Um Pedaço do Céu

3 Não misture as cores, meu pequeno anjo


Andamos de mãos dadas até as margens daquele rio, onde aquela árvore sempre nos acolhia. Ela sentou-se na grama, olhando o céu. Eu olhava o rio que refletia as estrelas. As águas corriam, mas não podiam levar consigo aquele reflexo. Assim como o rio, eu queria poder refletir o céu. O céu que ela tanto amava. Isso a faria mais feliz? Poderia pintar um sorriso permanente em seu rosto? Mas a vida não é feita apenas de bons momentos. O tempo faz você aprender isso, mesmo que não queira.

– Azul ou amarelo? – Ela falou quando sentei-me ao seu lado.

– Azul. – Respondi, sem nem parar para pensar.

– Você responde sem nem saber a que me refiro.

– Não preciso saber. Entre o azul e o amarelo, eu fico com o azul.

– Você não gosta do pôr-do-sol?

– Achei que estivéssemos falando de cores...

– Só me responda.

– ... Sim, eu gosto. Só que aquela cor é alaranjado, e depois rosa. Mas no final, sempre acaba no azul, escuro e sombrio.

– Bem... entre a prata e o ouro, eu ficaria com a prata.

– O que diabos você...

– Entre o gelo e o fogo, eu ficaria com o gelo. Movimento e quietude, eu procuraria um intermediário entre os dois. Coragem e medo, seria simplesmente cautelosa. Luz e escuridão, dependeria do meu humor. Mas entre você e o céu, eu fico com você.

Até hoje me pergunto como ela sempre conseguiu fazer isso comigo. Olhei por um certo tempo em seus olhos, e então puxei seu rosto para mim com umas das mãos. As cores nunca estiverem tão misturadas como agora.