Um Príncipe em Cinquenta Tons
34 Capítulo 34
Notas iniciais
“– Christian? – era a voz de Aron. Ela vinha de algum lugar que ele não sabia. Confuso e assustado, ele apenas disse:
— Aron?”
— Christian, acorde!
— O quê?
— CHRISTIAN, ACORDE!”
…
Ele entreabriu os olhos, e de imediato sentiu uma dor excruciante do lado esquerdo do seu rosto. Era uma dor terrível, sentia-se como se parte do seu rosto tivesse se partido e que seu crânio também. Toda a região de sua cabeça doía. Mas não era apenas nela onde estava a dor. Todo o seu corpo também. O príncipe tentou lembrar-se o que aconteceu e descobrir onde está, demorou um pouco.
E então tudo veio.
O mascarado.
A perseguição.
A Floresta Negra.
O golpe.
Como pôde ser tão burro? Estava mais que obvio que tudo àquilo não passava de um plano arquitetado pelo próprio demônio e ele apenas seguiu para o inferno. Ele sempre estava a um passo a frente. E pra isso, só podia ser alguém próximo. Estremeceu. Era alguém próximo, tão próximo que sabia de seus passos, sabia de tudo. Até mesmo que ele estaria cavalgando pela floresta mesmo sem ter dito a ninguém. Era ainda pior do que ele imaginava. Essa constatação o apavorava. Lembrou-se de seus pais, seu irmão, sua cunhada grávida, sua prima e sua amada. Eles podiam estar correndo risco de vida.
Estremeceu outra vez.
Saíra do castelo tão perdido, e agora se dava conta que foi um erro deixar para trás as pessoas que o ama. Por mais que seus pais tenham errado, eram seus pais e isso nunca mudaria, afinal, quem não comete erros?
O príncipe Christian tentou se concentrar, mas havia um turbilhão de dúvidas em sua mente e para completar tinha a terrível dor que parecia piorar cada vez mais. Suas pálpebras estavam pesadas e ele sentia seu corpo balançando lenta e levemente. Podia sentir o gosto do sangue na boca. Estava escorrendo, podia sentir isso também. Aos poucos, a fraqueza e a dor foram vencendo os poucos resquícios de sobriedade.
Sem forças, ele se deixou levar pela inconsciência novamente.
(...)
O susto foi tão grande que a princesa Anastásia não reagiu de imediato. Apenas ficou ali, ajoelhada no chão, com a boca e os olhos escancarados encarando a figura a sua frente. Não podia ser. Ela só podia estar alucinando! Nunca imaginaria encontrar Leila, para se sincera, Ana nem ao menos se lembrava dela desde sua expulsão do palácio. Não tinha nenhum interesse de sua parte que quisesse saber onde estaria ou o que estava fazendo. Nada. Absolutamente nada. E isso a perturbou. Como pôde esquecer-se de uma mulher como Leila? Que tanto a prejudicou. Mas o que mais perturbava Anastásia era a pergunta que não queria calar: o que ela estava fazendo ali?
Impulsionada, a princesa soltou um grito e se arremessou para trás, saltando sobre o corpo de Hannah, uma de suas mãos se machucará com o movimento. Seu pulso começou a doer pelo impacto causado da queda. Ainda segurando o candelabro com a outra mão, ela o apertou como se fosse uma arma, sabia que se Leila tentasse algo, Anastásia se defenderia a qualquer custo.
— O que você está fazendo aqui? – ela quis saber. Já levantada, Anastásia a encarava com determinação e um pouco temerosa. Seu corpo parecia mais frágil, seu emocional estava abalado por sensações ruins que ela desconhecia.
A mulher a sua frente não mudará quase nada, a não ser pela cicatriz no supercilio. E pela forma como estava vestida; simples. Com as poucas chamas que estava no candelabro nas mãos de Leila, Ana a observou e notou que ela estava diferente. Não exibia aquele ar de cinismo de antes. Pôde enxergar nos olhos dela a mesma determinação que Ana trazia consigo e o mesmo temor. As roupas pareciam desgastadas e sujas, diferentes das que usava, também tinha uma capa. Quais as intenções dela?
Depois de um silêncio tenso, a voz fraca e falha de Leila soou nos ouvidos de Anastásia.
— Ela está bem. – por um momento, Ana não entendeu o que ela disse, mas logo Leila apontou para o corpo de Hannah e entendeu tudo. Sentiu raiva.
— Você fez isso com ela? Você a matou? Desgraçada! O que fez com as outras?
— Não, não. Eu não matei ninguém! – ela negou veementemente sacudindo a cabeça. Pareceu assustada. – Ela está viva, Anastásia – tais palavras trouxeram a Ana um alivio sem fim, poderia se desfalecer naquele momento que ela não se importaria. –, e nós precisamos sair daqui.
Já essas palavras lhe trouxera confusão.
— Como é que é? – ela só podia estar louca! Jamais iria para lugar algum com ela! Desconhecia suas intenções, nem ao menos sabia o que ele fazia ali àquela hora. Será que têm alguma coisa a ver com o sumiço de Christian? Com a demora dos soldados? Fosse como fosse, nada a faria ir a lugar algum com ela. E se ela fosse responsável por qualquer coisa de ruim que acontecesse com alguém que ama, Anastásia não deixaria barato.
— Você corre perigo, Anastásia.
— Claro que corro, sua louca! – vociferou a princesa. Tremia muito. – O que diabos pensa que está fazendo aqui? Eu juro por Deus, Leila, se você tiver feito qualquer mau aos meus familiares, eu te mato!
— Eu já disse que não fiz nada!
— Eu não acredito em você! – gritou Ana, impaciente.
— Mas precisa acreditar em mim! – ela gritou também. – Sou sua única chance!
— Do que está falando?
— Ele está vindo, Ana – a voz de Leila tremeu ao dizer isso fazendo Anastásia sentir um arrepio no corpo como jamais sentiu. –, ele está vindo pra te pegar.
Ela não entendeu, muito menos quando seu coração disparou e a boca secou.
— Quem?
Leila engoliu em seco e em seus olhos tinha o mais puro pavor.
— Meu irmão.
(...)
As pessoas eram insignificantes e sem graça. Ele era diferente delas. Alguns viviam suas vidas sem grandes emoções e numa monotonia desprezível. Considerava-se acima de qualquer pessoa e sabia que era melhor e mais forte que qualquer um. Não sentia empatia por ninguém. Sentimentos como esses foram tirados dele quando ele era apenas uma criança e, desde então, acredita que sentimentos são inúteis... Fazem as pessoas inúteis e vulneráveis. Aprendeu muito cedo a se desapegar de qualquer coisa que gostasse, a conhecer a dor e passar a gostar dela. Não vê-la como inimiga, mas como a sua fiel companheira...
Ainda assim, quando ele pensava nela, algo diferente surgia e ele não sabia explicar. Mas ele não podia classificar como algo bom, pois nada que vinha dele, era. Era difícil controlar suas emoções e reações quando estava perto dela. Às vezes, conseguia sorrir como se fosse normal. Como se gostasse. Em outras ocasiões, conseguia sentir uma raiva absurda pelas circunstâncias. Por isso acreditava que ela o pertencia, algo de bom nela o atraia e ele gostava dessa sensação, e ao mesmo tempo odiava. Odiava tanto que mal cabia dentro de si. Então ele guardava o ódio para quem realmente merecia. Porque se deixasse seu ódio falar mais alto, ele a mataria como achou que fez quando tentou abusar dela no rio... Cego de raiva e bêbado, quase colocou tudo a perder. Todo o plano de uma vida inteira. “O descontrole é seu maior inimigo” palavras de seu avô. O homem que não mediu esforços para mostrar o quanto o desprezava e passou tal desprezo para a filha. Ambos frios, com um sofrimento grudado na alma e com uma sede de vingança que ultrapassa qualquer racionalidade.
Archer Konstantinova já estava morto.
E só restará Francesca.
Porém, ainda existia alguém, alguém de seu sangue que nasceu por um descuido de Francesca. Alguém que até então ele mantinha presa e fugiu.
Sua irmãzinha.
Leila.
Ela era uma peça descartável em sua vida, na vida de qualquer pessoa, e até hoje se pergunta por que diabos a manteve viva. Ah sim, ele sabe. Tortura. Sentia um enorme prazer em torturar, assim como fez com seu avô até o último suspiro sair dele. Archer nutria um ódio por ele que era reciproco. Ele era o espelho de todo o sofrimento daquele homem que por obra do destino, sobreviveu. Sobreviveu para alimentar o ódio e a sede de vingança. Havia perdido os movimentos das pernas e tinha o rosto desfigurado. Quando jogado ao rio com um fio de vida ainda pulsando talvez tivesse feito um pacto com o diabo para sobreviver.
Até ele o matar anos atrás.
Agora faltava mais um para sua verdadeira vingança começar.
E ele já sabia para onde ela foi.
Cavalgando sobre seu cavalo negro rumo ao castelo onde a grande rebelião estava acontecendo, ele só tinha um único pensamento:
— É hora de pegar o que me pertence.
(...)
O que Leila disse não fazia sentido. Como assim o irmão dela estava ido pegá-la? E desde quando Leila têm um irmão? Que confusão dos diabos era essa?
— Por favor, Anastásia, eu sei que não têm motivos para confiar em mim, mas eu imploro, confie!
— Você é louca...
— Pode pensar o que quiser, não me importo, mas precisa vir comigo! – ela estendeu a mão e por mais que seu rosto e sua voz denunciasse tamanha aflição, Ana não cedeu.
— Por que está fazendo isso?
— Eu já disse!
— E acha que vou acreditar? – ela riu com sarcasmo. – Você infernizou minha vida como se não bastasse a porcaria de vida que eu estava vivendo, me humilhou, me maltratou e depois tentou tirar o Christian de mim inventando uma falsa gravidez... E agora chega aqui, depois de tanto tempo, agride a Hannah e só Deus sabe o que fez com os outros, e ainda quer que eu acredite nessa história descabida de que você têm um irmão e que ele vêm atrás de mim? Acha mesmo que sou burra? – ela estava alterada, esperava que com seus gritos alguém aparecesse para ajudá-la. Mas não aconteceu.
— Você não entende, não é? – Leila não só parecia alterada como perturbada. – O que eu ganharia se fizesse algum mal a você ou a qualquer pessoa dessa família depois de ter perdido tudo o que eu mais queria, tudo o que eu tinha? Passei o inferno, Anastásia, e você nem ao menos imagina... Consegui fugir quando achei que a vida tinha acabado pra mim, e eu poderia ter ido embora daqui para nunca mais voltar, mas não, estou arriscando a minha medíocre vida pela sua segurança. E tenha certeza, que quando ele chegar, não irá poupar ninguém! – a declaração de Leila afetou Ana, viu sinceridade em suas palavras. A perturbação e o horror. Ficou curiosa sobre o que ela disse, todavia, o que mais a preocupava era ela se referir ao “irmão” que até então Anastásia desconhecia a existência.
— Eu nem ao menos sei quem ele é, seu irmão, então por que ele está vendo atrás de mim?
— Você o conhece sim, Anastásia. – afirmou Leila deixando-a confusa. – Ele é o mascarado. Ele é o Jack. – arregalando os olhos, a princesa quase foi ao chão quando seus joelhos tremeram.
(...)
O príncipe Elliot andava sendo amparado pelo soldado Luke. O general Taylor caminha à frente, conhecia bem aquelas bandas. Estavam perto da temida Floresta Negra. Há horas eles pareciam caminhar em círculos, desorientados. O príncipe Elliot tinha perdido muito sangue por causa de sua perna e conseguiu fazer pressão para conter o fluxo. Com pesar, deixaram o corpo do soldado Andrew para trás, machucados e sem um suporte, não tinham como carregá-lo de volta para dar-lhe um funeral digno. Porém, foi enterrado superficialmente, e Elliot prometeu-lhe que quando tudo fosse resolvido, mandaria buscar o corpo para ser enterrado com honras e como manda a lei.
Mas não era esse o maior de seus problemas e preocupações. Àquele lugar era sinistro e a noite parecia macabra com os raios e trovões soando no céu. Seu pai estava desaparecido, não sabia o que tinha acontecido com ele, temia pelo pior. E estava longe de casa, de sua família, sua esposa grávida que podia estar correndo perigo. Maldito seja Welch!
— Ele enganou a todos nós! – murmurou ele com desprezo. – Não vimos suas verdadeiras intenções.
Taylor bufou irritado e Luke balançou a cabeça com desgosto.
— Isso tudo é culpa minha. – diz o general. – Minha função era vigiar, e escolher apenas os melhores e os confiáveis. E um dos meus melhores soldados é um traidor, Deus, quantos mais como ele pode existir e nem ao menos percebemos?
— Todos nós temos nossa parcela de culpa, general. – diz Luke. – Andrew era como um irmão para mim... Falhamos em todos os sentidos.
— Ainda assim há coisas que não se encaixam... Aconteceram várias tragédias com minha família... Ele estava por trás de tudo isso ou teve ajuda?
— Talvez sim, talvez não — diz o general. –, até então muita coisa foi obra da natureza. Coisas relacionadas à profecia do anel encantado. Gostaria de poder acreditar na magia agora e que essas árvores e o vento pudessem me dizer onde eu falhei ou como consertar tudo isso sem morremos no meio do nada perto de um lugar tão tenebroso como esse. – ele olhou para toda a extensão medonha da Floresta Negra, era como se atraísse maldade apenas com o soprar do vento. Quando criança, ele ouviu as mais assustadoras histórias que aconteciam ali. Mas nunca parou para pensar como era morrer ali.
— Será possível que... – começou o soldado Luke Sawyer, franziu o cenho, negou com a cabeça e se calou. Um pensamento repentino surgiu, uma vaga lembrança esquecida. Coisa que imaginou ter visto e não era real. Afinal, não estava em suas melhores condições. Porém, algo dentro dele insistia para que falasse.
Ao ouvi-lo, o general parou e virou-se para ele. O príncipe Elliot também o encarou esperando que ele terminasse o que começou.
— Diga. – exigiu.
— Há alguns dias eu vi algo... Foi num dia de folga, eu vinha do Harém, mas por estar um pouco bêbado, eu não dei importância. – ele passou a mão na cabeça, seu cabelo curto está sujo de sangue. – Ele estava na Torre. Estava como todas às vezes que apareceu. Vestido de preto como a própria escuridão. Pensei que era uma ilusão e mesmo assim fui atrás... Mas quando cheguei lá... – novamente ele se calou e naquele momento arregalou os olhos como se estivesse vendo a cena à sua frente.
— O que você viu? – exigiu Elliot outra vez, apreensivo. O general se mantinha calado com os olhos fixos em Luke.
— Jack.
(...)
— Jack é seu irmão?! – exclamou a princesa, assustada, nervosa e confusa. Apesar do que Leila disse parecer esclarecedor em alguns pontos e ao mesmo tempo ser tão confuso, custou a acreditar. – Que raios está dizendo, Leila?! Isso não faz nenhum sentindo... – Anastásia pensou em todas as vezes que esteve na presença desse homem e o quão mal ele a fazia se sentir. Buscava compreender aqueles olhares frios que a arrepiavam... As atitudes estranhas e palavras secas e sem sentido. As vezes em que se sentia observada e o via na espreita. Era estranho e amedrontador.
— Eu juro que explico tudo, mas nós precisamos ir, você não entende? Temos pouco tempo! – foi nesse momento que elas ouviram um estrondo. Ambos pularam de susto.
— O que foi isso?
— Vamos embora! – insistiu Leila já sem paciência.
— Não! – gritou Ana. – Não deixarei Hannah aqui!
— Alguém virá para cuidar dela. Mas nós temos que ir agora! – gritou Leila de um jeito que fez Anastásia estremecer. Olhou para o corpo de Hannah, não podia deixa-la, Leila ainda não tinha dito o que fez com as outras. Era arriscado, perigoso. Porém, não existia outra opção. Ela estava no escuro, literalmente. Hesitante, Ana pensou se estava fazendo a coisa certa, todavia, só descobriria se arriscar. Porque se existisse uma pequena chance de salvar os seus, ela faria. Então ela seguiu pelo corredor com Leila.
— Você têm muito que me explicar. – diz ela. Já estavam descendo as escadas, a cada passo Ana sentia suas pernas tremerem, o medo de cair e se machucar por causa do escuro e ainda tinha a dor no seu pulso. A apreensão comprimia seu peito, preocupada com todos e com sua própria segurança. – O que você fez com as outras?
— Elas estão bem. Eu juro. Estão em um lugar seguro.
— Como assim? – Leila virou-se para ela, seus olhos fixos em Ana. – Há uma entrada secreta na biblioteca onde poucos conhecem a existência. Sei porque era dama de honra da rainha, elas estão lá. Hannah será levada para lá, não se preocupe. – Ana desconhecia tal entrada secreta.
— Por quem?
— Um dos soldados do castelo. – Anastásia franziu o cenho.
— Quero vê-las! Quero ter certeza do que está dizendo.
— Não pode! Não dá tempo!
— Preciso ter certeza! – insistiu Anastásia firme. Precisava ver para crer. Precisava de uma luz que acalmasse seu coração, acreditar que não estava caindo em uma cilada e abandonando os seus.
— Olha, têm todos os motivos para desconfiar de mim, mas estou sendo sincera como jamais fui um dia. E estou tentando fazer o certo pelo menos uma vez na vida. Porém, precisa colaborar comigo, não posso ajudá-la se não me ajudar também.
Ana balançou a cabeça e comprimiu os lábios, elas ainda ouvem os barulhos lá fora, parece que estão tentando abrir os portões do palácio à força. Toda a situação estava ficando tensa e assustadora. O que será que acontecia lá fora?
— Tome, pegue – Leila puxou um punhal preso debaixo de suas vestes e estendeu a Anastásia, que a encarou desconfiada. – É a única arma que tenho, estou lhe dando como prova de confiança. — sem hesitar, Ana o pegou.
Ela o analisou por um momento, então fixou seus olhos azuis tão diferentes dos azuis brilhantes de antes, agora negros de determinação, em Leila.
— Espero que esteja sendo sincera, porque se não estiver, não sentirei remorso em usá-lo em você. – ameaçou. Sua voz soou assustadora até para ela mesma. Leila apenas acenou seriamente.
Elas correram para fora do castelo. Tudo estava escuro, mas Ana pôde enxergar muito bem os soldados nas torres com arco e flechas e outros correndo de um lado para o outro. Se dentro do castelo estava essa zona, como estaria lá fora? Ela ouvia os gritos, cavalos seguiam para fora do castelo com seus cavaleiros armados. Logo a imagem dos seus pais lhe veio à mente, o medo a engolfou profundamente.
— Por aqui! – gritou Leila a puxando para a direção contrária.
— Aonde vamos?
— Há uma entrada secreta será mais seguro se sairmos por ela. Lá fora está uma zona de guerra. Não vai querer ver!
— Meu Deus, por que tudo isso está acontecendo?
— Faz parte do plano do Jack e da Francesca. – diz ela e Ana não entendeu nada. Não sabia nem quem era Francesca e antes que perguntasse alguma coisa, elas chegam ao local coberto por trepadeiras no muro, Leila começou a puxá-las e logo elas encontram uma brecha onde uma pedra cobria a abertura. Anastásia a ajudou a empurrá-la e logo elas saem dali e se veem diante da floresta. Estavam fora da cidade. Os muros altos e imponentes do castelo cobriam toda a área até certo ponto o que dava a elas a vantagem de não ser vista por ninguém já que ali não havia nenhum sinal de um rebelde. Após colocar a pedra no lugar, Leila pegou no braço de Ana para correrem, ela fincou os pés nos chão e disse:
— Você me deve explicações e as quero agora!
— Antes você precisa ver uma pessoa – começou Leila. –, essa pessoa me ajudou.
— Quem é?
— Ela está nos esperando. – Ana estreitou os olhos.
— Lembre-se de que estou com seu punhal. – e dito isso, ela seguiu Leila até a floresta. Ana não tinha caminhado por ali antes, aquela parte só tinha árvores e plantas altas e muito mato, sem estradas. Seguiam por uma ladeira, abaixo da ponte. Logo chegaram ao lado oposto do rio, e lá, dava para ver, ao longe, que o reino Grey estava em caos. Anastásia tentou não entrar em pânico... Era um horror! Podia ver pessoas correndo, o fogo se espelhando e pessoas no chão se contorcendo pelas chamas queimando suas peles, outras mortas... Pensou em seus pais. O coração falhou uma batida e a bile subiu tão forte que teve dificuldades em se manter em pé. Ofegou. Fechou os olhos fortemente numa tentativa de apagar aquela horrível imagem. Esperava que seus pais e José estivessem bem, acreditava que sim, pois ao se casar com um príncipe, seus pais teriam uma boa vida e segurança. Agradeceu aos céus por isso! Agora, tudo o que ela mais queria saber era onde estava Christian. Precisava dele, precisava senti-lo, ouvi-lo dizer que tudo ficaria bem... Só que seu coração dizia que algo ruim aconteceu, e a dor se intensificou.
Ela sentiu dificuldade em levar seu olhar para longe daquele cenário horrível. Caminharam por baixo da ponte, escondendo-se pelas sombras e foi quando Anastásia notou um vulto ao longe, estremeceu com a possibilidade de que fosse o mascarado vulgo Jack. Jack... Quem diria? Ela custou a acreditar, mas após rever cada situação e cada calafrio que a presença dele transmitia quando estava perto, a verdade se tornou mais clara quanto o dia. Os sinais eram claros. E, mesmo com tudo isso, ela ainda não conseguiu entender o proposito de todos aqueles acontecimentos... Meu Deus do céu! Ele matou Aron, seu amigo, seu irmão... Ele tentou abusar de seu corpo... E ainda tentou matar Christian. O ódio veio cego e sem freio, tão forte em seu ser que custou para respirar normalmente, custou manter a calma, custou segurar as lágrimas, custou sufocar o grito que queria sair... Assassino. Monstro. Maldito seja, Jack! Maldita seja sua existência!
Por um momento, ela acreditou que caíra em uma cilada armada por Leila, mas a figura nas sombras revelou-se, aproximou-se delas e Anastásia pôde reconhecer, ficou surpresa.
— Você! – a mulher tirou o capuz e sorriu cordialmente.
— Olá, Anastásia. – cumprimentou Súria.
Se antes ela estava confusa, agora ela não conseguia definir seu estado. Era coisa demais para sua cabeça, por isso ficou em silêncio, pois nada saia de sua boca.
— Sei que têm perguntas, mas antes vamos para um lugar seguro.
(...)
Alguns acreditam que seja o Apocalipse...
Talvez o fim tenha chegado antes que eles pudessem imaginar.
De uma hora para outra, os habitantes do Reino Grey se viram diante de um caos. Algumas pessoas passeavam pelas noites estreladas, uma esplendida cidade construída, e cresceu durante gerações. Foram anos para conseguir àquelas terras e transformar no que são hoje. Grandes obras históricas espelhadas ela cidade. Imponentes construções que causava orgulho aos moradores. Tratados de paz foram selados em tempos difíceis para que deixassem as pessoas, não só do Reino Grey como os outros Reinos, em segurança vivendo em harmonia e acreditando num futuro. Mas agora, anos de batalhas e trabalho árduo, estavam indo por água abaixo. Desfazendo-se como pó ao vento.
Anos para construir e minutos para destruir.
De seu posto, no alto da Torre, um dos soldados vigiava a entrada para a cidade quando viram os dois soldados que a guardava serem atacados e mortos violentamente. Os outros foram alertados e alguns seguiram em direção aos assassinos. E o que pareceu ser apenas três multiplicaram-se em muito mais... Homens por todos os lados, por todas as direções, como se estivessem entocados, apenas esperando um sinal, sugiram. Alguns carregavam tochas nas mãos e ateavam fogo para todos os lados... Casas, pessoas, e qualquer coisa que pudessem danificar. A maioria em grupo. Pessoas tentavam se defender, mas poucos conseguiam. As pessoas gritavam em pânico e ao mesmo tempo confusas para os acontecimentos. De uma noite calma e iluminada, que poderia ter terminado em conversas bobas, sorrisos bobos, tornou-se um matadouro. Os soldados já estavam nas ruas e alguns deles já tinham sido derrotados, sem seus melhores guerreiros e sem reforços, alguns temiam não conseguir deter a fúria daqueles rebeldes que se multiplicavam cada vez mais... Os soldados ainda estavam em maior número, porém a insegurança e o medo não permitiam que enxergasse a situação com clareza. Foi tudo muito rápido e todos temiam por aqueles que amam.
Quem eram? De onde vinham? Por que traziam o horror aquelas pessoas?
Gritos e mais gritos. Pessoas corriam para fora de suas casas em chamas, e para longe da multidão e dos olhos daqueles demônios. Era o inferno e estavam sendo arrastados para ele.
Mas elas nem imaginavam que o líder deles está chegando perto. O verdadeiro culpado por toda aquela devastação cruel.
O pior de todos eles.
(...)
Súria as levou para uma cabana no meio da floresta. Andaram por um bom tempo, pareceram horas. Cada vez mais o corpo de Anastásia protestava pelos esforços físicos e emocionais, e quando pensou que desabaria, chegaram.
Não havia nada de interessante naquela cabana. Assim que entraram, Anastásia avistou quatro cadeiras velhas e uma mesa, tudo escuro. Ela logo sentou. Suas pernas doíam. Seu emocional estava balado. Sentia o suor escorrer por todo seu corpo e um frio na barriga. Seu pulso tinha inchado e doía muito. E, além de tudo o que sentia, tinha uma serie de outras coisas que atormentavam sua cabeça, seu coração. O medo pelos seus, e o medo do desconhecido... Do que estava por vir. A imagem da cidade em sua cabeça, em chamas, em caos, trouxe uma enxurrada de lágrimas que ela tinha prendido até então. Pensou nos seus pais, não sabia onde e como eles estavam. Que tipo de filha não vai atrás dos pais em um momento desses? Amaldiçoou a si mesma. A saudade de Christian consumia cada célula, entretanto, o pânico era maior e travava sua garganta. Esse pânico fechava qualquer possibilidade de salvação desse terrível inferno interno e externo.
Seus soluços cada vez mais altos e desesperados, não traziam alivio. Chorou por tudo.
Suria foi até ela e passou os braços em sua volta.
— Está tudo bem, Anastásia. Estaremos seguras aqui. – diz Suria.
— Não por muito tempo. – retrucou Leila, secamente.
Demorou um tempo até Ana se recompor, Suria e Leila deixaram que ela tivesse o seu momento de desabafo. E por mais que tenha chorado tudo o que queria, não foi o suficiente para ela.
— Contem-me tudo, por favor. – pediu ela. A voz ainda tremula e falha, o choro entalado na garganta. Fez o que pôde para manter a calma, precisava de respostas.
Suria olhou para Leila pedindo com o olhar para que dissesse. Ela respirou fundo.
— Como eu te disse, sou irmã do Jack, o mascarado.
— Você já sabia disso quando morava no palácio?
— Não, soube depois que me expulsaram. – Leila puxou uma cadeira para perto de Ana e sentou-se, Suria levantou-se e foi vigiar pela janela. Atenta a escuridão a fora e a conversa. – Eu fui criada por uma tia, e desde criança ela sempre contou-me que meus pais morreram quando eu era muito novinha. Mas descobri toda a mentira quando fui sequestrada.
— Sequestrada?
Leila afirmou com a cabeça.
— Assim que a rainha me mandou embora, eu resolvi me dar por vencida, fiz burrada ao inventar a gravidez, mas não foi de fato uma invenção, porque no início achei mesmo que estivesse grávida. O amor que eu sentia pelo Christian, a ambição em me tornar rainha, ter poder, me fez cometer essa loucura quando percebi que você era a escolhida... – ela desviou o olhar. – Quando eu estava saindo da cidade, uns homens mascarados interceptaram a carruagem que me levava. Não consigo me lembrar de muita coisa, sei que recebi uma pancada muito forte no rosto, a causa dessa cicatriz no supercilio – apontou ela. –, então eu apaguei. Acordei com uma dor excruciante, horrível. Estava amarrada em uma cadeira, com uma venda nos olhos e um pano na boca. Eu nunca tinha sentido tanto medo em toda a minha vida... Tão indefesa... Por três dias, eu não vi ninguém. Traziam-me água, comida, mas eu não via e nem ouvia nada que me desse alguma pista de onde estava e com quem estava. E foi naqueles três dias, Ana, que percebi que eu não tinha ninguém que se importasse comigo. Alguém que sentiria a minha falta e perceberia que eu tinha sumido... Alguém para me salvar. Eu ia morrer e ninguém saberia. Vi-me sozinha, na mais completa solidão.
— A rainha Grace gostava muito de você. – diz Ana, abalada com o que ela disse.
— Pode até ser verdade, mas não naquele momento. Porque tenho certeza que durante todo este tempo que estive longe, ninguém pensou em mim. – ela voltou a encarar Ana. – Estou mentindo?
Ela não obteve resposta, continuou:
— Passado os três dias, eu o vi. Vi o Jack. Não entendi nada. Foi quando ele me contou tudo. Somos irmãos por parte de mãe, porém, fui um descuido. – ela soltou um riso amargo. – Um descuido que logo foi descartado. Lembra que mencionei uma mulher chamada Francesca? – Ana afirmou. – Ela é nossa mãe. Mas apenas a progenitora porque de mãe ela não têm nada.
— Por que diz isso?
— Ela é cruel, Anastásia. Toda a loucura que me contaram, a frieza no olhar dela, a forma como se referia a mim e ao próprio Jack que devolvia a frieza dela em dobro. São dois monstros e apesar de não ser uma boa pessoa, eu jamais agiria assim. Como se o resto do mundo não tivesse valor ou que seus próprios filhos não tenham.
— Mas como você pode ser irmã dele? – atônita, a princesa ainda não conseguia acreditar. – Ele já sabia que vocês eram irmão então?
— No inicio, não. – diz ela ao lembrar-se das palavras dele. – Só descobriu que eu era sua irmã por causa de Francesca. Durante um tempo, ela vigiou meus passos. Nunca entendi bem o porquê, mas ele mal falava comigo. Sempre muito frio. Descobri que foi mera coincidência eu ter ido parar no reino justo onde ele estava. Nada disso foi planejado. Como eu disse, eu tinha sido descartada então não importava a eles se eu estava morta ou viva. Quando Francesca me teve, deixou-me na porta de uma casa qualquer, doeu saber que a mulher que me criou mentiu pra mim... E já estava morta... Doeu-me muito saber que minha própria mãe não me quis e ela me disse sem cerimonia alguma como se eu fosse um pano velho sem valor algum. – sua voz falhou.
— Isso tudo é loucura!
— Na hora entendi que tudo o que aconteceu de ruim, todas as tragédias foram causadas por Jack. Fiquei com tanto medo. Achei que iria morrer após me contarem tudo. Mas não, queriam que me juntasse a eles. Estavam querendo alimentar a minha raiva e frustração por tudo o que fiz e não deu certo, mas, naquele momento, eu só sentia medo. Jamais faria isso. Não sou uma assassina. Não sou uma criminosa. Posso ter meus defeitos, mas não sou assim. – sua voz soou desesperada. – Neguei e neguei, mas me ameaçaram. E o pior aconteceu. Fui torturada por aquela que devia me proteger. – Anastásia arregalou os olhos. – Deixaram-me por dias a fio com fome e sede. Queriam que eu os ajudasse a se vingar dos Grey. Sabia que não tinha outra alternativa para me manter viva se não entrasse no jogo deles... Então disse que aceitava. E quando vi uma oportunidade, eu fugi. Não foi fácil, não mesmo. E quando pensei que minha vida acabaria no meio do nada, Suria me encontrou.
Ana olhou para Suria.
— Ela estava muito fraca e debilitada. Havia machucados e sangue em toda a roupa. Eu estava indo embora do Reino, mas sentia que não tinha cumprido minha missão totalmente. Já fora do Reino eu encontrei-a caída na estrada. Reconheci-a e logo ajudei.
— Eu devo muito a Suria, Ana, teria morrido se ela não tivesse me ajudado. Se eu não tivesse fugido, criado coragem para seguir, meu fim teria chegado e de uma forma horrível e justo por pessoas que deveriam ter amado e cuidado de mim.
— Por que tanto ódio? Por que almejam tanta vingança, Leila? – ela não respondeu e abaixou a cabeça. Algumas lágrimas banhavam seu rosto, estava tensa, visivelmente abalada por confessar sua dor. Havia mais detalhes dolorosos que ela preferiu guardar para si mesma. Detalhes que compravam a maldade e crueldade de pessoas sem alma. Leila passou por um inferno, seu corpo foi maltratado e sua mente quase entrou em colapso. Mas isso ficaria guardado para si, machucando apenas a si mesma. O mundo não precisava conhecer suas feridas.
Anastásia esperava uma resposta.
Suria vendo o silêncio de Leila, interferiu:
— Jack é filho do rei Carrick, Anastásia, ele é o primogênito.
— Como é que é? – ela levantou-se de supetão e ao fazer isso, sentiu tudo rodar. Voltou a sentar-se sendo amparada por Leila. Isso era demais! Será possível que as revelações não iriam parar? – Ai meu Deus...
— Calma, Ana, você está muito fragilizada.
— Não... – ela abanou a mão, respirou fundo. – Continue.
— Jack é filho de Carrick com Francesca.
— Não pode ser... – ela olhou para Leila, horrorizada. – Você é irmã do Christian?! E mesmo assim tiveram um caso!
— Não, não somos. Disse que só sou irmã daquele homem por parte de mãe.
— Então o Christian não é o primogênito. – murmurou para si mesma. – É esse o motivo de tanto ódio?
— Vai além disso, Ana. – diz Suria. – Quando Leila me contou tudo, parte de muita coisa de encaixou. Jack é o responsável por todo o mal que assola a família Grey. Carrick e Francesca eram muitos jovens na época, muito apaixonados, mas o rei Vincent não aceitou a união. Fez coisas horríveis com a família de Francesca e com o próprio filho. O pai de Francesca foi espancado na frente dela até não restar mais vida, só que ele sobreviveu. Desde então, esses anos todos, fez do que sobrou do que um dia foi sua família, em uma arma para a destruição.
— Cristo... – suspirou Ana. – Acreditei que tudo aquilo tivesse sido porque Christian e eu não aceitava nosso destino.
— Ana – Suria sentou-se de frente à ela e segurou suas mãos, carinhosamente. O gesto lembrou sua mãe e ela quase demorou de novo. –, tudo o que eu contei para você e ao Christian sobre o anel encantado, é verdadeiro. Existe sim magia nesse anel. Existe magia em tudo. Em cada um de nós e em cada ação nossa. Em nossas palavras. A natureza. O fato de Jack ser o responsável por tentar destruir os Grey não significa que tudo o que eu contei era mentira. Muito pelo contrário. O ódio de Jack começou por Carrick, essa história é dele. Christian e os demais só foram incluídos por consequência.
— Tudo isso é muito horrível!
— Eu sei que é. – concordou ela. – Mas você precisa ser forte.
— Como eu serei forte se parte de mim se perdeu, Suria? – ela chorou de novo. – Não sei onde está Christian, nem o que aconteceu com meus pais. Toda a minha história está sendo apagada pelo ódio de um homem sem escrúpulos.
— Sua história não está sendo apagada, Ana. Ninguém pode apaga-la. Apenas você é capaz de fazer isso.
Suria a abraçou, ficou por alguns instantes consolando-a, mas logo se viram obrigadas a se afastarem quando ouviram um barulho lá fora. Sobressaltadas, as três se levantaram e prenderam a respiração. Suria pegou um punhal parecido com o que Leila entregou a Ana e o empunhou.
O barulho de passos estava ficando mais próximo, parou por um instante e então a porta se abriu.
Três figuras entraram e logo foram reconhecidas.
— Elliot! – gritou Ana e o príncipe a encarou com um misto de alivio e confusão. Seu olhar seguiram para as duas mulheres e franziu o cenho. Ao vê-lo ferido, Ana se preocupou, mas uma calma atingiu seu coração ao vê-lo bem sem danos mais graves. Correu e jogou-se nos braços dele. – Graças a Deus! Você está bem. Todos vocês estão bem!
— Ana! – ele apertou seus braços ao redor dela. Beijou o topo de sua cabeça e a encarou. – O que está fazendo aqui? O que aconteceu? Onde está Katherine?
— Ela está bem. – disse Leila e Elliot a olhou.
— Leila... O que faz aqui? Não deveria estar com sua tia? – ela desviou o olhar.
— Leila me ajudou Elliot – Ana engoliu em seco e olhou para o general e o soldado Luke. Ambos feridos. Ela entendeu o motivo da demora. –, tudo está ruindo.
— O que?
— O Reino Grey está sob ataque.
Os três homens a encaram como se suas palavras não tivessem sido processadas. Houve uma pausa. Logo o silêncio foi rompido pelas palavras desenfreadas de Anastásia. Contou tudo o que sabia no momento, e se surpreendeu como não derramou nenhuma lágrima apesar de toda a emoção.
Após Anastásia contar tudo, o príncipe Elliot se mantinha calado. Por um momento, ele sentiu o chão se abrir aos seus pés. Igualmente abalados, o general Taylor e o soldado Luke Sawyer estavam atônitos.
— Eu já sabia que Christian não era o primogênito. – disse ele. Anastásia arregalou os olhos. – Foi por isso que ele saiu do castelo à tarde, foi por isso que passamos o dia todo trancados com nossos pais na biblioteca, Ana.
— Ah...
— Ele ficou arrasado. Quebrou a biblioteca inteira. – Elliot estava sentado, sua perna doía cada vez mais, latejando. Passou as mãos no rosto. – Jack não é só o mascarado, o soldado traidor como também meu irmão e de Leila e assassino do próprio irmão? Isso é demais!
— Nem me fale. Minha cabeça entrou em parafuso com tudo isso. Tudo o que eu quero saber é onde está Christian e se meus pais estão bem.
— Como conseguiu convencer minha mãe? – perguntou o príncipe Elliot para Leila.
— Foi difícil no inicio, tive que abrir o jogo e contar algumas coisas.
— Katherine estava bem?
— Sim, não contei nada a ela para não preocupa-la. O soldado Collins me ajudou a convencê-las.
— Certo. Obrigado. Não vou esquecer o que fez.
— Era mais do que minha obrigação. Todos esses rebeldes que estão na cidade causando terror foram recrutados por Jack, Francesca e Welch durante anos. Vão destruir tudo.
— Fico me perguntando o papel de Welch nisso tudo...
— Ele é apenas um pau mandado. – diz Leila com desprezo. Lembrou-se do que ele fez com ela quando estava cativa. Balançou a cabeça para espantar tais lembranças.
— Precisamos de um plano. – disse o general, subitamente. – Não podemos ficar parados esperando o fim, temos que agir.
— Como? – perguntou Suria, determinada. – Estou disposta a ajudar.
— Temos que voltar!
— Não podemos voltar – protestou Leila. –, se voltarmos, Jack irá nos pegar e só Deus sabe o que fará conosco. Ele quer a Ana, não medirá esforços até pegá-la.
— Então precisamos pegá-lo primeiro.
— É arriscado. – insistiu Leila. – Estamos em menor número.
— Não se voltarmos. – disse o general Taylor.
Apesar dos protestos, Leila concordou em voltar. Era arriscado, voltando ou não, estar ali não ajudava em nada. Eles fariam o mesmo trajeto de volta que Ana, Suria e Leila fizeram até chegar à cabana. O tempo lá fora continuava a piorar. O céu sem estrelas, coberto por nuvens grossas e negras que eram iluminadas pelos raios e os barulhos de trovões, persistiam. Tornavam o cenário ainda mais assustador. O tempo corria. Nenhum deles estavam armados como deveriam, Leila tinha razão sobre ser arriscado, pois os três homens estavam machucados e sem nada para se defender além das habilidades, duas mulheres com punhais. Se um bando de rebeldes aparecesse e quisesse dar fim à vida deles, faria num piscar de olhos.
Percorreram o mesmo caminho até chegar à ponte. As coisas tinham ficado cada vez pior. Precisavam agir urgentemente. Os soldados contiveram boa parte dos rebeldes, e outros já tinham sido derrotados. A cidade pegava fogo. E isso era preocupante. O fogo se arrastava e consumia tudo pela frente. Chegaram à entrada secreta e entraram no castelo. Rapidamente, o general Taylor, Luke e Suria – mesmo sob os protestos dos dois homens — foram até os outros soldados repassar seus planos. Anastásia, Leila e Elliot correram para o interior do palácio, precisavam tirar as mulheres dali e levá-las para um lugar seguro.
A entrada secreta ficava por trás de uma das estantes da biblioteca. Ao entrar ali, Ana reparou no caos que ela se encontrava, completamente destruída por seu Christian. Imaginou por um instante ele destruindo tudo aquilo com uma raiva mortal. Quando a porta se abriu uma baforada de ar quente os atingiu. Um corredor mal iluminado logo revelou os rostos familiares das mulheres. Assim que viu o filho, a rainha Grace se atirou em seus braços, chorando. Katherine e Mia fizeram a mesma coisa. Quando viu Hannah acordada, Anastásia a abraçou forte ao lembrar-se de ter pensado que ela tinha morrido. Gail estava bem, apesar da palidez assim como todas as outras. Elas queriam explicações mais detalhadas, porém o príncipe Elliot não deu. Não tinha tempo.
Inicialmente, os protocolos para um possível ataque deveriam ser iniciados imediatamente. Um deles era tirar a família real da cidade mesmo que fosse impossível. Taylor teria que recrutar soldados para tirá-las em segurança. Os pais de Anastásia estavam inclusos nesse plano.
O soldado Luke Sawyer e outro soldado apareceram para conduzi-las para fora do palácio onde carruagens já as esperavam.
— E os meus pais? – quis saber Ana, apreensiva.
— Mandei homens ir busca-los. Mas acredito que estejam bem já que os homens que vigiavam a casa de tua família tinham ordens de protege-los a qualquer custo.
Ela acenou, porém continuou seguindo com eles. Ela queria ver sua família. Lá fora, nada parecia ir bem. E foi um grande susto para as mulheres que até então estavam na segurança de um local secreto. A rainha Grace estava muito aflita, preocupada com seu marido e seu filho desaparecidos. E Katherine tentava, inutilmente, convencer seu esposo para ir com elas.
As carruagens estavam a espera, soldados mantinham a guarda, nenhum dos rebeldes havia ultrapassado os portões e nem chegado aquelas extremidades.
— Leve-as para longe daqui. – disse o príncipe Elliot. As carruagens seguiram e Anastásia estava uma pilha de nervos por seus pais ainda não terem aparecido. Não podiam ficar por ali por muito tempo, estavam se arriscado, alguém poderia vê-los ali e atrair a atenção dos outros. Um vento forte soprou. A sensação de mal-estar persistia. Algo de muito ruim estava por vir.
E veio.
Quando a carruagem de seus pais estavam vindo pela direção contrária que seguiu as outras duas, apesar do alivio momentâneo, logo sentiu que tinha alguma coisa errada. Ela deu alguns passos à frente. Luke vigiava o lugar com outros soldados. Leila e Elliot permaneciam paradas assim como Ana olhando a carruagem se aproximar rápido, rápido demais...
Cada vez mais rápido. O grito de Leila assustou.
— Ana! Cuidado! – ela se atirou sobre Anastásia fazendo com que ela saísse do caminho da carruagem com o impacto de seu corpo. Ao cair no chão, Ana bateu com a cabeça em uma pedra, não tão forte, mais forte o suficiente para causar dor. Leila havia machucado o braço. Elliot também estava caído, mas já estava de pé. Luke e os outros soldados – total de cinco – estavam com os olhos fixos na carruagem com suas espadas e escudos nas mãos, prontos para atacarem.
A carruagem estava parada e de lá dentro saiu os pais de Ana, assim como Welch e mais dois rebeldes, cada um fazendo de sua família refém. Com pavor, ela percebeu sangue na camisa de seu pai. Ray estava ferido. Sua mãe chorava abalada e José também tinha sangue nas roupas, mas não era dele.
— Não! – gritou ela. Levantou-se e tentou ir até eles. Elliot impediu.
— Filha, por favor. – murmurou seu pai.
— Solte-os! – rosnou furiosa, lágrimas molhando seu rosto. – Solte-os, seu desgraçado!
Welch lançou um sorriso cínico.
— Por que, Welch? – perguntou o príncipe com raiva e indignação.
— Oras, por que seria? Poder, caro príncipe. Poder. – o sorriso de seu rosto fazia as entranhas de Leila se retorcerem, ela quase vomitou quando os olhos dele pousaram sobre ela. – Oi...
Ela teve que fechar os olhos fortemente para não fraquejar. Mas não conseguiu impedir um lampejo de lembrança atingir sua mente. Foi horrível. Nojento.
— Solte eles, Welch, renda-se e poderá sair vivo dessa! – ele gargalhou. – Estamos em maior número.
— Acho que essa frase deveria ser minha. – diz ele, distraído.
— Você sabe que somos tão bons quanto você, seu traidor! – falou Luke. Os olhos de Welch continha irritação.
— Wow! Isso tudo só porque matei seu amiguinho?
— Desgraçado! Você é um covarde! – com raiva, ele descontou isso no pai de Ana. A ferida sobre o ombro dele foi pressionada por sua mão com tamanha força que Ray Steele soltou um grito e caiu de joelhos no chão.
— Não! – gritou Ana novamente. – Pare! Pare!
Carla e José tentavam se soltar das garras dos rebeldes.
— Vou matar você! – gritou José.
— Ray! – Carla gritou, sentindo seu peito pesar de dor. – Por favor.
— Pare agora, Welch! – Elliot, Luke e os outros soldados avançaram, todavia, Welch puxou sua espada na direção da cabeça de Ray.
— Mais um passo e ele morre. – eles recuaram.
— O que você quer? – gritou Anastásia. – Largue minha família!
— Isso só depende você! Nós queremos você!
— O quê?
— Você pela sua família!
— Não! – discordou Elliot pegando no braço de Anastásia quando ela deu um passo. – Ela não vai!
— Então eles vão morrer! – novamente, Welch pressionou a ferida de Ray. Ele gritou de dor, porém conseguiu dizer com a expressão sofrida:
— Não acredite nele filha, por favor, ele vai te matar.
— Ana, não – pediu Carla, desesperada. –, não faça isso, querida.
Porém, Anastásia já havia tomado sua decisão. Seus pais eram as pessoas que mais amava e se tivesse que se sacrificar por eles, ela faria sem hesitar. Naquele momento, as boas lembranças de sua infância vieram a mente como uma enxurrada. Viu-se criança novamente ao lado de José brincando sobre os olhares atentos de seu pai enquanto sua mãe cantarolava na cozinha ao preparar o almoço. Viu-se sendo a criança amada e bem educada que foi. Viu-se sentada no chão da sala com sua mãe vendo-a tecendo um tapete e sendo ensinada a fazer o mesmo. Viu cada momento que passou ao lado deles. E foi por amor a eles que ela conseguiu se desvencilhar dos braços de Elliot e foi para a direção de Welch concordando com a troca. Mas ela não chegou até eles.
— Solte-os! – murmurou firme.
Ele fez um sinal para os outros, Carla e José foram empurrados fortemente. Carla caiu no chão e José ajudou-a a levantá-la. Ao chegarem até Ana, se abraçaram. Carla pediu para que ela não fizesse aquilo, José tentou impedi-la.
— Essa é a minha decisão. – falou entre lágrimas. Sua voz saiu firme. Então José arrastou uma Carla chorosa para longe da filha. Sabia que não iria adiantar convencê-la, por mais que doesse dentro dele deixa-la.
Agora só faltava Ray.
— Filha, por favor. – ele murmurou baixinho, sem forças. Estava pálido e o sangue não parava de jorrar. Welch o levantou com brutalidade.
— Você fez a escolha certa, princesa.
— Solta o meu pai!
— Chegue mais perto!
— Ana! – gritou o príncipe Elliot. Estava em pânico, não podia fazer nada ou colocaria a vida do pai dela em perigo. Ana não deu ouvidos. Ela seguiu até ele. Quando chegou perto o suficiente, ele empurrou Ray e Ana não teve tempo de qualquer reação, pois já estava nas garras de Welch. Tentou se desvencilhar para ajudar seu pai, não conseguiu. Ray se arrastou até eles como pôde.
— Oh meu Deus, minha filha. – chorou Carla abraçada a um Ray quase inconsciente.
— Tirem eles daqui! – disse o príncipe para José, mesmo relutante, eles seguiram para dentro do palácio. Anastásia lançou e recebeu um olhar aflito dos pais. Doía para eles ter que deixa-la assim como doía para ela ter que vê-los partir. Mas não tinha outro jeito.
— Você tomou a decisão certa. – a voz de Welch em seu ouvido lhe embrulhou o estômago.
— Me larga!
— Solta ela, Welch, você e seus comparsas ainda podem sair vivos dessa!
— Não posso, temos ordens a ser cumpridas. – diz ele cínico então sorriu. – Não se preocupe, princesa, você vai ser bem cuidada. – cheirou o cabelo dela. O braço dele estava em volta de seu pescoço.
A ideia de morrer já havia passado diversas vezes pela cabeça de Ana, todas elas fizeram um pânico sufocar sua garganta, e o pior, em todas elas a morte estava a um passo a frente dela. Naquele instante, ela percebeu o quanto amava sua vida e não queria morrer. Afinal, quem queria? Ninguém! Ela não seria uma exceção. E por mais que estivesse determinada em não deixar isso acontecer com ela e nem com os seus, não via como iria conseguir sair dessa.
E quando achou que nada mais poderia acontecer, ouviu um relinchar absurdamente assustador. Tal som foi capaz de ecoar e causar nela um frio de congelar os ossos. Com um canto de olho, percebeu um movimento entre as árvores. Estavam sendo cercados. O abatimento sobre essa constatação era visível. Seu coração disparou e ela teve a certeza de que morreria ali mesmo quando avistou um cavalo negro vir em sua direção. Ofegou. Entre as chamas vinha o próprio diabo. Elliot, Leila e os soldados se viraram ao ouvir o som. As cavalgadas fortes e firmes retumbavam no chão firme e levantava poeira.
— Chegou quem faltava. – e quando Anastásia menos esperou, ela foi empurrada fortemente para o lado no mesmo instante que o cavalo de Jack passava entre Elliot e os soldados que se desviaram. Ela quase perdeu o equilíbrio e se viu paralisada no momento. Paralisada de medo. Foi como se seu cérebro tivesse congelado impossibilitando-a de qualquer reação. Jack não parou e tudo foi tão rápido que não deu tempo dela processar o que havia acontecido.
Ao ser empurrada, ela foi jogada na direção de Jack que numa velocidade e agilidade incrível, curvou-se um pouco para frente com um braço estendido, e ao passar por ela ergueu-a sem nenhuma dificuldade, e a colocou sentada no cavalo. Não olhou para trás e não desacelerou. Ela ouviu um grito e o choque em seus olhos pareceu ter ficado grudado nos olhos dos que ficaram para trás.
— Ana! – ela ouviu o grito de Elliot, mas não se virou. O pavor congelou seu corpo.
— Sentiu minha falta? — A voz lhe causou arrepios e toda a tensão do dia pesou em seus ombros.
Ela desmaiou.
(...)
Ele carregava-a nos braços enquanto caminhava entre as ruinas daquele lugar abandonado que era o seu esconderijo. Alguns dos seus vigiavam ao redor. A sensação de tê-la nos braços era única, a pele era tão macia e cheirosa... Ela parecia tão frágil e indefesa. A expressão no rosto dela denunciava o quanto sofria com a situação.
A porta de madeira velha e desgastada foi aberta por um dos seus. Assim que entrou, logo a viu. Andando de um lado para o outro à sua espera. Estava coma das outras vezes, assim como ele, vestida de preto.
— Até que enfim! – exclamou ela ao vê-lo. A voz sem emoção além da impaciência. Ambos eram bem parecidos mesmo que não compartilhassem do sentimento da maternidade. Francesca, sua mãe, nunca demonstrou outra coisa além de impaciência. – Pensei que não voltaria mais!
— E agora, mamãe? – diz ele com sarcasmo, ela odiava quando ele a chamava assim. Lembrava-a de uma época que ela acreditava que seria feliz. – Vai me colocar de castigo?
— Vai pro inferno! – rosnou. – Suas ações para com essa garota têm atrasado tudo!
Ele a colocou deitada em um colchão velho perto dos outros dois reféns: seu pai e seu irmão. Esqueceu-se por um instante que Francesca odiava Anastásia, via nela algo que um dia teria sido seu. Voltou seu olhar para os dois homens desacordados, ambos estavam pendurados pelos pulsos por uma corda presa no teto de madeira. Deplorável. E trazia uma imensa satisfação a eles. Esperaram anos por isso. Olhou para a figura da mulher novamente.
— Ela faz parte dos planos.
— Dos seus. – retrucou Francesca.
— Tanto faz. – ele retirou o capuz e a máscara que cobriam seu rosto, revelando os olhos negros e a expressão indecifrável. – É hora de acertar nossas contas.
E puxou sua espada.
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