Um Pouco De Sorte, por favor
7 Coisas de irmãos parte 2
- Eu não acredito! Achei que nunca mais veria você.
- Nunca é muito tempo.
Eu continuava sorrindo, e agora ela também o fazia. Serenne continuava linda, porém mais magra, consequência irreversível da Aids.
- Julie!
Uma voz ecoou de dentro da casa, e a sombra logo se revelou. Era Jhonas. Ao contrário de Serenne, ela estava envelhecido, ainda mais magro, tinha olheiras e era visível que mal conseguia se equilibrar nas próprias pernas. Olhei para trás, e meu irmão parecia assustado com a imagem.
- Jhonas, quanto tempo...
Outro abraço, dessa vez fraco. Certamente ele não tinha mais forças.
- Você está linda, mais ainda do que me lembrava.
- Sempre com seus elogios.
- São verdadeiros, saiba disso.
- Com licença mas eu a vi primeiro – Serenne logo se meteu entre nós dois
- Ei, acho que vocês não conhecem. — Virei em meia lua, olhando para Nick – Esse é o meu irmão, Nikolau, mas o chamem de Nick. — Me voltei novamente aos meus amigos – Ele é um pouco revoltado com o nome – disse abaixando o tom da minha voz, mas tendo a certeza de que ele escutaria.
- E você Julieta, já encontrou seu Romeu?
Por mais que meu nome de batismo fosse Julie, meus pais sempre me chamavam de Julieta. Mamãe dizia que na hora do registro, erraram e não colocaram o "ta".
- Não vou discutir com você. Não aqui.
- Hey crianças, vamos comemorar e não brigar – era uma voz cansada mas calma.
Uma senhora de cabelos grisalhos e ralos se aproximou, junto com o restante do grupo.Sinceramente não a reconheci. Quando ela me abraçou e me deu um beijo na testa, foi quando minha memória a resgatou, Vó Marie.
- Você não se lembrava, correto?
- A senhora sempre adivinhando – disse sorrindo.
- Eu sei de tudo – ela disse, com aquele ar de mistério inconfundível.
- Vejo que dessa vez não veio sozinha.
- Trouxe meu irmão.
Venha aqui meu querido, deixe eu lhe dar boas vindas – como ela conseguia falar com tanta ternura? Nick se aproximou devagar. Dei um tapinha em suas costas o incentivando. Marie o abraçou. Um abraço longo e com muita calma.
- Você é um bom garoto, Nick.
- É porque ainda não o viu quando acorda – Brinquei e todos riram.
Jhonas me envolveu por trás. Meu Deus, como ele estava fraco.
- Eu estou com fome, e vocês? — ele olhou para mim, com aqueles olhos fundos — Julie? Tem aquele bolo que você adora.
Ele sabia exatamente o meu ponto fraco.
- Ok, você me pegou.
- Então vamos todos comer um bom pedaço de bolo! — Vó Marie falou com tanto entusiasmo que me deu fome.
Estavam todos indo para dentro, quando senti alguém me puxar.
- Não sei se o problema sou eu, mas ainda não entendi o que estamos fazendo aqui e muito menos o que é aqui.
- Nick. Você tinha razão quando disse que eu nunca fui o exemplo que a mamãe gostaria que eu fosse. E acredite, eu sinto muito por isso. — Nick evitava me olhar e isso me incomodava, mas eu precisava falar – Depois que ela morreu, assim como todos, eu perdi o rumo, segui um caminho que eu achei que estivesse certo, porque me levava para longe de toda aquela confusão, de todos aqueles sentimentos que eu não queria para mim. E você também não os quer. — Ele enfim me olhou – Drogas, bebidas, tudo isso é um refúgio. Só que cada vez, o efeito dura menos. A alegria que causam é cada vez menor e ai você precisa de mais e mais, até não ter mais limites. Todos eles – apontei para a casa a nossa frente – todos passaram por isso e infelizmente não souberam parar. Jhonas era usuário compulsivo, até que descobriu que tinha aids. A mesma coisa aconteceu com Serenne, porém eles estão em estágios diferentes da doença. Outros tanto ali também tem doenças, menos agressivas, mas igualmente causadas por esses vícios. E eu jamais me perdoaria se deixasse você chegar a esse ponto. – senti a dor de imaginar meu irmão naquela situação – Você é única família que me resta, e foi por causa de um exemplo errado que eu dei, que você está entrando nessa.
- Julie, eu não me drogo por sua causa.
- Você pode não notar agora, mas quando eu comecei, você era apenas uma criança, e me via sempre no mesmo estado; feliz, fora de mim, como se não sentisse nada sobre aquele momento. Não sei se foi ou não por minha culpa, mas me sinto responsável por isso. Quero que você veja a verdadeira realidade de tudo isso. Aonde você pode acabar parando.
- E como você não veio parar aqui? Até onde eu sei você ainda bebe e fuma maconha.
- Tem razão, ainda faço tudo isso. Mas porque aprendi a impor um limite. Nunca cheguei a usar drogas mais pesadas que a maconha, então foi relativamente fácil me controlar. Mas você ta partindo para coisas muito piores, é isso que você não entende. Olha, eu estou disposta a largar tudo isso, mas você tem que vim comigo.
- Não é tão simples pra mim quanto é pra você.
- Nada ta sendo simples pra gente. E pra mim não vai ser tão fácil largar como você imagina, mas eu quero fazer, por você.
Permanecemos em silêncio por alguns minutos, Nick abaixou a cabeça, e quando a ergueu novamente seu desespero estava exposto por completo.
- Eu nunca superei perde-la e nunca vou conseguir, mas a droga me ajuda a ser mais forte em relação a isso.
- É claro que ajuda, mas ela também te destrói. Olha, eu não prometo ser a melhor irmã do mundo, mas eu garanto que vou estar ao seu lado pra te ajudar a sair dessa, mas eu preciso que você também esteja disposto.
Ele apenas me abraçou, ele precisava de ajuda, mais do que qualquer outra pessoa. Correspondi ao abraço. Pude sentir suas lágrimas molharem minha blusa. Quis chorar junto, mas eu precisava ser mais forte.
- Eu nunca vou te abandonar, eu prometo.
- Obrigado.
Ele respondeu tão baixo que mal consegui entender. Ficamos assim por mais algum tempo, até seu celular tocar. Ele verificou quem era, me olhou e desligou.
- Estamos juntos nessa, certo?
- Certo!
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