Notas iniciais
Mil perdões pela demora. Trabalho acabando comigo. Mas ai está. Um capítulo mais "família" esse, rs

Cheguei em casa preocupada com Nick, não trocamos nenhuma palavra durante o caminho, porém ele parecia mais calmo. Preferi não arriscar começar uma nova briga, e simplesmente deixei que ele fosse direto para o quarto.Mas tinha algo rodeando minha mente: Como o diretor conhecia minha mãe? Como assim ele devia a ela? Que favor era esse que supostamente ela fez a ele? Porque ele não contou antes? Era um batalhão de perguntas e todas sem resposta. Minha cabeça deu uma pontada. Era sinal de que não demoraria muito para a dor de cabeça chegar.

Dito e feito. Minha cabeça parecia que ia explodir e eu não estava com a menor vontade de deitar. Então recorri ao meu remédio diário: Uma cerveja bem gelada. Quando cheguei na cozinha, meu irmão estava lá. Quando ele passou que eu não vi? Aquela dor de cabeça estava acabando comigo.

- Deixa eu adivinhar, dor de cabeça?

- Como sabe? — Nick disse, tomando um gole da garrafa.

- Imaginei só. — Eu juro que vi um sorriso se formar nos lábios dele. — Queria te levar em um lugar mais tarde. Se você quiser – Terminei de falar, e bebi um pouco.

- Que lugar? — ele perguntou dando mais um gole.

- Fica perto daqui, uns 40 minutos de carro.

- Eu não sei.

- Olha, eu sei que não estou sendo legal, mas eu queria mesmo que você viesse comigo. Sem sermões, sem responsabilidade, sem culpa.

- Tudo bem.

Assim como Nick, terminei minha cerveja e fui para o meu quarto. Tudo que eu queria era me jogar na cama e acordar no próximo ano. Mas eu tinha algo mais importante para fazer.Coloquei todas as coisas que estavam no meu armário no chão. Já era uma bagunça mesmo, aquilo não faria nenhuma diferença. Levei por volta de meia hora para achar o que estava procurando: Uma caixa com todos os pertences de mamãe. Juntei tudo por anos desde que ela se foi. Variavam de fotos até um lenço, que eu juro, ainda tinha o perfume dela. Era um tanto quanto doentio, mas era a minha forma de mante-la viva. Procurei por documentos, cartas, tudo. Não achei nada que me dissesse algo em relação ao que havia ocorrido mais cedo. Eu ia desistir, quando uma foto voou em meu colo. Parecia até que ela queria que eu a achasse. Era uma foto antiga, mas provavelmente eu já havia nascido, a data na parte posterior, indicava o ano de 1996 e pelas minhas contas eu estava com um ano de idade — quando eu provavelmente ainda era fofa. Mas o que me chamou atenção na foto não foi a data e sim quem estava nela: Era minha mãe ao lado de um homem, que eu levei alguns minutos para perceber quem era. O senhor Thompson. Ele ainda tinha cabelo e isso me fez imaginar se de fato era de 1996 ou algumas décadas antes. Então, eles realmente se conheciam, mas isso não queria dizer nada. Procurei mais algo que pudesse ajudar, mas não tinha mais nada, era só aquela foto. Joguei tudo de volta no guarda-roupa, menos a foto; essa guardei no meu bolso.

Fui até o quarto de Nick, ele estava dormindo. O sacudi até que acordasse.

- Eu quero dormir!

- Não quer não.

Sentei ao seu lado e comecei a cutucar sua barriga, ele sentir cocegas era o seu ponto fraco.

- Está bem, já acordei.. para!

- Porque você é tão chato, tava ficando legal. — Ele me olhou como se quisesse que um raio me atingisse. — Não adianta me olhar feio. Temos um lugar para ir.

- Não dá pra ser amanhã? Minha cabeça ainda tá doendo!

- Toma mais uma cerveja que passa.

- Quer que eu fique bêbado?

- Não, quero que você esteja inteiro para onde vou te levar.

- Você tá me assustando, sabia?

- Se isso te faz mais feliz, você vai voltar vivo.

Joguei as cobertas em cima dele e levantei. Quando ele me olhou novamente, eu já estava saindo do quarto. Voltei ao meu, afim de trocar de roupa. Coloquei um short jeans velho, e estava tirando a blusa para troca-la, quando meu irmão resolve bancar o indiscreto.

- Corpão, parabéns.

Ele segurava outra garrafa de cerveja. Joguei a própria blusa em seu rosto.

- Saí daqui Nick.

- Qual o problema? Sou teu irmão, vai ter vergonha de mim, vai?

Coloquei uma camiseta qualquer antes de responder. Era branca, lisa, mais simples impossível.

- Dá um gole.

Aquilo não havia sido um pedido. Peguei a garrafa que ele segurava e virei. Se não fosse ele ter pego-a de volta, eu certamente teria acabado.

- Você ainda não me disse que lugar é esse.

- Você verá com seus próprios olhos.

- Porque tanto mistério?

- Fica mais legal assim. — disse, tentando mentir para mim mesma.

– Vamos?

- Tenho outra escolha?

- Não.

Peguei a chave do meu carro da mesa de cabeceira e entreguei ao meu irmão.

- Você dirige.

- Mas eu nem sei onde é.

- Eu te falo como chegar.

Ele brincou um pouco com a chave até resolver me seguir para a garagem. O carro estava no mesmo lugar de sempre, Nick teve sorte dele não ter sido apreendido com a palhaçada de antes.

- Porque ta confiando em mim? Você nunca me deixou dirigir.

- E mesmo assim você dirigiu. Escuta Nick, você é meu irmão, se eu não conseguir confiar em você, então acho que não vou conseguir confiar em mais ninguém.

- Acabou?

- O que?

- O papo sentimental.

- Idiota.

- Entra logo nesse carro Julie.


Expliquei todo caminho ao Nick. Não era difícil, a maior parte do trajeto era uma reta. E a cada trecho eu me questionava como ele aprendeu a dirigir tão bem. Recostei sobre a janela fechada e observei a mudança de paisagem: O tom de cinza foi substituído pelo verde das árvores que estavam em todo lugar. Os prédios deram lugar a um vasto campo cercado pelas mais diversas plantas e bichos. O céu em toda sua imensidão do pôr do sol e o cheiro de terra molhada. Eu era extremamente urbana, mas amava estar junto a natureza. Toda aquela paz junto ao balanço natural do carro, e eu acabei adormecendo, só despertando quando o carro parou.

- Acordou cinderela?

- Onde estamos?

- Isso é o que eu queria saber. Você explicou todo caminho, mas acho que esqueceu dessas duas estradas. — Ele disse apontando para os dois desvios logo a frente.

- Temos que descer.

- É aqui? No meio do nada?

- Mais ou menos. Temos que andar um pouco ainda.

- Eu espero que seja pouco mesmo. Saí do veículo apontando para o desvio da esquerda.

- É por ali.

Para meu irmão, tudo aquilo era estranho. Ele nunca fora em algum lugar que não fosse feito de cimento. Mas para mim, aquilo trazia saudades. Quando mais nova, fugia sempre para cá, me escondia no meio do mato e desfrutava do melhor que a natureza podia oferecer.

Estava ficando cada vez mais escuro, mas por sorte, pude avistar a pequena casa.

- Estamos chegando.

- Eu espero mesmo que valha a pena!

Apenas ri, querendo tanto quanto meu irmão que chegássemos logo. Havia pessoas que gostaria de reencontrar.

Parei afim de ver melhor e reconhecer o local. Estava tudo como eu lembrava: A madeira velha, folhas secas ao redor. A mesma janela quebrada. Até mesmo o cheiro de bolo estava lá. Quando olhei para o lado, meus lábios se abriram em um largo sorriso. Oito ou nove pessoas estavam sentadas no chão, uma delas com um violão e cantando e todas as outras acompanhavam. Era Serenne. Seus cabelos estavam diferentes desde da última vez que a vi. Ela que sempre teve cabelos compridos, agora estavam curtos, na altura dos ombros, e da cor natural, finalmente tinha parado com o vício em pinta-los. Sua voz permanecera suave como antes, talvez mais potente. Me aproximei mais alguns passos, ficando mais visível a todos mas me recusei a chamar a atenção, não queria atrapalhar o momento. Nick ficou logo atrás de mim, também em silêncio. Creio que estava admirando o momento assim como eu. Mas nosso anonimato durou pouco tempo. Logo um garoto — que eu não conhecia — apontou para nós e cochichou algo com a moça ao lado. A garota na ponta logo me reconheceu, se levantou tão rápido que mal consegui ver quando ela veio saltitante até mim e me abraçou, forte o suficiente para me sentir sufocada.

Notas finais
Calma gente, a continuação vai ser rápida dessa vez.