso. E agora o sacrifício da vida do meu filho foi em vão! Como pai eu não posso aceitar isso. Quantos mais terão que morrer para nos vermos livre destas... aberrações, todos eles merecem a morte.

Terminando de falar com o seu tom rancoroso, o homem cuspiu no chão. O mago-espadachim, entendendo e sentindo da dor do velhote, resolveu contar sobre o Monstronomicom.

— Não fique assim, senhor. Os monstros poderão ser derrotados...

— Cale-se, meu jovem! Nem mesmo o maior de todos os magos, aquele que conhecia todas as artes mágicas e selou um deus não conseguiu dar fim a esta praga, como você pode dizer que os monstros podem deixar de existir, ainda não inventaram esse passe de mágica.

— Bem, na verdade, sem querer ofender, esse “passe de mágica” já existe!

O velhote alisou o bigode crespo e bateu com os punhos em cima do balcão.

— Você está tripudiando da minha dor?

— Não, de maneira nenhuma, eu...

— Eu mesmo vi o meu filho sendo arrancado de sua terra natal e levado para além de Alfonsim, depois disso eu nunca mais o vi, e sabe por quê? A Resistência é um fiasco, uma farsa, uma mentira bem ou mal contada, isso vai depender de quem ouve. Mas eu não posso admitir que um moleque xereta como você me trate como se eu fosse um idiota, pague a conta e te manda! Leve esse morcego-branco com você!

— Mas que grosseirão!

A criatura alada apertou as suas mãozinhas e preparou um soco com os braços balofos. O garoto o impediu de voar.

O velho virou as costas e começou a lavar a escassa louça de seu estabelecimento.

O mago-espadachim pôs as três peças de Ouros no balcão e falou:

— Os monstros podem sim ser derrotados, e nós somos testemunhas de que isso é verdade.

— Vai querer me dizer que além de ingênuo você é mentiroso?

— Ah, me deixa pegar ele, Tell, me deixe pegar ele...

— Não, Index. É comum que pessoas sem esperança não costumem ver a verdade. Eu sou Tell de Lisliboux, sou um dos enviados de Flande. A Resistência continua ativa e operando com uma capacidade ainda maior. O Baronato de Flande já foi liberto, e agora é a vez de Alfonsim. Seu filho não foi morto ou levado embora, ele pode ter sido transformado em um monstro, nós podemos purificá-lo e...

Nessas últimas palavras, o velho começou uma gargalhada cacarejante e tremia o corpo convulsionando para frente e para trás. Havia um tanto de loucura e cinismo em sua ironia. Depois ele se virou para o garoto enxugando uma lágrima da bochecha.

— Então quer dizer que você também acredita nessa de que monstros se transformam em humanos? Que piada garoto. Não seja estúpido, isso foi só uma lorota que o tal de Taala lançou antes de fugir do combate...

Nesse momento, o mago-espadachim mudou a sua expressão. Manteve uma postura rija. O seu semblante estava furioso. Tão feroz estava que o velhote recuou para trás. Até mesmo Index não o reconheceu naquele momento, ele estava nervoso a ponto de quebrar aquele balcão lançando uma de suas magias.

— Retire o que disse!

— O quê? Ah, sai daí garoto. Parece que Taala ainda tem fãs...

— RETIRE O QUE DISSE, JÁ!

Apenas com a concentração de sua energia mágica, Tell criou um vórtice ao seu redor. O homem foi lançado para trás, a barraca começou a chacoalhar devido à emanação de sua energia. O filho de Taran debulhava lágrimas, os dentes rangiam fazendo um som rascante.

— O meu avô lutou durante anos para proteger a humanidade. Lashra deve muito a ele, e o que meu avô recebe em troca? Nada mais do que críticas e piadas. O que o senhor fez em prol do seu Baronato? Nada, ninguém fez nada. Eu perdi os meus pais, perdi meu avô, e agora o senhor quer que eu perca a esperança também? Retire o que disse, agora!

O velho, protegendo o rosto encovado com as mãos rotas, disse balbuciante:

— Perdão, perdoe-me, pare, já chega ou vou perder o meu ganha-pão.

O jovem parou. Mesmo assim os seus ombros continuaram a mover-se para cima e para baixo. Depois disso ele saiu a correr pelas ruas, as pessoas olhavam para ele com piedade. O guardião ainda voou atrás dele, tentando alcançá-lo sem sucesso.

O velho respirou fundo. Por um momento, teve medo do garoto. Havia um ódio queimando no fundo dos seus olhos. Por sorte, aquilo havia acontecido num momento de pouco movimento. O velhote então foi até o fundo da barraca, pegou um telemago portátil do tamanho de um brinco e iniciou uma transmissão de voz para a tenente Cora.

— Tenente Cora, peço perdão por não ter trazido informes mais rápidos...

— Desembuche logo, seu inútil, não temos o dia todo.

A ideia de fazer dos pequenos comerciantes espiões das Almas de Rapina foi da strix. À reunião de pessoas nesses estabelecimentos fazia deles um lugar perfeito para se obter informações. Através de sequestro e suborno, o monstro conseguiu o que tanto queria.

— H-hoje eu conheci Tell. Ele parece uma criança poderosa.

— E o livro, você viu o livro?

— Não, minha senhora, mas ele estava andando ao lado de uma estranha criatura alada.

— Esse deve ser o tal do Index, o Guardião do Monstronomicom. Mas alguém estava com ele?

— Não, estava só com o “Index”.

— Significa que o grupo cujo Flande enviou não é tão coeso como se supunha. Continue me informando ou eu o matarei, ouviu?

O homem fez que sim com a cabeça, e tremelicando suas mãos, o velho encerrou a transmissão para não despertar suspeitas. Um grupo de carpinteiros chegou à barraca de comida e sentaram-se no balcão. Eles fizeram os seus pedidos, animados, nenhum deles podia suspeitar o que se passara ali.