Um Pedaço de Mim - Hiatus (Sendo reescrita)
8 Capítulo 8 - Volta no Tempo
Notas iniciais
Vanessa divagava em seus pensamentos, sendo que a maioria deles era sobre um passado que já fora bom, feliz e inocente. Por que as coisas tiveram que mudar de modo tão drástico? As coisas eram tão boas, e ela era feliz. Fitou seu braço, e encontrou traços escurecidos, em sequência, marcando sua pele clara e suave. Eram cicatrizes.
"Por favor! Para pai! Por favor!" Ela ria, contorcendo-se abaixo do corpo de seu pai. As cócegas a deixavam bem, era como se os problemas acabassem. A grande divergência sobre a paz de tal brincadeira, era que foi assim que seu pai mudara. Tocando o corpo de sua menininha. Exceto o riso e a paz que se apoderavam dela em tais momentos, a situação era basicamente a mesma de algum tempo depois. As maiores alterações foram o fato de ela chorar, se contorcendo, pedindo para que ele parasse. As lágrimas passaram a descer pelo rosto de Vanessa, mas ela não as notara, tamanhos eram seus sentimentos. Sua dor.
– Anjinha, tudo bem? — Dave perguntou, com um evidente tom de preocupação na voz. O rosto de Vanessa se molhava mais e mais, com lágrimas não notadas pela mesma. Aquele rastro de dor salgada afligia o coração de Dave, que preocupava-se com sua melhor amiga, sua quase irmã.
– Sim, sim... estou só... pensando... — Secou rapidamente seu rosto ao notar a sensação úmida em sua pele. Seu coração doía, e por instantes, pequenos, pensou que sua barriga também doía. Tal cicatriz permaneceria para sempre, como se fosse um lembrete do passado. As feições de quem fizera tal marca estavam gravadas, para sempre em sua mente, como um monstro que a tomava nos braços em suas noites de sono tranquilas, transformando-as em noites de pesadelos horrendos, marcantes. A sensação da lâmina penetrando sua pela, de modo cortante e frio, marcando-a para sempre.
– Ai meu Deus! Vanessa! Sua barriga... está sangrando!
***
– Você escapou por pouco, sabia? Seus pontos se romperam, e houve uma hemorragia, que praticamente não conseguiram conter. Sem contar que você estava, ou está, sei lá, com uma infecção que te levaria a morte. Aparentemente injetaram, na verdade, eu injetei algo em seu soro... bem, esta infecção foi atacada com antibióticos fortíssimos, e logo acho que se rende, se não já o houver feito. Era apenas questão de tempo até você morrer, mas não morreu. E por isso, vou ter que te levar para alguém que me ofereceu uma grana preta por você. Pena que o seu fiel escudeiro não está aqui.
***
Anne começara a despertar. Mas quando ela o ficava, uma enfermeira entrou, e revelou um plano, de levar sua menina para um alguém que já a ferira muito. Anne sabia quem era esse alguém. Maciel.
– Vanessa, não vá... — Anne balbuciava coisas aparentemente sem sentido, infindáveis. Mas a moça a dissera que levaria sua menina, e ela não podia deixar isso acontecer. E talvez, Vanessa nunca voltasse, algo que simplesmente Anne praticamente não aceitava. Seu corpo parava aos poucos os poucos movimentos que ela conseguira em tão breves momentos. — Meu bebê.... por quê?... — Ficava aos poucos novamente inconsciente, e ela sentia isso, como se sente a dor. Algo havia sido posto em seu soro. Algo que não fora reconhecido por sua falha e fraca visão. — Vanes...
***
O vento batia suavemente em meus cabelos, outrora belos, mas que agora jaziam foscos. O ar estava frio, e meu corpo estava dormente. A lua estava bela, cheia, iluminando tudo ao redor. Mas eu não prestara atenção em tal fato. Pois eu sentia o medo, me fazendo companhia durante o tempo em que permaneci acordada, sentindo o ar frio da noite a brincar com meus cabelos. Já eram aproximadamente uma hora e meia de distância do hospital. Eu clamava por ajuda em meus pensamentos, mas nada acontecia. Talvez eu murmurasse alguma coisa ou outra, mas os sons se fundiam com o vento, que assobiava, passando pelas janelas abertas.
– Dave... — Balbuciei mais audivelmente, mas acho que ela havia notado.
– Vejam quem acordou... — E me acertou com algo, me fazendo cair no abismo negro e marcante da inconsciência novamente.
***
– Vanessa? Cadê você? — A voz de Dave soava leve por entre os corredores brancos e estéreis do hospital. — Vanessa? Pare de brincar!
O pânico passava a tomar conta do corpo daquele garoto. Seus medos emaranhavam-se, demarcando território em sua mente.
– Com licença moça, mas você por acaso viu uma garota nesse quarto?
– Sim... ela estava com uma enfermeira, em uma cadeira de rodas. Bela garota... ah, ela parecia desmaiada.
– Vanessa! — Dave simplesmente gritou no silêncio esmagador do hospital, atemorizado.
***
– Você não faz ideia de quanto tempo eu esperei por isso... filha. — Cuspi a última palavra como um xingamento. Aquela garota... tão... provocante e gostosinha. Seus olhos passavam um medo estampado como letreiros em néon. Eu me divertia, vendo aqueles olhos, que me marcavam. — Obrigada por trazê-la Marcie.
– Quero algo... e você sabe o que não é querido? — Ela me beijou, mas eu sentia apenas nojo daquela criatura com quem convivi pelos últimos meses. Enquanto isso, uma pequena, aterrorizada e nua figura observava tudo, com o que imaginei ser nojo, medo ou surpresa. Ela estava tão mais gostosa... do que há algum tempo. Talvez, dessa vez ela aceitasse-me, e se contorcesse menos... talvez até gostasse. Rapidamente, em poucos segundos, me despi, revelando-me. As suas lágrimas que para mim eram tão doces, mas imagino amargas para ela, traçavam o seu rosto. Como eu quis lambê-las, e depois beijá-la... gargalhei alto, e ela cerrou os olhos, sabendo o que aconteceria.
– Vamos ver até onde você aguenta... — Gargalhei novamente.
***
Eu sentia o medo de minha filha em meu corpo. Seu medo estava em cada célula de meu corpo. Eu sabia que era com ele que ela estava. E sabia que todos a procuravam. Apenas minha mente trabalhava, pois meu corpo estava "desligado", e meus olhos não abram-se.
– Emergência no quarto 315 da UTI! A paciente está inconsciente! Doutor, compareça já! Perdemos os sinais nas extremidades corporais! — Onde estava minha garotinha? Minha Vanessa?! A ideia de ele a ter levado, apesar de real, era para mim incabível.
Meu corpo começava a tremer... as luzes se acenderam... mas meus olhos queriam se fechar...
– Fique conosco! Vamos Anne! Seja forte! E a sua filha! Desfibrilador! Carregue! — Apesar da claridade, minha visão se escureceu...
***
Maciel invadia Vanessa, aquela pobre garota, que simplesmente estava imóvel, mas sangrando, com lágrimas em seu rosto. Ela implorava em sua mente para que ele parasse. Ela não conseguia se mover, nem balbuciar. Seu sangue saía em torrentes, e ela sentia dor. Os pontos de sua barriga ameaçavam romper-se... não demoraria, para o primeiro. Ela entrava, e logo saía, trazendo mais sangue.
– Para... — Balbuciou com suas últimas forças antes de ser tomada pela escuridão. E ele parou. Mas a invadiu, dessa vez por outro lugar. E ela chorou, mesmo inconsciente, tamanha era sua dor.
***
– Vanessa! Cadê você?! — Meus olhos ardiam, e eu sentia as lágrimas, prestes a derramarem-se, como a água de uma represa. Ela simplesmente não podia ter sido levada. Principalmente não para ele. Tal pensamento arrancava pedaços meus. Minha irmã! Minha melhor amiga! — Vanessa... minhas pernas ameaçavam fraquejar, mas eu não podia, não até encontrá-la. — Irmã... amiga... — Minha voz fraquejou, e eu quase desmoronei, tamanho era meu cansaço. Meus soluços ecoavam por aqueles corredores, que aparentavam serem seres que apenas despejavam mais e mais tristeza sobre mim; tristeza esta que não parecia ter fim.
– Vanessa! Eu preciso de você!
***
As horas se passaram, mas os chamados insistiam em continuar, os chamados de um garoto despedaçado, que buscava sua irmã. Vanessa... essa garota permanecia a sofrer, nas mãos de tal monstro, carrasco. Ela sangrava, caída sobre uma mesa num galpão sujo e com cheiro de maresia e poluição. Divertindo-se com o sofrimento, Maciel ria daquela garota que se tornara mulher sobre seus olhos. E ele sentiu os primeiros sinais dos seios, que o fizeram querê-la, tanto, que a estuprou. E Maciel via aquela mulher, enquanto estava com outra. Uma que fora comprada, e depois seria jogada em qualquer canto... talvez. Vanessa simplesmente não queria mais viver, não teria mais como viver. Anne, uma mulher numa UTI branca de um hospital, perguntava-se onde estaria seu bebê. E um garoto fora para uma casa, e se jogara sobre uma manta, numa cama, e no chão desse quarto, havia uma mancha de sangue, escarlate. Ele clamava pela dona daquele quarto, em meio aos seus berros de mais pura e completa dor. O sol estava alto, num céu azul, que simplesmente não combinava com o sofrimento que pesava sobre esse garoto, e um garota, perto do mar.
– Vanessa por favor, volte! Você é minha irmã! Minha melhor amiga! Minha família! Vanessa.... — Gritava, em desespero, sobre os lençóis com o cheiro de uma garota única, de tantos modos.
Vanessa. Apenas uma garota condenada por seu pai... condenada e morta... ou quase.
***
"Qual a dificuldade de morrer? Deus, por favor, tenha compaixão de mim! Me deixe ir! Por que ele teve que reaparecer? Me levar?" Apenas uma garota.
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