Um Projeto de Suicida
2 Um novo jeito de ser feliz
Notas iniciais
O dia amanheceu. Minha noite de sono foi horrível, passei o tempo todo pensando no que havia acontecido. O que será que aconteceu com o Midorima? Será que ele está bem? Será que me odeia por tê-lo ajudado? Fiquei tentando achar uma resposta, mas a hora já estava avançando e eu precisava ir ao meu trabalho. Tomei café, beijei minha mãe e corri para jornada diária. Por onde passava alguém sorria e me desejava um dia excelente. Creio que essas pessoas devam ter me assistido na TV ontem e acham que sou um herói, mas não é bem assim. Os bombeiros foram os verdadeiros heróis ao terem a ideia de montar o colchão inflável. Andei por uma hora e meia e finalmente cheguei ao prédio onde trabalho.
— Bom dia, Suzy. — desejei a recepcionista e subi para falar com o meu chefe.
— Bom dia, senhor. — falei após entrar em sua sala.
— Que bom que veio, eu ia mesmo te procurar. — se levantou e me cumprimentou estendendo a mão.
— O que o senhor deseja?
— Sabe, Takao, as coisas estão bem difíceis aqui na empresa. Mal temos dinheiro para pagar a produção. — nesse momento o senhor Stuart amenizou a voz provocando certo suspense. — Infelizmente, não temos como pagar o seu salário. O senhor está dispensado.
— Mas como? — me levantei irascível. — Eu fiz todo o meu trabalho. Fiz hora extra sem cobrar nada, li e reli todos os relatórios. Está tudo certo, fiz até o que estava além dos meus alcances.
— Me desculpe, Takao, essas foram as ordens da presidente. Sinto muito. — por seu olhar eu realmente penso que ele sinta. O senhor Stuart era um homem bom, mas a megera que assumiu a presidência não tinha o mesmo caráter. Ela era capaz de vender a própria mãe só para conseguir lucrar.
— Tudo bem, senhor, vou arrumar as minhas coisas já que não tem outro jeito — fiz isso e saí atordoado do prédio. Não iria adiantar discutir, então, só aceitei a demissão. Estava com tanta raiva que nem percebi que trombei com uma senhora que acabara de sair do seu carro.
— Kazunari. — ela falou com uma voz mansa. Logo percebi de quem se tratava. — Sou a mãe do Midorima, se lembra?
— É claro, senhora. Desculpe-me por quase te derrubar. — eu estava envergonhado. Minha raiva tirou toda minha atenção e quase joguei uma senhora no chão.
— Eu vim mesmo te procurar. Tome isso. — coloquei a caixa no chão e peguei um envelope de suas mãos. — Eu queria arrumar um jeito de te recompensar, então, passei boa parte da noite pensando em algo.
— A senhora pagou a hipoteca da minha casa? — o envelope continha um recibo de pagamento com o meu endereço.
— Meu filho é bem mais valioso, é o mínimo que eu poderia fazer por você. — fiquei até sem palavra. Passei dois anos tentando arrumar dinheiro para pagar essa conta e do nada ela foi paga.
— Eu vou ficar te devendo pelo resto da vida. Vou pagar até o último centavo. — insisti em pagar, mas a mesma só sorriu.
— Não será necessário. Em que você trabalha nesta empresa?
— Sou economista, mas acabei de perder o emprego. A tal presidenta resolver de uma hora para outra fazer um corte de funcionários.
— Uau! Banqueiros adoram economistas, está contratado. Preciso de pessoas de confiança dentro do banco. Sua atitude de ontem me deixou bem impressionada. — meus olhos saltaram e meu coração entrou em choque ao ouvir isso.
— Contratado? Eu nunca pensei que trabalharia em um banco desse nível. — dei um leve pulo de alegria.
— Você começa amanhã, se isso não for um problema.
— Começo até hoje, senhora. Muito obrigado, nem tenho como agradecer. — esse emprego era tudo o que eu desejava na vida.
— Sua mãe está melhor?
— Ela prometeu que irá parar de jogar. Isso não é incrível?! — perguntei com certa animação.
— Sim, fico muito feliz por isso. De vícios eu entendo um pouco. — não sei o que ela quis dizer, mas não tive coragem de perguntar. — A responsável pelo setor de recursos humanos te ligará hoje ainda.
—Sim, senhora. Ficarei de prontidão perto do telefone. —ela sorriu. Ficamos conversando por alguns minutos e, após isso, fui embora novamente para minha casa. Tudo o que acabou de acontecer era incrível. Depois de muito tempo o mundo começou a sorrir pra mim.
*~~*~~*
O meu novo emprego é incrível. Finalmente, reconhecem a minha capacidade e posso ser realmente útil. O hall do prédio estava sempre lotado de executivos que entravam e saíam do banco para criar acordos. Ganhei uma sala só minha. Dona Ryosen, finalmente eu descobri o nome dela, preparou tudo do bom e do melhor para me agradar. Para recompensar tudo isso, resolvi trabalhar pesado e comecei a criar projetos para empresa.
— Alex, dona Ryosen está ocupada?— me dirigi à secretária. Estou ansioso para mostrar o meu novo projeto.
— Vou verificar. — discou o número no telefone e logo em seguida se dirigiu a mim. — Pode entrar.
— Obrigado. — agradeci e fui até lá. Quando abri a porta levei um susto que me fez derrubar todas as minhas folhas. Era ele, o maluquinho do prédio.
— É assim que me recebe? — o de cabelo esverdeado debochou e fez sua mãe sorrir.
— Desculpa. Eu... Eu não poderia imaginar que você estava aqui. —me atropelei nas palavras de tanto nervoso. Até me esqueci de que estava falando com um dos meus chefes e nem o chamei de senhor.
— Não precisa ficar nervoso, não vou tentar pular do prédio outra vez. — falou enquanto se abaixava para me ajudar com as folhas.
— Me desculpe, senhora. As folhas ficaram fora de ordem, mas a sorte é que eu as enumerei. — Midorima praticamente me engolia com os olhos. Após me ajudar, ficou me observando e por vezes esboçava alguns leves sorrisos.
— Deixe assim, depois eu mesma arrumo. — ela esticou a mão para pegá-las.
— O que é isso? — Midorima perguntou.
— É um projeto, senhor. Não é nada grandioso, mas pode fazer o banco economizar algumas centenas de reais por mês.
— Me interessei por isso. Resuma, por favor — ele pediu.
— Eu li a planilha de gastos da empresa e percebi que muitos produtos que usamos para limpar o prédio e para servir aos clientes estão sendo desperdiçados. Por mês perdemos R$858,94 com copos descartáveis quebrados, papeis higiênicos caros, café entre outros. Acho que essa economia possa ser importante. — os dois me fitavam e comecei a ficar corado.
— Economistas agindo como economistas. — Midorima riu. — É um valor alto para desperdiçarmos todo mês. Vou ler o seu projeto com a minha mãe e depois falamos se será aprovado ou não.
— Tudo bem, espero que os senhores gostem. Já vou indo então. — eles continuavam me fitando e já não sabia mais onde enfiar minha cabeça. Parecia que estavam falando de mim antes que eu entrasse na sala. Olhavam um para o outro e riam logo em seguida.
— Takao! — o de cabelo esverdeado falou. — Precisamos conversar, venha até a minha sala. — se levantou e saiu pelo corredor. Despedi-me da dona Ryosen e o segui. — Você mais do que ninguém sabe que eu quase me matei, não é?
— Sim, senhor. Se não fosse o colchão já estaria no céu.
— Não me chame assim, use você. Por quê? — parou e do nada se virou para mim.
— Sua mãe me ofereceu dinheiro, então, subi e fui falar com você. — deu as costas e voltou a andar.
— Ela te ofereceu dinheiro para conversar comigo e, não, para insistir em me tirar de lá. — nos sentamos em um sofá que ficava em um dos cantos da sala.
— Não é a mesma coisa? — perguntei confuso.
— Não. Você se empenhou muito e no final não aceitou o cheque que ela iria te dar.
— Estou confuso, não estou entendendo aonde você quer chegar com essas perguntas. — ele olhava diretamente para o fundo dos meus olhos e eu acabei abaixando a cabeça para me esquivar do olhar dele.
— A lugar nenhum. Pode voltar para seus afazeres. —a cada minuto perto dele descubro seu lado misterioso. Não consigo decifrar muito bem suas emoções. A boca diz uma coisa e a expressão facial diz outra, não consigo entendê-lo muito bem.
— Tudo bem. — me levantei e saí da sala. Depois daquela conversa o meu dia tomou um rumo totalmente diferente. Não consigo pensar em mais nada. Tento entender o motivo para ele ter me chamado em sua sala e ter me dispensando sem mais e nem menos.
Desci um andar e fui para meu escritório. Essa última palavra tem tanta força pra mim que a uso toda hora. Escritório. Nunca imaginei ter um só meu.
O dia foi avançando. Chegou a hora de ir embora para casa. Novamente passei boa parte da noite pensando em tudo o que havia acontecido em minha vida nos últimos tempos. Salvei um cara, a dívida da casa foi sanada, arrumei um emprego dos sonhos e minha mãe largou os seu vício. Não acredito que existam coisas melhores neste mundo do que isso. Se existem, ainda não fui apresentado a elas.
Uma manhã de sábado chuvosa, que ótimo. Não bastara minha preguiça natural e agora o próprio tempo me boicota. O cheiro do café já havia invadido o meu quarto e me fez pular da cama para ir tomá-lo. Faz duas semanas que perdi o meu emprego na fábrica e arrumei um novo. A vantagem desse segundo é que não preciso trabalhar aos sábados, então, posso ficar à toa em casa descansando.
— Filho, você tem visita. — mamãe não me deu nem tempo para trocar de roupa e logo pediu para que o visitante entrasse. No desespero, acabei entornando um pouco de café na parte de cima do meu pijama.
— Belo traje. —era exatamente a última pessoa no mundo que poderia me ver assim, meu chefe.
— Me desculpe, se eu soubesse estaria vestido de uma forma mais adequada. — corei.
— Não há nada melhor nesse mundo que estar vestido com um pijama. Aliás, um pijama bem legal. — sorriu e eu fiquei ainda mais corado.
— Sente-se, por favor. — nos sentamos. — O que te fez virar a cidade e vir aqui?
— Acredito que um escritório não seja o local mais adequado para te explicar o que exatamente aconteceu naquele dia, então, preferi conversar em um lugar mais particular.
— Fico feliz por você confiar em mim para contar esse tipo de coisa. Quando quiser pode começar. Ah! Aceita um pouco de café?
— Não, muito obrigado. Acordei um pouco mais cedo e conseguir tomar em casa antes de sair. — esboçou um sorriso terno.
— Dizem por aí que o café da minha mãe é mágico. Se eu fosse você não iria recusar. — brinquei.
— Se é assim, então, eu aceito. Nunca deixaria passar a oportunidade de tomar algo tão incrível. — me levantei e peguei uma xícara para ele.
— Pronto, conte-me tudo. Passei algumas noites pensando no motivo que te levou a tentar fazer aquela loucura.
— Faz dois meses que meu pai faleceu após sofrer um acidente de carro. Desde então me descontrolei e procurei consolo em certos locais que as pessoas não pensam ser adequados.
— E não são... — o interrompi, pois já tinha ideia de quais locais ele se referia.
— Você não sabe o quanto é humilhante se drogar para se esquecer dos problemas. Não há nada no mundo pior do que decepcionar uma pessoa que já se foi. Papai se não estivesse morto, morria de decepção pelo único filho. Não encontrei outra solução a não ser pedir desculpas pessoalmente, me jogar daquele prédio seria a forma mais rápida para isso. — Midorima se segurou para conter suas lágrimas, mas não conseguiu.
— Eu sinto muito...
— Deve sentir. — enxugou o rosto com as mãos e esboçou o leve sorriso. — Pelo menos você me salvou de cometer essa burrada. Eu até me esqueci de agradecer ao pombo por só ter aparecido quando o colchão estava montado. — sorriu.
— Seria muito louco se você tivesse pulado. Os garis iriam adorar limpar o seu sangue no chão. — falei provocando algumas risadas. — Seu pai deve ter ficado muito orgulho por você ter largado essa vida e voltado ao estado normal.
— Não é fácil ocupar o lugar que era dele, mas acho que consigo. Tomara que o que disse seja verdade.
— Teve coragem em subir lá mesmo com medo de altura. Quando te vi logo pensei que era um garotinho mimado, mas me surpreendi ao ver quem você realmente era.
— Eu sou um pouco mimado. Só um pouquinho mesmo.
— Imagino. — sorri.
— Você realmente iria se pendurar naquele letreiro se eu não saísse?
— Seria uma loucura, mas creio que sim. Eu sempre vi isso nos filmes, então, queria experimentar a sensação. — debochei.
— Podemos repetir em algum dia. Ficar lá em cima até que é bom. A vista da cidade é incrível. — sorriu. Aquela altura da conversa o meu café já havia terminado, então, me levantei e fui buscar mais. — Sua casa é muito bonita.
— Nós reformamos há pouco tempo. Fico feliz por ter gostado. — voltei e entreguei novamente a xícara na mão dele.
— Está gostando do novo emprego? Mamãe te elogiou muito. — bebericou um pouco de café.
— Adorando. É incrível. É o meu segundo emprego, mas já penso que seja o melhor. — sorrimos. — Eu até me esqueci de perguntar. Como foi que você saiu do hospital?
— Fiz alguns exames e saí. Sou drogado e, não, um louco. Não tinha porque me prenderem lá.
— Tá certo. Você já começou a se tratar para acabar com esse vício?
— Sim. Estou frequentando o consultório de alguns psicólogos que, em minha opinião, precisam mais de ajuda do que eu. Eles são loucos, cara. — debochou.
— Você os enlouqueceu mais ainda. Daria-me um minuto para subir e trocar de roupa? Sinto-me mal por estar assim na sua frente.
— Não precisa ficar envergonhado, mas, se for para se sentir melhor, pode ir. Te espero aqui. — assenti e subi correndo. Peguei as primeiras peças que vi e me vesti.
— Pronto. — eu estava usando uma calça preta, um tênis cinza e uma camisa azul escuro.
— Uau! Aonde você vai desse jeito?
— Lugar nenhum. — corei. — Fico melhor quando estou vestido desse jeito. Meu pijama é ridículo.
— Tudo bem. Você aceita sair comigo nesta noite? — perguntou um pouco retraído.
— Eu? — fiquei sem palavras.
— Sim. Algum problema?
— É que vou estar... — me beijou. Não sei como, nem percebi a aproximação de seu rosto.
— Fique quieto, pois sua lábia é muito boa. Se não o interrompesse diria que não na certa. — riu e eu fiquei imóvel após o que aconteceu.
— Você me beijou. — comentei embasbacado. — Por quê?
— Sim e foi muito bom. — debochou ignorando minha segunda pergunta.
— Você é realmente louco. — sorri, mas minha intenção era ter falado sério. — Me beijou sem saber se eu queria.
— Muito louco. Se eu pensasse nas consequências talvez nunca soubesse o quão bom é te beijar. — ironizou e sorriu. — Não se prenda tanto, Takao.
— Eu sinto alguma coisa estranha por você e não sei se é isso. Nunca me relacionei com um homem e esse seu beijo me deixou mais confuso do que já estava. — já não tinha mais argumentos para resistir.
— Acho que vou subir em outro prédio e ver se você irá me salvar de novo. — se levantou do sofá e caminhou até a porta.
— Não faça isso! — ele parou. — Você não pode morrer antes que eu descubra o que estou sentindo de verdade.
— Eu sei disso, só falei para fazer um pouco de pressão. — abriu a porta e saiu.
Enganei-me. Existe sim mais uma coisa boa além das que citei: o amor. Deitei-me no sofá e fiquei horas refletindo até que cheguei a um consenso, sou o homem mais feliz desse mundo. Nunca imaginei que salvar um projetinho de suicida fosse mudar minha vida para sempre. Conversar com o Midorima me fez ter certeza do que estava sentindo, mas não tive coragem de me entregar assim tão rápido.
Fale com o autor