Um Plano Irrecusável
16 Segredo
Notas iniciais
Marinette respirava de forma ofegante, como se tivesse acabado de correr uma maratona. Aquilo não podia ser verdade.
Ela tentou se acalmar, pedindo internamente que seu coração parasse de bater tão acelerado. Precisava ficar calma para pensar em algo sensato. Tinha acabado de descobrir quem era Hawk Moth e agora tinha provas melhores do que um livro. "Provas! Preciso de provas!", pensava, pegando o celular na bolsa. Com as mãos trêmulas, ela começou a filmar, mas no vídeo só aparecia Gabriel, que tocava o quadro da esposa enquanto falava com Nooroo.
— Os kwamis não aparecem em vídeos, como esqueci disso? — Falou para si, um pouco mais alto do que imaginava. Na mesma hora, Gabriel Agreste olhou na direção em que ela estava, mas Marinette conseguiu se esconder a tempo.
— Nathalie? — O homem falou e começou a caminhar na direção da porta do escritório. Ao ouvir os passos, a azulada correu para o andar de cima.
Sentindo seus batimentos cardíacos mais fortes do que nunca, ela entrou no quarto de Adrien.
— Achou o livro? — Disse ele, já sentado em uma das cadeiras e com todos os materiais para o estudo sobre a mesa.
Marinette nem escutou o que o garoto tinha dito. Sem responder, ela sentou-se ao lado dele, mas ainda estava em choque. Parecia que o mundo à sua volta não era real. Precisava reagir, precisava fazer alguma coisa. Aquela informação mudaria tudo. Não era como da outra vez, que havia desconfiado de Gabriel por conta do livro dos guardiões. Não era mais uma possibilidade. Ela tinha visto o kwami do Hawk Moth, tinha escutado Gabriel dizer que ainda não a akumatizou, tinha visto aquele sorriso maligno dele, que não saía de sua cabeça de forma alguma. Não tinha mais dúvidas. O pai de Adrien era Hawk Moth.
— Aconteceu alguma coisa, Marinette? — O modelo perguntou, tocando a mão da azulada que estava sobre o livro fechado.
"É, eu descobri que seu pai é um maluco que joga borboletas nas pessoas para elas virarem vilãs que eu preciso lutar todos os dias. Aliás, eu sou a Ladybug, tá?", ela pensava, sentindo um frio percorrer seu corpo. Não ia conseguir falar para Adrien o que tinha visto. Não agora. Eles estavam se dando tão bem ultimamente, por que ela tinha que descobrir a identidade de Hawk Moth logo agora? Ou melhor, por que ele tinha que ser Gabriel Agreste? Marinette suspirou. Não queria estragar a felicidade do loiro. Precisava pensar sobre o que faria com calma.
— Não, eu só estou distraída. — Disse, e abriu o livro em uma página qualquer. Mas sua mente não estava na história da capital francesa.
O silêncio tomou conta do quarto enquanto os dois, ou melhor, Adrien lia o livro.
Marinette passava o olhar da página para o celular em seu colo. O que faria com aquele vídeo? Ele não provava nada, afinal. Nooroo não aparecia nele e não dava para provar para ninguém que Gabriel era Hawk Moth.
Adrien notou que a garota não prestava atenção ao livro de história.
— Tem certeza que está tudo bem? — Perguntou novamente. Ela parecia tão preocupada.
— Preciso ir embora. — Declarou, levantando-se da cadeira. Não ia conseguir mentir para o garoto, mas também não conseguiria contar a verdade.
— Mas já? — Adrien disse, desejando que a azulada permanecesse ali. Ela mal havia chegado.
— É que… eu lembrei que meu pai tinha me pedido pra ajudar na padaria. Desculpa, não vai dar para estudar hoje. — Falou, mais rápido do que gostaria, e já correndo até a porta do quarto.
— A-ah, tudo bem então. Amanhã podemos estudar na biblioteca. — Ele disse, mas quando levantou o olhar, percebeu que estava falando sozinho.
***
— Ainda não acredito que ele é o Hawk Moth.— Marinette declarou, jogada na cama.
— Nem eu, mas aquele era o Nooroo, disso eu tenho certeza. — Tikki respondeu, aproximando-se da menina. — Vai ser tão difícil para o Adrien…
— Nem consigo imaginar como… — Tikki ficou em silêncio, apenas olhando para sua portadora. — Por que eu tive que saber logo agora? Eu e o Adrien estávamos tão bem… ele está tão feliz… — Ela suspirou. — Eu devia ter me transformado naquela hora. Devia ter resolvido tudo…
— Tudo bem, Marinette. Você estava em choque, assim como eu. Uma batalha de cabeça quente não seria uma boa ideia, ainda mais sozinha.
— O que eu faço, Tikki? Não dá pra simplesmente fingir que nada aconteceu, mas também não dá pra ir atrás dele e prendê-lo sem nenhuma prova. Ninguém acreditaria em mim. Preciso de provas. Aquele vídeo não prova muita coisa.
— É, não vão acreditar quando você disser que o Gabriel está falando com um ser mágico que dá poderes e que não aparece nas câmeras.
— Mais fácil acharem que ele não bate muito bem da cabeça e que está falando sozinho. — As duas riram levemente e Marinette sentou na cama — Queria que o Mestre Fu estivesse aqui, ele saberia o melhor a se fazer…
— Eu também queria que ele estivesse com a gente… sinto saudades dele. — As duas ficaram em silêncio durante alguns segundos.
— O que eu faço agora? Quando eu acho que está tudo bem, uma bomba explode bem na minha frente. — Marinette colocou as mãos sobre o rosto e Tikki se aproximou para tirá-las e abraçar sua bochecha.
— Você é a Ladybug mais inteligente que já conheci, você vai dar um jeito.
— Mas eu não vou conseguir falar para o Adrien, pelo menos não por enquanto. — A kwami desfez o abraço e encarou sua portadora.
— Tudo bem, espere um tempo para falar com ele. Enquanto isso, podemos pensar em um jeito para capturar o Hawk Moth.
— Já sei, vou falar com o Chat Noir!
— E lá se vai o tempo… — Tikki sussurrou.
— O quê?
— E-eu disse que é uma ótima ideia.
— Podemos reunir a equipe, chamar mais super-heróis…
— Isso, é assim que fala!
— Só não sei se ele vai reagir muito bem… Da última vez, ele ficou tão esquisito.
— Talvez ele admire o Gabriel… — Tikki falou, apenas para não ficar em silêncio.
— Pode ser que seja alguém importante para ele, um amigo, um conhecido, ou… — "Um pai", a kwami pensava.
— É, pode ser… — Tikki falou, tentando desviar daquele assunto, e Marinette rodou o vídeo que tinha gravado da conversa entre Gabriel e Nooroo.
— Não acredito que ele usaria o meu… o meu… o que eu tenho com o Adrien para me akumatizar. — Disse, um pouco desconfortável. Era estranho não definir o que ela e Adrien tinham, mas era tudo muito recente.
— Talvez ele tenha sido o responsável pelos sentimentos negativos de muitos akumatizados.
— Sim… — Ela falou e a kwami percebeu uma ruga de preocupação em sua testa. — O Gabriel é inteligente. Ele se akumatizou apenas para não desconfiarmos que ele era o Hawk Moth…
— E… — Tikki falou, para que Marinette continuasse.
— E eu estou com medo de não ganhar essa batalha. Quer dizer, ele é o pai do Adrien! O que vamos fazer com ele depois? Prendê-lo? E o Adrien? Caramba, isso é mais complicado do que pensei. — A kwami se aproximou e abraçou a bochecha da menina. — O Adrien precisa saber disso, Tikki. É o certo a ser fazer. Vai ser difícil, mas é preciso. Não posso deixá-lo sem saber de nada. Quanto mais tempo ele ficar sem saber vai ser pior.
***
Depois que as aulas terminaram no dia seguinte, mais uma pessoa foi akumatizada. E agora Marinette sabia quem estava por trás disso. Quando Chat Noir chegou, ela teve vontade de contar. Não aguentava mais guardar aquilo para si. Desde a tarde anterior, pensava sobre o que deveria fazer para pegar Gabriel de surpresa, mas não chegou a nenhuma conclusão. Porém sabia que devia falar com seu parceiro. Ele poderia ajudá-la a pensar em algum plano.
Mas a batalha terminou sem que ela dissesse uma palavra sobre sua descoberta. Não sabia por que era tão difícil. Da última vez que desconfiou que Gabriel fosse Hawk Moth, não se sentiu assim. Talvez fosse porque agora estava mais próxima de Adrien.
Como um estalo, a conversa que teve com Tikki na tarde anterior lhe veio à mente. "Eu preciso contar ao Adrien!", dizia para si, tentando se convencer de que aquilo era o certo a ser fazer. Ainda com esse pensamento, ela se transformou de volta e foi até a mansão Agreste.
Marinette encarava a enorme construção à sua frente, ainda um pouco indecisa. Será que Adrien acreditaria nela? Será que deveria ir como Ladybug? Será que estava fazendo a coisa certa?
Tocou a campainha por impulso, torcendo para que não fosse atendida e desistisse daquilo. Mas logo uma voz conhecida veio ao interfone.
— Marinette! Que bom que você veio! Ia te ligar agora mesmo! — Adrien falou e logo foi abrir a porta.
Ao encarar o loiro à sua frente com um belo sorriso nos lábios, ela sentiu um aperto no peito. Ele não estaria mais tão feliz ao final daquele dia. Não com aquela revelação.
O loiro logo a conduziu para dentro da casa.
— Não estranhou que fui eu quem te atendeu, não? — Disse ele, já na sala de estar.
— É…
— Meu pai acabou de sair com a Nathalie para uma reunião. Eu até fugiria, mas o Gorila está ali na porta observando tudo, então ia te chamar para vir aqui. Parece até que você leu meus pensamentos.
— É… — Ela falou de novo, nem prestando atenção ao que ele havia dito, perdida em seus pensamentos.
— Vamos lá pra cima, encontrei um videogame que eu tenho certeza que vou conseguir te vencer. — Ela não conseguiu evitar um sorriso.
Não demorou muito para que estivessem rindo por conta do jogo. A azulada tinha até esquecido que não tinha ido até ali para jogar videogame com Adrien.
— Falei que ia te vencer! — Disse ele, comemorando com uma dança que fez Marinette rir.
— Claro que você ia ganhar trapaceando daquele jeito! Acha que eu não vi? — Ela falou, sentando-se em um dos braços do sofá. Adrien parou de dançar na mesma hora.
— Trapaceando? — O loiro caminhou até ficar de pé na frente da menina.
— É, tra-pa-ce-an-do. — A azulada cantou, tocando a ponta do nariz dele a cada sílaba.
— Essa é uma acusação muito séria, sabia? — Ele disse, aproximando seu rosto do dela.
— Você nem desmente, que feio… — Antes que terminasse de falar, o loiro selou seus lábios com um beijo, de modo que Marinette, com um susto, caísse com as costas no sofá, o que gerou gargalhadas nos dois. Mas logo a menina se vingou, puxando Adrien para cair sobre ela e fazendo com que rissem ainda mais.
— Você não cansa de me conquistar não? — O garoto disse, a beijando novamente.
Marinette sentia seu coração explodir de felicidade dentro do peito. Amava estar com ele, amava seus beijos. Às vezes achava que aquilo nem era real.
Ao separarem-se, ofegantes, ficaram apenas perdidos em seus olhares durante alguns segundos. Ela iria se levantar, até que Adrien a surpreendeu, começando a depositar beijos em seu pescoço. A garota colocou as mãos sobre os fios loiros, bagunçando-os, o que fez com que o modelo a encarasse.
— Eu amo você. — Ele sussurrou, como se fosse um segredo. Era a primeira vez que ela ouvia isso dele e isso a fez sentir que seu coração sairia do peito.
— Eu também amo você. — Disse o que tinha guardado por tanto tempo, também sussurrando, e ele a beijou novamente, mas dessa vez de forma mais intensa.
Porém, antes que se separassem, ela sentiu as mãos do loiro debaixo de sua camisa e tomou um susto. Adrien a encarou, com uma expressão assustada, talvez até arrependida, e tirou rapidamente a mão que estava na cintura dela.
— Desculpa, eu não… — Começou a falar, mas Marinette colocou o indicador sobre os lábios dele. E o surpreendeu mais quando pegou sua mão e colocou onde estava antes.
Ela sentia o carinho do loiro em suas costelas enquanto se beijavam. Há alguns meses, nunca imaginaria que estaria assim com Adrien.
Da mesma forma, ele também nunca teria imaginado que estaria tão próximo de Marinette. A cada dia que passavam juntos, tinha mais certeza de que gostava dela muito mais do que imaginava.
Eles ainda se beijavam quando uma certa memória invadiu a mente da menina. "Gabriel Agreste. Hawk Moth.", pensou, sentindo aquela felicidade que explodia no seu interior a abandonar aos poucos. Tinha ido até lá para contar sobre o que tinha descoberto. Precisava dizer a Adrien o quanto antes. Ele não merecia aquilo. Assim que se separaram, ela levantou-se do sofá, sem dizer nada e caminhou até a saída do quarto.
"Ele precisa saber…", pensava. Fechou a porta, recebendo um olhar de incompreensão do loiro.
— Tem alguém em casa? — Disse, pois não lembrava do que Adrien tinha dito mais cedo. O garoto demorou alguns segundos para responder.
— Não, meu pai e a Nathalie foram para uma reunião, por quê? — Dessa vez, ela que ficou em silêncio.
— Por nada não. — Falou, olhando para a porta e o garoto imediatamente arregalou os olhos, não acreditando no que pensava.
Se estivesse com a máscara, certamente falaria alguma coisa, mas se conteve, lutando contra aquele nervosismo que crescia dentro de si. Ao encarar a menina e pensar no que poderia acontecer dali a alguns segundos, ele sentiu as bochechas queimarem.
Já a azulada hesitava. Por que era tão difícil falar pra ele sobre o pai?
— Eu… vou ali embaixo rapidinho. — Disse ela, por impulso, sentindo que não conseguiria revelar a verdade naquele momento.
— Quer que eu vá com você? — O loiro se aproximou, ainda enrubecido com os próprios pensamentos.
— Não precisa, só vou pegar água.
— Eu pego, sem problemas. — Ele tentou sair do quarto.
— Não, eu vou, pode deixar. — A garota falou e saiu do local, descendo as escadas rapidamente. E deixou o menino, um pouco nervoso, se jogar na cama. O que tinha acontecido? Ou melhor, quase acontecido?
Marinette jogou-se no sofá da sala. Tinha ido até lá apenas para contar a verdade para Adrien e não conseguiu.
— O que houve, Marinette? Você não ia falar com ele? — Disse a kwami.
— Eu ia, mas… me distraí. — "E que distração!", completou mentalmente ao recordar os beijos com o loiro. De repente, uma ideia surgiu e ela levantou de súbito — Como não pensei nisso antes? — Disse, procurando o vídeo que havia feito na tarde anterior.
— No quê? — A kwami perguntou enquanto a azulada corria para o escritório de Gabriel ainda com o celular na mão.
Até que chegou o momento do vídeo que ela queria. A parte em que Gabriel tocava no quadro de Emilie.
— É uma senha! Talvez seja para o esconderijo dele! Ele ia abrir quando ouviu a minha voz. — Ela disse, copiando os toques que Gabriel fazia no vídeo.
Para a surpresa da azulada e da kwami, um círculo abriu-se no chão, puxando-as para o subsolo. Ela estava tão atônita que nem notou quando o elevador passou pelo andar em que o corpo de Emilie Agreste estava adormecido em uma caixa de vidro.
Assim que chegou ao famigerado covil de Hawk Moth, Marinette pegou o celular, começando a filmar o que podia com a pouca bateria que restava.
— Eu não acredito… — A kwami falava ao encarar as inúmeras borboletas brancas no local.
— Nem eu… — A azulada sussurrou, finalizando o vídeo. Aquilo era a prova de que precisava.
As duas voltaram para o escritório em silêncio, muito atônitas para dizer qualquer coisa.
Assim que Marinette chegou à sala de estar, Adrien desceu as escadas.
— Você estava demorando, achei que tinha ido embora… — Ele falou e ela sentiu um aperto no peito. Como contaria aquilo tudo?
— A-ah é que… seu pai… digo, meu pai, me ligou. Ele disse que o Hawk Moth foi à padaria. Não! Que a padaria foi akumatizada. Não! Que… precisa de ajuda na padaria, é, é isso. — Falou, mais rápido do que esperava, recebendo um olhar confuso de Adrien. Viu que ele iria perguntar alguma coisa, mas, antes que o fizesse, ela depositou um beijo em sua bochecha e saiu correndo da casa. Sabia que não ia aguentar mentir para ele por muito tempo.
Precisava resolver aquela situação e agora tinha provas suficientes para convencer a equipe de super-heróis que estava certa.
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