Um Príncipe em Cinquenta Tons
32 Capítulo 32
Notas iniciais
Capítulo 32
“– Então eu serei rei? – pergunta o garotinho de olhos acinzentados.
— Sim, filho, você sentará neste trono um dia.
— E o Elliot e o Aron? Eles também vão ser rei como eu?
— Não, filho. Só você será rei porque é meu primogênito”.
...
“– As reponsabilidades do reino são tuas, meu filho. Em breve será rei e precisa estar familiarizado com tudo”.
...
“– Pai, por favor, não quero mais falar sobre isso!
— Como não? Já passou da hora de tu se casar, Christian! Chega de desobedecer as regras. É teu dever com um povo ter uma noiva, para que se torne tua rainha quando assumir o meu trono!
— Não quero me casar, pai! Quero curtir minha vida! Aproveitar minha juventude!
— Chega de dizer asneiras! Você precisar cumprir com seu dever!”
...
“– Você é meu primogênito, Christian”.
...
“– Você não é o meu primogênito, Christian”.
...
Mentiras.
Tudo o que ouviu quando criança, todas as cobranças e todas as discussões. Tudo isso se resumia a mentiras contadas. Seu cérebro demorou um tempo para processar a informação que mudaria sua vida por completo. Ele não é o primogênito, o trono não o pertencia. As palavras reverberavam em sua cabeça como tambores estrondosos. Sentiu tudo ao seu redor girar, e o tão precioso ar fugir de seus pulmões. Será que ele havia ouvido direito? Ou estava começando a ter problemas de audição? Isso era sério, ou alguma brincadeira? Se fosse, não tinha graça alguma. Quem em sã consciência brincaria com uma coisa daquelas? Mas a julgar pelos olhares em sua direção, pelo clima tenso que poderia ser cortado a faca, aquilo com toda a certeza não era uma brincadeira. Era a mais dura e cruel realidade.
Você não é meu primogênito, Christian.
As palavras de seu pai ainda ecoavam em sua cabeça como se fossem marteladas, as marteladas mais dolorosas que um dia já levou. O golpe que veio em sua direção tornou a pancada mais forte porque ele sabia de onde e o porquê vinha. Seu pai e os motivos que o levou a mentir durante todos esses anos em que Christian se viu obrigado a cumprir regras que ele nunca quis seguir – a maior parte delas. E na maior parte delas fez coisas com as quais se culpa até hoje.
A cabeça do príncipe Christian tinha virado um caos àquela altura, não sabia quanto tempo tinha se passado ou o que tinha acontecido após a declaração de seu pai. Tudo o que o príncipe conseguia fazer naquele momento era... nada. Congelado no lugar, pálido e os olhos cinza desfocados, sua postura era como se tivesse se aprisionado em sua mente parando seu corpo de reagir. Foi aí que percebeu que prendia sua respiração, foi aí que percebeu que a dor intensa no seu peito era a causa da falta de ar nos pulmões, e mesmo quando respirou fundo buscando ar para amenizar a queimação em seu peito, a dor não passou nenhum pouquinho. Não era de ar que ele precisava para curar a dor. Sabia perfeitamente. Sabia perfeitamente que o golpe que recebeu trazia consigo outros a mais que Christian não suportaria receber sem surtar.
Mas as surpresas não tinham parado, e para a surpresa de todos os presentes naquela biblioteca que já estavam preocupados com o silêncio ensurdecedor do príncipeChristian, não acreditaram quando um riso nasalado saiu dele, de repente. Foi um riso baixo que se transformou logo em seguida numa gargalhada histérica. Era possível ver as lágrimas caindo das laterais de seus olhos. Suas gargalhadas eram tão altas que provocavam ecos pelo cômodo. Nem ele mesmo sabia o porquê de reagir daquela forma. Talvez porque, de certa forma, havia graça. Por exemplo, a maldita profecia de anel encantado. Como ele podia pensar que teria tranquilidade em sua vida só por causa de uma lenda idiota, de um anel idiota? Aquela maldita profecia era uma farsa! A única coisa verdadeira que o anel trouxe foi sua Anastásia, mas a promessa de que quando se casassem e teriam uma vida próspera, não era verdade quando tantas desgraças caiam por sua cabeça. Ela havia até questionado a sua amada sobre isso a minutos atrás, e veja só!
Você não é o primogênito, Christian.
Não, ele não era. E isso só o fez gargalhar ainda mais. Ele se curvou para frente pressionando suas mãos na mesa, sua respiração pesada por causa de sua histeria. Ninguém ousou falar nada e muito menos chegar perto dele, sabiam o tipo de temperamento dele, e não queriam ser atingidos quando ele estourasse de verdade. Era questão de tempo quando sua ficha caísse.
— Fala que isso é uma brincadeira. – pediu o príncipe. Sua voz entrecortada está carregada. Ele precisa ouvir novamente. Fechou os olhos quando a resposta não veio de imediato como ele esperava. A hesitação era a prova de que algo estava muito errado. E ele sabia o que era. Já tinha ouvido, mas a névoa negra que se instalou em sua mente esmagando seus últimos resquícios de lucidez, fazia com que ele necessitasse ouvir novamente.
— Filho... – quando o rei Carricko chamou assim o fez lembrar de que havia outro irmão seu por aí, filho dele. Outro irmão que estava morto por causa do filho dele. Isso o fez despertar. E o que veio a seguir, foi totalmente inesperado. Em um ataque de fúria, rapidamente, o príncipe pegou um objeto que estava sobre a mesa e o arremessou na direção do rei. Ele nem ao menos se deu conta do que pegou, quando sentiu seus dedos trêmulos agarrem o que quer que tivesse pego, seu ímpeto foi arremessa-lo, mas não foi na intenção de acertar seu pai, pois seu alvo era a parede atrás dele. Quando o estrondo do impacto do objeto na parede se fez presente, o choque no rosto de todos foi visível. Principalmente para o rei Carrick. Esperavam que ele reagisse como sempre fez quando uma noticia ruim o pegava desprevenido, esperava que ele praguejasse, proferisse inúmeras maldições aos quatros ventos, mas isso ninguém estava esperando.
— Christian! – grita o príncipe Elliot tentando conter o irmão. Mas já era tarde. Os olhos de Christian estavam injetados de uma raiva incontida, e após ter arremessado o objeto, cresceu nele a vontade de descontar sua raiva em outras coisas. E foi o que ele fez. O caos instalado em sua cabeça não era nada comparado ao caos que se formara naquela biblioteca. O príncipe Christian estava descontrolado e nada que aparecia à sua frente saía inteiro. No fundo de sua consciência, ainda entorpecida pela noticia, ele tentava entender o significado de tudo aquilo. Como assim ele tinha outro irmão? Seu pai passou a vida inteira encobertando um segredo que muda completamente o percurso das coisas.
O animal dentro dele, coberto de selvageria devastadora, soltou-se. Um irmão. Ele tinha um irmão. Um irmão abandonado. E foi nesse pequeno momento de lucidez que percebera o que tudo aquilo significava.
Vingança.
A palavra veio em sua mente numa velocidade que o golpeou de dentro para fora.
— Pelo amor de Deus, Christian! – ouviu ao longe a voz de seu irmão Elliot. Seus sentidos não funcionavam. Aos poucos, foi sentindo todos aqueles sentimentos ruins dentro de seu peito esvair pra fora, restando apenas os destroços de um furacão que arrastou tudo o que viu pela frente. E não foi apenas por dentro, foi por fora também. Agarrado a uma cadeira partida ao meio, sua visão voltou ao normal, e o príncipe percebeu a cena desastrosa a sua frente.
A biblioteca de seu pai continha objetos espalhados por todos os lados. As duas cadeiras estavam quebradas largadas ao chão, a mesa de seu pai uma completa bagunça como se alguém tivesse empurrado tudo para fora dela. No canto da parede oposta onde ele se encontrava, seus pais estavam lá, chorando. Observou no rosto daqueles que mentiram para ele a vida toda, o reflexo de sua dor. Eles não estavam melhores do que ele. Arrasados, contemplavam a fúria nos olhos do filho, os olhos que um dia brilharam de admiração e orgulho. Seu irmão estava ao seu lado, sentiu os braços dele em sua cintura. Os olhos verdes do príncipe Elliot o encaravam em um misto de medo, confusão, raiva, preocupação e... pena.O pior de todos os sentimentos. Soltou os pedaços do que um dia foi uma cadeira no chão, seu corpo tenso, doía em todos os lugares. Ele nunca fora uma pessoa fácil de lidar, tudo tinha que ser como ele queria. Quando algo não era de acordo com suas vontades, sua raiva se sobressaia e ele agia tomado por impulso. Sempre foi assim. E mesmo após a chegada de Anastásia em sua vida, que lhe trazia paz e conforto, não mudará sua verdadeira natureza.
Anastásia.
Ele precisava dela para se acalmar, porém o medo de não estar o suficiente sob controle e machuca-la de algum modo, o fez recuar. Anastásia era sua salvação, seu balsamo em meio a tempestade, sua cura. Mas buscou forças o suficiente para resolver tudo isso sem precisar envolvê-la. Ele precisava manter a calma, precisava esclarecer os pontos que não foram esclarecidos pelo seu pai. A agitação da adrenalina ainda percorria cada veia de seu corpo, sua respiração irregular aos poucos se normalizava assim como as batidas furiosas de seu coração doído.
— Por Deus, irmão, fica calmo! Você está parecendo um louco e vai acabar nos matando com o seu descontrole! – as palavras de Elliot saíram em um rosnado raivoso. Ele sentia a mesma raiva que Christian sentia naquele momento, sentia vontade de destruir cada item que permanecia intacto naquela biblioteca, queria gritar maldições e depois correr sem rumo numa busca de alivio para a confusão que se instalou dentro dele. O pior de tudo fora perceber, assim como Christian, o que àquela revelação de seu pai significava. Não queria acreditar.
Sem ainda conseguir dizer nada, o príncipe Christian se desvencilhou das mãos de seu irmão e passou as mãos no rosto.
— Eu estou bem. – ele conseguiu murmurar.
— Não, você não está! – rebateu o príncipe Elliot, irritado. – Está como um louco que não consegue se controlar! Que diabos têm na cabeça?
— Poupe-me dos seus sermões, Elliot! – grita Christian, odiava isso. – A última coisa que quero ouvir agora é você dando-me lição de moral quando, claramente, o que temos aqui é muito maior que isso, e com certeza não sou eu quem os deve escutar!
— Então pare de se comportar como se sempre precisasse ouvir! – o príncipe Christian abriu a boca para rebater quando sua mãe pediu que os dois parassem com aquilo.
— Chega vocês dois! Não há motivos para que briguem!
— Será mesmo, mamãe? – pergunta Christian, irônico. Ele olha para seu pai que desde que dissera que ele não é o primogênito, não tirou os olhos dele um segundo. Christian não tinha nada em seu olhar, nada comparado ao seu olhar de antes. O brilho que jazia ali, já não existia mais. – O senhor ainda têm muito o que explicar.
O rei Carrick assentiu com a expressão desgostosa.
— Sei que está com raiva, mas isso não te levará a lugar algum, não resolvera o problema entre nós. – ele respira fundo, solta-se dos braços de sua esposa que funga constantemente, e vai até sua cadeira que fora jogada para o lado. – Se quer respostas, eu as darei a você e seu irmão.
— Ótimo, pai! Porque eu tenho muitas perguntas! – diz Elliot. – Como, por exemplo, como assim o senhor teve um filho e nunca soubemos da existência dele até agora?
— Eu era muito jovem na época. – começa o rei. – E era como você, Christian, cheio de responsabilidades e sem querer cumprir nenhuma delas. E meu pai não me dava trégua, vivia me cobrando. E tudo piorou quando o momento de arranjar uma noiva pra mim chegou e eu me recusei porque estava apaixonado por outra. Mas ela não se encaixa em nosso perfil. Francesca não era da realiza.
— Francesca? — pergunta Elliot, com o cenho franzido. Christian permanece com os olhos fixos em seu pai, atento e calado.
De repente, as feições do rei se tornaram suaves. Ele abriu um sorriso.
— Há algo de cômico nessa história toda. – ele balançou a cabeça como se pensasse em algo. – Francesca era como a Anastásia, eu era como você, Christian. As nossas histórias têm algo em comum.
— Eu nunca abandonaria um filho meu! – rebateu ele em um rosnado.
— E eu nunca abandonei o meu filho! – a acusação de que o abandonou foi como um soco no estomago mesmo que essa não fosse a verdade. Ele jamais havia abandonado seu filho, fez tudo o que pôde para encontra-lo quando soube de sua existência, mas nada encontrou. Ele socou a mesa ao se levantar, nervoso. – Jamais faria isso! Eu não sou um monstro! Ele foi tirado de mim antes mesmo de saber que existia então não me venha com julgamentos. Você têm todo o direito de estar com raiva, de me cobrar por não ter contado a verdade, mas nunca, ouviu bem? Nunca diga que eu abandonei meu filho! – o fervor de suas palavras fizeram com que o príncipe Christian ficasse surpreso assim como seu irmão. Ele se referia ao filho assim... comofilho. Apesar de nunca o ter conhecido ou criado. – Envolvi-me com Francesca sabendo de todos os riscos que ela e eu corríamos caso meu pai descobrisse. Ela era filha de um dos melhores soldados de meu pai, um de sua confiança, Archer Konstantinova. Achei que por ele servir tão fielmente ao nosso reino talvez meu pai concordasse com nossa união. Mas eu estava enganado. Meu pai teve a pior reação que eu podia espera: ameaçou-me. Não só a mim, mas a Francesca e a toda a sua família. Foi um momento muito difícil, Daenne, minha mãe, estava com a saúde bastante debilitada e com o sofrimento dela meu pai acabou se tornando ainda mais vil. Deixando que amargura de saber que perderia a mulher que ama o tornasse um homem frio e deturpado. Nem eu acreditei quando ele foi capaz de me ameaçar, seu próprio filho...
— Quais foram as ameaças de meu avô? – Christian quis saber.
Houve um momento de pausa.
— Morte. – a palavra fora dita como se um abismo tivesse sido aberto.
— Meu Deus do céu! – exclamou o príncipe Elliot, atordoado.
— Droga! – praguejou o príncipe Christian.
— Quando ele descobriu do meu caso com Francesca, ameaçou-me deserdar e matá-la na minha frente para me punir, mas antes mataria a família dela para que sofresse antes de morrer. Aquilo me assustou tanto, fiquei tão estarrecido por meu pai ter dito ser capaz de algo assim só porque não a queria em nossa família. Porque achava que seria uma vergonha para os Grey que seu único filho casasse com uma plebeia. Mas eu não dei ouvidos as suas ameaças, achei que blefava, além do mais, Archer era seu amigo. Novamente me vi enganado por buscar nele a humanidade que havia perdido.
— Ele os matou! É isso que está nos dizendo? – Christian quis saber, chocado. – Que tipo de homem era o meu avô, afinal?
— Do tipo que cumpre suas promessas. – murmurou o rei Carrick sentindo o peso das lembranças comprimirem seu coração. – Eu estava cada vez mais afrontando aquele homem que se tornara irreconhecível após a morte de minha mãe. Foi um inferno conviver com sua tirania. Tentei buscar em Archer o apoio que me faltava, mas ele nada fez. Por medo, eu acho. Ele era fiel ao meu pai em tudo e se tivesse que fazer alguma coisa para agradá-lo, ele faria. E ele fez. Passou a fazer da filha uma prisioneira. – ele faz uma pausa como se estivesse lembrando-se de algo. – Mas nada adiantou, além de encantadora, Francesca era esperta, filha de um soldado. – ele respirou fundo. – Archer fora destituído de seu cargo no reino. Quando isso aconteceu, tudo se complicou ainda mais porque Archer passou a ter mais raiva de mim, ódio... Olhava-me como se fosse uma doença e não se intimidava pelo fato de eu ser o filho do rei. Punia Francesca para me atingir, começou a agredi-la e a sua esposa, Tessa, para puni-la. Ele era um homem bruto, vivia a semelhança de meu pai. Foi aí que Francesca decidiu acabar com o que tínhamos por medo. Não havia mais em seus olhos negros o brilho que eu tanto amava, havia apenas um abismo de dor e sofrimento causados por nossos pais.
— Mas o que aconteceu com eles, pai? – Elliot quis saber.
O rei hesitou por um momento, seus olhos desfocados.
— Eu não aceitei a decisão de Francesca, mas tive que compreender e dar tempo ao tempo. Afinal, era a família dela. Por isso passei a odiar meu pai e cada vez mais a desobedecer suas ordens. Eu estava cego, louco, apaixonado... Tudo piorava a cada segundo, mas aí, ela também não conseguiu ficar longe de mim e tomamos uma decisão: iriamos fugir. Fugir para bem longe dali, largar tudo. Nosso ponto de encontro naquela noite era o riacho. Ela apareceu e estávamos prontos para partir quando seu pai apareceu também. Archer tentou me matar. Lutamos como dois inimigos sedentos pela morte do outro, eu jamais o mataria por amor a Francesca, mas ele estava disposto a tirar minha vida, e quando achei que faria quando me rendeu, homens de preto e mascarados apareceram e o torturaram até a morte.Francesca assistiu a tudo enquanto um dos homens a seguravam e a mim, os olhos dela desanuviava a cada segundo daquela torturante cena. Tentei lutar com quem me segurava, mas fui acertado na cabeçae logo depois eu apaguei com a lembrança de seus olhos negros chorando e gritando. Quando acordei estava em meu quarto no palácio com um enorme galo na cabeça e totalmente desesperado. Descobri logo depois por meu pai que ele torturou e matou os pais de Francesca na frente dela. Ela estava sozinha no mundo. Seus pais estavam mortos por culpa do meu pai. Fiquei arrasado, ele havia cumprido com suas promessas. Desesperou-me saber que ela estava desamparada, que precisava de mim, mas meu pai estava disposto a tudo e me propôs um acordo. Disse que pouparia a vida dela se eu a deixasse... – ele balançou a cabeça quando lágrimas caíram de seus olhos. – Eu estava me sentindo o pior dos seres humanos, sentindo culpa pelo o que tinha acontecido. Eu destruí a vida dela por não ter dado ouvidos ao meu pai, então... então... eu aceitei a proposta dele. Eu deixei-a. – sua voz falhou no final da frase e ele não conseguiu encarar os filhos.
— Você o quê? – gritou o príncipe Christian.
— Filho... – pela primeira vez desde que o rei falara, a rainha se pronunciou. – Seu pai achou que estava fazendo o certo por ela, para poupá-la.
— Poupa-la de quê, mamãe? Ela já estava destruída e provavelmente carregava em seu ventre um filho dele! – Christian gritava alterado, Elliot permanecia no seu canto totalmente embasbacado, chocado. Não sabia o que dizer de tudo aquilo. Ele sentia uma dor, dor por todo o sofrimento causado por àquela mulher que ele nem conhecia. – Onde nessa história toda você é melhor que seu pai? Abandonou a mulher que amava justo no momento em que ela mais precisava de você!
— Christian! Não fale assim com seu pai! Ele fez isso por medo de que matassem ela e como você acabou de dizer, provavelmente carregava o filho dele no ventre, seriam mais duas mortes para seu pai carregar na consciência! – diz a rainha Grace com a voz embargada. – É duro, meu filho, é cruel toda essa história. Sombrio demais, eu sei. Sofri por Francesca quando descobri tudo. E eu e seu pai quase vivemos a mesma sina. Eu também era uma plebeia e o pai de Carrick não aceitou, mas anos depois do que aconteceu ele já não era o mesmo. Debilitado, imobilizado numa cama, esperando a morte. Nada podia fazer contra nós.
— E morreu afirmando que não se arrependeu de nada do que fez. – o rei levantou a cabeça, seus filhos podiam ver o tamanho de seu sofrimento, sua dor. –Descobri, por meio de uma carta que ele escondia de Francesca, contando que estava grávida. Ela deixou-me está carta antes de ir embora na esperança de que eu voltasse atrás e partisse com ela, mas essa carta nunca chegou em minhas mãos. E meu pai sabia onde encontrá-los, e suas ultimas palavras foram: “você nunca os encontrará”. E morreu. – ele continuou após um pigarrear de repente seus olhos continham fúria. – Procurei-os por anos e nunca os encontrei e, mais uma vez, desisti deles. Mas já não havia esperanças de encontra-los, era como se tivessem virado fumaça e desvanecido no ar. Mas acho que talvez eles estejam mais perto do que nunca.
Suas últimas palavras trouxeram de volta a constataçãoà Christian e Elliot. Nada do que aconteceu até aquele momento se tratava de Christian e Anastásia, se tratava do rei Carrick e seu passado, seu segredo... Tratava-se da repetição de uma história que não acabou bem. Por mais que fenômenos inexplicáveis tivessem acontecido por causa da lenda do anel, como dirá Suria, toda essa história estava ligada ao passado sombrio do rei Carrick. O que aconteceria se não existisse tal lenda que o príncipe Christian ainda se recusava a acreditar? Se essa teoria estivesse correta, tudo isso, todas as ameaças, mortes, foram frutos de uma vingança? Mas, como? Como, depois de tantos anos, isso estaria ali para atormentar uma família que não sabia de nada sobre isso até então? Seu irmão Aron fora morto por um irmão que ele desconhecia e Christian jurou a Aron a morte de seu assassino, sendo este também seu irmão.
Isso era fruto do destino ou carma?
O rei Carricksabia que mais cedo ou mais tarde pagaria por seus pecados. Abandonou um filho, e o mesmo tirou a vida do seu outro filho e quase fez o mesmo com Christian. Todo o ódio era direcionado a ele. Ao que estava em seu lugar de primogênito.
— Eu já ouvi o suficiente por hoje. – murmura Christian pronto para sair dali. Mas a voz de seu pai o fez parar.
— Filho, sei que está com raiva agora e com razão. Eu sei que desde então só venho errando, mesmo tendo passado por tudo isso com meu pai quase me tornei a cópia dele. Mas, entenda, omitir a verdade foi a melhor forma que achei de enterrar esse passado, pois sabia que sofreriam, e eu e sua mãe estávamos convencidos de que não havia mais esperanças. – diz ele, as feições de seu filho permanecem duras, tensas, porem ele apenas assente e sai dali sem dizer mais nenhuma palavra. O príncipe Elliot continua parado, olhando para o nada.
— Vá atrás de seu irmão, filho! – diz a rainha. – Tenho medo que faça algo.
— Sinceramente, mamãe, eu também preciso de um tempo para digerir tudo isso. Christian já é bem grandinho e sabe cuidar de si mesmo.
— Sinto muito, Elliot – diz o rei. –, não queria que me odiassem. – ele solta um suspiro pesaroso, Elliot franze as sobrancelhas.
— Eu não te odeio, pai, por mais chocante que tenha sido todas essas revelações. Por mais que eu esteja com raiva, pensando no irmão que nunca conheci que provavelmente deve ter passado o inferno enquanto todos nós estávamos aqui, na fartura, no luxo, eu não te odeio. Pensando no irmão que eu tanto amava e perdi por esse irmão desconhecido. Você é meu pai, e não poderia te odiar, mesmo não concordando com suas atitudes, eu sei que fez tudo para proteger sua família. Eu faria tudo pela minha família. – a declaração do príncipe pegou de surpresa seus pais, pôde ver um pequeno sorriso se abrir nos lábios deles.
— Obrigado, meu filho.
— Não me agradeça, pai, apenas repense em tudo o que já fez e disse.
E assim, ele também saiu, levando consigo um caos dentro de si e deixando outro para trás naquela biblioteca.
(...)
Christian saiu da biblioteca e foi rumo ao seus aposentos. Não parou, apenas seguiu. Não sabia se alguém tinha o chamado, não deu ouvidos. Queria ficar sozinho e pensar em tudo aquilo que queria esquecer.
Em seu quarto, após fechar a porta, encostou-se a ela, e soltou um suspiro tão pesado quanto os outros que soltará àquele dia. Logo percebeu em meio ao silêncio que Anastásia não se encontrava no quarto, e isso fez seu coração se apertar, de certa forma. Queria-a por perto para acalmá-lo, mas travava uma batalha interna, pois precisava ficar sozinho e digerir tudo o que lhe foi dito por seu pai. Paciência, como diziam, era uma virtude, desconhecida por ele. Não era conhecido por ter paciência, e sim por quase nunca tê-la. E por causa disso, quando algo assim acontecia, ele estourava facilmente.
Uma vez quando criança enquanto brincava com Elliot no jardim do castelo, Elliot fez algo pouco sensato que em sua inocência de criança não imaginava que traria irritação ao irmão que passará três dias sem falar com ele como uma forma de punição. Desde pequenos sempre foram ligados e se tornaram ainda mais quando Aron nasceu. Pensar em Aron era como uma ferida aberta que por mais que tentasse nunca se fecharia. E depois de hoje, com certeza, não havia mais solução.
Tudo fazia sentido agora, estava tão claro quanto à luz do dia.
Vingança.
E novamente a palavra saltou em sua cabeça como uma martelada bruta. O homem que trouxera tantas tragédias, o que eles denominavam de mascarado, podia ser seu irmão. Ele havia matado seu próprio sangue por uma vingança, por uma obsessão... Anastásia era a obsessão dele no inicio de tudo. Aron havia sido morto porque cruzou o caminho de um louco que sofreu abandono onde o que era dele por direito havia sido tirado e dado a outro. E esse outro era Christian, e ele pereceu com uma flecha no peito, a mesma flecha que matou Aron. A que estava guardada no cofre para que ele cumprisse a promessa que fez. Elliot havia caído do cavalo no dia em que as tragédias viam sucessivamente, onde tempos depois descobrirá que agitação de seu cavalo, era fruto de algum veneno por pouco não morreu também por pouco não perdeu seu filho quando Kate sofrerá.
As promessas de tragédias estavam todas lá...
As malditas profecias causadas por um ser do passado de seu pai. O que mais iria acontecer? Será que nunca haveria paz para o reino Grey?
O príncipe, cansado e atordoado, sem forças para continuar com a batalha de sua mente foi até a sacada. Lá, ele observou o horizonte. Tão lindo e sem nenhuma preocupação. Sem nenhum caos. Tudo perfeitamente bem lá fora. Olhou para baixo e mais a frente viu a dona de seu coração, sentada em um banco ao lado de Katherine. Elas sorriam e Anastásia alisava de maneira carinhosa a barrigona de Kate, se pegou mais uma vez desejando que fosse a sua mulher a estar esperando um bebê. E que fosse ele a fazer esse carinho talvez ele lhe trouxesse a paz que tanto precisava naquele momento. A princesa Anastásia, sentindo o peso de seu olhar, olhou na direção da sacada de seu quarto e o avistou ali. Imediatamente soube que havia algo de errado com ele, ele sabia que ela sabia era uma conexão entre eles onde seus sentimentos sempre ficavam expostos para ela como um banquete. Ele acenou para ela, seu gesto foi retribuído e ele voltou para o quarto sentindo que ela ainda o olhava. Ele não queria ter que tonar real as palavras de seu pai, queria deixá-las em sua mente para se agarrar a inútil tentativa de que tudo o que aconteceu não passou de uma projeção de sua mente. Ana é uma boa ouvinte e conselheira, mas naquele momento ele precisava dos conselhos de sua racionalidade.
Foi quando uma ideia se passou por sua cabeça.
...
Já era noite quando ele saiu do castelo com seu cavalo. Ele saiu sem que ninguém o percebesse, a solidão era sua companheira no momento. Em momentos como esse, apenas ela era a única coisa que necessitava. Seu cavalo galopeava pela floresta tomada pela escuridão da noite, o barulho do vento, das folhas nas arvores indo de lá pra cá, não o assustava. As lembranças eram flash a sua frente enquanto percorria aquele caminho tão conhecido por ele em direção ao riacho. Lugar onde tantas vezes buscou tranquilidade e que em menos de um dia esteve lá. Não era exatamente o lugar que pretendia ir, afinal não havia um lugar especifico que ele quisesse ir sua mente estava limitada para pensar em outra coisa que não fosse as mentiras de seu pai. No fundo, ele entendia os motivos que o levou a fazer as escolhas que fez, ainda assim, não amenizava a dor de descobrir que não tinha direitos sobre o trono e a sensação de culpa por ocupar o lugar de alguém que pode estar vivo, e muito bem vivo, cultivando por ele o ódio por ele.
Mas algo o fez parar de repente. Como se tivesse levado o maior susto de sua vida. Seu cavalo relinchou e ergueu suas patas da frente, o príncipe teve que se segurar bem para não cair. Talvez estivesse enlouquecendo. Talvez o destino esteja lhe pregando mais uma peça. Ou, talvez, seus pensamentos desenfreados tenha-o atraído para ele.
A sua frente, a poucos metros de distancia, escondido pela escuridão, estava um homem vestido de preto com uma capa negra e rosto coberto montado num cavalo negro. Ele o reconhecia muito bem, jamais iria esquecê-lo.
Era o mascarado.
O assassino de Aron.
O seu irmão.
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