Capítulo 31 – Um príncipe em Cinquenta Tons.

Quando o dia amanheceu e Ana abriu os olhos, sentiu que seu corpo estava diferente. Havia um fogo dentro dela, quase incontrolável. Saiu da cama e correu para o banheiro tomar um banho. Nada adiantou. O calor que sentia foi fruto do sonho erótico que teve com seu amado. Quatro dias sem tocá-lo, provocou nela essa reação. Um sonho quente que a fez ficar excitada. Muito excitada. Depois de um café da manhã reforçado com a família real, ela seguiu para um lugar que há muito tempo não ia. O riacho. Quando chegou lá nem a calmaria do lugar foi capaz de amenizar o calor que se espelhava. O sonho ainda fresco em sua mente a perturbava. Logo tirou suas roupas e entrou na água, sendo recebida pelo frescor. Em um dado momento, sua mente vagou no sonho prazeroso que teve com Christian e a necessidade de tê-lo dentro dela, tocando-lhe, beijando-lhe a fez se tocar. Só não imaginava que ele seria atraído até ela no momento em que fazia.

Foi maravilhoso.

Depois que terminaram de ser amar, seguiram de volta para o palácio com o proposito de conversarem, colocar tudo em pratos limpos, mas as fagulhas do desejo permanecia acesa. Chegaram ao palácio, quando ele a tirou de seu cavalo, beijou-a. E permaneceram assim, até entrar no castelo e acabar topando com o príncipe Elliot no topo da escada, aos beijos.

— Céus!

— Ah, Elliot, você aqui.

— Claro, eu moro aqui. – responde irônico e Christian revira os olhos. Anastásia se remexeu desconfortável. – Bem, eu tenho que ir.

— Nós também, tchau Elliot. – disse o príncipe e foi até seu quarto, mas, ao longe, ouviu a risada de seu irmão.

Assim que fechou a porta de seus aposentos, Christian segurou nos ombros de Ana e a fez encará-lo. Suas mãos mantidas ali, causava arrepios nela, arrepios bons. Mesmo sentindo todo o seu desejo voraz, precisava conversar com ela. Contar-lhe tudo o que não sabia.

— Você sente? – ela anui sem conseguir falar. Uma de suas mãos desceu até estar espalmada do lado esquerdo do peito dela. A princesa suspirou fundo, seu coração batia forte. – Eu sinto. Tudo que existe em você, existe em mim. Estamos ligados um ao outro.

— Soube disso desde o dia em que vi você. – ela pôs duas mãos sob a dele. – Por que está dizendo isso?

— Porque quero que saiba que tudo o que fiz, no início, foi movido pelo ódio, sei que agi errado e desde então tento compensar os dias infelizes que teve aqui com o meu amor. Mas também quero que entenda que se ocultei algo de você, foi para te proteger.

— Eu entendo completamente, meu amor. – suas mãos agora estavam no rosto dele. – Você está com medo?

— Não – ele suspirou. –, não estou com medo. Só cansado de brigar.

— Nós não vamos brigar, hoje não. – ela riu. – Eu garanto.

— Ah, Deus, o que eu faria sem você, minha senhora? – ele abraçou-a enterrando seu rosto nos cabelos dela, sentindo seu cheiro de suor, sexo, Christian e Ana.

— Fico feliz em saber que você nunca terá a resposta para essa pergunta. Nunca vou deixar você. – ela beijou os lábios dele. – Então, vamos conversar?

(...)

O rei Carrick parecia como um animal encurralado. Indefeso.

Lembranças e mais lembranças o atormentava.

O segredo de uma vida inteira.

Um segredo guardado há tantos anos. Algo que por muito tempo passou a ser uma triste lembrança de um passado tão distante. De um passado que o rei não queria jamais se recordar por vergonha e medo.

Vergonha, porque suas atitudes não foram dignas. Não faz jus ao que ele é hoje. Tudo poderia ter sido evitado se sua covardia não tivesse falado mais alto fazendo-o recuar de suas responsabilidades. E medo, medo de que talvez todo o mal que têm acontecido nos últimos dias seja consequência desse ato. Que ele estivesse pagando por tudo o que fez, que a promessa de ódio e desprezo feita paraele e para sua família esteja se concretizando. E que tudo isso possa estar relacionado com pessoas do seu passado, do passado que ele preferiu deixar para trás e que voltou para atormentá-lo. Toda àquela profecia do anel baseada no romance de Christian com Anastásia não seria capaz de salvá-lo do castigo de ter abandonado seu filho, seu verdadeiro primogênito que ele nem sabia se está vivo. Apenas sabia que corria seu sangue nas veias de um varão. Foi aí que se lembrou dela.

FrancescaKonstantinova.

Foi doloroso pensar nela. De tudo o que fez e disse. A última imagem dos olhos negros dela foram feridos, despedaçados com a dor da humilhação que sofreu. O que será que o tempo fez com àquela pobre garota? A garota que o amou e ele a destruiu. Alguém com um coração partido é capaz de qualquer coisa principalmente quando ele se enche de sentimentos ruins. A vingançaé uma forma de poder descontar os anos de rancor. Será que tudo isso era um castigo? Ou um plano arquitetado? Quantas dúvidas! O rei sentia que isso nunca teria fim! Passou anos se remoendo depois de ter feito o que fez com Francesca e permitido que a fúria de seu pai, o rei Vincent Logan Grey II, recaísse sobre sua família. Foi cruel. Seu pai não era um homem conhecido por benevolência, pois quase nunca ele a tinha. O rei Carrick decidiu nunca seguir os passos de seu pai, mas, hoje, ele percebe que não se pode negar seu próprio sangue. Relembrou das vezes que não teve clemência com os seus. Quando foi intolerante com seu filho para que ele seguisse regras que no fim das contas, não cabia a ele seguir. Christian não é o primogênito; o trono e as responsabilidades do reino, não eram da conta dele.

O véu caiu. E o rei percebeu isso.

Ele tentou enxergar alguma beleza nisso tudo. Logo balançou a cabeça como se essa ideia fosse a mais absurda que já tivera. Beleza? Onde estaria a beleza em algo tão vergonhoso? Nem mesmo o fato de ter tido um filho, filho esse que não sabia se vivia, parecia ser bonita. Filhos são concebidos com amor. Existe àqueles que vêm ao mundo com o proposito de trazer amor onde se semeia o ódio. Com certeza, seu primeiro filho foi feito com amor porque conheceu o amor através de Francesca. E será que esse amor existia dentro dele? Se estiver vivo, ele conhece o amor? Francesca o ensinou a amar? Mas, a julgar pelas palavras de ódio transmitido nos bilhetes anônimos, e se suas suspeitas estiverem corretas, seu filho não conhece o amor. Francesca deve ter perdido a fé nesse sentimento quando teve seu coração partido. Quem não perderia?Todos nós temos fé em algo, mas quando essa fé é quebrada, dificilmente se recupera. Às vezes, nunca se recupera.

Depois de tudo ter acontecido, Grace havia sido o motivo de recuperar sua fé. Ela entrou no momento mais difícil; a morte de seu pai, as revelações que ele lhe fizera no leito foram capazes de deixá-lo totalmente perdido, sem saber se um dia se recuperaria da dor causada em seu coração. Por muito tempo a culpa o corroeu, pediu a Deus e aos céus por ajuda, por um sinal, por perdão. Mas o mais difícil não era pedi perdão a Deus, era se permitir ser perdoado. Buscou por Francesca e seu filho durante anos, mas nada encontrou. Nada. Até que decidiu apagar de sua memória.

E agora, depois de tantos anos, seu passado bateu à porta.

— Querido? – a rainha Grace o chamou. Ela está sentada ao seu lado no trono.

— Sim. – ele a olhou, os olhos dela estavam preocupados. – Eu estou bem, querida. É só que reviver um passado como esse não é tão fácil.

— Eu sei. Ele é meu também, você lembra? Foi uma época difícil. Seus pais também não me aceitavam.

— E eu lutei por você. – sua voz saiu cheia de amor. – Lutei porque você me fazia sentir a vida pulsando novamente em minhas veias. E eu devia ter lutado por eles também. – fechou os olhos e engoliu em seco sentindo um gosto amargo na boca.

— Cary, você fez o que pôde! Não dava para imaginar que seu pai tinha feito tudo àquilo.

— Dava sim, Grace! Convivi tempo o suficiente com meu pai para saber que sua arrogância e soberba ultrapassavam os limites da sanidade. Que nada mais importava para ele se não fosse o poder e a obediência. Que qualquer coisa que fosse contra ao o que ele dissesse, era aniquilado. Nem mesmo minha mãe suportou a vida ao lado dele. Ele foi capaz de esconder de mim que eu tive um filho e morreu me dizendo que eu jamais o encontraria, que esse segredo ele levaria para o túmulo. E foi dito e feito, eu nunca o encontrei. Ele não queria que meu filho fosse digno de sentar, um dia, no trono que foi dele só porque não tinha sangue real. Tudo isso pra quê? O rei Vincent só fez isso para me punir por tê-lo desobedecido! E sabe o que é pior? Eu sou igual a ele.

— O quê? Não, Cary! Claro que você não é! Olha só o que está dizendo! Seu pai foi capaz de atrocidades, coisas horríveis, você não é igual a ele.

— Eu fiz escolhas erradas, Grace.

— Todo mundo faz escolhas erradas. E isso não nos torna pessoas horríveis, nos tornam humanos. Você se arrependeu e tentou consertar seus erros. Diferente de seu pai que morreu dizendo que faria tudo de novo se tivesse a chance. Ele não tinha se arrependido, Cary. Para ele, fez o que fez porque achava certo. Na forma deturpada dele, fez isso por amor a você. Não se condene pelos erros dele.

— Nem esse amor feio que ele sentia por mim é justificável. – diz o rei e suspirou pondo seus cotovelos sobre os joelhos e cruzando as mãos abaixo de seu queixo. Seu olhar distante. Tudo está muito confuso. – Nada justifica.

— Não, não mesmo. – a rainha concordou. – Mas se suas suspeitas forem verdadeiras, você pode ter a chance de consertar tudo.

— Já é muito tarde para consertar algo, Grace. Anos se passaram e eu nunca soube o que aconteceu com Francesca e a família, devem ter vivido na miséria e só Deus sabe o que cultivaram no coração durante todo esse tempo. Com certeza devem odiar a mim e nossa família. – ele passou as mãos no rosto. – Ah, meu Deus, nem nossos filhos sabem dessa história. Como eu poderia consertar alguma coisa?

— Talvez seja a hora de contar a eles. – sussurrou ela e apertou a mão dele. Ele a olhou de imediato. – Esse segredo já não pertence somente a você, Carrick. Se todos os ataques que aconteceram nos últimos meses; a morte de Aron, o atentando contra Christian, as tentativas de estupro contra Anastásia... Se tudo isso for por causa de uma vingança, nossa família merece saber, corremos perigo.

— Por favor... eu só... – ele se calou. Sua rainha tinha razão, sua família merecia saber. A vida deles corriam perigo por sua culpa. Ocultar isso já não era mais uma opção. Seu coração doeu ao imaginar que seus filhos não compreendessem e que repudiassem suas atitudes, que perdessem a admiração que tinham por ele. Precisou respirar fundo. – Tudo bem, você está certa, querida. Como sempre está. Contarei a nossos filhos, mas não agora. Aron completa vinte e um anos daqui a um mês e isso já é uma dor insuportável para lidar. Uma coisa de cada vez.

— Faremos isso juntos. Quero estar ao seu lado quando contar tudo. – ela respirou fundo e foi impossível segurar a lágrima que caiu. – E vamos superar isso também. Iremos comemorar o aniversario do nosso filho tão amado.

— Sinto tanto a falta dele. Os espaços vazios que restou quando ele se foi nunca foram preenchidos.

— E talvez nunca será! Ninguém pode substituir ninguém! A memória de Aron permanecerá em nossas vidas e é por ele que vamos fazer isso. Honrá-lo todos os dias. Sermos fortes por ele e por nós, também.

— Obrigado, querida. Por tudo o que fez por mim todos esses anos. – o rei está visivelmente emocionado com as palavras de sua amada. – Prometo que jamais vou deixar nada acontecer com nossa família. Aprendi as lições que recebi por ter feito a escolha errada. Arrependo-me de cada uma delas.

— Eu confio em você o suficiente para saber que é sincero. Eu amo você!

— E eu amo você, minha Grace! – diz ele e beija os lábios dela. – Em breve falarei com o general Taylor e pedirei que ele repasse todas as investigações que fez nos últimos meses. Não vou começar uma guerra sem saber quem são meus inimigos. E se forem quem eu penso que sejam, tiveram tempo o suficiente para arquitetar tudo.

— Precisamos nos prevenir de qualquer ataque, Carrick. E se houver alguém no palácio que traiu o reino, essa pessoa têm que ser pega. Todo o cuidado é pouco.

— Nós vamos vencer isso, eu prometo!

(...)

A princesa Anastásia está sentada na cama, olhando para o príncipe Christian, depois de ter narrado tudo o que aconteceu, todas as suas descobertas sobre a morte de Aron. O príncipe não ocultou nada. Foi sincero em cada palavra.

— Eu... – começou Anastásia, ela parecia em choque. De repente, sorriu nervosa, o sorriso se desfez e pôs as mãos no rosto. Christian permanecia calado, com uma imensa vontade de abraça-la, mas sabia que ela precisava digerir tudo o que escutou. – Meu Deus! Então quer dizer que o homem que por vezes tentou me violentar é o assassino de Aron?

— Tudo indica que sim. As flechas que encontramos na mata são iguais as que mataram meu irmão. E a que me atingiu também é.

— E tudo isso por minha culpa! – ela se levantou e andou de um lado para o outro no quarto. – Aron morreu e você quase morreu porque um louco é obcecado por mim!

— Nada disso é sua culpa, Ana! Ele é um doente!

— Se antes eu o odiava, agora odeio mais! – rosnou ela, furiosa. – Esse homem precisa pagar por toda a dor que causou! Ele não pode ficar em pune! Tudo o que ele fez é imperdoável, tirou a vida de Aron e quase tirou a sua, meu Deus, ele tentou se aproveitar de mim porque acha que o pertenço? Ele é um monstro! – A princesa está alterada, falando e gesticulando exasperadamente, sentia um gosto amargo e ruim na boca como se o ódio e a raiva que sentia pudessem ter um sabor, um sabor ruim, é claro. O que mais surpreendeu Ana foi a sede de vingança e não a de justiça. Ficou atordoada, em silencio, por alguns minutos.

— Todos nós queremos isso, Ana. Mas tudo o que temos são rastros que nos levam a lugar nenhum, a ninguém.

— Você disse que o general Taylor achou uma cabana, o que encontraram lá?

— Nada útil. É como se isso fosse parte de um jogo em que nós somos as marionetes. Tudo é muito confuso; no inicio achei que ele só fosse um abusador, mas ele é mais esperto que isso. Não há pistas e quando temos são todas distorcidas, como se ele fizesse de proposito. Quando os soldados o avistaram nas colinas enquanto estávamos em lua de mel, o seguiram e do nada ele desapareceu. As pegadas do cavalo os levaram àquela cabana, mas não tinha nada lá além de poeira.

— Então tudo o que têm são as flechas?

— Sim. E as cartas anônimas vêm sempre pelo mensageiro. Ele recolhe as correspondências na cidade, o general foi investigar, mas nada suspeito.

— Aí, Deus! – se lamentou ela.

— Estamos de mãos atadas. Só não consigo entender a profundidade do ódio que ele sente pela minha família e, principalmente, por mim. – ele balançou a cabeça. – Talvez porque, como você disse, ele acha que você pertence a ele.

Ana sentiu suas entranhas se revirarem, sua expressão era de nojo.

— Eu o odeio. – diz baixinho, em tom de confissão. – Eu deveria me sentir culpada por cultivar esse sentimento no meu coração. Meus pais sempre diziam que sentimentos assim só faziam mais mal a quem sente do quê a quem o recebe, mas depois de tudo o que você me disse hoje, é só isso que sinto por esse ser.

— Ele parece conhecer muito bem o ódio e o ressentimento, como se esses fossem os únicos sentimentos que ele cultivou, nenhum outro. A ferocidade de suas palavras me causa uma sensação de desconforto, não de medo, é outra coisa. Não sei explicar.

— Nunca imaginei que esses fossem seus problemas. Sinto muito. – ela se aproximou dele e o abraçou.

— Não sinta. Nada disso é culpa sua. E sabe o eu acho? – ela balançou a cabeça, seu rosto colado no peito dele. – Meus instintos dizem que tudo ainda vai ficar pior. E aí, eu me pergunto: cadê a maldita profecia para se concretizar agora? – sem querer, Ana riu.

— Você ainda não é rei. Isso só vai se concretizar no seu reinado.

— Maldito seja!

— Não fala assim! Estamos juntos por causa disso sabia?

— Errado. Estamos juntos porque nos amamos. – murmura ele, seu rosto no emaranhado de cabelos castanhos brilhantes de Anastásia. Ela respirou fundo.

— Para sempre.

— O ‘para sempre’ é pouco, Ana. A intensidade desse amor nascido em meio ao ódio merece algo mais do que apenas o ‘para sempre’. Não posso usar o universo como o tamanho do meu amor, ele cresce todos os dias no meu peito desenfreadamente, não existe nada maior que ele.

— Acho que você andou lendo muito poesia. – ele riu apertando-a em seus braços, deixando que o ar levasse a tensão de minutos atrás.

— Só estou dizendo a verdade. – ela se afastou para olhá-lo nos olhos.

— O nosso amor não precisa ser maior ou menor que o universo, não precisa de um ‘para sempre’. A verdade, Christian, é que o nosso amor só precisa ser sentido. Isso já basta. – ela o beijou. – Não dá para explicar o amor, meu príncipe, apenas sentir.

— Obrigado por me fazer sentir o que é o amor.

Ele a beijou.

(...)

O vigésimo primeiro aniversário do falecido príncipe Aron chegou. O clima era nostálgico. Toda a cidade comemorava o aniversário do príncipe, cada um à sua maneira. Seja acendendo velas em nome de sua memoria, entregando flores ao palácio, indo a igreja rezar ou ir visitar o túmulo dele. Cada um, individualmente, sofria com essa perda. Ele era muito querido por todos.

Os dias anteriores a esse se passaram lentamente, arrastados num compasso lento e quase sufocante. Com a aproximação desta data e com o rei Carrick preso nas lembranças de seu passado, seus filhos já havia percebido que o pai andava estranho.

Questionaram varias vezes o que houve.

— Logo vocês saberão, meus filhos. Tenham paciência, por favor.

Essa foi a resposta dele, todas as vezes. A rainha Grace também se mantinha perdida em lembranças, mas, diferente de Carrick, ela não deixava transparecer suas emoções. As únicas que se permitiam mostrar aos demais, era a saudade e nostalgia. Recordou dos momentos ao lado de seu filho mais novo, bons e ruins.

Apesar do clima nostálgico, também não deixavam de estarem felizes pela gestação da princesa Katherine que acabara de completar oito meses e pela chegada de seus pais, Ronald e Liza junto com seu irmão Ethan. Estava perto do novo membro da família vir ao mundo, o príncipe Elliot andava frenético e ainda mais cuidadoso em relação a sua esposa. Mimando-a de todos os jeitos. Não dava para negar, Christian sentia um pouco de inveja do irmão. Queria poder fazer o mesmo por Anastásia. Vê-la gestante, com o fruto de seu amor no ventre, crescendo forte e saudável, cheio de amor e cuidados pela família. Ele queria poder acariciar sua barriga, beijá-la todas às vezes, e dizer o quanto ama seu filho. Por mais que tivesse compreendido as inseguranças de Anastásia, não deixava de sentir certo desconforto por ela ainda não ter gerado um filho. Mas prometeu a si mesmo e a ela que não a cobraria por isso. Tudo têm seu tempo.

Depois de Christian ter revelado o que acontecia no reino, Anastásia buscava compreender o que levava uma pessoa a tirar a vida de outra. Mas não existia nada que justificasse tal ato. Ter sangue nas mãos maculava qualquer ser. Anastásia queria resposta, devia isso ao seu amigo, Aron. Pensar nele, depois de saber isso, tornou-se mais doloroso. Por isso ela revivia algumas vezes o sonho que tivera com ele, não contou a Christian, pois não viu necessidade de contar, pelo menos não agora. O que Anastásia não sabia era que Christian também pensava o mesmo com relação ao sonho que teve com Aron quando esteve entre a vida e a morte.

Anastásia refletiu sobre o fato de estarem sob ameaças diversas vezes e chegou a conclusão de que queria aprender algumas técnicas de luta para estar preparada, mas se irritou com a negação de Christian quando lhe fez o pedido. Ele não via necessidade em ensiná-la.

— Você sempre terá a mim para te defender. Vou sempre te proteger.

Ela sabia disso e mesmo assim insistia na sua decisão. Até porque em algum momento ele pode não estar lá para defendê-la, ele faria de tudo para estar, mas nunca se sabe as curvas que o destino pode fazer.

Havia algo a mais em Anastásia que ela não conseguia entender. Algo que estava relacionado a ela mesma de forma desconhecida, mudava completamente suas ações. Seu humor oscilava e tudo nela ficava confuso e sem sentido. Até mesmo seus pais perceberam que ela estava diferente quando os visitou. Sua mãe, Carla, desconfiava de algo, porém preferiu guardar suas suspeitas para si. A visita tinha sido breve e quando Anastásia voltava para o palácio na carruagem, observando a paisagem ao redor, avistou alguém familiar em meio as pessoas da cidade, mas o cansaço a deixou desorientada por alguns segundos que pensou ter imaginado coisas.

Nesse mesmo dia, o príncipe Ethan havia pedido a mão de Mia em casamento durante o jantar. Foi um momento lindo! A princesa Mia não conseguia parar de sorrir e chorar ao mesmo tempo, completamente emocionada e surpresa com a atitude de seu amado. Os pais de Katherine e Ethan junto com o rei e a rainha Grey, deram suas bênçãos ao casal. Foi uma noite muito agradável. Mia viu seu sonho se realizar, seu grande amor sendo correspondido. Só lamentava que seus pais não estivessem ali para compartilhar do momento.

Para cada pessoa do reino, seja da realeza ou não, cada dia teve um sentindo diferente. Mas, especialmente hoje, todos estavam em sintonia por Aron. Foi realizado um cortejo para a família real, todos na cidade pararam para ver, algumas pessoas vestiam preto em memória do falecido príncipe e carregava flores em suas mãos. Rosas brancas. Seguiam para o túmulo do príncipe. Celebrariam o aniversário dele no lugar onde ele estava. Não havia sorrisos no rosto de ninguém, por mais que a data celebrada fosse para comemorar a vida. Mas já não existia vida para Aron; não nesse plano.

Ao chegar ao túmulo dele, o cortejo parou. Os soldados ao redor mantinham a vigilância. A princesa Anastásia avistou seus pais e José em meio à multidão carregando flores, acenou para eles. As pessoas estavam mantidas a distância da família real que preferiu que o momento fosse mais intimo.

Na lápide, estava escrito:

“Amado filho e irmão, para sempre”.

Amado. Para sempre. Assim seria Aron na memória de todas àquelas pessoas. Nada seria capaz de substituí-lo. E nada seria capaz de fazê-lo se apagar da mente delas. Quando cada um teve seu momento, com palavras recheadas de saudades, as lágrimas completavam o tom melancólico do momento. O príncipe Christian segurava forte a mão de Ana. Tenso, de olhos e maxilar cerrado, Ana percebia o esforço que ele fazia para não chorar. Ela foi incapaz de não deixar cair as lágrimas. Ela entendia o quanto era difícil para ele demonstrar fraqueza na frente de outras pessoas, Christian sempre foi muito verdadeiro com suas emoções contanto que apenas ele soubesse sobre elas. Homens são durões, a valentia os fazia pensar que chorar e demonstrar seus sentimentos a outras pessoas não fosse adequado. Mas depois dos acontecimentos anteriores, tudo isso para Christian era bobagem, mesmo assim não demonstraria sua dor em público, na frente de sua família, a dor era a mesma, porém, ele queria sofrê-la sozinho. Foi até o fim. Quando sua vez chegou, em poucas palavras resumiu o que sentia por Aron. Observando a cena, Anastásia sentiu um aperto no peito e um arrepio em sua nuca. Estremeceu. Olhou para trás e tudo que encontrou foi a paisagem do lugar. E um céu cinzento acima deles. Por um momento, foi como se ela tivesse sentido ele perto dela novamente, como se Aron estivesse ali. Mas era impossível. Quando voltou seus olhos para frente, Christian já estava ao seu lado e sua expressão tinha se suavizado um pouco, ele beijou sua mão castamente.

Flores cobriam a lápide do príncipe quando a família retornava para o palácio. O dia se seguia naquela nostalgia. E apesar de toda a tristeza, cada um sentia a mesma sensação que Anastásia sentiu, ele estava ali e permaneceria assim por mais que seguissem em frente.

(...)

A tarde já caiu. Passaram-se uma semana desde o vigésimo aniversário de Aron. O rei Carrick continuava em um estado preocupante. Seus filhos estavam preocupados e não sabiam o que fazer. A verdade é que o rei está tentando adiar o inevitável. Contar aos filhos sobre seu passado. A rainha já o pressionou e o mesmo sentia-se acuado. Sufocado. Não queria contar, mas a ferida já tinha sido aberta e precisava mostrar sua dor para os filhos. Fechou os olhos e pediu para que chamassem eles.

O príncipe Elliot encontrou Christian no caminho para a biblioteca. As expressões dos dois eram de pura ansiedade e medo.

— O que acha que ele quer com a gente?

— Eu não sei. – diz Christian e balança a cabeça. – Mas algo me diz que não é nada bom.

— Todos já perceberam que o pai anda distante. Ele está nos escondendo algo, irmão. Tenho certeza. E nossa mãe com certeza sabe.

— Claro que sabe. Os dois conversam até pelo olhar e por mais que não demonstre, nossa mãe está tensa. Ela nem quis tomar café da manha conosco. Aí tem e nós vamos descobrir agora.

Assim que disse isso, Christian e Elliot pararam em frete as portas duplas de madeira bruta de cor escura da biblioteca. Os dois se entreolharam, sérios. O coração martelando no peito. Sabiam que algo estava muito errado e tinham medo do que estava por vim. No fundo, Christian e seu irmão desconfiavam que tratava-se de algo relacionado as ameaças contra sua família e isso só fazia aumentar a aflição. Não houve mais cartas desde a véspera do vigésimo aniversário de Aron. A última carta anônima enviada fez os pelos da nuca dos irmãos se arrepiarem. Foi hostil. E coberta de ódio como todas as outras.

O príncipe Christian respirou fundo e percebeu que seu irmão fez o mesmo. Abriram as portas e foram recebidos pelo ambiente rústico e belíssimo que era a biblioteca do palácio. Mas o foco deles estavam no homem sentado na cadeira de couro preta por trás da mesa com a expressão tensa e na mulher em pé ao lado dele com a mão em seu ombro. Seus pais. O rei e a rainha.

— Pai, mãe. – diz Christian se aproximando.

— Filhos, sentem-se, por favor. – pediu o rei.

— Então, pai, será que agora o senhor pode nos contar o que está acontecendo? – o príncipe Elliot foi direto ao ponto. – Faz dias que o senhor anda se esquivando de nossos questionamentos e, sinceramente, já estou farto.

— Filho... – começa o rei e Christian o interrompe.

— Pai, sem meias-palavras – diz firme. –, se têm algo a nós contar, por favor, diga agora. Temos esse direito, principalmente se for se tratando da segurança de nossa família. – o rei suspirou, seu coração disparou. A rainha Grace, sentindo o nervosismo de seu esposo se misturar ao seu, deu um aperto firme em seu ombro para encorajá-lo. A tensão poderia ser cortada com uma faca. Ali em sua frente, estavam seus filhos. E o que estava prestes a dizer mudaria completamente a vida deles.

O rei Carrick, sentindo as paredes ao seu redor se moverem como se quisessem esmaga-lo, se levantou. Suas mãos cobriam seu rosto e sentiu os olhos dos que estavam naquele cômodo sobre ele, esperando. Em tom de lamento, começou:

— Há coisas que vocês não sabem e, sinceramente, se não fosse pelos acontecimentos, ficariam sem saber. É difícil ter que me abrir para alguém, expor tudo o que houve comigo há muitos anos atrás. Essa é uma parte da minha vida que poucos conhecem e não é nada agradável. – ele respirou fundo sem conseguir encarar os filhos. –Todas as pessoas têm um lado sombrio, um lado ao qual se envergonhar e preferem escondê-los para que não maculem os que estão ao seu redor. Por vezes quis me desfazer dessa parte de minha vida porque não queria mais ter que carregar o peso que minha consciência se tornou. Não suportava mais me recordar e muitos menos carregar a culpa que eu carrego, por um tempo eu obteve sucesso em escondê-la, jogá-la para longe num lugar escondido da minha mente, mas nunca nos desfazemos completamente de algo assim. Jamais. Fica marcado na pele para sempre. – sua voz saiu rouca, suas emoções se afloraram, lembranças voltaram a atormentá-lo. O rei respirou fundo, fechando seus olhos. Seus filhos o encaravam em total confusão, não entendiam aonde o pai queria chegar com todas aquelas palavras.

— Pai, o que é tudo isso?

— Do que o senhor está falando?

— Christian e Elliot – pediu Grace e eles perceberam as lágrimas delas. Levantando as mãos, ela pediu. –, deixem seu pai continuar, deem um tempo a ele.

Criando coragem, o rei Carrick encarou os filhos e deixou que eles vissem em seus olhos toda a vergonha, medo e culpa que carregava.

— Perdão meus filhos. Eu não tenho sido justo com vocês, principalmente com você Christian. Cobrei de você o que não devia, julguei-o quando eu mesmo tenho meus próprios defeitos para rever. Interferi na tua vida, quis mudar o percurso de teu destino e no final das contas percebi que ele já havia sido mudado pelos meus erros do passado. Eu menti para vocês. Perdoem-me. – ele juntou suas mãos em frente ao rosto tentando controlar a respiração. Sem conseguir entender nada, Christian exigiu:

— Sobre o quê o senhor mentiu? Desde que entramos nesta biblioteca tanto eu quanto meu irmão pedimos para que fosse direto ao assunto e o senhor não foi. Quer, por favor, dizer de uma vez. – Christian está irritado, seu coração batia furiosamente no peito, algo ruim estava por vim. Não tinha o controle da situação nas mãos e isso o deixava louco.

— Filho, se acalme.

— Mãe – interrompeu Elliot, sentindo a mesma onda de irritação que seu irmão. –, Christian está certo. O que diabos aconteceu com o pai para ele falar todas essas coisas? – Elliot dirigiu seus olhos para seu pai, ele parecia arrasado. – Diga logo de uma vez, pai! Sem rodeios! Chega de esconder as coisas! Por que está pedindo perdão?

Pressionado, ele disse em um lamento doloroso:

— Eu tive um filho e o abandonei.

— O QUÊ? – foi um grito uníssono dos irmãos, levantaram-se em um pulo.

— Você não é meu primogênito, Christian.

Notas finais
Bom, vou começar primeiramente pedindo desculpas pela demora. Eu ia postar este capítulo no inicio da semana, pois foi quando o finalizei, porém, estou sem internet e estou agora mesmo na casa da minha amiga. Já estou trabalhando nos próximos capítulos, não sei quando postarei, mas tentarei fazer em breve. Espero que tenham gostado. Mil beijos!