Capítulo 35
O Confronto Final

“Minha mãe não gosta de mim. Ela me odeia. Consigo ver isso no seu olhar. Ela nunca está por perto e, quando me ver, sai de perto de mim. Não consigo entender, nem ela e nem o meu avô. E, para falar a verdade, eu também não consigo sentir nada por eles que não seja a mais completa confusão. Agem de um jeito estranho e conspiratório. Desde quando eu era pequeno, eles gostavam de me dizer que eu não devia gostar de nada, não criar laços de afinidade com ninguém. Pois no fim é isso que nos destrói.

Tentei criar esses laços, mas eles foram cortados antes mesmo de enraizarem.

Não sei quem é meu pai. Apenas sei que minha mãe e meu avô os odeiam ao ponto de todos os dias me dizer que eu devo odiá-lo também. E de tanto repetir, acabei odiando-o. Tenho doze anos. Não tenho amigos. Nem ao menos sei o que significa ter amigos. A verdade é que eu só sei de uma coisa: várias formas de fazer alguém sentir dor. Várias formas de me fazer sentir dor. Ela é a minha companheira. Algumas cicatrizes em minha pele são como companheiras que me ajudam quando estou em completa solidão. É divertido provocar dor, claro, doloroso também. Mas com o tempo eu me acostumei com isso. Desde pequeno, sinto fiapos de madeira penetrar minha pele, arames farpados rodearem meu corpo ou – a mais dolorosa punição, quando meu avô está em dias de cão assim como minha mãe – eles gostam de me deixar em pé em cima de brasas. Há outras maneiras bem piores do que essas. Eles dizem que tais aprendizados são necessários para o meu crescimento. Meu avô não anda. Suas pernas não funcionam. E seu rosto é cheio de cicatrizes horrorosas. Já tive pesadelos com ele. Francesca, minha mãe – ela e ele exigem ser chamados pelos nomes – executa as tarefas. Não somos uma família. Nunca entendi bem o porquê dessas atitudes quando mais novo, eu era punido até quando não fazia nada. Era como se eu fosse o saco de pancadas que faltava naquele bizarro lugar que morávamos no meio do nada.

Não havia nada mesmo”.

(...)

Tudo aconteceu tão rápido que o príncipe Elliot só conseguiu entender quando viu o cavalo negro se afastar levando Anastásia. Jack apareceu e levou Anastásia. E ele não pôde fazer nada para impedir. A imagem de seu irmão apareceu repentinamente, imaginou sua reação quando contasse a ele o que aconteceu. Ficaria louco. Arrasado. Seria capaz de dar-lhe um soco por não ter feito nada. Estranhamente, quis sorrir ao pensar nas atitudes dele. E percebeu o quanto sentia saudades. Onde está você, meu irmão? – ele pensou, mas logo foi interrompido por gritos.

Homens saíram de dentro da floresta carregando espadas. Não eram muitos, mas eram mais do que os que estavam ao seu lado. Seus soldados lutavam, ele não viu Leila em lugar algum, olhou ao redor e não a viu e, por um breve instante, temeu por ela. Porém, logo avistou alguém que ele queria: Peter Welch. A raiva e a indignação de ter sido traído por alguém que imaginou ser seu amigo veio com força, seus olhos ficaram injetados de pura raiva. Seguiu na direção daquele homem que sorria cínico, satisfeito por ver a destruição de sua morada.

(...)

Suas mãos estavam amarradas, percebeu isso quando sentiu o ardor nos pulsos como algo bruto pressionando-os. Suas costas estavam sobre a superfície de algo que um dia já foi macio. Ela não tinha aberto os olhos. Temia isso. Por isso, decidiu testar sua mente já abalada a processar todo e qualquer tipo de incômodo que pudesse estar sentindo. Doía praticamente tudo. Seu pulso havia se torcido com a queda ao ver Leila. Sentia os membros de seu corpo tensos, cansados. A cabeça tinha levado uma pancada e o sangue que escorreu ficou seco, grudado na testa.

As maiores dores estavam no emocional.

O coração pesava. Ele continuava batendo num ritmo acelerado, mas não era normal. A cada batida, era por medo, por dor, por tristeza. Uma torrente de sentimentos que causava desconforto a alma de Anastásia. Ela repassou em sua mente todos os acontecimentos daquele dia turbulento, de como o dia virou noite de repente, de como parecia assustador lá fora com todos os barulhos de trovões; o gosto do pânico era amargo. Surgiu diante de suas pálpebras fechadas a imagem do rosto de seu pai. Ray tinha se ferido e ela nem sabia o que tinha acontecido depois... Sua mãe com um olhar assustado e José com raiva e medo. Soluçou baixinho ao pensar que talvez tenha sido a última vez que os viu e nem se quer os abraçou direito, sentir o cheiro tão confortador e nem ao menos havia dito um ‘eu te amo’. Tudo piorou quando lembrou de Christian. Como a vida é tão frágil! Ela percebeu. A última vez que o viu ele estava a uma distancia inalcançável. Não houve toques, não houve beijos, nem palavras; somente olhares que naquele momento significavam que nada estava bem. Os momentos vividos com ele pareceram distantes. A névoa sobre sua cabeça bloqueava as lembranças boas de momentos felizes que ela nunca iria esquecer.

Chorando baixinho, ainda de olhos fechados, sentiu alguém se aproximar. Anastásia se assustou quando uma mão grande, forte e áspera passou levemente por seu rosto. Retraiu-se.

— Não chore. – a voz dele penetrou seus ouvidos e suas entranhas se reviraram. A bile subiu a garganta e foi impossível conter o vômito. Abriu os olhos de súbito e não reparou em nada, apenas se inclinou para o lado e pôs pra fora o que lhe incomodava. “Por favor, Deus, não me deixe morrer aqui”.

Ela respirou um par de vezes, quando o conteúdo foi colocado para fora, levantou os olhos. Quando o fez, a primeira coisa que conseguiu ver foi o lugar mal iluminado e desgastado como se tivesse abandonado por anos. Feito de madeiras e tijolos que pareciam ter sido queimados em um incêndio. Pôde enxergar a meia- luz marcas pretas nas paredes, teias de aranha e a poeira em cantos que estavam destruídos. A sensação que o lugar lhe trazia eram arrepios constantes. E uma onda de calafrios que lhe causava ânsias. Nunca estive ali antes. Mas provavelmente era um lugar que ela jamais gostaria de estar. Percebeu que estava deitada em um colchão velho e fedorento. Olhou ao redor, mas não via muita coisa que pudesse dizer onde estava. E para seu total desespero, ao olhar para frente, diante de si, ela os viu.

Christian e Carrick. Os dois homens um ao lado do outro, suspensos por uma corda, desacordados e com a cabeça pendendo à frente. Sua boca se abriu em horror, um grito mudo saiu e ela piscou várias vezes quando as lágrimas desceram. Não pode ser! Não pode ser! – ela repetiu diversas vezes, balançando a cabeça numa tentativa de que a imagem se desfizesse no ar e tudo não passasse de fruto da sua imaginação. Não era.

— Christian! – gritou ela, chorando. Tentou se levantar, mas não conseguiu por causa da tontura. E a voz dele voltou a romper o vazio e a escuridão daquele lugar. – Não, meu Deus, por favor.

— Não se mexa.

Anastásia não conseguia tirar os olhos de seu amado. Por mais assustada que estivesse ao saber que Jack estava ali, o pior para ela era ver Christian naquela situação e pensar que estivesse morto. A dor que rasgou seu peito poderia matá-la a qualquer momento se ele realmente estivesse morto.

— Não... – ela desviou os olhos chorando sem conseguir continuar olhando.

Ela ouviu os passos se aproximarem, seus ombros sacudiam com o choro angustiado. E mesmo sentindo a presença de Jack ao seu lado, ela não o olhou. Tinha medo, tinha ódio... Ela mesma sentia que poderia matá-lo se pudesse. Sua mente já maltratada buscou racionalizar, tinha que ficar calma ou seria pior para ela, controlou o choro e olhou na direção dos olhos mais assustadores que já viu.

— Eles estão vivos. – diz ele olhando-a de cima, o rosto inexpressivo, mas os olhos nunca enganam. Estavam em chamas.

Ouvir tais palavras, mesmo vindo da boca de Jack foi como um balsamo para Ana. Foi como tirar um peso de seus ombros que ela não aguentava mais carregar. Saber da verdade depois de tudo, em todos os detalhes possíveis, olhar para ele a fez enxergá-lo. De verdade. Sua mãe sempre dizia que os olhos eram o espelho da alma. Através dos olhos detectamos a verdadeira faceta de uma pessoa. As verdadeiras intenções e os verdadeiros significados de suas palavras e suas ações. Se ela contasse uma coisa, olhe bem no fundo dos olhos dela e lá você descobriria se o que ela disse é verdade ou mentira. E olhando agora para aquelas duas bolas negras como dois poços vazios e escuros, Ana só conseguia enxergar isso: escuridão. Uma imensidão vazia e opaca de um negro profundo sem vida. No fundo dos olhos dele, ela podia enxergar mais do que gostaria. Lá ela encontrava as mais terríveis intenções das quais jamais imaginou que um ser humano pudesse ter. Mas também encontrou dor. Uma dor terrível. A alma dele era aquela coisa mórbida que doía olhar. Ana sentiu um pouco de pena dele, detestou sentir, mas era inevitável. O que será que ele passou para virar aquela casca vazia?

— Você... – ela não soube o que dizer. Ela sentia tantas coisas, mas pareceu ser impossível expressá-las em palavras.

Para sua consternação, ele sorriu. Foi um sorriso seco.

— Que bom que acordou, Anastásia. Estávamos esperando por isso. – ela franziu o cenho. E antes que pudesse dizer algo sua atenção foi atraída por um movimento à frente. À meia luz, ela avistou uma mulher. Ela era linda apesar do rosto inexpressivo, rígido. Os cabelos longos estavam trançados. Suas vestes eram negras e ela parecia exibir um tipo de loucura, de dor. Ela aparentava ter por volta de uns quarenta e poucos anos e os olhos negros como a noite lá fora que seguia. Ana já tinha visto aquele olhar em outra pessoa. E essa pessoa estava ao lado dela. Jack. Ana estremeceu ao chegar à conclusão de quem era aquela mulher. Francesca. A mãe de Jack. – Anastásia, eu quero te apresentar Francesca, a minha mamãezinha.

Os olhos de Anastásia se arregalaram, foi inevitável.

Nos poucos minutos que se seguiram, ninguém disse nada. Até que Francesca revirou os olhos com impaciência e cortou o silêncio com sua voz áspera.

— Devo dizer que é um prazer conhecer você? Pois não é. E vou logo avisando: se tentar alguma coisa, morre. Não me importa o que diabos Jack quer com você, se tentar, corto sua garganta.

— E eu a sua. – retrucou Jack.

— Você tentará.

Anastásia estava consternada pela forma como um falava com o outro. Que tipo de tratamento mais doentio era aquele entre mãe e filho?

Mas antes que ela pudesse dizer alguma coisa, uma tosse abafada, quase como um sussurro, irrompeu o ambiente, ecoando por aquelas paredes desgastadas. Ao olhar, Anastásia viu os pés de Christian moverem-se, lentamente, arrastando-se pelo chão, fazendo um barulho áspero. Ele estava acordando. Não conseguiu evitar um sorriso de satisfação ao ver que ele estava voltando à consciência.

— Christian! – gritou ela, feliz. Tentou levantar-se e quando fez não conseguiu dar um passo, pois garras de aço prenderam sua cintura. Sabia quem era. – Largue-me! – tentou desvencilhar-se. Sentir que seu corpo estava encostado com o de Jack lhe trazia uma nova onda de náuseas. Francesca mantinha-se em silêncio, observando a cena.

— Fique quieta. – avisou-lhe com a voz áspera. Os braços ao redor dela apertaram-se e ficou difícil de respirar.

— Largue-me, seu maldito! Largue-me! Largue-me!

O fôlego estava faltando. A princesa sentia o pânico ressurgir e tentava soltar-se daquele homem. Sua voz gritava cada vez mais alta, mas parecia que ninguém a ouvia.

— Christian!

— Eu mandei você ficar quieta! – com um movimento hábil, ele a girou. Os olhos em chamas encararam os azuis assustados, e sem esperar, ela recebeu um tapa forte no rosto.

(...)

Ele podia ouvi-la. Mesmo ao longe, sabia que era a voz dela. Era um eco que ganhava volume aos poucos. E no timbre da voz, ele detectava o estado dela. Medo, fúria, desespero... Ele também podia sentir. Estavam conectados. Corpo e alma.

O príncipe estava envolto de uma névoa escura que não o deixava voltar à consciência. Lutou contra ela, tentando fazê-la se dissipar e voltar ao controle. Mas parecia impossível quando mesmo estando em inconsciência, ele podia sentir o latejar das dores em seu corpo. Principalmente em sua cabeça. Mas a voz dela tinha ficado cada vez mais alta, o desespero na voz de Anastásia, fez com que Christian se agarrasse a pequena fagulha de esperança que brotou em seu coração. Tentou emergir do mar de escuridão, e quando alcançou a luz, seguindo os ecos da voz de Ana, ele abriu os olhos. As pálpebras estavam pesadas e um zunido soava em seu ouvido. Piscou um par de vezes até seus olhos se acostumarem a pouca claridade de onde estava. Um arrepio involuntário passou por seu corpo. A visão estava turva, o corpo dolorido, a cabeça doía tanto que ele mal conseguia pensar. Seus braços pareciam pesar toneladas. Meio grogue, arrastou os pés que mal tocavam o chão. Tentando se situar, o príncipe respirou um par de vezes para conter o incomodo na boca do estomago e a crescente sensação de pânico por já não estar mais ouvindo a voz de Ana. Mas sim um choro baixo e quase inaudível.

Aos poucos, seus olhos foram ganhando foco. A primeira coisa que viu foram suas botas, mal tocavam o chão, um chão meio úmido e meio seco. Logo percebeu que devia estar pendurado. Seus olhos se moveram buscando indícios de onde e com quem estava. Foi quando se deparou com um par de botas pretas ao seu lado. Seus olhos seguiram até ver quem era a pessoa ao seu lado. Arregalou os olhos em susto. Seu pai. Com horror, ele viu a cabeça de seu pai pendendo à frente e algumas gotículas de sangue escorriam da testa até o queixo sujando a roupa majestosa de um rei. Um gemido escapou de seus lábios e tentou chamá-lo, baixinho. Talvez fosse tarde demais. O príncipe sentiu uma imensa vontade de chorar, de gritar, mas nem isso conseguia fazer sem sentir que desabaria de dor. Era demais para ele ver seu pai daquele jeito e não poder fazer nada. Era demais para ele ter que imaginar que talvez as últimas palavras que disse ao seu pai não foram as melhores. Que não poderia voltar no tempo para consertar e dizer o quanto o ama e o perdoa por tudo. Pedir perdão por não ter sido o melhor dos filhos. Lágrimas desceram dos seus olhos e um soluço involuntário saiu de sua garganta como um grasnado. Reunindo forças, ele puxou as cordas. Houve um barulho, mais nada. Fez de novo. Nada. Limitado por isso, ele não conseguiu desviar os olhos de seu pai. Acreditando que talvez a dor que sentia tivesse projetado em sua mente um tipo de alucinação sombria por ter sido tão burro ao ponto de ter sido capturado e só Deus sabia onde ele estava e o que iria acontecer. E, aos poucos, ele viu essa possibilidade se tornar irreal cada vez que tentava se soltar. E a imagem não desapareceu.

Foi quando iria tentar pela sexta vez que Christian ouviu passos e conseguiu levantar sua cabeça que parecia pesar chumbo. Viu primeiro uma mulher que jamais viu. Era bonita. Mas a forma como ela o olhava demonstrava que ela não estava nem um pouco admirada por sua beleza selvagem e tampouco estaria. Um olhar duro e de desprezo. Franziu o cenho e perguntou silenciosamente quem ela era. Mas ela não disse nada, mesmo o príncipe tendo a certeza de que seu rosto denotava confusão. O choro que ele escutou antes tinha parado, à pouca luz do ambiente, ele não soube onde estava. Ainda sentia o desespero e o horror de estar ao lado de um corpo morto, o corpo morto de seu pai, latejando em suas veias. Não tinha forças para pedir socorro. E no fundo sabia que aquela mulher não estava ali para isso ou já teria o libertado. Voltou a se concentrar no choro, ele reconhecia-o, olhou para frente, e reconheceu as duas figuras mais adiante.

Jack segurava Anastásia, um braço agarrava a sua cintura e a outra mão estava firme no pescoço dela. O coração de Christian perdeu uma batida ao ver sua amada tremendo, amedrontada. Ele não entendeu o que Jack fazia com Ana. Tampouco porque a segurava como se não quisesse que ela fugisse. As engrenagens em sua cabeça não paravam de girar. O que diabos está acontecendo?

Confuso, o príncipe conseguiu dizer com bastante dificuldade:

— Jack... o que está acontecendo?

Não obteve resposta. Ele continuou lá, paralisado. Encarando-o sem dizer nada. Olhou para a mulher que estava a poucos centímetros dele. O medo ressurgiu e começou a apertar sua garganta, sem conseguir conter-se, como uma mão de aço fechada em volta de sua tranqueia. Ele começou a puxar suas mãos, cada vez mais forte, numa tentativa de se soltar. De se libertar da sensação horrível de vulnerabilidade. O silêncio ensurdecedor do lugar o desesperava.

— O que está acontecendo?! – gritou. – Jack! Soldado! – Ana começou a chorar e a se debater. – Solte-a! O que está fazendo? Ajude-nos!

Inutilmente, o príncipe continuava a pedir e a puxar seus braços. Não entendeu a reação de seu soldado a continuar ali, parado, apenas olhando enquanto matinha sua amada presa contra a vontade dela em seus braços. Além do medo, o príncipe sentiu o ciúme vir à tona. Odiou ver que ele a segurava mesmo que isso causasse um pânico absurdo nela. Odiava que tocassem nela. Christian queria ir até ela, pegá-la em seus braços e beijá-la. Precisava sentir um contato com ela, seu corpo implorava por isso. Entretanto, mesmo tendo-a tão perto, a poucos centímetros, via-se como se uma muralha tivesse se erguido impedindo-o de alcançá-la. À pouca luz, ele conseguiu ver o sorriso no rosto de Jack, um sorriso de congelar os ossos.

Antes que o príncipe pudesse dizer alguma coisa, a voz tempestuosa de Jack soou no local acompanhado de um trovão lá fora:

— Olá, irmãozinho. Que bom que acordou! Não podíamos começar sem você.

O zunido no ouvido do príncipe tornou-se ensurdecedor. Por um momento, ele acreditou que o mundo havia parado e apenas ele se mantinha respirando. Os sons lá fora se calaram. O vento parou de soprar e trazer os pingos da chuva. Não havia mais som. Apenas o silêncio. As palavras de Jack ainda processavam na mente de Christian e ganhavam volume, o que existia no mundo, cores e formas, tudo, parou de existir. E quando o peso dessas palavras caíram sobre ele, o mundo voltou a girar, trazendo-o para a realidade. O choque foi grande. Ele sentiu sua cabeça girar.

— Não. – o sussurro que saiu dos seus lábios não passou de um lamento. Os olhos dele se voltaram para a mulher a seu lado e depois se voltaram para Jack. Ele balançou a cabeça repetidamente, negando-se a acreditar no que sua mente havia constatado.

— Você não faz ideia do quanto esperei para vê-lo assim. Foram dias e noites pensando qual a melhor maneira de fazê-lo entender, de mostrar que quando se rouba algo de alguém, essa pessoa volta para acertar as contas.

Ainda chocado, o príncipe respondeu em um balbucio:

— Eu não roubei nada de você. – Jack soltou um riso de escárnio.

— Ah. Claro que não. O tão amado príncipe Christian é um verdadeiro inocente como seu amado pai. Sabe, não sei de onde tirei tamanha injustiça!

O tom de desprezo e ironia de Jack causava arrepios em Christian. Anastásia estava pálida demais, sentindo tremores. Um mal estar terrível por ter aquele homem praticamente lhe roubando o ar.

— Christian... – o príncipe puxou os braços novamente. Já sentia a ardência em seus pulsos por fazer força. As cordas estavam apertadas.
Mas a dor no pulso não era nada comparada com a dor que sentia no peito. Foi tolo. Foi cego. A verdade diante de si e jamais imaginou. O inimigo estava ao lado dele todo esse tempo e nem ao menos desconfiou. Como não percebeu? Como pôde permitir que as coisas chegassem à esse ponto?

Jack Hyde na verdade é Jack Konstatinova.

Um novo tiro e, dessa vez, certeiro. Se deparar com a verdade pode ser mais doloroso do que se pode imaginar. Principalmente quando essa muda a vida das pessoas ao seu redor. Saber que não era o primogênito, que tinha um irmão que provavelmente era o assassino do próprio irmão doeu de um jeito excruciante. Viveu numa mentira da qual se acostumou e saber que tudo não passava disso, mostrava o quanto a vida era frágil, o quanto as pessoas tornavam aquilo que construíram durante anos e que deveria ser forte o suficiente para aguentar este tipo de ‘baque’, mais frágil ainda. Só que algumas consequências nos perseguem pela vida toda.

Ali, ante ao príncipe, estava uma consequência vivida durante anos.

(...)

O soco que ele desferiu dessa vez foi mais forte. Sentiu seus dedos estralarem ao entrarem em contato com a costeleta dele. O sangue saiu logo de imediato. A raiva que ele sentia era cega. Quando ele caiu, o príncipe Elliot não parou. Segurou pelos cabelos dele e desferiu uma joelhada no rosto de Welch. Ouviu um estralo. Havia quebrado o nariz dele. Era mais forte do que ele, não conseguia se controlar, ele não queria controlar todo o ódio que sentia. Por isso continuou com os repetidos socos e pontapés em Welch, o maldito traidor.

O príncipe Elliot mantinha sua atenção voltada para ele. Não percebeu que seus soldados tinham derrotado os homens que o cercaram, feridos, saíram vitoriosos daquela luta. Todos permaneciam apenas observando enquanto ele buscava justiça. O sangue em suas mãos não o incomodava.

Peter Welch estava desfalecido no chão, ainda acordado, gemendo de dor. Elliot montou sobre ele, olhando para aquele rosto sangrento, a fúria em seus olhos, ele perguntou num rosnado:

— Onde eles estão? – segurando-o pelo colarinho, Elliot o sacudia, exigindo uma resposta.

Não obteve uma.

— Fala, desgraçado! Onde estão meu pai, meu irmão e minha cunhada?! Fala antes que eu te mate!

— Eles vão morrer... – o príncipe o socou.

— Por que fez isso, seu desgraçado?! É a minha família! Fala! Onde eles estão?!

Peter Welch apenas o encarava com uma expressão indiferente apesar de seus olhos expressarem dor pelos machucados. Mas não estava disposto a ceder. Sua raiva já estava em um nível perigoso, o príncipe sabia bem disso, para não se arrepender e sabia que não valia a pena sujar suas mãos com aquele verme que merecia mais do que a morte, sugando toda a saliva de sua boca seca, ele cuspiu na cara dele e o largou no chão.

Tonto e desesperado, o príncipe olhou para as mãos sujas de sangue e sentiu a bile subir a garganta. Estava tão cansado! Sua perna machucada latejava tanto que parecia ter espinhos a perfurando a todo o instante. Os golpes que Welch o acertou doíam nas costelas. Mal se aguentava em pé. Ele passou as mãos nos cabelos louros tentando conter a respiração, a adrenalina começava a cobrar seu preço. A tontura o fez recuar alguns passos para longe daquele corpo ensanguentado e nojento. Ele deu as costas e quando ia se afastar para longe, na busca desenfreada por sua família, ele ouviu um riso. Não foi um riso comum. Foi baixo, arrastado e doloroso. Ele se virou e viu Welch tentar sentar-se com dificuldade enquanto soltava risos e resmungos baixos. Ele tentou se levantar e não conseguiu. Apoiou um joelho no chão.

— Como você é patético! – o insulto surpreendeu Elliot. A voz de Welch estava num timbre grotesco. Ele apenas permaneceu encarando-o. – Não existe mais uma família para você, alteza. – seu tom denotava desprezo.

— Você é um verme, Welch, um nada que achou que sairia por cima ao trair minha família. Mas foi fiel do lado errado.

— Eu sempre quis ser o que era meu por direito.

— O quê? O que era seu por direito que achou que deveria fazer o que fez? – a voz de Elliot estava alterada.

— Ser general! Esse lugar deveria ser meu e não como braço direito. Fiz tudo por vocês e merecia mais do que ser um simples soldado. Jack soube reconhecer meu valor quando nem vocês o fizeram. Por isso estão tendo o que merecem. Armei todas emboscadas até mesmo quando ele ficou fissurado em Anastásia eu montei aquele dossiê falso dizendo que ela era a assassina de Aron. Ele queria comer mais um rabo de saia. – a raiva cega de antes voltou, e o príncipe o chutou sem dó nem piedade. Por algo tão fútil, aquele homem que ele considerava um parceiro e amigo, se uniu com outros para destruir sua família. Para derramar o sangue dos seus.

— Eu devia matar você! – gritou ele olhando-o com os punhos cerrados. Welch cuspiu sangue e arrastou-se para longe. Voltou a encará-lo, pingando sangue, mas não abandonou a fachada sombria que o envolvia.

— Eles vão queimar! Todos vocês vão queimar no inferno. – dito isso, sem esperar, Welch jogou um punhado de areia na direção dos olhos do príncipe.

Ao sentir os pequeninos grãos atingir seus olhos, Elliot os fechou. Instantaneamente, ele levou as mãos ao rosto. Welche gritou avançando em sua direção, derrubando-o. Os soldados ao verem a cena correram para ajudar, mas pararam de supetão quando viram o que ocorreu a seguir.

Ao se levantar, Welch carregava na mão um punhal e o enfiaria no príncipe, se não fosse por Leila.

Leila havia corrido para dentro do castelo quando Jack apareceu e os homens cercaram os soldados, iria pedir ajuda quando foi agarrada por um dos rebeldes dentro do castelo, lutou para sobreviver. O homem que a agarrou trouxe um medo e horror de um momento vivido à tona. Algo que ela não queria lembrar, mas tinha certeza de que jamais esqueceria. O empurrou tão forte que ele caiu e bateu com a cabeça numa pedra e morreu. Uma inércia a possuiu, nunca tinha matado ninguém e aquilo a abalou. Mas os gritos de desesperos, o instinto de sobrevivência a fez despertar para a realidade e quando se deu conta, ela pegou o punhal das mãos do morto e voltou para o local de onde fugiu. Cega, sem saber o que fazia e o que via pela frente além de um rosto odioso com um sorriso cínico que a fazia sentir enjoada, ela apenas corria. Foi quando ela chegou no exato momento que Welch pretendia matar Elliot. E sem pensar em mais nada, ela correu na direção dele e enfiou o punhal em suas costas, na direção do seu coração.

— Você quem vai queimar no inferno, seu miserável! – ela rosnou, empurrando mais a fundo a lâmina. Sentiu o sangue escorrer entre seus dedos. Quente e fresco. Suas mãos estavam firmes, seu ódio a cegava. O ódio poderia fazer horrores com a mente humana. Estranhamente, matá-lo, trouxe uma estranha satisfação para Leila do qual ela jamais iria esquecer. Ela puxou a lâmina do corpo dele. Peter Welch caiu de joelhos, agonizando, seus olhos por um mísero momento a fitaram, e ali, ele morreu: olhando nos olhos de sua assassina.

Leila respirava pesadamente, sua mão ainda agarrada ao punhal e a outra fechada em punho. Não se importou com nada. Apenas encarava o corpo de Peter Welch de olhos arregalados no chão. Fechou os olhos e soltou um suspiro. Não queria deixar que os olhos opacos daquele monstro a levasse de volta naquele lugar horrível onde se viu maltratada de corpo e alma. Pensar naquele lugar, fez sua mente dar um estalo.

O soldado Luke Sawyer e o soldado Ryan Collins ajudaram o príncipe a se levantar. Elliot encarou o corpo de Welch por um instante, ainda surpreso pelo o que acabou de acontecer, e depois seus olhos se voltaram para Leila. A expressão no rosto dela parecia congelada.

— Você está bem?

— Acho que sei onde eles estão. – por um segundo ele não entendeu o que ela disse até a compreensão surgir.

— Onde?

— Nas Ruínas da Igreja.

Foi tudo o que ela disse.

(...)

As Ruínas da Igreja no alto da colina pareciam assustadoras. Mais do que o normal. O lugar possuía um tipo de magia negra. Ainda vívida durante todos aqueles anos. Nuvens negras rodeavam aquele lugar e raios rasgavam o céu bem acima da torre, onde havia uma cruz.

A Floresta Negra não era o único lugar assustador que existia aos arredores do Reino Grey. As Ruínas da Igreja emanava o horror mais cru que a mente humana pode suportar. Ali, onde deveria ter sido um lugar para orações à Deus, foi o centro de sacrifícios de crianças à magia negra. Foi o centro de sacrifícios e torturas em prol de algo tão maléfico. Foi assim durante anos até descobrirem a origem do desaparecimento de pessoas na antiga vila antes de existir a cidade do Reino Grey. Os próprios moradores levaram suas tochas a fim de pôr fogo na Igreja. Pessoas morreram. E até hoje suas almas vivem atormentadas naquele lugar. No inferno.

E era justamente ali, que Jack e Francesca se escondiam. Onde mantinham seus reféns e sentiam grande satisfação. Não importava a negatividade que o lugar transmitia. Não era de espantar. Era um lugar longe, difícil de ser localizado pela ilusão que as nuvens causava ao redor das ruínas. E mesmo que fosse localizado, havia homens para impedir quem quer que fosse que quisesse sair ou se aproximar dali.

— Está na hora de acordar esse velho babão. – Jack apontou para o rei Carrick. O príncipe Christian que antes acreditou que o pai estivesse morto, sentiu alivio ao descobrir o contrário.
As palavras saíram antes que ele pudesse deter.

— Ele é seu pai. – a cabeça de Jack virou lentamente para Christian ao ouvir o que ele disse.

— Não, ele é seu pai. – o timbre de voz era gelo puro. – Ele não estava lá quando deveria estar.

— Ele não sabia! – protestou Christian, uma inútil tentativa de fazê-lo enxergar como as coisas aconteceram. Não sabia se isso daria certo, mas tentaria de qualquer jeito. – Ele me contou. Contou a mim e ao Elliot como as coisas aconteceram... Ele quis você. – Christian engoliu em seco. Anastásia ainda estava nos braços dele. – Ele procurou por você ao saber de sua existência.

Muito lentamente, Jack soltou Anastásia em uma cadeira e caminhou até Christian. Num piscar de olhos, Francesca estava ao lado dela para impedi-la de fugir. À poucos centímetros de seu irmão, o ódio que Jack expressava foi capaz de reavivar o seu, Christian sentia muito ódio por ele. Lembrou-se dos ataques. Lembrou-se da dor que rasgou seu peito quando uma flecha o atingiu. Lembrou-se, acima de tudo, da perda de seu irmão. E seus olhos cinzentos não foram capazes de demonstrar outra coisa além da repulsa. Ao perceber, Jack sorriu. Seco. Mas as palavras proferidas por Christian tornaram sua agressividade ainda mais latente, por isso, sem ele esperar, Jack desferiu um soco forte na altura do pulmão do príncipe. Sentiu prazer ao ouvi-lo perder o fôlego e se encolher, gemendo de dor. Anastásia gritou o nome dele, horrorizada.

Quando tentou levantar-se, a espada de Francesca pairou em seu pescoço. Ela assistiu, trêmula e angustiada, a tortura de seu amado. Antes mesmo que Christian pudesse recuperar o fôlego, Jack ateve-se a desferir inúmeros golpes nele. A cada soco, e o fato de não poder se defender, deixava Christian num estado de tormenta. Tentava suportar sem emitir sons, sem demonstrar que sentia dor, mas Jack não estava disposto a vê-lo se reprimir. Queria ter o prazer de vê-lo sofrer. O corpo do príncipe parecia estar em chamas.

— Pare! – foi um grito angustiado e torturado de Anastásia. Não se importou de estar com uma espada afiada a poucos centímetros do seu pescoço. Jack parou, ofegante, com uma expressão de dar medo. Christian sentia como se seus órgãos tivessem se deslocados. Ele respirava com dificuldade, encolhido e com os olhos fechados como um garotinho assustado esperando pelo próximo golpe. Não veio.

Jack foi até Carrick, sentindo o ódio ainda presente causada pelas palavras de Christian. “Ele quis você”. “Ele procurou por você ao saber da sua existência”. Mentira. Ninguém nunca o quis. Ninguém nunca se importou quando doía. Ninguém nunca se importou quando a solidão vinha. Ninguém nunca se importou quando, em seus devaneios mais profundos, desejou ter uma vida diferente. Ninguém nunca se importou com ele. Com raiva e com os nervos a flor da pele, seus olhos negros enxergavam o homem a sua frente de forma hostil. Era seu pai.

— O... que... vai fazer... o que... – balbuciou o príncipe. Sentindo a ameaça perto de seu pai. Queria poder fazer alguma coisa e rezou para que Deus pudesse enviar a ajuda logo.

A voz cortante de Jack Konstantinova cortou o silêncio:

— O que já devia ter feito há muito tempo. – ele saiu do campo de visão de Christian e, num canto, havia um balde. Posicionou na frente do rei novamente e sem cerimonia alguma jogou o conteúdo nele. Era água. Gelada. Estremeceu Christian ao sentir os pingos dela caírem em si.

Naquele momento, o rei despertou com um sobressalto. Engasgando e sem saber onde estava.

O rei Carrick Grey estava em um mundo onde ele viu a escuridão surgir e tomar conta das pessoas que ele mais amava. Era tipo um sonho. E nesse sonho ele viu Francesca. Os olhos negros dela não pareciam em nada com os olhos negros brilhosos de alegria sempre que o encontrava. E com ela estava seu filho. Ele já sabia quem era. Não poderia ter outra reação ao descobrir a verdade. Jack é o seu filho perdido. O soldado que sempre teve sua admiração por sua bravura.

Abriu os olhos, e não se espantou com o que viu. Ali estava ele. À sua frente depois de tudo o que aconteceu. Aliás, ele sempre esteve à sua frente. O filho que um dia ele sonhou durante anos encontrar estava vivo, morando embaixo de seu teto, servindo a sua família. Servindo a família que também pertencia a ele. Queria poder ter voz e dizer que sentia muito. Por tudo. Pois sabia que ele não estava ali para fazer as pazes. Carrick não iria receber sua redenção, ele seria julgado e condenado.

— Pai – ao ver que o pai olhava Jack petrificado, Christian soltou um soluço. Carrick olhou para o filho e se espantou com a aparência dele. Machucado, sangrando e com sua camisa rasgada revelando hematomas pelo corpo. Só estava em pé por causa das cordas que o sustentava. Ele viu Ana sentada com os olhos azuis arregalados e, por fim, viu Francesca. Ah, Francesca, o que você fez com nosso filho? – ele pensou e antes que pudesse raciocinar direito, as palavras saíram:

— O que você fez com ele? – notou a expressão surpresa em ambos.

— Fiz o que era necessário para que ele sobrevivesse. – a voz que um dia foi calma, como seda que acariciou a pele de Carrick, parecia lâminas cortando sua carne.

— Poderia ter sido diferente, você sabe.

— E era pra ser diferente! – Francesca sabia controlar bem suas emoções, mas o passado nunca foi passado. E as lembranças e as emoções queriam vir à tona e na voz derramava toda amargura vivida por anos. – Tudo foi tirando de mim e quando eu estive sozinha, tive que lidar com o fardo de carregar no ventre uma criança rejeitada, uma mãe morta e um pai deformado e aleijado.

— Então por que não me procurou?

— Acha que não tentei?! – ela se revoltou. – Você nem imagina os perigos que corri para chegar até você, tentei, até o momento que descobrir o quanto você estava bem e prestes a se casar! – rosnou ela. – Você ia se casar! E eu? Estava na beira do precipício.

A essa altura, Francesca já estava dando passos na direção dele. Todos permaneciam petrificados. Cada um em seu lugar como se assistisse a um show.

— Você quebrou meu coração. – a frieza de suas palavras fizeram as entranhas do rei se revirarem. Ele fechou os olhos e depois de um segundo tornou a abri-los.

— Procurei por você durante tanto tempo! Onde esteve? Achou que eu não ampararia você depois de tudo? Eu não sou como o meu pai, Francesca.

— Mas tornou-se igual a ele anos depois. Acompanhei tudo. Fiz meu pai me ensinar como era poder viver sem ter que sentir a dor que você me causou. Ele me mostrou que só se curava uma dor causando uma nova. Durante anos me submeti às regras mais rígidas. A processar meu sofrimento e depositá-lo em outro lugar.

— Por que fez isso consigo mesma? – uma lágrima escorreu dos olhos do rei. De perto, Christian viu a reação do pai. Viu em todas as palavras o sofrimento guardado durante anos.

— Você destruiu tudo o que havia de bom em mim.

— Eu não fiz.

— Sim! Você fez! – gritou ela segurando a espada com força. Lágrimas de fúria e desespero desceram aos olhos daquela mulher. Havia muita dor e loucura. – E eu prometi a mim mesma fazer o mesmo com você. Desde então eu tenho selado um pacto com o diabo.

— Não. – ele negou novamente, olhando bem no fundo dos olhos dela consciente da plateia ao seu redor. Sim, o rei sabia que muita coisa de ruim havia acontecido com ela. Era responsável por muitas coisas. Mas ele não a destruiu. Não desse jeito. Podia ver com clareza agora. Não podia levar a culpa por Francesca ter decidido caminhar por um caminho escuro e sem volta. Por mais que estivesse sofrendo, se o procurou como disse, saberia que mesmo se casando, jamais desampararia ela e o filho. Até mesmo ao pai dela. Que um dia tentou matá-lo e que pensou estar morto. Por mais que em seu coração doesse, não poderia carregar uma culpa que não carregava mesmo que a algumas horas atrás pensasse que sim. Já havia muitos pecados para pagar para acrescentar mais um de cortesia.

Sem se conter, ela desferiu um tapa no rosto dele. Ele voltou a encará-la.

— Sinto muito. – ela estava prestes a avançar quando foi interrompida pelas palmas de Jack. O deboche estava explicito em sua voz:

— Bravo! Esplendido! Essa foi a cena mais patética que já presenciei. – Francesca recuou uns passos tentando manter a compostura. – Então, papai, não vai me dar a bênção? – perguntou Jack com um sorriso cínico. Carrick apenas o encarou. Havia coisas no seu olhar que deixaram Jack irritado. – Eu te fiz uma pergunta! – diz ele, bruto. Segurou o queixo dele com força, forçando seu olhar a parar de transmitir tais sentimentos.

— Larga meu pai! – rugiu o príncipe.

— No que eles te transformaram? – a pergunta que o rei fez trouxe de volta a atenção de Jack para ele.

— No seu pior pesadelo. – então Jack fez o que mais queria naquele momento, o golpeou.

Sem nenhuma atenção sobre ela, Anastásia tentou não vomitar ante a tortura à sua frente. Buscou uma maneira de se safar dali com o rei e seu amado. Mas não havia chances de não serem pegos. Olhou ao redor buscando algo que pudesse ao menos tirar as cordas de seus pulsos sem chamar a atenção. Foi quando um raio cortou o céu e por um instante algo refletiu em seus olhos, chamando-lhe a atenção. A espada de Francesca. Como um estalo, ela lembrou do punhal que Leila entregou e sentiu o frio do metal contra sua pele, coberta por suas vestes. Como um lembrete de que estava ali. Quase sorriu naquele instante. Havia uma chance, mesmo que fosse tão pequena, havia uma chance.

O rei Carrick não sabia como interpretar toda a situação. Na verdade, ele se recusava. Seu próprio filho estava torturando-o. Desferindo golpes, socos, enquanto seu outro filho berrava ante a cena. Nunca imaginou que seu fim seria desse jeito. Morrendo nas mãos de um filho. Um filho que já tinha matado o próprio irmão. Aron. Foi-se sem nem saber da verdade. Não suportava mais os golpes. Ele já não era o mesmo de antes. Estava velho. A casca que abrigava sua alma já tinha se desgastado com o tempo. Morreria apenas com a intensidade das dores.

Era a mesma sensação de sempre para Jack. Torturar alguém causava uma satisfação excitante. Sua mente trabalhava no aqui e no agora. Não importava quem era o seu alvo. Seu cérebro só queria receber o prazer de saborear cada segundo daquele momento. Foi criado assim. Dar e sentir dor. Então ele parou. Os nós de seus dedos doíam pela força dos socos. E isso não fez metade do seu ódio sumir.

Ele quis você.

No que eles te transformaram?

Essas palavras não saiam de sua cabeça.

— Desgraçado! Maldito! Eu vou te matar! – berrou o príncipe sentindo tremores no corpo. – Saia de perto do meu pai!

Jack não deu ouvidos. As palavras ainda perturbando seu psicológico. Os músculos tensionados e a carranca em seu rosto demonstravam sua irritação. O controle estava escorregando entre seus dedos. Ele voltou seu olhar para Francesca, os olhos dela estavam vidrados em Carrick. Parecia uma estatua congelada no lugar. Olhou para Anastásia. Ela estava do mesmo jeito. Mas havia um brilho diferente no olhar dela, estreitou os olhos, mas não soube identificar. Porém, olhar para a imagem dela mesmo que estivesse tão pra baixo naquele momento, fazia algo dentro dele se revirar.

Deu uns passos até ela, viu como os olhos azuis dela se arregalaram. Christian percebeu e a fera dentro dele rugiu.

— Não aproxime-se dela, seu maldito! Jack! Seu covarde! – Jack parou na metade do caminho ao ouvir tais palavras. Virou para encará-lo.

— Como é?

— Você é um covarde! Por que não me solta? – a risada de Jack foi assustadora. Carrick continuava engasgando com sua saliva e sangue.

— Pra perder a oportunidade de vê-lo indefeso? O grande príncipe Christian que se julgou o mais forte de todos, perder a pose de macho alfa e virar um ratinho assustado, acha que passei anos da minha vida planejando isso para enfim não desfrutar do fato de que você está em minhas mãos? Que basta um simples movimento meu e você deixa de existir. Ver você sofrer é a melhor coisa que eu poderia assistir, ver você desesperado sabendo que tenho posse das pessoas que ama – Jack apontou para Ana e Carrick. –, e posso fazer o que quiser... Você não imagina o quanto me deixa feliz.

— Você é doente. Armou todo esse circo só pra me ver sofrer?

— Bem, sim. E para ensinar a você e a sua família nojenta uma lição. – ele se aproximou de Christian. Ambos duelavam com os olhos. – Fiz sua tão amada cidade queimar, a cidade que você iria governar. A minha cidade por direito. Eu sou o primogênito! E quando ela estiver em pedaços... eu vou arrastar você até ela. Você e seu querido papai. Não sobrará nada dos Grey.

— Eu tenho pena de você. – sussurrou o príncipe, ainda chocado com as palavras dele. – Você pode achar que vai sair ganhando nessa, e mesmo que acredite que fará a minha existência e a da minha família desaparecer, conviverá com o fato de nunca, nunca será como eu. – ele faz uma pausa e analisou as feições de Jack fechar mais ainda. – Digno. Você pode até ser o primogênito, mas nunca será digno de ser um rei. Nunca será digno de sentar no trono de meu pai! – gritou e esperou ele revidar com alguma agressão. Continuaram encarando-se, olhos fixos, como se entre eles estivessem a guerra. A luta deles. Jack, depois de soltar toda a fúria em uma exalação profunda como se buscasse controle, sorriu. O sorriso mais assustador que Christian já viu.

— Você se acha muito bom, não é? Os dois – ele apontou para Carrick e Christian –, se acham os dignos. Mas não são! São tão sórdidos quanto eu. Ou vão me dizer que jamais fizeram algo parecido com que estou fazendo? Qual é, família, só estou tentando reivindicar meus direitos.

— Você matou seu irmão. – acusou o príncipe.

— Aquele fedelho teve o que mereceu. Faria tudo novamente e mais um pouco.

Nesse momento, Carrick levantou os olhos ao ouvir as palavras tão frias e cruéis de Jack. Seu coração fraquejou e ele sentiu a força dessas palavras acordá-lo para a realidade existente daquele instante. Olhou para Francesca, acusadoramente.

— Você o transformou em um mostro. E depois me diz que eu acabei com sua vida?! O que é isso então? Ele é um monstro! Você acabou com a humanidade dele. Você também é um monstro, Francesca. Acabou com tudo de bom que ele poderia ter! Acabou com a vida do meu filho! – exaltado e revoltado, exclamou o rei surpreendendo a todos. Como, por um momento, poderia ter o amado como um filho mesmo não sabendo quem era? Ele era um monstro e lembrar-se de seu pequeno Aron morto por ele que não esboçou nenhum pingo de remorso pelo o que fez com ele, foi à gota d’agua.

— Cala a boca! – descontrolado o rei continuou a repetir que ele era um monstro enquanto Jack não conseguia parar sua mente e as vozes de sua cabeça repetir também como uma acusação. O príncipe Christian também se assustou e pediu para o pai se manter calmo. Jack estava instável. E Carrick com raiva.

— Monstro! Monstro! Monstro!

— Não! Cala a boca! Cala a boca! Eu não sou um monstro!– gritou Jack pegando sua espada e avançou. Tudo pareceu um borrão.

— NÃO!

(...)

Em seu cavalo, avançando entre a floresta até a colina na busca de sua família junto com seus soldados que conseguiram deter a fúria dos rebeldes após eles terem devastado sua cidade, o príncipe Elliot parou seu cavalo subitamente. Uma dor aguda e cortante atingiu seu peito que ele ofegou. Não era igual as dores do seu corpo, era pior, uma dor no coração. Na alma. Sentiu lágrimas vir aos seus olhos e um grito sufocante subir a garganta.

Pensou em seu pai.

— Não. – seu balbucio saiu afetado.

Empurrou para longe as ideias que sua mente quis dar a ele como explicação do que sentiu. Não podia. Não queria. Tentou acalmar seu coração, mas sentiu que algo de muito ruim aconteceu.

Então ele correu junto ao seu cavalo, rezando à Deus que tudo estivesse bem.

(...)

— Não! – a rainha Grace acordou do cochilo que deu enquanto estava na carruagem indo para longe do Reino Grey. Carrick. O nome de seu amado saiu de seus lábios como um sussurro doloroso. As lágrimas desceram de seus olhos, sem controle.

— Grace, está tudo bem? – perguntou Katherine, assustada.

— Tia, fala o que você tem. – Mia encarava sua tia esperando ela dizer alguma coisa.

A rainha não conseguiu dizer nada. Apenas chorou como uma criança. Ela sentiu no seu coração. Chorou porque já imaginava o que tinha acontecido e não queria acreditar.

Chorou de tristeza abraçada a nora desejando que nada disso fosse real.

(...)

— NÃO! PAI!

O grito rasgou sua garganta e ele viu a pior cena de sua vida se desenrolar à sua frente e nada pôde fazer. Foi como um borrão, tudo aconteceu tão rápido que não foi possível registrar de imediato.

Jack, em sua insanidade, avançou contra o rei, seu pai, e enfiou a espada em seu coração.

O sangue fluía por entre a espada e os dedos dele, as gotas pingando no chão determinando os segundos de vida que estavam sendo esvaziado do corpo dele. Ele parecia paralisado olhando para os olhos azuis do rei que viu o horror da alma daquele homem. A espada tinha cortado seu peito, e ardia feito o inferno. E nos poucos instantes de vida que lhe restou, o rei visualizou a imagem daqueles que amou durante toda sua vida, e por um breve instante, seus olhos se focaram em Francesca, que tinha uma expressão assustada, e mesmo diante de tanta loucura, viu neles a garota que ela foi.

Então fechou os olhos quando Jack puxou a espada novamente.

— NÃO! PAI! PAI, POR FAVOR, NÃO! – gritava o príncipe Christian desesperado. Seu pai foi assassinado em sua frente. Jamais apagaria aquela terrível lembrança da cabeça. Algo dentro dele se quebrou, o desespero tomou conta dele. Anastásia chorava assustada na cadeira. A cena a fez se relembrar da morte de Aron e pensou que também poderia morrer ali com a dor que sentia em o ver o corpo do rei Carrick.
Inerte a tudo e a todos, Jack Konstantinova olhava vidrado para o corpo de seu pai. A espada com o sangue dele ainda continuava em suas mãos. Mas, daquela vez, não sentiu a satisfação que sentia quando tirava a vida de alguém. Tampouco sentiu que foi o certo. Algo dentro dele se revirava.

— ASSASSINO! VOCÊ MATOU MEU PAI! VOCÊ MATOU SEU PAI!

Ele fechou os olhos como se tivesse sido ferido.

Ele quis você.

Meu filho.

Monstro.

Assassino.

Ele continuou com os olhos fechados numa tentativa de enxergar outra coisa. Mas tudo o que enxergou foi à escuridão.

— O que você fez?! – Francesca gritou quando sentiu seus sentidos voltarem ao normal. Por mais que a sede de sua vingança tivesse levado a isso, por mais que tivesse feito tudo o que seu pai a ordenou durante anos para exterminar sua bondade, por um ínfero momento, os olhos de Carrick antes de morrer mostraram a ela quem ela foi um dia. A antiga Francesca. Sentiu desespero ao sentir que ela ainda estava dentro de si.

Antes que Jack pudesse dizer alguma coisa. Eles ouviram um barulho. Um dos homens gritou:

— Estamos sendo atacados!
Jack correu para olhar e viu que os soldados do castelo junto com o general e o príncipe Elliot estavam atacando. Chegando perto deles. Foi nesse momento de distração que Anastásia agiu. Ainda balada, conseguiu se erguer e acertar Francesca com uma pancada nas costelas enquanto estava de costas para ela. Acertou mais duas vezes até ela apagar. Ela gritou e caiu no chão se contorcendo e foi quando o príncipe Christian viu e então se desesperou ainda mais. Ana sentiu compaixão por ver a expressão marcada de sofrimento do amado. O rosto todo banhado em lágrimas e sangue.

— Ana...

— Christian. – ela correu até ele o abraçou forte e o beijou. Os barulhos lá fora continuavam e sentiam-se um pouco aliviados, pois sabiam que sairiam dali. Ele derramou suas lágrimas desesperadas no ombro de sua amada que não conseguiu olhar para o corpo inerte do rei. O cheiro dela, dessa vez, não conseguiu acalmar o coração do príncipe. Foi pior do que ele poderia ter imaginado. Seu pai morto. Não conseguiu pedir perdão. Ana acariciou os cabelos deles deixando-o colocar pra fora o sofrimento, mas sabia que não poderia abusar da sorte. Por isso começou a cortar as cordas com o punhal e quando estava quase conseguindo, a porta se abriu e Jack voltou.

Ao ver a cena, ele rugiu.

— Corre, Ana.

— Não. – ela sentia o desespero e pânico novamente, mas não o deixaria ali.

— Corre, agora! – mas antes de Ana poder correr, Jack a segurou facilmente nos cabelos dela e puxou. Ela gritou. – Não! Solte-a! – tomando impulso, pela raiva e outros sentimentos, Christian se pendurou nas cordas e ergueu suas pernas até o peito e depois as empurrou de encontro ao peito de Jack que instantaneamente soltou Anastásia e disparou no chão com o impacto do chute. Anastásia também caiu, Christian tentou cortar as cordas com o punhal que Ana deixou em suas mãos. Ela levantou-se quase no mesmo instante que Jack. O príncipe gritou para que ela corresse, para procurar um lugar, ela não queria ir.

— Não posso deixar você!

— E eu não posso vê-la morrer! – ela viu a terrível dor nos olhos cinza dele. O puro pânico. Um arrepio subiu a espinha dela ao olhar para o corpo de Carrick. – Não vou deixar você morrer! CORRE AGORA! – então ela correu. Sentindo o peito pesar.

A única coisa naquele momento que interessava Jack, era Anastásia. Depois de ter matado seu pai, dentro dele, havia algo que não parava de se revirar e na sua deturpada mente acreditava que Anastásia fosse curá-lo. O príncipe queria matá-lo, mas antes disso, não deixaria que ele tocasse em um fio de cabelo de Ana, por isso a mandou fugir.

Os soldados estavam em vantagem. Os capangas de Jack eram poucos mesmo que estrategicamente separados. Anastásia passou correndo entre as ruínas, chorando, não parou, não pediu ajuda. Apenas correu. Essa mesma situação a lembrou de quando estava junto de Aron. Naquele dia, ela corria segurada na mão dele. Ele lhe passava uma segurança que não condizia com o momento. Ali, ela queria estar correndo ao lado de Christian. Chorou. Não devia tê-lo deixado. Mas foi impossível se manter indiferente a dor dele. Ao medo dele.

— Volta aqui, Anastásia, se eu te pegar vai ser pior.

A voz dele cortou a escuridão. Ana descia a colina com dificuldade. Já não chovia mais porém com a chuva deixou o chão de terra escorregadio, cheios de lama. Mas ela não parava e tentava ir cada vez mais rápido. Não deixaria que ele a pegasse. Fugir dele foi uma coisa que ela fez outras vezes. Lembrou-se do medo que sentiu quando ele a atacou no rio e na floresta quando ela fugiu do palácio. O mesmo medo travando sua garganta. A mesma situação. Ela só esperava que dessa vez outra pessoa viesse socorrê-la. Algumas árvores começaram a aparecer no caminho quando desceu a colina. Jack continuava gritando por ela e estava chegando perto. Foi quando ela parou de súbito ao se deparar com uma ribanceira.

Jack apareceu no minuto seguinte segurando uma espada. Estavam ofegantes. Ana sentiu-se encurralada. Ele iria matá-la. Estremeceu.

— Você não vai mais fugir de mim. – os olhos dele eram dois poços vazios. Estavam ainda mais opacos que antes. Como se não tivesse mais vida dentro dele. Anastásia engoliu com dificuldade.

— Vai me matar agora? – a voz dela saiu rouca. – Assim com fez com seu pai?

— Eu não vou matar você.

— É por isso que está com a espada? – ela apontou, trêmula. Jack olhou para a espada em sua mão, cheia de sangue, e sem pensar duas vezes, jogou na ribanceira.

— Eu nunca poderia te matar! Você é a única coisa boa em toda essa história sórdida. – Anastásia balançou a cabeça em negação pelas palavras dele. Havia sentido compaixão por ele antes, agora não mais.

— Você é doente. Matou seu irmão, seu próprio pai... E mandou ferirem o meu pai! – ela berrou, agressiva. Uma fúria avassaladora rasgou seu peito.

— Mas não matei! – berrou Jack. – Só quero que fique comigo!

Como ele ousou dizer isso? Anastásia sentiu a repulsa novamente.

— Eu não quero ficar com você, seu doente! – o grito dela foi capaz de paralisá-lo. E por um momento os ombros dele curvaram para baixo mantendo uma expressão sofrida no rosto enquanto seus olhos estavam fixados nela.

Monstro!

Foi tudo o que conseguia ler nos olhos azuis dela. Quando deu um passo para a direção dela, tanto ele quanto Ana assustaram-se com o que aconteceu.

Após conseguir se soltar, o príncipe Christian correu apressado em busca de sua amada. Jack havia ido atrás dela e ele não poderia deixar o maldito chegar perto dela. Não suportaria se a visse ferida. Ele os encontrou. Esperou o momento certo. E quando o momento chegou, ele correu até Jack, mas se desiquilibraram por causa da terra lamacenta da floresta e caíram rolando ribanceira a baixo. Ele pôde ouvir o grito de Anastásia ao longe.

(...)

O príncipe Elliot desejou jamais ter entrando ali. Caiu de joelhos no chão ao ver o corpo do pai, pendurado e sem vida. Chorou compulsivamente. Tentando fazer daquela imagem uma alucinação. Mas não era. Era real.

O general Taylor e os soldados após renderem os rebeldes, matado todos eles, ao ver o rei ali, o grande rei Carrick, todos sentiram pela perda dele. Eles colocaram o corpo perto do príncipe Elliot que chorou cada vez mais desesperado abraçado ao corpo do pai.

— Por favor, pai, você precisa acordar. Precisa estar vivo para conhecer seu neto. Por favor, papai, não me deixa.
Seu lamento foi em vão. A morte é irreversível.

Francesca, deitada no chão, olhando a cena, fez-se presente ao arrastar-se. Todos a olharam. Mas os olhos dela não conseguiram se desviar do homem morto. Pela primeira vez durante anos, uma lágrima desceu de seus olhos. As lembranças que tanto lutou para apagar de sua mente, voltaram. E dessa vez ela não quis sentir a dor, pois essa era insuportável.

— Sinto muito. – ela sussurrou. Havia falhado. A antiga Francesca estava lá ainda.

— Quem é você? – perguntou o general.

E as únicas palavras que ela conseguiu dizer foram essas:

— Eu sou um monstro.

E então, pegou a espada que estava ao seu lado, e sem cerimonias, enfiou no peito.

(...)

Desesperada, Anastásia deu a volta e seguiu em direção contraria que provavelmente os dois homens tinham caído na ribanceira. Era perto do rio. O coração dava pulos no peito, já sentia o corpo e a mente fraca dos últimos acontecimentos. A noite não tinha estrelas além dos raios e trovões cada vez mais assustadores. Ao chegar no local, logo conseguiu avistar Christian. Nenhum sinal de Jack.

O príncipe estava estirado no chão sua cabeça perto de uma pedra enorme. Anastásia temeu que ele tivesse batido com a cabeça. O mundo não parava de tentar roubar seu fôlego.

— Christian! – ela gritou e correu até ele. Agachou-se ante ao corpo dele e procurou ver se havia batido a cabeça, ela percebeu a espada de Jack perto dele, mas não havia sinais de pancada na cabeça de seu amado. Suspirou aliviada quando ele abriu os olhos. – Graças à Deus! Graças à deus você está bem! – ela soluçou e o abraçou, sentindo como se o mundo tivesse ficado mais leve. Mesmo ainda existindo uma ameaça. Ela acariciou o rosto dele e continuou olhando, sentindo todo amor por ele em seu peito, seus olhos fixos, por um momento, os olhos dele desviaram-se para algo atrás dela e se arregalaram.

Foi aí que Anastásia escutou o barulho de passos e, sem pensar, ela pegou a espada do chão e virou-se erguendo a mão.

Seus olhos estavam fechados, mas ela sentiu a pressão em seu braço e a sensação de ter enfiado a espada em algo. Abriu os olhos. Ela viu Jack. Horrorizada, consternada, viu sua mão cheia de sangue, o sangue que escorria do peito dele no local onde Anastásia havia acertado misturavam-se a sua mão e ao anel encantado de seu dedo que começou a brilhar como das outras vezes. Estranhamente, o brilho do rubi tornou-se mais intenso. Jack Konstantinova tinha no olhar a mesma emoção nos olhos de Ana. Caiu de joelhos e sangue saiu de sua boca. Ambos permaneceram se encarando. Anastásia parecia ter perdido suas funções motoras. Pois não conseguia soltar a espada apesar do susto. Tudo o que conseguia pensar era que ela havia matado Jack. Ela havia matado alguém. Ela só conseguia ver a dor nos olhos dele se tornarem permanentes.

— Ana... – foi tudo o que saiu dos lábios pálidos dele antes de fechar os olhos e cair para o lado. Então Anastásia acordou do seu transe. Os olhos arregalados e a boca escancarada, de pavor. Eu o matei! Eu o matei! – sua mente repetia em desespero.

— Eu... eu... – não conseguia dizer nada. Apenas olhava o corpo morto de Jack.

Christian presenciou toda a cena. Assustado e com medo do que poderia ter causado a mente de sua esposa tal tragédia, ele conseguiu se sentar, puxou-a para seus braços. Ela estava terrivelmente gelada. Olhou para Jack e não sentiu nada. Ele teve o que merecia só lamentou não ter sido ele quem o matou e sim o seu anjo.

— Acabou. – murmurou ele no ouvido dela. – Acabou.

Notas finais
Já que passa da meia noite, considero-me oito dias atrasada ja que tinha dito que eu terminaria a fic no mês passado. Enfim, não consegui cumprir o prazo porque tive imprevisto, viajei e tive um probleminha com meu pulso. Mas eu estou e ai está o penúltimo capítulo, maior que já escrevi e o mais difícil, devo admitir. Finalizei ele ontem. Espero que gostem!