Um Plano Irrecusável Parte II
20 Não Importa O Que Aconteça
Notas iniciais
A pessoa que agora estava com o miraculous da borboleta sorriu ao ver Gabriel sendo levado pelas viaturas através do noticiário que passava na televisão de seu quarto.
Nem conseguia acreditar que o plano tinha dado certo. Simplesmente pegou o celular dele quando nenhum dos heróis olhava, achou a função que desligava a energia da casa e apenas aguardou o momento certo para fazer aquilo, quando todos estavam distraídos com a fala de Chat Noir. Infelizmente, o momento coincidiu com a transformação do herói e não conseguiu ver quem ele era. Mas pelo menos tinha conseguido atingir Hawk Moth com o cetro e pegar o miraculous dele sem que ninguém visse, nem mesmo Chat Noir, que tinha visão noturna. Talvez o fato do herói ter se destransformado naquele momento não tenha sido tão ruim assim…
Pegou o celular de Gabriel novamente, apagando todo o registro das câmeras de segurança desde o momento em que tinha entrado na mansão até o momento em que saíra. Depois disso, destruiu o aparelho para que não o rastreassem.
Olhou para o miraculous preso em suas roupas e o escondeu sob elas, sabendo que tudo seria diferente agora.
*
Marinette conferiu o relógio no celular. 00:37h. Havia 129 mensagens não lidas, mas abriu apenas as de seus pais e lhes informou que já estava indo para casa.
Ela guardou o celular no bolso e olhou para o namorado, que encarava as duas mulheres nas câmaras de vidro, uma ao lado da outra.
— Será que fizemos a coisa certa ao esconder isso da polícia? — Ele perguntou, olhando para Emilie e Nathalie. — Quer dizer, se eles descobrirem isso… — Marinette tocou seu ombro e lançou-lhe um olhar que o acalmou. Permaneceram em silêncio durante alguns instantes.
— Seu pai disse "os médicos normais não saberão resolver". Isso quer dizer alguma coisa, não acha? — Adrien não pareceu convencido — Se contássemos, provavelmente iriam levar as duas ao hospital e, pelo que eu entendi, é essa câmara que as mantêm vivas, não é? — Ela disse, com um pouco de dificuldade, nem conseguia imaginar o que o garoto sentia ao olhar para Nathalie e Emilie adormecidas em uma caixa de vidro rodeada de borboletas e plantas bizarras.
— E o que vamos fazer? Colocar um anúncio de "procura-se curandeiro para pessoas que usaram um miraculous quebrado"? — O loiro falou e riu sem humor.
Marinette viu que ele tentava conter as lágrimas e sentiu um nó na garganta quando o abraçou. Ela queria dizer que ia ficar tudo bem, que conseguiriam resolver mais aquele problema juntos, mas também estava tomada de incertezas. Alguém tinha fugido com o miraculous da borboleta e, com Gabriel na cadeia e Nathalie "desaparecida", Adrien ficaria na mansão sozinho aquela noite. Mas, na manhã seguinte, os parentes mais próximos dele chegariam e, só em pensar nisso, os dois jovens estremeciam.
*
Gorila observava a casa à sua frente em silêncio, afastando todos os que se aproximavam demais.
Um policial saiu dali de perto após falar poucas palavras para as câmeras do jornal, que transmitia em primeira mão a notícia bombástica da revelação da identidade de Hawk Moth e o sumiço repentino dos heróis da cidade, que nem sequer foram vistos após a batalha.
Gorila permanecia no mesmo lugar, guardando a casa até que todos saíssem de perto. Sentia, mais do que nunca, a necessidade de afastar de Adrien aquelas pessoas sedentas por fotos e entrevistas. Com Emilie e Nathalie desaparecidas e Gabriel na cadeia, ele era o único que sobrara naquela casa para proteger o garoto e cumpriria sua missão sem hesitar.
***
Adrien tocou o vidro das duas caixas uma última vez e começou a caminhar pela ponte até o elevador onde Marinette já se encontrava.
— Ele tinha uma câmera extra… ele sabia que a Nathalie ia ficar assim e permitiu que acontecesse… — O garoto falou, com os punhos cerrados de raiva, mas Marinette viu que ele chorava. — Ainda não acredito que ele disse que fez tudo por nosa família… — Ele continuou, mas chegaram ao escritório antes que a azulada respondesse. Ela o abraçou e os dois se olharam em silêncio por alguns momentos.
— Você tem certeza de que não quer ir para a minha casa? — A azulada perguntou.
— Tenho, eu… acho que preciso de um tempo sozinho aqui. Para tentar absorver tudo o que aconteceu. — Ela assentiu.
Marinette não queria ir embora. Sabia que, naquela noite, Adrien se sentiria mais solitário do que nunca. Mas também sabia que ele realmente precisava de um tempo sozinho para tentar digerir os últimos acontecimentos. E ela também.
— Se precisar de qualquer coisa, pode se transformar e ir lá pra minha casa, tá? Ou então me liga e eu venho na hora. — Ele assentiu e a abraçou novamente.
Logo, Ladybug estava saindo da mansão Agreste, tomando todo cuidado para não ser vista pelos repórteres e curiosos na frente da casa.
***
Adrien encarava o teto escuro do seu quarto, tentando processar tudo o que tinha acontecido.
Flashs foram disparados assim que ele apareceu na janela, mas logo os fotógrafos foram despistados por Gorila e o loiro voltou para a cama.
— Também não consegue dormir? — Perguntou Plagg e ele assentiu. — Foi um dia difícil. Bem difícil… — O kwami falou, um pouco sem jeito, mas logo voou até seu portador e abraçou sua bochecha.
Depois que o cansaço venceu seus inúmeros pensamentos, Adrien finalmente adormeceu e Plagg voou até a casa de Marinette, encontrando Tikki na varanda.
— Mais uma com insônia… — Ele comentou, mas ela permaneceu em silêncio.
— Você acha que tem algum jeito? — Plagg a encarou — De trazê-las de volta? Quer dizer, sem usar o poder absoluto?
— Não faço ideia… Wayzz deve saber alguma coisa.
— Minha dona falou com ele, na verdade, falou com todos os kwamis. Só dá para saber se formos até lá. O problema é chegar lá sem sermos vistos.
— Então há alguma chance?
— Acho que, se tivesse, o Gabriel já teria feito…
— Mas não custa nada tentar, né? — Ela forçou um sorriso e os dois olharam para Marinette, que dormia com o livro dos guardiões nas mãos.
— É melhor deixá-la dormir, ela ficou até agora procurando respostas, está exausta.
— Os dois estão. — Plagg comentou, referindo-se a Adrien.
— E ainda tem a pessoa misteriosa que pegou o miraculous… — Disse Tikki.
— Depois de toda aquela batalha, eles ainda ficaram sem o miraculous da borboleta…
— Pelo menos recuperaram o do pavão… — Ela comentou e seguiu-se um silêncio. — Espero que fique tudo bem, quer dizer, os parentes do seu dono vêm amanhã, não é? — O kwami assentiu.
— Você acha que… — Ele nem terminou de falar. Só de pensar naquela possibilidade, estremeceu. Tikki o abraçou e os dois observaram as luzes da cidade até adormecerem.
***
Adrien acordou sentindo uma enorme dor de cabeça. Levou as mãos ao rosto e olhou o celular. 09:20h. Seus colegas deviam estar no colégio, como ele também estaria se nada daquilo tivesse acontecido.
Antes de levantar, se perguntou diversas vezes se não tinha sido apenas um pesadelo.
Seu pai era Hawk Moth.
Nathalie era Mayura.
Gabriel guardava o corpo de Emilie em uma câmara durante todo aquele tempo.
Ele lutou contra o próprio filho por causa dos miraculous.
Tentou convencê-lo a ficar do seu lado, mesmo sabendo que o poder absoluto exigia um preço.
Deixou que Nathalie usasse o miraculous quebrado, mesmo ciente dos riscos.
Nathalie agora estava em uma caixa de vidro ao lado de Emilie e ninguém fazia ideia de como trazê-las de volta ou se isso sequer era possível.
Alguém tinha entrado na casa e fugiu com o miraculous da borboleta.
As informações atingiram sua mente como um raio e ele sentiu a dor de cabeça aumentar.
Olhou para o lado, mas não viu Plagg. Talvez ele estivesse no andar de baixo comendo alguma coisa.
Levantou-se ao sentir fome e desceu as escadas, ainda não conseguindo acreditar que aquilo tinha mesmo acontecido. Achou que chegaria à sala de estar e encontraria Nathalie recordando seus compromissos do dia, dizendo que Gabriel estava em seu escritório e não gostaria de ser interrompido. Mas não havia ninguém. A mansão Agreste estava mais silenciosa e solitária do que nunca.
Adrien chegou à sala de jantar e surpreendeu-se ao encontrar seu café da manhã na mesa. Nathalie era quem recebia o cozinheiro todas as manhãs e, com aquilo tudo, achou que mais ninguém entraria naquela casa.. "Então quem…"
Antes que pudesse pensar, Gorila surgiu na porta da sala. Mesmo sem dizer uma palavra, o garoto compreendeu o que ele queria falar.
Fora ele quem cuidara da mansão a noite toda, quem expulsara os fotógrafos e quem continuava o protegendo, mesmo sem receber ordens. Adrien correu para abraçá-lo e agradeceu. Pela primeira vez, o viu sorrir.
***
Depois do café da manhã, Gorila voltou à frente da casa para afastar os fotógrafos insistentes e Adrien retornou ao quarto, levando um pedaço de queijo para Plagg e surpreendeu-se ao ver Ladybug na janela.
— Desculpa o atraso, eu devia ter vindo mais cedo. Sua tia e seu primo já estão vindo e a gente ainda não… — Dizia ela.
— Ei, calma. — O loiro falou, tocando seu ombro. — Eu também acabei de acordar, ontem foi bem… cansativo.
— É… — Eles ficaram em silêncio, perdidos em seus pensamentos sobre a noite anterior. Nenhum dos dois sentia que tudo aquilo tinha acontecido de verdade.
Abraçaram-se antes de descer as escadas e ir até o escritório de Gabriel.
Marinette estava sentada no chão, a caixa dos miraculous aberta ao seu lado, lendo tudo o que o livro dos guardiões tinha sobre o miraculous do pavão, mas não havia nada sobre usá-lo quebrado.
Adrien observava, junto com alguns dos kwamis, as duas mulheres nas câmaras, enquanto o restante das criaturas mágicas lia os outros livros com Marinette.
— Não tem nada! — A azulada resmungou, desabando os ombros.
— Calma, vamos continuar procurando. — Tikki falou, mas não havia tanta esperança em sua voz como o habitual.
Adrien também procurava, mas a maior parte dos livros estava codificada. A campainha tocou, anunciando a chegada de sua tia e de seu primo. Notou que Plagg e Marinette lançaram-lhe um olhar aflito. Beijou a testa dela e acariciou o kwami.
— Eu já volto, não desistam. — Falou num sussurro e subiu o elevador.
***
Adrien mal prestava atenção ao que a tia falava, preocupado com Marinette e os kwamis no subsolo. Será que já tinham encontrado alguma coisa?
— Sempre soube que o Gabriel era estranho, mas isso? — Amelie falava. — Isso é demais até pra ele… — Ela olhou para o sobrinho, percebendo seu semblante preocupado. — Ah, sinto muito, querido. — Falou, o abraçando.
O olhar de Adrien encontrou o de Félix, que estava sentado em uma poltrona, enquanto ele e Amelie estavam no sofá. O primo mais velho ainda não tinha dito uma palavra desde que chegara, carregando uma expressão indecifrável.
— Desculpa, eu fiquei aqui tagarelando sobre seu pai, quando você está tão mal por causa disso. Mas fique tranquilo, vai ficar tudo bem… — Amelie continuou a dizer, com um sorriso que o acalmou.
— Obrigado, tia. — Ele também sorriu, embora ainda pensasse nos kwamis e nas duas mulheres nas câmaras.
Com o silêncio que se instalou ali, Félix ligou a TV, que passava o noticiário.
— Estamos aqui em frente à penitenciária em que Gabriel Agreste… — Ele mudou o canal.
— Seu filho, Adrien Agreste, que é menor de idade, permaneceu na mansão esta noite, mas ainda não se sabe… — Trocou o canal novamente.
— Ladybug e Chat Noir ainda não apareceram após a tão aguardada batalha com Hawk Moth, que é ninguém menos que o designer de moda Gabriel Agres… — Félix desligou a TV.
— Desculpa por isso. — Ele falou, após receber um olhar repreensivo da mãe.
— Tudo bem, não foi culpa sua. — Adrien respondeu e desviou o olhar até a entrada do escritório, ansioso para saber o que Marinette tinha encontrado nos livros.
*
— Nada! Não tem nada! — A azulada gritou, fechando o livro que estava em seu colo.
— Tem certeza que olhou em todos? — Mullo questionou e ela ia confirmar, mas achou melhor ler os livros novamente.
Marinette olhou para Emilie e Nathalie, adormecidas dentro daquela caixa de vidro, e suspirou. Há alguns meses, achava que depois de derrotar Hawk Moth, não teria mais preocupações. Mas agora via o quanto estava enganada.
*
Adrien estava distraído enquanto Amelie contava sobre sua cidade, e ela só percebeu isso quando lhe perguntou três vezes a mesma coisa e ele assentiu apenas na última vez.
— Você deve estar bem cansado, né? Pode ir para o quarto, eu e Félix ficamos bem.
— Não, não, eu… estou ótimo. Só… distraído mesmo. — Adrien falou, percebendo que o primo folheava, entediado, uma das revistas que estava sobre a mesa da sala.
O silêncio permaneceu no local até que Amelie o quebrasse, propondo o que o garoto mais temia naquele momento.
***
Adrien saiu do elevador, encontrando Marinette com uma expressão frustada em meio a diversos livros abertos.
— E então? — Ele perguntou, embora já soubesse a resposta pelo semblante dela. A azulada balançou a cabeça, para indicar negação.
— Mas não vamos desistir, não é pessoal? — Ela tentou falar com a voz mais entusiasmada que tinha, mas Adrien sabia que aquele esforço era demais até para a própria Ladybug.
O loiro sentou ao lado dela, também folheando alguns livros junto com os kwamis.
— E a pessoa que estava aqui ontem? — Adrien questionou.
— Depois podemos olhar o registro das câmeras. Acho que temos outras prioridades… — Ela olhou para as duas mulheres nas caixas de vidro. — E você? Como foi com a sua tia e com seu primo? Eles já foram?
— Já… já foram sim. — Ela o encarou, sabia que escondia alguma coisa, e já imaginava o que era. Adrien suspirou e também olhou para ela.
— Ela perguntou, não perguntou? Se você queria morar com eles em Londres… O que você disse?
— Que eu não ia. — Falou, voltando o olhar para o livro. — Ela disse que seria bom me afastar daqui, tentar esquecer um pouco as coisas ruins que aconteceram nessa casa. — O loiro olhou para Emilie e Nathalie por um momento e depois voltou ao livro.
Marinette sentou sobre os calcanhares e voltou-se para ele, tocando sua mão.
— E… — Adrien suspirou — Eu meio que concordo com ela. Cada cômodo vazio que eu olho me lembra dele, me lembra… que isso — Apontou para as duas mulheres adormecidas — aconteceu por causa dele. Eu chego na sala de estar e há um enorme quadro de nós três juntos. Uma família aparentemente perfeita e feliz. E olha só agora! — Olhou para as próprias mãos e a azulada fez o mesmo.
Ela queria abraçá-lo e dizer que tudo ia se resolver, que iam descobrir um jeito de trazer Emilie e Nathalie de volta, mas sabia que estaria mentindo. Leu e releu cada livro daquele. Decodificou-os, fez inúmeras perguntas ao kwamis, até pesquisou na internet sobre heróis antigos, mas o mais perto que havia chegado era um trecho de um dos livros que advertia a não usar um miraculous quebrado, pois as consequências eram graves e explicando como consertá-lo. Só isso! Não explicava que consequências eram aquelas. Não falava que isso já tinha acontecido antes. Não dizia como trazê-las de volta…
Adrien levantou e caminhou até as câmaras. Marinette permaneceu no mesmo lugar, perdida em seus pensamentos. "A Tikki disse que meus poderes de cura não podem resolver esse tipo de estrago, mas será que não há outro miraculous que eu possa usar?", pensava, mas nenhuma das jóias que conhecia tinha aquele poder. Olhou para Fluff e uma ideia lhe veio a mente. "E se eu usasse o miraculous da Bunnix para… Não! Eu posso acabar modificando toda a linha do tempo e causando uma catástrofe!", ela deixou os ombros caírem. Não fazia ideia do que fazer. Levantou, se aproximando de Adrien, mas antes que chegasse, ele a encarou por cima do ombro.
— A verdade… é que eu não tenho muita escolha. Eu ainda sou menor de idade, um ano e meio, mas sou. E… é meio difícil que eu continue morando sozinho nessa casa por muito tempo. Quer dizer, depois do meu pai, a Nathalie era a única pessoa em que ele confiava como responsável pela empresa dele. Aliás, acho bem difícil a marca Gabriel Agreste continuar depois disso tudo. — Ele ficou em silêncio por alguns segundos. — E… com toda essa perseguição da mídia, é bem provável que a tia Amelie não seja única a me aconselhar a morar lá…
Os dois sentiram um frio percorrer seus corpos. Marinette o abraçou, não conseguindo mais conter as lágrimas, assim como ele.
— Não importa o que aconteça… — Ele sussurrou, com a voz falhando, mas não conseguiu terminar de falar.
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