Um Pesadelo Sem Fim
2 A escolha de uma rota
– Hm... Rin, o que você acha deste lugar aqui? – perguntou Yuka, apontando para um certo local de um grande mapa dentro de um quadro preso na parede. Concordei de leve com a cabeça, sem nem ao menos ver direito. Estávamos ali há meia hora escolhendo locais, e nada de decidirem ainda.
Olhei ao longe algumas crianças brincando de futebol e lembrei-me de mim mesma quando era apenas uma menina. Adorava jogar, e conseguia sempre derrotar todos os garotos da minha rua. Era divertido.
Enquanto eu divagava, os outros três conversavam ao fundo.
– Você não concorda Rin? – perguntou o Yuuta, despertando-me.
– Er... claro – murmurei rapidamente. Os dois começaram a dar risada, já Seitaro estava com as bochechas levemente coradas.
– Você acaba de concordar que você e Seitaro estão namorando – me explicou Yuka, ainda dando uns risinhos.
– Hã? Claro que não! – respondo com as mãos na cintura, indignada. Sentia minhas bochechas corando também.
Seitaro suspirou, cruzando os braços.
– Eu estou tentando explicar para essas criaturas que eu só estou morando na sua casa porque a minha está em reforma...
– E nós já sabemos! Mas é legal encher o saco de vocês – disse Yuuta, dando um sorriso inocente. Mostrei o dedo médio para ele e comecei a me afastar.
– Ei Rin, onde você vai? – perguntou Yuka às minhas costas.
– Comprar uma água – respondi sem me virar. Ela deu alguns passos rápidos e veio para o meu lado.
– Eu vou com você.
Dei de ombros. Os vendedores ambulantes ficavam ali do lado mesmo.
Andamos até o vendedor em silêncio e compramos a água; Yuka aproveitou e me arrastou para outros vendedores, comprando doce atrás de doce. Enquanto segurava três sacolas de doces e analisava já o quarto carrinho, ela aproveitou para conversar comigo.
– Sabe, não ligue para o Yuuta. Ele é um palhaço por nascença, mas sabe que no fundo ele deseja mesmo que você e o Seitaro fiquem juntos. E eu também.
– Ficar junto de um homem que me chama de mulher macaco. Parece algo maravilhoso.
Ela deu uma risadinha.
– Você sabe que ele brinca com você mas te adora, não é? Yuuta também era assim comigo, e ainda é, e olha que já estamos juntos há três anos.
Eu fiquei em silêncio. Yuka e o Yuuta assumiram uma relação dois meses depois de termos saído daquela mansão na montanha. Nenhuns dos dois se lembram direito do que aconteceu, mas eu lembro. E Seitaro também, mas concordamos que era melhor não tocarmos no assunto.
Ela olhou um pouco para o meu rosto contraído e suspirou.
– Desculpe, não deveria estar falando essas coisas para você. Se os dois acham que não vai dar certo juntos, quem sou eu para opinar, não é?
Meu rosto corou, e eu abaixei o rosto, fingindo analisar os doces. É claro que eu já pensei como seria viver junto com o Seitaro, mas era bizarro demais imaginar nós dois em uma relação. Seitaro sempre reage irritado quando fazem essas brincadeiras, confirmando mais ainda o fato de que não combinávamos juntos.
Yuka passou em mais um vendedor e, após ver que não tinha mais nenhum vendendo doce, resolveu voltar. Todo o caminho de volta ela conversava, sempre com algum doce diferente na boca, me fazendo rir.
"Ah, eu adoro a Yuka. O que seria de mim sem ela?"– pensei, sorrindo.
Quando voltamos vimos Seitaro encostado na parede de braços cruzados, assistindo o Yuuta fazendo algumas embaixadinhas com a bola de um dos garotos que estava jogando futebol. O garoto parecia impaciente, querendo a bola de volta.
– Ô tio, devolve a bola!
– Desde quando eu sou seu tio pivete? Ei, Rin, pega aí!
E ele me lançou a bola, que no mesmo instante eu consegui pegar com o meu pé, e então comecei a fazer embaixadinhas também. Joguei por cima da cabeça e peguei-a atrás das costas com o outro pé, repetindo o mesmo movimento para trazê-la de volta para frente. Passava de um pé para o outro com um talento nato que eu tinha desde pirralha. Naqueles segundos que se passavam eu sentia como se voltasse a ser criança, e um sorriso encantado surgiu no meu rosto. Passei para o Yuuta e então nós dois ficamos fazendo embaixadinhas e passando de um para o outro, até que Seitaro desencostou da parede e pegou a bola no ar.
– Toma – disse ele, devolvendo para o garoto que pareceu aliviado, correndo de volta para os amigos. Eu e Yuuta demos um sonoro “Ahhh...”, desapontados.
Yuka deu uns risinhos com a sua voz fina.
– Belo show – disse ela, aplaudindo. Abaixe-me para agradecer, como os atores de teatro fazem no final do espetáculo, fazendo ela dar mais risada ainda.
– Mandou bem Rin – disse o Yuuta, batendo sua mão contra a minha – poderíamos formar uma dupla algum dia.
– Se os dois já acabaram com o espetáculo, então temos alguns assuntos a resolver – nos interrompeu Seitaro, apontando para o mapa na parede. Bufei. Seitaro é legal, mas o seu jeito sério ás vezes irritava.
Fiz um biquinho só por pirraça, e quando ele viu bufou também, mas acabei conseguindo tirar-lhe um sorriso.
E então ele disse que enquanto eu e a Yuka comprávamos doces, ele e o Yuuta tinham achado um lugar razoavelmente bom para nós acamparmos.
– Hã? Acampar? Não era só trilha? – indaguei.
– Sim, mas essa trilha é enorme, então achamos que seria bom se acampássemos.
Yuka concordou com a cabeça e eu dei de ombros. Desde que estivessem com um GPS, para mim estava bom.
Então Seitaro começou a nos mostrar o local que seria e qual a rota que tomaríamos, e enquanto isso eu deixei minha mente divagar novamente. Simplesmente não conseguia prestar atenção.
Após a explicação eu fingi que entendi tudo e concordei com o trajeto junto com a Yuka. Então estava marcado.
– Ei, vocês dois não querem vir dormir na nossa casa hoje? Yuka quer pedir comida japonesa – nos convidou Yuuta, passando seu braço em volta do meu pescoço e o do Seitaro, se apoiando em nós dois.
– Claro, por que não? Passar uma noite com vocês parece divertido! – respondi, sorrindo inocentemente.
– Fale a verdade Rin, você só está interessada na comida japonesa – disse o Seitaro, lendo os meus pensamentos. Todos demos risada, e então nos dirigimos para a casa deles.
...
– Ah, que comida boa! Valeu pelo convite! – exclamei, dando uns tapinhas na minha barriga cheia. Era onze horas da noite e pedimos comida só naquela hora, mas estava deliciosa.
– Hunf, de nada. Mas vai ter que vir me ajudar a arrumar os colchões – disse a Yuka entre bocejos. Ela ficava com sono muito cedo.
– Ahh, não! Estou com a barriga cheia, nem consigo levantar! – choraminguei.
– Eu te ajudo Yuka – disse o Seitaro, se levantando.
– Seitaro indo ajudar no lugar da Rin? Essa é nova! — exclamou Yuuta, surpreso.
Seitaro, dando de ombros, seguiu a Yuka até o quarto. Eu consegui escutar a Yuka gritando ao fundo “escapou dessa vez Rin!”, e eu dei um sorriso sapeca para Yuuta, que começou a rir.
Yuka foi a primeira a se deitar, mas cerca de uma hora depois nós fomos também. Era raro eu ir deitar cedo, geralmente eu ficava acordada até umas duas horas da manhã, mas por algum motivo eu também estava com sono. Deitei-me no colchão estendido no chão e fechei os olhos, adormecendo imediatamente.
...
Eu estava sentindo o meu corpo leve, e o frio me cercava. Abri meus olhos, mas imediatamente tive vontade de fechá-los de novo, apenas por pura reação. Ao perceber que não doía, eu os abri novamente. Minha visão era turva, e tudo que eu enxergava a frente era escuridão. Movi minha mão em frente ao rosto e bolhas se formaram no movimento.
– Não é possível... – murmurei. Comecei a ter dificuldade de respirar por culpa do pânico que se formava em mim.
Água. De novo o sonho na água.
Sabia que não ia adiantar nada tentar ir para superfície, pois isso era apenas um sonho, então esperei pela sombra, parada.
Então, como eu havia previsto, ela apareceu. Mesmo sabendo que a sombra ia surgir, minha respiração falhou por alguns segundos no susto. Tive vontade de fugir, mas novamente me lembrei que não ia adiantar. Mas, mesmo tentando pensar de forma lúcida, o meu corpo tremia violentamente.
– Salve-as... – murmurou a sombra como na última vez.
– C-como se eu já as salvei?
– Terás que voltar... – murmurou a sombra vindo na minha direção. Dessa vez eu não tentei fugir, apesar de todos os meus nervos tentarem o contrário. Quando a sombra me alcançou eu esperava poder reconhecer o seu rosto, mas ela se camuflou com a escuridão em volta. Virei, pensando que ia encontrá-la novamente distante, mas no momento em que me virei eu me deparei cara a cara com ela. Apesar de não ter uma forma fixa, eu conseguia enxergar um sorriso. Ela estendeu a mão para me tocar...
...
Acordei assustada, suando frio. Percebi que era de manhã já, mas todos ainda dormiam em volta. Me encolhi contra uma cômoda do quarto e escondi o rosto entre os joelhos, chorando e soluçando baixinho.
Isso não era um sonho. Estava acontecendo novamente, e não tinha como eu escapar.
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