Um Pesadelo em Raccoon
5 Fim do dia Letivo
Notas iniciais
Fim Do dia Letivo
Kotarô, não pela ultima vez esse dia, ficou sem reação. Seu cérebro simplesmente não conseguia processar o fato de que seu amigo estava arrancando um pedaço de alguém. Ainda mais à dentadas.
O garoto despertou de seu transe segundos depois de ter visto Paul derrubar Dave e de o supervisor ter passado correndo na sua frente, indo em direção à cena. Pois se a correr junto atrás do funcionário do colégio, em direção ao alvoroço que se formava em volta do garoto caído.
Dave ainda estava no chão, aparentemente desmaiado, quando Kotarô chegou. Logo o garoto procurou Zack, queria saber exatamente o que tinha acontecido. De relance viu o amigo próximo a Dave, ambos estavam envoltos por uma barreira de pessoas. No inicio, o nissei, teve dificuldade de chegar até os companheiros. Mas, por ordem do monitor, as pessoas foram se dispersando, o que possibilitou Kotarô falar com o amigo.
Ele chamou o colega para um canto um pouco mais afastado de onde o supervisor tentava fazer com que os alunos que sobraram saíssem e prestava socorro a Dave. Ele foi para longe da cena, talvez para não atrapalhar o funcionário, e talvez para que ninguém ouvisse a conversa.
- Zack, que merda aconteceu aqui enquanto eu estava fora? — perguntou o menino de cabelo verde.
- Bem... Logo depois que você sai... — O garoto não conseguiu completar a sua frase, pois mais uma pessoa entrou na conversa.
O intruso estava com um dos pés em cima de uma das mesas da cantina, seus longos cabelos castanho-claros estavam jogados para trás, sua camisa exibia o nome de uma conhecida banda Punk e sua calça toda rasgada completava sua aparência de marrento e embora não tivesse músculos avantajados, ninguém conseguia tirar-lhe o titulo de valentão do colégio. Essa era a descrição de Paul.
-... Aquele idiota tentou me derrubar e depois mordeu meu ombro — reclamou Paul, como que continuando o que Zack iria dizer — só podia ter sido um nerd maluco feito ele — completou.
Kotarô estava se mordendo de raiva, não estava gostando nem um pouco de que alguém quase desconhecido estivesse falando mal do amigo. Por fim o garoto olhou para Paul e expressou a maior cara de sarcasmo que podia.
- Nossa! Paul o valentão, Paul o intocável, o imbatível, está falando conosco! — Em seguida fez uma cara seria — Se você não percebeu, Dave devia estar doente, bastante doente. — Fez uma pequena pausa e novamente fez uma cara cínica — Ou será que... Você ficou com medo de um "nerd maluco"?
Por alguns segundos nenhum dos três falou. Paul olhava diretamente nos olhos de Kotarô. Zack, receoso do que poderia acontecer, não sabia para qual dos dois dirigir seu olhar e tinha quase certeza de que o amigo iria apanhar do valentão. Mas, por fim, Paul, simplesmente deu um pequeno sorriso.
- Gostei de você — Disse Paul sinceramente — Não é que nem os outros caras do colégio, que só falam comigo tremendo de medo — Ele tirou o pé de cima da mesa e novamente se dirigiu a Kotarô — De qualquer modo, agora vou à enfermaria, tenho que botar uma atadura nisso aqui — falou apontando para seu ferimento.
Pela primeira vez Kotarô reparou, de perto, na ferida de Paul. Quando a viu de longe, o garoto pensou que fosse bem mais séria. A mordida de Dave não chegou a arrancar um pedaço da carne de Paul, como Kotarô pensou ter visto, mas os dentes foram adentraram bastante no ombro no valentão. "Deve ter sangrado bastante porque abriu alguma veia ou artéria perto da clavicula" pensou Kotarô "bem que dizem que quando uma pessoa está fora de si ela fica mais forte."
- Cara, sinceramente, eu pensei que aquele troglodita ia te bater. — disse Dave, tirando Kotarô de seus pensamentos — O que você disse poderia ter irritado bastante ele. — suspirou — vamos considerar como o milagre do dia.
-Pra falar a verdade, eu também pensei — Disse Kotarô sorrindo — Mas sei lá... Eu nunca tive muito medo dele. Nunca precisei falar com ele. Logo eu não tinha do que ter medo... -Dizia o garoto. Enquanto olhava para os lados, procurando o monitor e Dave.
Não achou o monitor, tampouco achou o amigo. "onde eles estão". Pensou o garoto. Seus olhos percorriam toda a cantina, tentando encontrar quem procurava. Zack, percebendo o que Kotarô estava a procurar, logo lhe interrompeu.
— Procurando Dave? O monitor o levou para a enfermaria, enquanto estávamos conversando com Paul. — Zack arriscou uma pergunta para Kotarô, mesmo sabendo a resposta — Quer ir lá e ver como ele está?
- Eu não — respondeu o garoto — aquela enfermeira me odeia... Não ia nem me deixar entrar.
- Claro que ela não gosta de você... Ano passado ela te encontrou umas dez vezes dormindo na cama da enfermaria — retrucou Zack — Olha, vou fazer o seguinte. Na saída eu passo lá e vejo como o Dave está. Aí eu te falo a situação dele.
- Beleza então — Kotarô parou um segundo ao ouvir o sinal que alertava o termino do intervalo. Tentou lembrar que aula teria agora, mas não lembrou. Afinal, nunca soube o horário da escola. Suspirou e perguntou para o amigo — Qual é a aula de agora, mesmo?
— Hmmm... Agora a aula é de redação.
- Que bom... Pensei que não iria ter nenhuma aula boa hoje — Disse enquanto ia em direção á sala de aula.
...
Pela quinta vez no dia o sinal tocou. Desta vez anunciando fim da aula de Redação e termino do dia letivo.
Ouvindo o alarme do colégio Kotarô começou a guardar suas coisas na mochila. O garoto havia assistido à aula, pois, redação, era uma das poucas matérias que gostava. Terminou de guardar seus livros e caderno, porem, continuou sentado. Estava observando os colegas que estavam saindo. "São todos iguais. Vêm para a escola e fingem entender algo... Fingem estar interessados. Posso estar até sendo presunçoso ou hipócrita... Quer dizer. Estou sendo hipócrita, mas pelo menos quando eu resolvo assistir à aula eu realmente assisto."
Levantou preguiçosamente da cadeira e olhou em volta, não tinha mais ninguém na sala a não ser ele. O nissei pousou seu olhar em algumas cadeiras e, lembrando de que lá sentava, lembrou-se que não eram todas as pessoas que eram "fingidas".
Depois de sua serie de pensamentos, finalmente, Kotarô saiu da sala de aula. Percorreu alguns corredores e percebeu que a escola estava um tento quanto silenciosa, por causa da falta de muitos alunos. Sendo que os que foram à escola retornaram o mais rápido possível para suas respectivas casas, devido aos estranhos eventos que aconteceram pela cidade. Continuou andando pelos desertos corredores da escola, estava procurando por Zack. Que há essa hora já deveria estar saindo da enfermaria.
Ficou errando por um tempo. Até que passou por um caminho em que dois corredores se encontravam, formando uma espécie de encruzilhada. Ele Passou pelo meio do encontro e já estava do outro lado. Até que, ele ouviu um barulho. Um barulho que o fez parar de andar.
O som de alguém andando veio da curva do corredor horizontal. Quem quer que fosse não estava andando normal, parecia arrastar os pés, como se estivesse mancando ou tentando, frustradamente, passar despercebido. Alguma coisa na mente de Kotarô fez com que ele se lembrasse do mendigo, que tinha encontrado mais cedo. Então o medo, que sentiu naquele momento, rapidamente voltou. Os passos foram ao pouco se aproximando, chegando cada vez mais para perto de Kotarô, o garoto tentou correr, tentou sair dali o mais rápido possível. Mas alguma coisa o estava impedindo, ele mal conseguia respirar àquela hora. Tentou olhar para trás... Também não consegui. Todos os seus músculos pareceram terem sido paralisados, como se Kotarô tivesse perdido o movimento deles.
Os passos foram ficando cada vez mais próximos, estavam logo atrás de Kotarô e o garoto nada conseguia fazer alem de escutá-los se aproximar. Quem quer que fosse tinha parado de andar. Pois estava a um passo do nissei e este não conseguiu nem esboçar uma reação no momento tudo o que fazia era sentir um incessante frio na espinha. Nesta hora sentiu um odor. Um hálito. Quem quer que estivesse atrás dele tinha acabado de abrir a boca...
- Oh Kotarô! — gritou Zack no pé do ouvido do amigo. — o que está fazendo ai parado.
O medo que Kotarô sentiu desapareceu instantaneamente quando ele descobriu ser o amigo a pessoa que estava atrás dele. Então tal sentimento foi substituído por vergonha. Vergonha de parecer alguém fraco. O rapaz se virou para trás e procurou disfarçar ao máximo que havia sentido medo, por isso tentou falar com o amigo como se nada tivesse acontecido.
- Caralho. Se não bastasse eu estar te procurando pela escola toda, você ainda aparece e dá um gritão no meu ouvido — falou o garoto como se estivesse nervoso.
- Serio?! Pensei que você tivesse ficado com medo! Não é normal uma pessoa ficar branco como você está agora! — Após dizer isso Zack começou a rir da cara do amigo
- Medo, por que eu iria ficar com medo?! Devo estar branco por que fiquei um tempo te procurando e passou da hora do almoço — Kotarô deu a desculpa na esperança que o amigo engolisse.
- Não era você que dizia que consegui ficar boa parte do dia sem comer?! — revidou para o amigo.
- Olha, pense o que você quiser. No momento só quero saber sobre o Dave. E não sobre se eu estava ou não com medo. — Disse decidido. Convencendo Zack a mudar de assunto.
- Cara, eu passei na enfermaria e ela estava trancada. Então eu voltei para a sala de aula, mas você não estava lá. E agora cá estamos nós.
Kotarô ficou apreensivo. "Como assim a enfermaria está trancada?" Imediatamente seus olhos se voltaram para a esquerda, sinal de que estava se lembrando de algo. "A enfermaria fica aberta até as quatro da tarde... Existe algo terrivelmente errado acontecendo na cidade... Talvez tudo tenha haver com os assassinatos que aconteceram há alguns meses atrás."
Zack pareceu adivinhar o tipo de coisa que o amigo estava pensando por isso tratou logo de dar uma explicação lógica para a situação. Ele sabia que Kotarô ficava elaborando teorias malucas.
- Kota, Dave pode ter sido liberado mais cedo. Após ter recebido "alta" da enfermeira. Ou então ela saiu para pegar o almoço e deixou ele na enfermaria descansando, enquanto não voltava.
- É... Você tem razão. Qualquer coisa quando eu chegar em casa eu ligo para ele. — Disse sorrindo para o amigo, que fora plausível e convincente o suficiente. — Ah! Esqueci, os telefones estão cortados — acrescentou o garoto, dando idéia de que talvez não tivesse se convencido o suficiente.
- Bem, de qualquer jeito, vamos logo para casa... Por que neste clima de "guerra-fria" não é bom ficar muito tempo fora... — Disse Zack enquanto puxava o amigo em direção ao portão do colégio.
Foram percorrendo a extensão do colégio. Mantinham-se calados, pouco falavam entre si. Passaram pela cantina, onde se lembraram do incidente que havia ocorrido no horário do intervalo. Como andaram por grande parte da escola, constataram que realmente seriam os últimos a sair. Demoraram pouco menos de 5 minutos para chegar até o portão principal. Já estavam a poucos passos de sair do colégio, quando, alguém, se interpôs entre eles e a saída.
Os garotos imediatamente perceberam se tratar do porteiro do colégio.
Um senhor latino, negro, com pouco mais de cinqüenta anos. Seu bigode era grande, de modo que cobria todo espaço entre a boca e o nariz e ainda "escorria" pelos lados dos lábios. O cabelo era bem aparado e já estava ficando quase que completamente branco. Seu nome era Geraldo, ele estava há muito tempo colégio e era querido por todos os alunos.
Ele olhou com cara feia para os dois alunos, mas depois abriu um grande sorriso.
- Ora, ora, ora... Quer dizer que os dois iriam embora sem vir falar com este velho aqui?!
- Ah, Sr. Geraldo, você não estava aonde costuma ficar... Que é ali atrás... — Disse Zack sorrindo.
- Bem, bem... Tenho um comunicado do diretor para os alunos. — Disse fazendo mistério.
- Hã?! Comunicado?! Que comunicado?! — indagou Kotarô
- Bom, eu não sei se vocês vão gostar... — fez uma pequena pausa para aumentar o mistério — Mas, o diretor pediu para avisar que: Devido à falta de boa parte do alunado e de quase metade dos professores... As aulas serão suspensas até que a situação se normalize.
Os dois garotos não contiveram a felicidade por saber que ficariam sem aula por tempo indefinido. Mas, Kotarô, prestou atenção nas palavras de Geraldo e resolveu fazer uma pergunta. Para tentar diminuir a inquietação que sentia por saber que algo estava errado.
- Mas, Geraldo, você sabe por que tanta gente não tem compareceu à escola? Será que a causa é aquela doença?
- Meu filho, eu realmente não sei o motivo de todas as faltas. Pouco antes dos telefones pararem de responder, recebemos algumas ligações de mães dizendo que seus filhos estavam doentes. — o porteiro fez uma pausa para respirar — Mas não acredito que nesse fim de semana tantas pessoas tenham ficado enfermos.
- Então por qual motivo você acha que grande parte da galera faltou? — foi a vez de Zack falar.
- Cá entre nós — sussurrou, mesmo sem precisar. — Têm acontecido coisas estranhas nesses últimos dias... Desde sexta feira...
Para Kotarô, não existia outra alternativa. Algo estranho estava acontecendo. E nada o que dissessem iria fazer pensar ao contrario.
Já Zack, era extremamente cético em relação a esse assunto. Para ele tudo que estava acontecendo podia ser explicado. Na mente dele, a nova epidemia era conseqüência do aquecimento global, que alguns cientistas tanto falavam. E o garoto tinha ouvido historias sobre um Hacker que desligou toda a rede telefônica, em pelo menos três estados, por varias horas. Em uma cidade como Raccoon, um incidente parecido, caso fosse isolado, poderia durar dias. Já que não passava de uma cidadezinha interiorana comparada às grandes metrópoles.
- Kotarô, vamos indo. Com o clima que a cidade esta deve ter um monte de ladrão rondando por ai... Se aproveitando da ineficácia da policia... Que só faz bloquear as saídas da cidade — falou Zack, querendo apressar o amigo.
O meio-japonês ponderou sobre o que Zack havia dito e chegou novamente à conclusão que as palavras do amigo faziam sentido, com Raccoon estando do jeito em que se encontrava era provável que um grande numero de delinqüentes, ladrões e meliantes estivessem se aproveitando do grande caos que a cidade estava passando. O porteiro, Geraldo, pareceu também compreender o que Zack havia dito, as ruas poderiam ficar perigosos conforme o dia fosse virando tarde e se os garotos não voltassem logo para casa poderiam ser assaltados ou coisa pior. Então, ele foi até o grande portão de ferro, que servia de entrada para o colégio, e o destrancou.
Zack tem razão — disse Geraldo girando por sobre os calcanhares para falar com os garotos — Com essa desorganização tudo fica mais perigoso... Agente não conseguiria nem mesmo ligar para os RPDs caso precisasse... Afinal, os telefones estão cortados.
- Isso sem falar daquela gangue de motoqueiros que tem agido desde Julho... Esqueci o nome dela...
- Oh Kotarô! Agente ta falando justamente sobre não se demorar! Desse jeito você vai começar outra conversa!
- Ta bom, ta bom... Vamos logo...
- Tchau, meus filhos, cuidado por essas ruas ai!
- Pode deixar Sr. Gera! Pelo menos no caminho que Kotarô faz comigo eu sei que ele vai estar seguro. — Brincou Zack.
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