Um Plano Irrecusável
7 Namorando
Notas iniciais
O possível relacionamento entre Marinette e Chat Noir era um dos assuntos mais falados na escola. Sempre perguntavam a ela se sabia quem estava por trás da máscara e como era namorar um super-herói, mas a menina sempre respondia, entre risadas, que eles eram apenas amigos, como havia combinado com Chat Noir.
Já fazia quase uma semana que haviam começado o plano quando, após uma batalha, Marinette encontrou o herói na rua.
— Você ainda não se transformou de volta? — A azulada estranhou, pois ela mesma teve que correr para um beco antes que descobrissem quem era Ladybug.
— Ainda tenho três minutos, ou melhor, dois minutos e meio. — Marinette assentiu, lembrando que realmente havia usado o talismã antes de Chat Noir usar o cataclismo.
— Então é melhor você correr antes de virar abóbora. — A menina riu e começou a caminhar para casa, precisava finalizar os figurinos da banda de seus amigos.
— Não antes te dar uma carona. — Ele segurou a cintura de Marinette e começou a saltar sobre os telhados.
— Pra que isso? Minha casa não está tão longe. — Falou, mas estava agradecida por ter carona até em casa, a batalha tinha sido um pouco cansativa.
— A Nadja Chamarck estava transmitindo ao vivo, o que vai ser bom para acreditarem que estamos juntos. E também, eu não podia deixar minha namorada de mentira ir andando sozinha pra casa quando eu podia dar uma carona. — Ele pousou na varanda da padaria, deixando a azulada no chão.
— Obrigada, gatinho. — O anel do loiro apitou.
— Até mais, princesa.
***
Na tarde seguinte, a azulada resolveu organizar o quarto enquanto um bolo estava no forno.
— Você não acha que já está bom não, Marinette? — Perguntou a kwami.
— Não, ainda falta uns dez minutos para o bolo ficar pronto. — Tikki riu.
— Não isso. Você e o Chat Noir.
— Ah sim...
— Então?
— Ah, eu não sei... Essa coisa de namoro falso foi ideia dele e a gente nunca disse pra ninguém que estamos juntos, então não tem nada de mais. Somos amigos.
— Mas não é o que as pessoas pensam.
— Eu sei, já tem um monte de fanart na internet. — Ela riu sozinha. — Fica tranquila, não aconteceu nada ruim ainda, não é? Tá, teve algumas vilãs tentando me perseguir, mas isso já acontecia antes. E estou gostando de conhecer o Chat melhor. — Marinette sentiu um frio na barriga ao lembrar de quando enfrentou Chat Blanc. "Foi o nosso amor que fez isso com o mundo, my lady", aquelas palavras ecoaram em sua mente e ela sentiu um arrepio. Será que, se continuasse com isso, se apaixonaria por Chat Noir e aquele futuro se tornaria real? "Não, quando apaguei meu nome do presente do Adrien tudo mudou", dizia para si, mas não tinha tanta certeza.
— Mas...
— O quê?
— Eu sei que você está querendo emendar um "mas".
— Por que você tem que me conhecer tão bem? — A azulada começou a dobrar algumas roupas que estavam em cima da cama.
— Mas... — Tikki repetiu.
— Mas eu sei que você está certa. E eu não gosto de mentir para os meus amigos. — A kwami esperou a menina continuar — Também sei que não devia usar o Chat para atingir meu objetivo com o Adrien ou para alimentar a mentira que inventei na escola. — Ela voltou a dobrar as roupas. — E ele não deveria achar que nosso namoro falso poderia fazê-lo ter alguma chance com a Ladybug. — Marinette esperou Tikki dizer alguma coisa, mas ela ficou em silêncio — Eu deveria esclarecer tudo pra ele. Mas como faço isso?
— Pelo menos a Ladybug não tem demonstrado que está com ciúmes dele, não é? Então pode ser que ele desista do plano. — As duas riram.
— E eu poderia sentir ciúmes de mim mesma? — Riu novamente. — Vou tentar resolver isso. É o certo.
— Vocês podem continuar se encontrando como amigos, só que sem parecer que é algo mais para as outras pessoas. — De repente Tikki ficou em silêncio e a azulada notou que Chat estava na porta do quarto.
— Oi, você nem avisou que vinha. Meu quarto está uma bagunça.
— Na verdade, a programação de hoje é diferente. — Marinette guardou as roupas no armário.
— É?
— É. Nada de filmes de romance clichês.
— Vamos fazer o que então?
— É surpresa.
— Ah pronto.
— E vai ser ótimo para acharem que estamos juntos. — Ela pensou na conversa que teve com Tikki, mas resolveu não dizer nada a ele naquele momento.
— É...
— Bom, só que eu vou quebrar uma regra. Vou ter que me transformar. — Desde que começaram o plano, o gato usava a fantasia que tinha ganhado no clipe de Clara Nathingale para cumprir uma das condições estabelecidas por Marinette. E tinha aprendido que era melhor usar a porta da frente e enfrentar o olhar do pai da azulada do que tentar subir a janela do quarto da menina sem seus poderes.
— Tá bom, mas só dessa vez. Ah, e antes eu tenho que tirar o bolo do forno.
O gato a levou para tomar o sorvete de André. Marinette sentiu um frio a percorrer. André era conhecido como o sorveteiro dos apaixonados. As palavras de Chat Blanc voltaram a atormentá-la.
— Eu acho... que isso não é uma boa ideia. — Ela disse enquanto estavam na fila.
— Relaxa, não é como se o sorvete dele tivesse uma mágica que faz os casais ficarem juntos. E, além disso, você e eu gostamos de outras pessoas, não é?
— Ah, aí está o casal mais falado do momento. Então vocês finalmente deixaram de ser "só amigos"? — André falou, rindo.
— Era disso que eu estava falando. — Ela sussurrou para Chat.
— Não, não. Ainda estamos só na amizade. — Disse o gato.
— Gostei que você falou "ainda". — O homem riu e começou a preparar o sorvete dos dois.
Chat Noir e Marinette sentaram em um dos bancos do parque para tomar o sorvete, recebendo olhares admirados das pessoas que passavam. Mas a azulada não parecia muito confortável aos olhos do loiro.
— Quer ir pra casa? — Ele falou e ela assentiu.
— Desculpa, não é que eu não tenha gostado da surpresa. Vai ser bom pras pessoas acharem que estamos juntos, mas... eu não sei.
— Está tudo bem, eu também queria tomar o sorvete dos apaixonados com outra pessoa. Quer dizer... eu gosto de você, mas não desse jeito, né? — Ele riu.
— Não é isso...
— Vamos? Eu te levo até sua casa e podemos assistir a mais um daqueles filmes que você tanto gosta. — Marinette não pôde evitar um sorriso.
***
Quando chegaram até a casa dela, comeram o bolo que ela tinha feito enquanto conversavam na varanda, fazendo a azulada esquecer aquele sentimento ruim desde que lembrou das palavras de Chat Blanc.
— Sério, você tem me ensinar a fazer um desses. — Ele disse enquanto mastigava. — Já tentei uma vez, mas não deu muito certo.
— Não ficou fofinho?
— Eu quase coloquei fogo na minha casa, então... não, não ficou fofinho. — Os dois riram. — Mas, mudando um pouco de assunto, como está aquele seu crush? O plano deu certo pra você, pelo menos? Porque pra mim...
— Na verdade não. Nem tenho falado muito com ele ultimamente.
— Acho que a solução — Ele parou de falar por alguns instantes para mastigar. — É você dizer que estamos namorando mesmo e eu te dar um anel de compromisso, ele vai ficar doido. — A azulada riu.
— Não sei se ele gosta de mim dessa forma não. Na verdade, acho que já tem namorada.
— Ah, tá brincando... — Ele pegou outra fatia de bolo.
— Não, é sério.
— Que tipo de cara ia dispensar alguém como você?
— Na verdade ele não dispensou. Quer dizer, eu nunca disse que gostava dele. Não diretamente. Mandei um cartão no dia dos namorados do ano passado e alguns presentes, sem assinar, é claro.
— Esse ano não mandou?
— Não.
— Por quê?
— Sei lá... — Chat Noir a encarou — Desde que eu o vi com outra garota, tenho me questionado sobre meus sentimentos por ele. Claro que não ia me declarar sabendo que ele gosta dela. Ia perder dois amigos.
— A garota é sua amiga? — Ela assentiu — Que amiga da onça! — Marinette riu novamente.
— Ela só está indo atrás do que quer, como eu devia ter feito.
— Mas ela ficou com ele sabendo que você gostava dele primeiro? Não sei não hein...
— Enfim, depois daquele dia tentei apagá-lo dos meus pensamentos. Não foi fácil, mas agora estou me sentindo melhor. — Ela pegou uma fatia de bolo e suspirou. — Acho que o problema era eu.
— Como assim?
— Não sei, às vezes eu era tão... obcecada por ele. Às vezes eu não o tratava como uma pessoa, sabe? Com defeitos, com erros cometidos... Acho que isso me impediu de conhecê-lo melhor, conhecê-lo por inteiro. Não sei mais se meu amor por ele era tudo o que eu achava.
— É... às vezes a gente acha que a pessoa é uma coisa, mas você a conhece e percebe que ela é bem diferente.
— É...
— Mas então... você conseguiu superá-lo?
— Quem sabe? Mal tenho falado com ele ultimamente, parece até que o estou evitando. Mas de qualquer forma, desde aquele dia tenho pensado nele não mais como um príncipe perfeito, mas como um ser humano, sabe?
— Entendo... Por que a gente tem essa mania de criar uma imagem perfeita das pessoas na nossa cabeça? — Eles ficaram em silêncio durante alguns minutos, apenas observando a noite.
— Então... vamos ver outro filme? — Ele sorriu.
***
Adrien estava na biblioteca quando o alerta akuma soou. A vilã estava perseguindo um aluno do clube de artes. O coração dele disparou. Marinette deveria estar lá. Assim que se transformou, foi direto para a sala de artes, mas não encontrou a azulada ali.
Marinette estava escondida atrás de uma das mesas que a vilã havia jogado e iria se transformar quando Chat Noir chegou ao local. Ela tentou sair pela porta sem que ele ou a akumatizada percebesse, mas não conseguiu.
— Ah, aí está sua namoradinha, Chat Noir. — A vilã apontou o objeto que transformava as pessoas em telas de pintura para Marinette. — Escolha: ou seu miraculous ou ela.
— Mais uma fã sua? Sério? — A azulada falou tranquilamente, sabia que iria sair dessa.
— Isso que dá namorar um super-herói. — Ele falou brincando, fazendo a menina rir. Em um movimento rápido, o loiro usou o bastão para desviar os raios do akumatizado enquanto Marinette fugia. Nem Chat Noir nem a azulada sabiam que Alya transmitia ao vivo a batalha no Ladyblog.
***
Depois de derrotarem a vilã e tudo voltar ao normal, Marinette voltou para a sala de artes para pegar sua mochila.
— Então agora vocês finalmente admitiram que estão juntos? — Alix falou e todos olharam para Marinette.
— Espera, o quê? — Ela disse e Nathaniel apertou o play no vídeo que Chat Noir dizia que estavam namorando. Foi brincadeira dele, mas o que ela deveria dizer? Que não estavam juntos? Para seus amigos, as provas estavam ali e nada do que ela falasse poderia convencê-los. "Pra que eu fui aceitar isso? Devia ter escutado a Tikki", pensou, decidida a falar com Chat Noir o quanto antes. Pelo menos o sinal tocou e a azulada não precisou responder.
***
Marinette estava desenhando quando ouviu a notificação de mensagens. Era o número de Chat Noir.
Desculpa, não sabia que estavam gravando.
Nem eu.
Agora esse vídeo está rodando a internet toda.
A azulada não respondeu, estava pensando em dizer que deviam acabar com aquilo.
Posso ir na sua casa agora?
Pode.
Alguns minutos depois, ela encontrou Chat Noir na varanda e o convidou para entrar. Mas ao contrário do que pensava, o namoro falso deles não foi a razão da visita do herói. Com as conversas e risadas, ela acabou esquecendo de falar o que estava pensando. Era tão natural conversar com ele, era incrível como assuntos banais poderiam se prolongar por horas quando estava com Chat Noir. E ela estava gostando demais disso para conseguir acabar com tudo.
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